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8 THE WORKSHOP
A exposição das crianças à violência é considerada um dos factores fundamentais geradores de problemas e desequilíbrios para a sua saúde e bem-‐estar. É essa percepção que alerta as mulheres, com maior assertividade, para a necessidade de abandonarem a relação conjugal violenta (a explorar). As crianças são sujeitos activos nas dinâmicas da violência de género, sobretudo quando são vítimas directas do que Kelly apelida de ‘double level of intentionality’, definida por «an act directed against one individual is at the same time intended to affect another or others» (1994, p. 47).
A lista de consequências, demonstradas em filhos vítimas directas ou indirecta da violência doméstica é extensa. Um dos estudos de referência mundial a este nível elabora alguns sobretudo ao nível da saúde física e psicológica: «the emotional and psychological impact of both direct and indirect abuse, including fear, distress, guilt, embarrassment, confusion, hate, depression, loss of self-‐esteem, self-‐confidence and self-‐respect, disturbed sleep (wakefulness, nightmares), bedwetting and eating disorders, behavioral changes (whether clinginess or aggression), impact on school attendance or performance and disrupted schooling, leaving home very young or being thrown out the lasting memories (or emotionally blocking them out) and continuing impact» (Mullender, et al., 2006, p. 14).
Muitos dos sintomas acima descritos foram identificados durante o trabalho de campo com as entrevistadas. Estes sintomas iniciam-‐se durante a relação conjugal dos pais, mantendo-‐se até depois da separação. Era, por isso expectável a associação que encontrámos entre a variável “filhos eram vítimas e/ou assistiam à violência” e a variável “consequências ao nível da saúde física ou psicológica dos filhos”: (𝑅ij=16,495). Isoladamente, a variável “consequências na saúde física ou psicológica dos filhos” foi referida por 193 vezes, o que por si só constitui um dado importante para percebermos os efeitos nefastos no crescimento, desenvolvimento e bem-‐estar físico e psicológico destas crianças. Apenas 10 das mulheres que colaboraram com este trabalho, não assinalaram nenhuma consequência a nível da saúde física ou psicológica
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Associação entre filhos eram vítimas e/ou assistiam à violência” e a variável “consequências ao nível da saúde física ou psicológica dos filhos”, expressa por: χ2(18)=270,092; p<0,001.
dos seus filhos. Estes resultados parecem estar em concordância com as conclusões de outros autores (McGee, 1997; Silvern and Kaersvang, 1989), que apontam para os traumas e danos psicológicos demonstrados pelas crianças, mesmo nos casos em que elas foram apenas espectadores da violência.
Os problemas de ordem psicológica ou física podem manifestar-‐se nas crianças das mais variadas formas (Lisboa et al., 2006): abandono escolar ou fraco desempenho, isolamento, dificuldades em interagir com outros, falta de concentração, dificuldade em dormir, pesadelos recorrentes, entre outros são sintomas manifestados e que têm como origem a sua exposição à violência: «Many children also talked about problems in sleeping, either lying awake for hours or being woken from sleep by shouting and screaming. This, in turn, had caused headaches or problems in concentrating at school the next day. The two other major tolls on children that mothers reported were interruptions in education and more serious psychological and health effects such as speech and language problems, developmental delays and learning difficulties» (Hagemann-‐White, 2006, p. 110).
