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Vi kommer bare til å le av hva vi var opptatt av i 2012

No caso da cidade desta ilha americana situada ao sul do Atlântico, a meio caminho entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires, o seu centro histórico (de 1977 a 1981, e mesmo antes dessa data) ainda não havia sido revisitado por completo pelos artistas de teatro (como o foi de 198131 em diante), com este propósito: o de encontrarem fora do TAC o devido abrigo para as suas obras, embora tenham existido iniciativas (como a de ocupar o antigo Miramar como um teatro de arena) no início da década de 1970, mas que não perduraram tempo suficiente para que esse tipo de idéia fosse implementada. Isso veio a acontecer, a partir de 1977, primeiramente na Lagoa da Conceição – localidade afastada do centro – e que foi percebida, de certa maneira, como espaço possível para atender as necessidades que começavam a se configurar.

Como na pólis grega, as regras ditadas e que regulam as atitudes dos cidadãos não podem ser transgredidas, sob pena de ter a própria pólis a si mesma descaracterizada. Assim pode ser feita uma das distinções possíveis entre a pólis e o campo: as distinções de práticas sociais em distintos espaços.

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Data em que ocorrem os primeiros registros na imprensa das apresentações de Wilson Rio Apa e Isnard Azevedo no prédio da antiga Alfândega, ocupada respectivamente em janeiro e outubro

Muitas vezes, o que é socialmente permitido no campo não se permite no âmbito da pólis. Porém, como meios interdependentes, pólis e campo – ou centro e periferia – têm seus costumes influenciados mutuamente. Se na pólis (centro) certas idéias não podem ser implantadas primeiramente, não raro é no campo (periferia) que elas se configuram e são retrabalhadas para serem, por fim, aceitas como pertencentes ao modus vivendi do centro. Esta dinâmica ocorrida em Florianópolis a partir de 1977 pode ser semelhante àquela que encontramos nos relatos que dizem respeito ao surgimento das festividades dionisíacas na Grécia, que mais tarde seriam aceitas pelas instituições da pólis no calendário em honra a Dionisos, deus oriundo do campo que veio integrar o panteão da cidade. Pode-se dizer, em certa medida, que a idéia trazida por Wilson Rio Apa percorreu um caminho similar, uma vez que o espetáculo A Paixão Segundo Todos Os Homens e outros desse mesmo homem de teatro foram aceitos em localidades da Ilha de Santa Catarina que não faziam parte do centro da cidade, tais como a Lagoa da Conceição e as praias dos Ingleses e Santinho. Porém, esta atividade empreendida por Rio Apa e que perdurou aproximadamente 10 anos por aqui, animou outros artistas e grupos de teatro que, mais tarde, tomaram para si a tarefa de revisitar o alquebrado centro histórico de Florianópolis em prol não só do movimento do qual eles mesmos faziam parte, mas também da cidade que se percebia descortinada para este fim.

Se entendermos que o texto de teatro (no caso, a peça, que apresenta o mito) pode ter observada a qualidade trans-histórica (por mostrar mecanismos inerentes à sociedade que perduram, mesmo que se passe o tempo), podemos também considerar trans-histórico esse movimento entre centro e periferia (tendo o espaço como discussão, logo texto, no que diz respeito às cidades) é, portanto, inerente à dinâmica da própria arte teatral.

Cidades são textos vivos e pulsantes erguidos em direção aos céus que, como livros ao serem abertos para que o mundo seja então visto, descortinam na verdade o ser que o lê (muito mais que a si mesmas).

CAPÍTULO II – A PAIXÃO SEGUNDO TODOS OS HOMENS (ou, “A Guerra dos Iluminados contra as Bestas do Tempo nas Areias do Paraíso”).

O homem é o criador de todos os deuses Porque sofre a ânsia de se tornar deus O homem é o criador de todos os mitos Porque ele se idealiza como mito Assim eu me faço mito e deus Pelo poder da emoção Em criar a realidade no indivíduo [...] (Sermão da Realização, de Wilson Rio Apa)

Imagem no9 – Torso feminino32

Foi no ano de 1976 que Florianópolis – essa atriz em pleno entreato de um espetáculo – recebeu a família Rio Apa. Ela não precisou de muito tempo para perceber que, mais que um mero retoque em sua maquiagem, sua máscara seria mudada por completo, visto que o espetáculo seria outro a partir daquele

momento. Ela, como que desnudada às margens da Lagoa da Conceição, passava a ter seu corpo – feito de fina areia branca – acariciado em um ato de amor pelas mãos, pés, vozes e também pelas lágrimas de homens e mulheres que, nas Semanas Santas de 1977 até 1987, retomavam o mito da Paixão de Cristo, mostrando essa atriz em sua faceta mais solta e rebelde, entregue ao sabor dos ventos de liberdade, na contrariedade do Tempo (este senhor que à época vestia plúmbea e pesada capa e tinha olhos militarescos, que o tornavam mais vetusto do que ele já era naquela ocasião). Diante de tamanha ousadia, o Tempo e as “Bestas”, que o guardavam como cães, nada mais fizeram do que assistir ao espetáculo e esperaram (como é próprio do Tempo), sabendo que muitas vezes atores e atrizes se esquecem do que devem fazer, e o público se esquece do que viu. As “Bestas”, antes ferrenhas censoras que acompanhavam o Tempo, agora são indiferentes (e por isso, não menos perigosas) como o próprio Tempo.

Neste capítulo, falarei sobre a chegada de Wilson Rio Apa e sua família a Florianópolis em 1976, e “transcorreremos” pelos ecos emanados ainda hoje d’A PAIXÃO Segundo Todos Os Homens na Ilha de Santa Catarina de 1977 a 1987: o contexto político pelo qual passou o país nesse período histórico; as Paixões realizadas por Rio Apa em Alexandra, no litoral do Paraná, antes de migrarem ele e sua família para Florianópolis; a dramaturgia, e nela alguns temas trazidos em A PAIXÃO, o “roteiro”, as personagens; a encenação; os diálogos estabelecidos com o espaço: cenografia, figurinos, dinâmicas de movimentação no espaço teatral, os locais das cenas (na medida do possível serão identificados quais eram, e como eram usados para tal fim); o “Teatro do Povo” e seus atores; a produção; os temas sócio-existenciais abordados nas discussões propostas pelo espetáculo (em suma, a proposição ética e estética de Wilson Rio Apa); e por fim, o público e suas impressões, através de suas memórias do fato vivificado no passado distante.

A partir de agora, permitamos que a Lua e o Sol dos céus de março e abril daqueles momentos sejam os silentes companheiros de nossa profana romaria que terá, como principais paisagens, as dunas situadas ao leste da Ilha (entre a

Lagoa da Conceição e a Praia da Joaquina) e ao norte (as que estão situadas entre as praias dos Ingleses e do Santinho).

Imagem no10 – Dunas33

Nelas, os “Iluminados” d’A PAIXÃO tomaram para si o compromisso de travar uma “guerra” contra a brutalidade e a indiferença vividas por homens e mulheres daqueles tempos. Tempos, aliás, tão brutais – ou, tomados pela indiferença – quanto os que os vividos por mulheres e homens de hoje.