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No capítulo com o qual abordamos as dinâmicas entre o agressor e a vítima, referimo-‐nos ao isolamento e ao controlo social. Voltaremos a ele na medida em que constituí uma das razões que aprisiona as mulheres às relações violentas tendo como objectivo precisar os condicionamentos de natureza socioeconómica que, também, se constituem-‐se como elemento capital para a decisão da ruptura ou permanência. A ausência de meios económicos para sustentar a saída, é, também em grande parte, um condicionamento imposto pelo agressor: o controlo social exercido estende-‐se ao controlo das finanças da família reforçado pelo impedimento de que a mulher trabalhe. Um estudo realizado por Warrington (2001) sobre mulheres residentes em casas-‐abrigo no Reino Unido convalida os cenários de isolamento já apresentados e reflecte sobre a necessidade de explorar as causas da manutenção a que chama practical reasons. Entre estas razões práticas encontra-‐se a falta de condições financeiras; o facto de não ter um espaço físico para onde ir; o ter falta de suporte familiar ou apoio para sair, sendo este último ponto uma clara consequência da estratégia de isolamento a que o agressor força a vítima. Neste sentido, percebemos como ela é presentânea uma vez que constitui um poderoso impedimento para a ruptura.
O isolamento social remete-‐nos para o exercício de poder de um cônjuge sobre o outro. Segundo Dias, o desequilíbrio no status entre cônjuges e, mais concretamente, a superioridade simbólica de um em relação ao outro é “tradicionalmente atribuída ao homem quer como pai, quer como marido (…) consequentemente esta inconsistência de status pode resultar em violência na família, quando o homem se sente ameaçado, no seu papel tradicional, pela mulher que pode possuir recursos ocupacionais e de instrução superiores ao homem. Assim, a violência pode surgir para manter a dominação” (Dias, 2010, p. 164). Para não permitir a perda
de dominação ou controlo, o agressor impõe restrições à vítima, sobretudo ao nível do corte de relação com familiares, amigos ou até ao recurso a qualquer forma de crescimento intelectual ou educacional ou profissional.
O conceito de entrapment, (Few e Rosen, 2005), apresenta similitude com as formas de isolamento social descritas. Entrapment reflete uma perceção de ausência de saída, o que culmina num estado de passividade e incapacidade de ação: ”the abused woman is somehow “stuck” in her relationship and is defined typically as a decision process whereby individuals escalate their commitment to a previously chosen, though failing, course of action in order to justify or “make good” on prior investments (…) If she perceives that she has no control, then learned helplessness many prevent leaving” (Idem,Ibidem, 2005, p. 266).
Raquel tinha-‐nos contado que o agressor fez com que ela deixasse de falar com a família. Os amigos, mal recebidos pelo agressor cada vez que visitavam Raquel, também se tinham afastado de si. Assim, Raquel revela como a falta de apoio que foi sentiu de parte dos familiares e amigos foi decisiva para não romper:
Entrevistadora:«Porque é que acha que foi ficando?
Acho que foi um acomodar…um acomodar e não ter o tal, o tal apoio de ninguém, foi… não ter apoio de ninguém nem com quem falar, uma força nem um…tipo uma luzinha a dizer vai para ali faz isto»
(Raquel, 41 anos)
Ana foi sujeita, durante 8 anos, a repetidos episódios de violência psicológica. Conta como a sua auto-‐estima e a imagem que tinham de si, foi completamente alterada e anulada pelo exercício da violência. Até ao dia em que pediu ajuda a uma Instituição, nunca tinha tentado abandonar o agressor. A entrevistada explica-‐nos porque é que, até então, a saída nunca lhe tinha parecido uma hipótese viável:
«E eu ia para onde? Eu ia fazer o quê? Lá está, uma pessoa tem um pensamento, eu não sirvo para nada, o que é que eu vou fazer?! Eu deixar o meu filho eu não deixo, o meu filho vai ter que ir comigo e vou para onde? Para casa da minha mãe? Não, porque a minha mãe não
tem condições nem financeiras, nem de nível nenhum. Para casa das minhas amigas não podia ir porque, primeiro algumas não tinham casa, não sabia onde as outras viviam, não podia ir»
(Ana III, 27 anos)
O afastamento da família, por imposição do agressor, consolida nas mulheres uma percepção de isolamento e de ausência de suporte familiar. É precisamente esse suporte que o agressor percepciona como uma ameaça directa à estabilidade da relação, desenvolvendo métodos que reforcem o afastamento entre a vítima e a família.
