Na História, sobretudo, na História da Educação, temos a ideia ou sensação de que o motivo educacional é a grande roda da História, principalmente da primeira república no Brasil, não consideramos bem assim. A Educação é um dente desta roda, é um, dentre os mais variados temas, que nós historiadores escolhemos para trabalhar. A educação não é o centro, e sim, parte deste mecanismo. Se assim não fosse, teríamos indicações de avanços culturalmente substanciais em todo campo educacional, e não é isso que aconteceu e não é isso que acontece, porquanto, nos dias atuais. Temos sim avanços, mas avanços relativamente lentos, que caminham a pequenos passos, de tempo em tempo, ainda se comparados a outras temáticas históricas, gráficos de investimentos, etc. Assim como a temática educação temos, por exemplo, em Uberabinha, temáticas ligadas a economia, a arquitetura, a política, a cultura, as tecnologias, ao social, ao religioso, etc. Cada uma dessas temáticas, são prontamente referenciadas, em Uberabinha, nas leis, na imprensa, no oral, nas atas e seus derivados e nos mais variados documentos, que por fim, são comuns a todas as temáticas. Ocorre que, citações muito mais destacadas ou inflamadas são desconsideradas em favor da temática Educação. Nesta linha, compreendo a História da Educação como uma engrenagem de um processo maior, ela não é o motor. Essa análise nos permite trabalhar em consonância com os fatos locais e nos dá maior liberdade para relacionarmos com as mais variadas temáticas.
Em nosso caso, temos a reunião de um grupo de pessoas que fundaram a Sociedade para juntos construírem um prédio exclusivamente levantado para fins educacionais. Esse grupo de pessoas foi composto por indivíduos de posse e com poderes políticos na cidade de Uberabinha que também tinham envolvimento em outras iniciativas de cunho particular na cidade, formando uma espécie de elite local22. Esse grupo de pessoas, coincidentemente, construiu um prédio exclusivamente para abrigar uma escola, no caso, o
Gymnasio de Uberabinha.
22 O conceito Elite, de forma geral, exclui do processo social os sujeitos que não pertencem a
ela, desconsiderando o fato de que os sujeitos sociais estão em constantes interlocuções. Contudo, o conceito foi utilizado para delinear um grupo de pessoas dirigentes da cidade em um momento específico.
No momento da construção deste prédio, Uberabinha passava por uma euforia progressista. A arrecadação municipal crescia a cada ano, os investimentos do poder municipal em infraestrutura eram evidentes e mais e mais pessoas vinham para Uberabinha atraídas pelas oportunidades locais23.
PROGREDINDO
Quem lançar um olhar retrospectivo sobre o passado de Uberabinha, não terá necessidade de afastar muito a vista para espantar diante do grande salto que demos. Auxiliada por forças possantes e favoráveis á sua rápida evolução, a nossa cidade ganhou animação, cresceu, expandiu, tomou vida.
Era de se suppor que um tal avanço, tido por muitos como ephemero, seria de facto, de pouca duração. E, como nos organismos as causas naturaes, tal mutação causaria o cansaço, a debilitação, a ruína do paciente.
Tal, porem, não se verificou. A marcha continua rápida, firme. Múltiplos factores concorreram e concorrem para esse progresso.
Por circunstancias várias novos campos foram abertos á atividade do nosso povo, novos horizontes se descortinaram, deixando ver ao homem experiente e activo outros agentes de riqueza e de properidade. (A Notícia, 19 janeiro 1919. Ano I. n.º 26.)
