Uma das preocupações presentes em todas as edições d’A PAIXÃO era estabelecer fortes vínculos com os espectadores que acompanhavam a encenação. Para isso, um dos recursos utilizados era a escolha dos locais que seriam utilizados como espaços teatrais para as apresentações.
Uma das características do espetáculo era a proposição dada por Wilson Rio Apa em extrair dos locais que serviriam para A PAIXÃO um sentido teatral/dramático que pudesse dar o devido suporte à atuação dos artistas que participavam o espetáculo, bem como também servisse para esse propósito ao público. Os locais que serviam de suporte a esse desempenho eram escolhidos segundo um imaginário baseado nas descrições bíblicas (deserto, principalmente), e também tinha alicerce no sentido de visão do público acompanhante em razão do seu ponto de visão da cena: se o público ficasse na parte de baixo das dunas, o alto delas serviria para algum tipo de cena que tivesse contido nela um sentido de apoteose, por exemplo, onde boa parte da cena em questão se desenvolvia pautada em elementos visuais e gestos dos atores, muito mais do que nas falas pronunciadas por eles. Se o local escolhido para a realização da cena fosse o côncavo entre uma duna e outra, o público era orientado a se posicionar no alto das dunas, para ver e também escutar melhor o que era apresentado, uma vez que o intervalo entre uma duna e outra, quando próximas, geralmente proporciona uma boa propagação das falas e demais sons do espetáculo. No relato colhido, Wilson explicou:
Cobríamos mais o espaço que fosse possível, pra que pudesse ser ouvido, pela repercussão, pela acústica das próprias dunas que ajudavam muito. Então Cristo devia de escolher sempre uma
posição ou no topo (mais gestual), ou então, nos “vales”, que aí repercutia ainda mais.
A PAIXÃO Segundo Todos Os Homens tinha suas raízes na tradição das antigas encenações da Paixão de Cristo medievais, nas quais os espectadores se moviam num espaço aberto em direção aos acontecimentos da história, ao invés de permanecerem parados enquanto o espetáculo se desenvolvia num único lugar que fosse fechado, como um edifício. Para esta proposição de Wilson Rio Apa, toda a Lagoa da Conceição se transformava em palco para o drama cristão: algumas alegorias, tais como o Anjo, o Capeta e a Morte, acompanhavam a Via Crucis em barcos, próximos do percurso feito pelo ator que desempenhavam o Cristo. As interferências incidentes ao trabalho (como a do vento, por exemplo, que causava a distorção das falas naquele ambiente) eram resolvidas de forma simples. A respeito disso a fala de Thor dá indícios de como isso era feito:
Quando havia dificuldades, havia, por exemplo, a repetição de falas. O sermão da montanha, que era base da Paixão, a mensagem daquele ano: então, quando o Cristo falava, normalmente ia como se fosse uma onda de pessoas que se espalhavam assim por centenas de metros repetindo, e assim ia uma onda daquela frase. Então essa era uma maneira de chegar no público, que às vezes eram 5.000 pessoas, ou mais. Na verdade por experiência teatral das figuras teatrais as pessoas sempre se colocavam bem pra falar, se colocavam nos lugares mais altos, procurava a duna mais alta... Também se construíam algumas coisas, como o palácio, praticáveis...
O espetáculo não ficava restrito ao ambiente das dunas. Era iniciado – boa parte das vezes – em frente à Igreja Nossa Senhora da Lagoa da Conceição, ou no teatro de pedras construído na propriedade da Família Rio Apa, e se deslocava, em algumas edições, nas noites de Quinta-feira Santa (quando era encenada a parte intitulada Dos Profetas à Anunciação, que funcionava como um prólogo baseado no Antigo Testamento e também no Apocalipse, das 20 às 23h da Quinta-feira Santa) para as dunas.
THOR – Começava, aqui em Santa Catarina, lá no sítio da gente, lá na Lagoa da Conceição. Mas lá o teatro era sobre o Velho
Testamento, na quinta-feira: os profetas, as anunciações, e até o nascimento de Cristo e a fuga pro Egito. Aí terminava.