Vejamos: Ana II partilhava a sua história de violência com a irmã, mas cedo o seu marido começou a perceber que esta ligação poderia ser uma ameaça à relação conjugal. Ana II foi forçada a afastar-‐se:
Entrevistadora: «Ele isolava-‐a das outras pessoas?
Muito, mesmo minhas famílias e a minha irmã. Até uma vez ele disse “a tua irmã chega aqui em casa eu vou a expulsar»
(Ana II, 27 anos)
Este processo de progressivo isolamento só se torna perceptível mais tarde, quando a separação entre vítima e as redes sociais de apoio já se encontra numa fase bastante avançada. O processo de isolamento e controlo baseado no exercício de poder é apelidado por um outro autor (Johnson, 1995) como intimate terrorism, que se alicerça em ameaças e padrões permanentes de controlo através dos quais os agressores limitam abruptamente a capacidade de tomada de decisão das suas companheiras. Por sua vez Okun, utilizando uma analogia semelhante -‐ conjugal terrorism-‐ compara os processos de isolamento a que as mulheres vítimas eram sujeitas aos métodos de tortura usados contra terroristas com o propósito de «depict the threats and the larger pattern of control by which batterers constricted the victims’ decision-‐making powers. Although the aim of domestic violence is widely
understood as “power and control” (as in the “power and control wheel”), in this reformulation control tactics are also the primary means of subordinating female partners» (Okun, 1988, p. 121).
Okun, hiperbolizando refere-‐se ao controlo social e isolamento como lavagens cerebrais. Através desta analogia o autor pretende clarificar a eficiência dos mecanismos de controlo do acesso à informação (contacto com pessoas da família ou amigos e até com os media) bem como o desgaste emocional e físico a que as vítimas se encontram sujeitas através do exercício de violência física, psicológica e sexual. Psicologicamente, emocionalmente e fisicamente esgotadas, afastadas do mundo social exterior, despojadas de muitas das capacidades para exercer qualquer tipo de tomada de decisão, estas mulheres remetem-‐se ao espaço da casa e à imposta convivência exclusiva com o agressor. O que lhes resta? A permanência dentro de casa onde o agressor pode exercer todo o seu domínio e controlo:
«Ele nunca me deixava muito sair, ele estava-‐me sempre a criticar por eu sair, eu levava a minha filha a uma festinha de aniversário, porque aconteceu lá com a, com a notária que tinha a menina no na mesma escolinha que a minha, de quem a minha filha era amiga e eu fui levar ao Vale da Telha a minha filha à festinha. Ele inclusive dizia que é mentira, que eu que não ia levar a minha filha à festa, não ia comigo, nunca queria que eu saísse, para ele era se eu tivesse ali em casa e não saísse dali era tudo o que ele mais queria, ele não queria que eu fosse a casa dos meus compadres, do filho, não gostava muito…não gostava muito porque depois que não queria que eu me relacionasse muito bem com a família, queria que eu tivesse sempre à beira dele ali em casa.»
(Maria II, 23 anos)
As formas de isolamento são variadas e tecidas para diferentes domínios: «Isolation, which was common across all cultural groups, included being treated as a possession, controlling when and if she saw family and friends, accompanying her to and from her job, restricting her time if she was allowed to go out by herself, frequent telephone contact» (Walker, 2009, p. 65).
Os relatos incluem inúmeras descrições de proibição de trabalhar e até de frequentar cursos de formação profissional ou a escola, traduzindo-‐se numa impossibilidade, imposta, de acesso a recursos materiais, educacionais ou profissionais. Ora, se a «exposição das mulheres à violência doméstica aumenta quando as relações entre o marido e a mulher são menos igualitárias e quando o controlo masculino dos recursos materiais é maior» (Lisboa et al., 2006), essas proibições fomentam, ainda mais, as desigualdades entre ambos.