Apesar do Gymnasio de Uberabinha estar em funcionamento na cidade desde 1915 (e não 1912)24, o que incomodava os cidadãos25 uberabinhenses
23 GUILHERME, 2007, p. 44.
24 Diferentemente do que é paradigmaticamente e/ou automaticamente e/ou compulsoriamente
e/ou inconscientemente ou propositalmente reproduzido nas bibliografias com referência ao
Gymnasio de Uberabinha, sob direção do Professor Cel. Antônio Luiz da Silveira, onde
publicam a data de 1912 como a data de sua instalação, vimos que este fato ocorreu, na realidade, em 1915, e não em 1912 conforme é evidenciado por trabalhos ainda hoje, publicados. Em uma rápida pesquisa de curiosidade sobre esta informação encontramos os seguintes indicativos:
a) Primeira referência ao Ginásio do Professor Antônio Luiz da Silveira é encontrado nas Atas
da Câmara Municipal de Uberabinha de 29 de janeiro de 1915 (p. 27 frente) em um pedido do próprio Professor, onde ele pede auxílio para despesas para a instalação do Ginásio: Coronel
Antonio Luis da Silveira Director do ―Gynasio de Uberabinha‖, pedindo um auxilio para cobrir as despezas de installação do referido estabelecimento. A commissão de instrucção‖.
b) Pela lei Municipal n.º 173 de 19 de Abril de 1915, o cidadão Antônio Luiz da Silveira, Director
do Gymnasio de Uberabinha e futuro arrendador do prédio da Sociedade, recebeu um auxilio
da Câmara Municipal no valor de 2:000$000 (dois contos de réis) a título de auxílio para as
despesas referentes a instalação deste estabelecimento na cidade, obrigando-se a
matricular, por indicação do Agente Executivo e sem ônus para a municipalidade, dez meninos considerados pobres.
c) No livro de Cônego PEZZUTI (1922, p. 39) foi dirigida a seguinte frase com relação ao
Ginásio: Durante os sete annos de sua existência o Gymnasio de Uberabinha há affirmado,
como um instituto sério e proficientemente apparelhado para a instrução do segundo grao. Ou
seja, 1922 menos 07 (sete) anos é igual a 1915.
d) O próprio Antônio Luiz da Silveira diz com suas próprias palavras em um ofício direcionado à
não era o fato da existência deste Ginásio, mas sim a existência de um Ginásio de pequeno porte, que funcionava em um ambiente improvisado e incompatível com os ideais modernistas deste município, conforme ilustração abaixo:26
Figura 2: Ginásio de Uberabinha (1919).
Fonte: INVENTÁRIO da Coleção “João Quituba”. Série: Fotografias. Ginásio de Uberabinha, Praça de República, hoje Tubal Vilela. Reitor Antônio Silveira. Uberabinha, 1919. Uberlândia, 1989. Referência JQ-0807, p. 41. (CDHIS – Centro de Documentação e Pesquisa em História, Universidade Federal de Uberlândia)
1924 (p. 5 verso): Desde 1915, data da fundação do Gynasio de Uberabinha, este
estabelecimento de ensino gosa da subvenção de 2:000$000 annuaes [...].
Podemos ainda continuar...
e) A presença do Ginásio de Uberabinha somente é notada a partir da Lei Orçamentária
aprovada em 1915 em diante, graças a lei n.º 173 aprovada em 19 de abril de 1915.
f) Pelo vereador Julio Alvarenga foi mandado para apreciação da Comissão de Redação e
Instrução da Câmara Municipal em 05 de julho de 1915 (Atas da Câmara Municipal de Uberabinha, p. 42 verso). A Câmara Municipal por seus vereadores decreta: Artigo 1º - Fica o
sr. Agente Executivo autorisado a conceder gratuitamente ao Gymnasio de Uberabinha e suas dependências a água necessária ao seu consumo desde a sua installação. Artigo 2º - Revogam-se as disposições em contrario. Sala das sessões, em 5 de julho de 1915. Julio Alvarenga. Este projeto não foi aprovado.