Em paralelo com as conclusões dos autores supracitados, uma entrevistada descreve como um dos filhos ficou com problemas de aprendizagem como consequência da exposição à violência:
«Ele não falava muito no pai, queria, não sei quê. Mas pronto, isso não… Nunca aconteceu. Os anos foram passando e na escola comecei a ver que ela não tem capacidade de uma pessoa normal. De uma criança normal, não é de uma pessoa, de uma criança normal, e neste momento está, portanto, tudo o que ela tem, o problema que ela tem psicológico é a nível emocional»
(Viviane, 34 anos)
Os efeitos da filha de Maria III começaram a manifestar-‐se na escola. Uma boa aluna cujas notas subitamente começaram a cair. Juntamente com esse indicador, as professoras e auxiliares começaram a reparar no comportamento, pouco habitual na criança:
«Só depois percebi, quando o mal já estava feito, como isto é traumatizante para os filhos sabe? …isto é uma coisa muito difícil, em que ela está a comer e me alertam que a menina, e eu estava sempre preocupada que ela comia mal e ela punha-‐se assim no refeitório, para comer punha as mãos na cabeça, e ela começou a dizer, a reparar mais, porque eu também, também disse que havia problemas em casa, também divulguei…mas o comportamento dela mudou muito muito…»
Tal como dissemos anteriormente, os traumas psicológicos para as crianças, continuam a ser experienciados muito após a separação dos pais e manifestam-‐se, por exemplo, com pesadelos e dificuldade em dormir. Muitos dos filhos das entrevistadas manifestaram problemas em adormecer e sobretudo em dormir no escuro. Catarina descreve como as suas filhas acordavam durante a noite com pesadelos:
«Acordam no meio da noite a dizer “mãe, estás aqui?”, mesmo no escuro-‐ elas não gostam de dormir no escuro porque dizem que assim não vêem o que se está a passar-‐ a dizer “mãe, estás aqui?”. Às vezes… muitas vezes acordam e dizem: “oh mãe, eu sonhei que o pai batia-‐te, o pai batia-‐ te”…»
As consequências da violência e os seus efeitos sobre as crianças, parece-‐nos que deverão ser alvo de investigações autónomas. Muitos desses efeitos poderão ser de difícil quantificação mas, inequivocamente, carecem de abordagens mais específicas cujo propósito mais seja produzir conhecimento para melhor agir, para os proteger, como alude Lisboa: “Quer pela vitimação, quer por assistirem enquanto crianças a actos de violência, estas mulheres inscrevem-‐se em trajectórias de conduta muitas vezes aprendidas de geração em geração. Muitos dos seus filhos que hoje assistem ou são agredidos poderão ser amanhã vítimas ou agressores. Isto porque, mesmo que a criança não sofra directamente os maus-‐tratos, sofre os transtornos emocionais resultantes do clima de instabilidade que emerge da relação entre os pais.
Assim, a banalização da violência enquanto elemento de socialização revela-‐se um terreno fértil à sua reprodução” (Lisboa, 2003, p. 20).
Os filhos serão sempre testemunhas da violência, mesmo nos casos em que existe a percepção de que eles não assistem, a distância física dos actos de violência não é suficiente para os afastar do epicentro do flagelo da violência doméstica: «The concept of witnessing is easily associated with being a distant eye witness. This is a misrepresentation of children’s position (…) They can be in the next room or in the same room with their eyes shut. They may not see the violence, but they hear it. They can experience violence after the fact through marks on their mother or on the
furniture. (Stark, 2012, p. 173).
Capítulo VI. Da manutenção à ruptura da conjugalidade
Importa-‐nos, no presente capítulo, analisar as causas apresentadas pelas principais intervenientes, para a manutenção da relação conjugal. Para tal, concentrar-‐ nos-‐emos a análise dos discursos das mulheres que connosco colaboraram. Veremos como a prática da violência através do isolamento e do afastamento das redes sociais de apoio; as estratégias de perdão, mobilizadas pelo agressor quando confrontado com a saída da vítima, inibem a ruptura. Atenderemos a motivos mais “práticos” como a dependência financeira, mas também destacaremos a importância dos factores emocionais como o medo do agressor e os laços amorosos que prendiam as vítimas ao agressor.
Os filhos serão novamente abordados, desta feita para percebermos o quanto o ideal da família nuclear e a preservação da mesma continua a ser o modelo preconizado pelas mulheres entrevistadas.
A ruptura será procurada, e para isso iremos isolar os principais factores que fazem com que o momento da separação se distinga de todos as outras tentativas falhadas de abandonar a relação.
6.1. Os discursos sobre a manutenção das relações conjugais violentas
A pergunta que nos ocupará neste capítulo foi colocada às entrevistadas da seguinte forma: “porque foi ficando?” Queríamos com ela obter informação para conseguir analisar e explicar os longos períodos de conjugalidade violenta a que estas mulheres se sujeitaram em tempo de vivência das relações amorosas e afectivas que cada vez mais se caracterizam pela fraqueza, a debilidade e vulnerabilidade (Bauman, 2003), com reflexos no aumento das separações e divórcios?
Não avançaremos com modelos explicativos irrefutáveis, mas sim com as explicações e percepções dadas pelas entrevistadas avançando, de acordo com os resultados da análise estatística realizada, com hipóteses explicativas que apontam para as causas do aprisionamento nos contextos da violência conjugal. Nesse sentido,