Mas vejamos as situações em que o isolamento imposto pelo agressor, condiciona uma possível decisão de saída da relação violeta:
“Eu depois fui-‐me apercebendo como é que ele era, não levantei poeira, comecei a ficar em casa fechada, também não pronto, fui ficando isolada (…) Fui ficando em casa sozinha com os filhos, afastou-‐me, foi-‐me afastando da família dele que quando era… não sei se ele também ia para lá dizer, que eu era a culpada de tudo, da falta de dinheiro de tudo, que eu era antipática, viam-‐me assim… Sim, constantemente em ameaças, de me por na rua, pôs-‐me várias vezes, várias vezes fazia a mala e depois arrependia-‐se…. Depois eu também fui ficando isolada de amigos e tudo e nem sequer tinha dinheiro para sair dali e ir para algum sítio…”
Anabela descreve como o isolamento social a que foi sujeita e que posteriormente percebeu, condicionou a sua decisão para a saída. O seu testemunho serve também para averbar que a percepção que as vítimas têm do isolamento que lhes está a ser imposto, é gradual e não imediata:
“É… São aquelas coisas que nós não compreendemos. Depois uma pessoa sozinha, sem família, sem amigos, sem ninguém porque as minhas amizades eram todas controladas. Eu saía a tomar café ou, com uma amiga, onde, a que horas, ou vou-‐te buscar, sem carro não é preciso, “Ah não faz mal, eu até vou para aquele lado. Eu trago-‐te” e não sei quê, portanto. Comecei-‐me a aperceber assim do, do controle”.
O papel da família nos contextos da violência de género não pode ser apenas analisado pelo prisma do apoio ou da falta dele96. Por vezes, após várias tentativas que visaram ajudar as vítimas para que abandonassem o agressor, as famílias vêem o seu apoio gorado quando as mulheres decidem reatar a relação conjugal. Nestes casos, as famílias vão reduzindo o seu apoio, desinvestindo de um auxílio que resulta ineficaz por acção do regresso das mulheres para o agressor. A este terceiro cenário chamaremos "desinvestimento familiar na ajuda" quando, após várias tentativas de ajuda para a saída, os esforços resultam gorados por manifesta falta de eficácia. Emerge então um sentimento de frustração familiar97 que faz desvanecer o seu suporte. Das 30 entrevistadas, 18 referiram que apesar de algumas situações em que houve apoio familiar para que elas pudessem abandonar o agressor, com a manutenção da relação, as famílias acabavam por se mostrar, também elas, resignadas com a incapacidade de reacção da vítima. Corroborando as repetidas narrativas sobre esta articulação, a análise estatística 98revela uma associação entre o isolamento social e o desinvestimento familiar/amigos na ajuda para romper (𝑅ij=4,399). O que sobressai deste dado é a solidez com que o crescente isolamento pode contribuir para o afastamento e frustração da família impossibilitada de agir de forma assertiva. Mais uma vez, assinalamos a importância dos processos de isolamento para a perpetuação dos ciclos de violência.
Sandra é um dos casos que revela que a família sempre a quis ajudar a romper com o companheiro. Desabafava e contava os episódios às suas irmãs que muitas vezes interferiam, até confrontando o agressor. Esta entrevistada conta como foi percebendo que as suas irmãs começaram a interferir e a aconselhá-‐la cada vez menos, uma vez que as suas tentativas de ajuda se revelaram inconsequentes:
96 A respeito da ocorrência destas 2 situações distintas, assinalamos que a presença do indicador de
análise “Ajuda efectiva de familiares/amigos para sair” foi detectado por 77 vezes, ligeiramente menos do que a variável “pressão familiar para aguentar”, com 94 ocorrências. Apenas 6 mulheres entrevistadas nunca tiveram nenhum apoio quer de familiares quer de amigos para abandonar a relação, enquanto apenas 10 mulheres referiram não ter tido nenhum tipo de pressão familiar para aguentar a relação violenta.
97 Este desinvestimento de familiares/amigos na ajuda para sair, foi contabilizada por 81 vezes na
Análise de Conteúdo realizada.
98
Todos os resultados estatísticos produzidos para este capítulo, poderão ser consultados no anexo II, das páginas, 356 à página 372.
99
«Que conselhos as pessoas lhe davam?
Nada sequer…as minhas irmãs às vezes diziam “deixa-‐o, vem-‐te embora, mas porque é que tu não o deixas?”, as outras pessoas, as outras senhoras nem me diziam nada, não me falavam nada, agora as minhas irmãs muitas vezes aconselhavam-‐me a deixá-‐lo. Mas depois como eu não fazia nada elas também se cansavam não é…andar sempre a repetir o mesmo e depois eu não fazia nada…as pessoas por mais que queiram ajudar também se fartam»
(Sandra, 33 anos)
O isolamento social é assim fundamental para explicar a manutenção das relações e os meandros da violência de género. Um importante estudo no Reino Unido concluiu que as mulheres que sofriam de violência de género se encontram mais isoladas socialmente (família, amigos, colegas, participação em actividades públicas ou cívicas) quando comparadas com não vítimas. Eles concluem que esse isolamento parece preceder o abuso e também aumenta de intensidade paralelamente com a intensidade da violência exercida (Nielson, Endo, Ellinton, 1992).