Com a proclamação da República, encontravam-se em Minas, do ponto de vista educacional, em sua grande parte, escolas isoladas e/ou rurais. Nestas escolas ler, escrever e contar eram as preocupações centrais do ensino onde em grande parte delas o conhecimento escolar era o conhecimento do
professor, que em muito confundia-se com a própria cultura da população, da qual ele(a) era oriundo(a) e participante. (VAGO; FARIA FILHO, 2000)
Por outro lado, os governantes republicanos de Minas Gerais, assim como os dirigentes do governo central da republica, acreditavam na expectativa de que a Educação seria um dos fatores concretos para a construção de uma nação consolidada e consistente. Porém ao se depararem com a realidade dos novos desafios que foram se apresentando, percebiam que entre a identificação de um problema e a implantação de uma proposta existia uma grande diferença54. A situação pós-proclamação não favorecia grandes
investimentos em uma ou duas áreas específicas apenas. O governo mineiro teve que atender a todas as demandas55, inclusive as demandas da educação, e ainda, com o mesmo caixa (dinheiro), ou seja, a educação não teve preferência dos gastos públicos, teve sim investimentos ajustados a sua manutenção, pois se fizéssemos uma comparação com outras áreas como
indústrias, veríamos que os gastos foram elevadamente desproporcionais em
favor deste último.
Na própria Constituição Brasileira de 1891, em vigor nesse momento, teve o tema educação citado bem timidamente, em concorrência a outras inúmeras propostas que também propunham garantir o progresso para o país56: Será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos.57 Dá-se então a impressão de que a educação passa à responsabilidade legislativa de cada Estado e no caso de Minas Gerais, a sua Constituição não regula o conteúdo a ser ministrado nas escolas:
54 Agravado ainda pela falta de meios de comunicação, transporte, falta de recursos, mão de
obra especializada, etc.
55 Como por exemplo, segurança, transporte, economia, justiça, infraestrutura, etc.
56 Propostas econômicas, industriais, de infraestrutura, segurança, judiciais, planejamento
urbano, etc.
57 BRASIL. Constituição (1891). Constituição da República Federativa do Brasil:
Art. 117 – A lei de organização de instrução pública estabelecerá: 1º - a obrigatoriedade do aprendizado, em condições convenientes; 2º - preferência dos diplomados pelas escolas normais, para a investidura no magistério; 3º - instituição do fundo escolar; 4º - fiscalização do Estado, quanto a estabelecimentos particulares de ensino, somente no que diz respeito à higiene, moralidade e estatística.58
A responsabilidade então foi transferido para o próximo da vez, ou seja, para a municipalidade, que por sua vez, não tendo a quem repassar, acaba por assumir o encargo da Educação59. Alias, repassaram sim, para as iniciativas
particulares. Neste sentido, também observamos em outras análises, que a Educação, se consolidaria em momentos distintos em cada cidade mineira, não foi um movimento uniforme, ocorrendo de maneira individual pela motivação ou sorte de cada Município. No caso de Uberabinha, veremos mais adiante como se deu o processo de implantação da assistência Estadual para Educação.
Delfim [Moreira] eleva a escola à condição de estratégia contra o
analfabetismo60, fortalecendo a crença de que o investimento na educação seria um grande trunfo para o futuro da nação. Assim sendo, a escola isolada não favoreceu a implantação de novas técnicas educacionais onde a instituição
educativa comprometia-se com os ideais republicanos e com as perspectivas de modernização da sociedade brasileira61, considerando, sobretudo a dificuldade de centralidade de coordenação das atividades educacionais pelos governantes..
A reforma teve de ser completa e total quanto aos métodos de ensino, à disciplina escolar e à fiscalização severa do serviço, estando o governo cuidando da questão e casas escolares apropriadas e do respectivo mobiliário, dentro de restritos recursos orçamentários. (ARAÚJO, 2006, p. 250.)
Mesmo sem ter condições de investir maciçamente na Educação o Estado Mineiro teve no mínimo, um papel incentivador, e neste propósito passou a oferecer soluções para um melhor controle ou uma melhor aplicação
58 MINAS GERAIS. Constituição (1891). Constituição do Estado de Minas Gerais:
promulgada em 15 de junho de 1891 - Titulo IV - Disposições Gerais.
59 Segundo GONÇALVES NETO (2007, p. 203-220), entre 1892 e 1899, Uberabinha
experimentou três tentativas de regulamentar a educação no território municipal, foram elas: As Leis 01 a 04 de 1892, o Regulamento Escolar de 09 de março de 1896 e a reforma deste Regulamento em 08 de junho de 1899.