g) ARANTES (2003, p. 70) ainda afirma com relação a criação dos Cursos Médios / Segundo
Grau em Uberabinha: ―1915 – Ginásio de Uberabinha, dos professores Antônio Luiz da
Silveira e João Martins;‖
h) Ainda em Cônego PEZZUTI (1922, p. 39), nenhuma referência a data de 1912: Os primeiros
ensaios de instrucção secundária em Uberabinha datam de 1904, anno em que o prof. João Basílio de Carvalho aqui fundou um externato. Seguiram-lhe o Collegio Bandeira (1908), o ―Collegio Mineiro‖ (1909 a 1914), o Collegio S. José (1910), com internato e externato.O
Colégio Mineiro, de propriedade do Professor José Avelino, não pode ser confundido com o Ginásio de Uberabinha de propriedade de Antônio Luiz da Silveira, mesmo porque, teríamos então que considerar a data de 1909 como sua fundação, e ainda, considerar a compra do Colégio Mineiro pelo Silveira (não temos evidências), mudando a sua denominação e razão social, sua direção e seus princípios. Mesmo assim a data de 1912 continuaria incompatível.
i) Na busca da origem primária do mito sobre a data de 1912, em conversa pessoal com o
Historiador e Jornalista Antônio Pereira da Silva, durante inúmeras pesquisas sobre a história da cidade de Uberlândia, ele demonstrou que este mito pode ter tido origem no livro de Tito TEIXEIRA entitulado Bandeirantes e Pioneiros do Brasil Central (vol. 1. p. 96) o que passo também a concordar.
25 O conceito de Cidadãos que utilizamos considera os sujeitos politicamente ativos na cidade,
sujeitos sem representação política não nos interessa neste momento.
26 Idênticas preocupações também acarretaram a substituição dos prédios: da antiga Câmara
Municipal pelo novo prédio do Paço Municipal; do antigo Fórum pela construção do novo prédio do Fórum, da antiga Igreja Matriz pelo novo prédio da Igreja Matriz; diversas tentativas de demolição da Igreja do Rosário; então, nada mais natural do que substituir o prédio “improvisado” do atual Ginásio de Uberabinha por um prédio novo e moderno para o próprio Ginásio de Uberabinha.
Vejamos no recorte abaixo, retirado do jornal A Notícia, de 02 de fevereiro de 1919, onde foi destacada a necessidade de substituir as acomodações do atual Ginásio que, apesar de merecer todas as admirações pelas suas atividades, carecia de um espaço adequado para a realização de suas atividades, ficando a promessa de que esse problema poderia ser resolvido:
Pelo que temos ouvido em rodas bem informadas, um bom patriota que tem seu nome ligado a obras meritórias de nossa terra, pretende enfrentar agora o problema da construcção, por meio de acções, de um predio de adatapção propria para o “Gymnasio de Uberabinha”, aspiração justíssima, de há muito acalentada por todos os habitantes desta cidade. Estamos certos de que esse importante problema terá agora a sua definitiva solução, vindo, assim, concorrer para novos surtos de progresso do já acreditado estabelecimento. (A Notícia, 02 fevereiro 1919. Ano I. n.º 28)
Uberlândia, desde o tempo de Uberabinha, sempre propôs obras monumentais27, que alavancassem algum status progressista. O prédio da Sociedade estava, sobretudo, submerso neste contexto sendo o que se almejou foi um prédio bonito, grande o suficiente para ser imponente e digno da cidade onde se encontrava, capaz de, assim como os outros prédios, tornar-se um ícone, coincidentemente, educacional.
Após a construção do prédio, o antigo Ginásio, de propriedade do digno
educador Antônio Luiz da Silveira, transferiu-se para o novo prédio num
processo de arrendamento (aluguel), ou seja, transferiu-se a sede para o novo prédio e ali ficou. Assim, o que o ideal educacional (geral) brasileiro interferiu nesse processo? Do ponto de vista deste trabalho, nada. Porém, é plausível que, considerando o prédio da Sociedade, deixando o momento da construção e apanhando o momento do funcionamento do “novo” Ginásio em diante, ai sim podemos interferir a favor de um contexto “educacional geral brasileiro”, onde teremos as leis que o orientam, o regimento interno, etc. Porém, o que discutimos aqui, é que, no momento da construção deste prédio, a motivação para construí-lo está, neste sentido, muito mais ligada aos contextos locais de progresso do que propriamente aos contexto gerais-educacionais. Lembrando que o prédio foi uma iniciativa particular e não pública.