O enfrentamento pela melhoria da qualidade de vida e pela desoneração dos altos gastos na área da saúde é um grande desafio mundial e impõe a necessidade de reformulação das políticas e métodos preventivos. O fato de a fratura do fêmur ser uma causa frequente e significante de perda funcional e mortalidade e, além disso, necessitar de tratamento intensivo e prolongado, torna necessário e urgente um melhor planejamento da assistência profissional
para um acompanhamento mais efetivo, tanto no que diz respeito à atenção hospitalar e domiciliar quanto no que diz respeito às ações de promoção e de prevenção.
Um ponto crucial para a redução dos agravos pós-fratura e da mortalidade é a necessidade de se estabelecer assistência pós-operatória adequada, haja vista que as complicações advindas das fraturas são um significativo elemento prognóstico no primeiro ano após internação. Assim, é importante que o atendimento seja feito por uma equipe multidisciplinar e que este não se limite ao momento pós-cirúrgico no hospital, mas se estenda sobretudo no processo de reabilitação pós-alta, seja na própria unidade de saúde ou no domicílio, de acordo com o estado funcional do indivíduo. O mero recurso ao tratamento cirúrgico não é garantia de restabelecimento funcional, psicológico ou social. O atendimento domiciliar, individualizado e integral surge, portanto, como alternativa ao frequente desgaste causado pela internação, comumente prolongada, principalmente em se tratando de idosos frágeis e/ou com idades avançadas. O incentivo ao autocuidado, por exemplo, é uma das importantes dimensões do processo de reabilitação; a equipe deve estar preparada para fazer um treinamento adequado do paciente, sempre voltado para a necessidade de apoio múltiplo.
Não obstante todas essas medidas de minimização dos efeitos da fratura, deve-se destacar a própria prevenção de quedas em idosos como ação com grande potencial para ser determinante no sucesso dessas políticas públicas relacionadas à fratura do fêmur. Para tanto, leva-se em conta o princípio de que a maioria das quedas é previsível e evitável. Assim, é fundamental que a equipe de saúde possa diagnosticar e tratar as doenças associadas, e também intervir no fortalecimento do fator suporte social e familiar e nas condições ambientais. Para que haja resolubilidade, faz-se necessário uma adequada capacitação da equipe e integração de toda comunidade, seja através de divulgação na mídia, palestras, intervenção nas visitas domiciliares, enfim uma educação permanente sobre a questão.
Tal é a importância do tema que a OMS, no ano de 2007, elaborou um importante documento, o Relatório Global sobre Prevenção de Quedas na Velhice, em que se propõem recomendações sobre ações de prevenção a fim de reduzir o número de quedas e, consequentemente, de fraturas no quadril. Esse documento, que apresenta trabalhos e considerações de muitos estudiosos, visa incentivar os países a se engajarem com ações efetivas e é uma importante referência para estratégias a serem desenvolvidas com intuito de minimizar esse grande problema de saúde pública (WHO, 2007).
Durante a realização deste estudo, buscou-se contribuir no processo de conscientização da população entrevistada em relação à prevenção de quedas. Como complemento da entrevista domiciliar e para esclarecer à pessoa idosa sobre recursos
implantados para seu benefício, utilizou-se material fornecido pelo MS como a CSPI (anexo C) e um folder sobre prevenção de quedas (anexo B). A oportunidade de realizar o preenchimento da CSPI foi importante para que a pessoa idosa, familiar e/ou cuidador tivesse conhecimento desse importante instrumento de acompanhamento da saúde, inclusive de quedas e internações. Por outro lado, foi observado que a maioria das pessoas ainda desconhecia a caderneta, apesar do fato de que sua implantação no município tenha ocorrido a partir de 2009, evidenciando que ainda não está sendo efetivamente utilizada pela rede de saúde. O folder de prevenção de quedas também foi um material importante para que as pessoas pudessem ter acesso às orientações de manejo simples dadas pelo Ministério da Saúde. Ressalte-se que nas visitas domiciliares o contato direto com o sujeito e seus familiares e a possibilidade de desenvolver ações além da coleta de dados, possibilitou quando necessário, fazer encaminhamentos referentes aos aspectos da saúde, suporte social ou relacionadas aos direitos da pessoa idosa. Muitos participantes do estudo e seus familiares relataram a dificuldade de vagas na rede de saúde pública para retornos, consultas especializadas e tratamento continuado, assim como em alguns casos, para refazer o procedimento cirúrgico. Em muitos casos, as visitas domiciliares trouxeram desdobramentos positivos para os sujeitos, como por exemplo, participação em outros programas da rede, empréstimo de dispositivos auxiliares de marcha, ou agendamento de consulta especializada.
Espera-se que os resultados deste estudo, que visou conhecer a prevalência de fratura do fêmur e o perfil do grupo a ela suscetível, possam estimular ou contribuir com outras produções científicas dentro deste tema ou subsidiar políticas públicas de prevenção e tratamento. A maior parte dos estudos realizados até então são de europeus ou norte- americanos, daí a importância dos gestores e profissionais de saúde conhecerem a realidade da população brasileira observando os aspectos regionais, prevalência, incidência e fatores de risco para tomarem medidas preventivas com o intuito de minimizar o impacto epidemiológico e econômico das fraturas do fêmur. Faz-se necessário dados consistentes e acompanhamento epidemiológico sistematizado das quedas e das fraturas nessa faixa etária para a efetivação e eficácia das ações a serem implementadas. A utilização de um sistema de notificação de quedas – capaz de avaliar suas causas, monitorar o desempenho, e gerar informações para produção de indicadores – pode ser um importante instrumento nesse processo.