WILSON – Como você vê, tinha uma série de cenas clássicas. O espetáculo começava a ser levado depois dessas cenas clássicas. THOR – Na sexta começava com a pregação de Jesus, com a situação de João Batista até se processar o batismo. Aí, depois do batismo tinha a perseguição de Jesus...
WILSON – E sempre na Lagoa tinha (entre uma duna e outra) aqueles lagos. Tínhamos todos os cenários ali...
O público das ruas da Lagoa da Conceição (boa parte dele composto por moradores da região) era surpreendido à noite pelo caminhar dos atores que seguravam archotes, e a multidão que se achegava era conduzida até o local escolhido nas dunas para a cena, como num cortejo de procissão61 próprios dos festejos populares. No depoimento de Fátima Lima62, a imagem que lhe ficou na memória ainda lhe é perturbadora:
Eu acompanhei uma quinta-feira, porque, esse ano – que eu não sei te dizer se era em 84 ou 85... – a Paixão começou numa quinta-feira a noite, eu não sei se ela sempre acontecia assim... E era uma noite de lua cheia, nas dunas da Lagoa. Eu não sei se vocês já foram em noite de lua cheia nas dunas da Lagoa, e nem sei se até hoje ainda é assim, mas eu sei que até 10 anos atrás era, porque eu fui em outra noite de lua cheia nas dunas da Lagoa. É a coisa mais linda do mundo, porque as dunas ficam azul-claro, um blue, e o público foi levado – eu me lembro
direitinho – pra dentro de um daqueles buracos, e era uma cena dos quatro Cavaleiros do Apocalipse e eles vinham a cavalo, de quatro cantos, com tochas, numa noite de lua cheia já iluminada, porque fica claro nas dunas, e eles desciam dali... Eu fico até arrepiada (mostra o arrepio)! Dava medo, vê-los no topo das dunas. Aquilo ali foi, como imagem, absolutamente poderosa. Muito lindo, muito impressionante (grifo nosso)!
61 A imagem pode remeter, guardadas as devidas proporções, à Procissão do Fogaréu realizada
na cidade de Goiás, GO.
62
Fátima Lima, em entrevista concedida a Leon de Paula, em 31 de agosto de 2008. Uma das espectadoras do espetáculo, que gentilmente cedeu seu depoimento para esta pesquisa, em sua
Imagem nº20 – Numa das cenas noturnas, o ator Valmor Beltrame, entre 1978 e 1980. Nota-se o uso dos archotes que serviam para iluminar a cena e demarcar o espaço de representação
(Acervo do próprio ator).
Os archotes, não somente usados para iluminar o caminho e dar foco às cenas na parte noturna da representação, também demarcavam o espaço que seria utilizado pelos artistas e pelos espectadores.
VALMOR - Eram muitas tochas, porque as tochas davam toda a ambientação, todo o ambiente era iluminado por tochas: as tochas demarcavam espaços de atuação. E ajudava a clarear e dar o foco pra cena.
Imagem nº21 – Cena noturna na Quinta-Feira Santa, entre 1978 e 1980, em meio às dunas da Lagoa da Conceição. De barba, em primeiro plano, o ator Antonio Romão (Acervo do próprio ator).
Além desse instrumento, alguns praticáveis eram erguidos nas dunas para darem um indício mais seguro ao público a respeito da ambientação (como os “palácios” de Herodes e o de Pilatos, por exemplo) de onde se passava a história. Boa parte dessa cenografia erguida e integrada ao ambiente natural das dunas teve autoria – e também execução – de José Mano Alvim, artista plástico que durante muitos anos se dedicou ao espetáculo juntamente com a Família Rio Apa.
Imagens no22 e 23 – Exemplos de cenários de madeira e outros materiais, erguidos nas dunas da Lagoa da Conceição para A PAIXÃO entre os anos de 1978 e 1980, utilizados durante a tarde da