60 VAGO; FARIA FILHO, 2000, p. 36. 61 VAGO; FARIA FILHO, 2000, p.37.
da educação para os fins propostos pela República. Surge em São Paulo, também inspirada em modelos internacionais, a proposta que sugeriu ser uma grande solução para a questão educacional, os Grupos Escolares ou, Escolas agrupadas. Estes Grupos representavam uma nova proposta para a educação brasileira. O Estado mineiro adotou este modelo de Grupos Escolares e também um novo currículo: leitura, língua pátria, aritmética, geografia, história
do Brasil, instrução moral e cívica, geometria e desenho, historia natural, física e higiene, trabalhos manuais e exercícios físicos62. As escolas isoladas não foram extintas.
Com a República, a educação passou a ser aliada do progresso, devendo conter nela os ideais pretendidos. O modelo capitalista tomava espaço, expressando até mesmo na organização estrutural dos Grupos Escolares, lembrando também a organização de uma fábrica:
Essa cultura escolar que ia sendo instituída em Minas Gerais tinha na nova forma de Grupos Escolares sua grande expressão, com uma organização que pressupunha uma divisão inédita do trabalho, uma fiscalização permanente, a execução uniforme de um programa de ensino baixado legalmente, buscando-se, ao mesmo tempo, atrair as crianças para a escola e fazê-las obrigatoriamente assíduas. (VAGO; FARIA FILHO, 2000, p. 40.)
E na opinião do Diretor da Diretoria dos Grupos Escolares de Juiz de Fora-MG, José Rangel em 1907:
Uma verdadeira revolução se operará nos costumes, sob o ponto de vista moral atingindo os benefícios dela a própria vida econômica [...] Teremos em vez de um exército de analfabetos a povoarem as oficinas, um pessoal operário suficientemente preparado para exercitar os seus misteres com inteligência e aptidão (FARIA FILHO e VAGO, 2000, p.41)
O ensino primário, fator educacional mais preocupante neste momento, é tido, dentro dos ideais republicanos, como o salvador da nação, capaz de dar a república cidadãos e não mais súditos. Entendemos como cidadãos aqueles que passam a te ter direitos e deveres dentro de um determinado grupo ou sociedade. Numa herança monárquica onde mais de 80% da população era rural e que a Escola não implicaria de forma direta na melhoraria da sua sobrevivência. Somando outros fatores como, por exemplo, a abolição da
escravidão, novas relações sociais foram se tecendo. Com as mudanças, a falta de “o que fazer no campo” levou muitas pessoas a procurarem novas oportunidades, no caso, o local mais chamativo e perto, eram os centros urbanos, que começam ganhar proporção. Esta mão-de-obra oriunda do campo não estava preparada para as novas possibilidades que estavam surgindo e que também estavam por vir neste novo ambiente urbano.
A preocupação dos Governos em focar a Escola Primária estaria no sentido de preparar para as novas relações sociais este “novo” sujeito.
Com a proximidade da abolição, a elite dominante da época começava a se preocupar não só com a garantia do suprimento de mão-de-obra mas, principalmente em aliar essa transição do trabalho escravo para o livre à continuidade da dominação social que exercia tão satisfatoriamente sobre os escravos. (NUNES, 2004, p. 01.)
Nesta direção, a instituição do Grupos Escolares propôs ser uma solução, pois neles, compreenderia em um só local, o ensino seriado, visando uma determinada especialização, tanto do professor, que não precisaria saber de tudo, mas o suficiente para cada série, quanto para o aluno que passaria a ter uma educação de “melhor qualidade”, focando nas disciplinas que passariam a ser direcionadas pelo Estado. Este novo modelo ainda simpatizaria pela centralidade do poder sobre todas as classes agrupadas na figura do Diretor, que, indicado pelo Presidente (Governador) do Estado, representaria ali, seus interesses, supervisionados pelo Inspector.
Na fala de Honório Guimarães, futuro diretor do Grupo Bueno Brandão da cidade de Uberabinha, encontramos a defesa dos Grupos Escolares:
Basta só imaginar-se que na escola um professro lecciona em quatro horas aos quatro annos do curso, por um mesmo programma que é o do curso primário; e que nos grupos este mesmo serviço é feito por quatro docentes, dispondo cada um das quatro horas do dia, leccionando cada professor uma classe. (CARVALHO, 2007, p. 64.)
Assumindo a responsabilidade de “produzir” cidadãos para a sociedade que se formava, os Grupos Escolares deveriam conter todos os grandes aspectos da modernidade que se propunham. Como não existiam locais apropriados ou em números representativos, os Grupos Escolares nasceram em prédios novos, construídos especificamente para este fim. Com arquitetura
grandiosa, com salas que em sua maioria, respeitavam quesitos propostos de higiene, postura, ventilação, recreação, etc. Eram prédios que não representaram apenas uma instituição de ensino, mas apresentaram a presença da República nesta localidade.
João Pinheiro demonstrou elevada fé na educação, propondo uma ousada reforma, pois como ele mesmo descreveu, das 800 mil crianças do
Estado, em idade escolar, a 700 mil não se dá ainda o devido ensino.63
Nesta fala, João Pinheiro deixa claro o quanto faltou para alcançar o sucesso da educação na República. Esta observação não deveria recair sobre o insucesso da reforma implantada por ele, mas pelo contrário, a acusação das falhas deveria apreender novos caminhos para seus sucessores, de forma a não perder de vista o ideal comum, na História da Educação, do progresso da pela educação.
1.8.2 Em Uberabinha
Acontece que, em 05 de maio 1911, o então presidente do Estado mineiro, Dr. Júlio Bueno Brandão visitou a cidade de Uberabinha, MG, ficando
a promessa da construção do Grupo Escolar pelos cofres Estaduais64, tão
esperado pela população local.
Segundo ARAUJO (2006), a Lei n. 439 de 28 de setembro de 1906 e o
Regulamento de 16 de dezembro de 1906 estabeleceram-se como contra
partida entre Estado e Município para implantação do Grupo Escolar, somas em dinheiro ou terrenos que deveriam ser adequados para a construção do mesmo.
Intensificam-se as discussões na Câmara Municipal de Uberabinha para doar ao Estado o terreno do cemitério velho65, mas por fim acabou por ser escolhida uma área mais nobre, e nela foi construída o Prédio do Grupo Escolar.
63 ARAÚJO, 2006, p. 252. 64 GUILHERME, 2007, p. 56. 65 GUILHERME, 2006, p. 14-15.
Esse primeiro grupo escolar instalado em Uberlândia obedeceu a muitos dos critérios estipulados pela reforma Bueno Brandão: foi construído em prédio próprio, em uma vasta área localizada no centro da cidade, em frente a uma de suas praças centrais. Além das salas de aulas, possuía um salão nobre para realização de eventos e festividades escolares; contava com um diretor e com sete professoras; funcionava em dois turnos, a saber, no período da manhã, o horário das aulas era das 7h às 11h e, no turno da tarde, das 12h às 16h. No ano seguinte ao de sua inauguração, registrou um total de 787 crianças matriculadas (LIMA; ALMEIDA, 2006, p. 06.)
O recorte abaixo nos transmite uma boa impressão ao revelar o perfil da escolarização em Uberabinha em meados dos anos vinte:
A população uberabinhense possuía uma parte alfabetizada em torno de 10.347 habitantes, e outra de analfabetos, em cerca de 14.073, que perfaz 57,9% de analfabetos. Comparado esse percentual local, com os do Estado de Minas Gerais, 79,3% e do país 75,0%, dados obtidos a partir do recenseamento de 1920, constata-se que há um menor índice de analfabetos em Uberabinha. [...] Assim, há uma necessidade de expansão do número de instituições escolares na busca atender a necessidade crescente da população uberabinhense. Entretanto, a pergunta que se faz, a qual população e em que região. (VIEIRA; GONÇALVES NETO, 2004, p. 05.)
E levando em consideração a recente inauguração do Grupo Escolar Júlio Bueno Brandão66, que representaria, ao mesmo tempo, a consolidação do
ideário republicano na cidade e sua inserção nos caminhos do desenvolvimento67, ou ainda, com relação ao Grupo Escolar:
[...] implantar no município uma escola pública, a qual deveria se constituir no principal foco de propagação daquele ideário [republicano] (CARVALHO, 2002, p. 70)
Porém, se de um lado o Grupo Escolar representou para a sociedade uberabinhense uma consolidação dos ideais republicanos na cidade, então qual explicação se daria para que em 1919 se desse início, pela Sociedade
Anonyma Progresso de Uberabinha, a obra do Gymnasio de Uberabinha?
66 Desde meados de 1911 era especulado, pela imprensa uberabinhense, a promessa da
construção do Grupo Escolar em Uberabinha, porém, o Grupo Escolar Júlio Bueno Brandão, só se consolidou em 1914, de forma que, em meados de 1919, começam as especulações para a nova necessidade de dotar o Ginásio em Uberabinha com prédio adequado, nos levando a considerar que a consolidação, através da educação, não se deu unicamente com a implantação do Grupo Escolar em Uberabinha, o que segundo GUILHERME (2007, p. 36.), estaria relacionado com a ideia de que o ideal de progresso mantém-se em constante
movimento.