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O chamado boom do pós-guerra produziu um enorme excedente de capitais nos países imperialistas (em parte, produto da exploração capitalista em pequenas propriedades) que trouxe a possibilidade de se produzirem investimentos na agricultura dos países periféricos. Iniciava-se, assim, o que se convencionou chamar de “a revolução verde”, com maior utilização de máquinas, uso de sementes cientificamente tratadas, utilização de produtos químicos e fertilizantes em larga escala. Porém, para alguns críticos destes episódios mirabolantes, muitas vezes caracterizados como programas econômicos fundamentais para o desenvol- vimento – ou, melhor dizendo, salvação – da agricultura nacional,

A chamada ‘revolução verde’ no campo, promovida pelo agrobusiness, é uma miragem, ou melhor, demonstra o quanto pode haver de ‘revolucionário’ no capitalismo atrasado e semicolonial do Brasil. Dos 850 milhões de hectares (apro- ximadamente) existentes no Brasil, apenas 42 milhões correspondem ao agronegó- cio, 70 milhões encontram-se consagrados à pecuária, 120 milhões são (ou seriam) terras indígenas, e 110 milhões, terras de conservação. O remanescente, quase 500 milhões de hectares não-aproveitados, está dividido entre latifúndios improdutivos e áreas devolutas: revolução capitalista? E o Brasil não é o paraíso da ‘preservação ambiental’. Transformado em primeiro produtor de soja (e, em certas áreas, também o primeiro em produtividade), essa cultura já se apropriou da Região Norte, invadiu a chamada maior e principal fronteira agrícola da humanidade, já ocupou o cerrado e, segundo os pesquisadores, já começa a avançar na selva, num avanço sem controle que ameaça a biodiversidade da região. (COGGIOLA, 2004, p. 122)

O que aqui queremos identificar é que se trata do início de um lento processo de transição da agricultura tradicional para uma agricultura empresarial, diretamente orientada para exportar para o mercado mundial, a partir de agora dominada quase totalmente pelas nações imperialistas, subordinada às condições de produção que estas lhe impõem, perdendo a produção agrícola da América Latina seu lugar no mercado mundial e, também, paulatinamente e em parte, o mercado interno. Os latifundiários tradicionais evidenciam sua inviabilidade.

Durante o regime militar, a política de desenvolvimento agropecuário no Brasil tinha, entre outros, os seguintes objetivos: “[...] acelerar o desenvolvimento do capitalismo no campo incentivando a reprodução da propriedade capitalista [...] isolar parcialmente, de um lado, o poder dos coronéis latifundistas e, de outro, impedir totalmente o crescimento das lutas dos trabalhadores rurais, que vinham construindo suas formas de organização, sobretudo a partir de meados da década de cinqüenta” (FERNANDES, 1996, p. 32).

Segundo ainda as análises produzidas por Bernardo Mançano Fernandes, a política agrária da ditadura militar incorporou em seu ideário um projeto de reforma agrária que havia sido produzido, imediatamente antes da ação golpista perpetrada pelos militares em 1964, pelos artífices do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (Ipes) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad).

Estudando sua ação ideológica e a composição político-militar do Ipes e do Ibad, que aglutinava intelectuais, escritores, jornalistas, advogados, Carmela Panini nos diz, também, que esses possuíam o seguinte objetivo:

[...] se contrapor à ação política do governo Goulart e às mobilizações de grupos populares. Esta elite, com capacidade de organizar seus próprios interesses e os da sociedade, consegue infiltrar-se com sua doutrina ideológica em todas as camadas sociais. A ação ideológica é assumida pelo complexo Ipes/Ibad, que se vale de todos os meios de persuasão disponíveis: cursos, palestras, seminários, simpósios, filmes, teatros, além da distribuição gratuita de alimentos (provenientes da “Aliança para o Progresso”, celebrada entre o Brasil e os Estados Unidos). (PANINI, 1990, p. 68)

O salto de produtividade na agricultura das nações imperialistas com a chamada revolução verde produziu uma importante mudança nas condições do mercado mundial, ameaçando apropriar-se de uma parte cada vez maior da renda dos latifundiários na América Latina. Este processo selou as bases para o futuro processo de domínio direto das grandes corporações transnacionais em todo o processo, desde a produção até a comercialização; ou seja: o agronegócio.

Este processo, que começou a desenvolver-se entre 1950 e fins da década de 1970, produzindo como principal conseqüência a apropriação direta das terras pelos grandes monopólios, latifundiários, pela expansão de suas terras, é o mesmo que impulsionaria os camponeses a lutar por sua obtenção. A mesma necessidade de terras destes dois setores de classes distintas explica as grandes lutas camponesas das décadas de 1950 e 1960. Os processos de reforma agrárias – que muitas burguesias na- cionais viram-se obrigadas a realizar – não tiveram outro objetivo que não fosse frear o crescimento das lutas camponesas e a radicalização do proletariado urbano, que ten- diam a crescer como produto do triunfo da Revolução Cubana. E por cair em mãos das burguesias nacionais é que em nenhum caso, exceto no México décadas antes (produto da revolução interrompida de 1910) e, parcialmente, na Bolívia, (produto da revolução de 1952), se deu extensamente. Inclusive, tanto na Bolívia como no México retrocedeu anos mais tarde. Este crescimento das lutas camponesas teve dois momen- tos: um entre 1945 e 1960, com Brasil, Peru e Bolívia, por exemplo; outro na década de 1960, em países como o Paraguai, por exemplo, que em sua maioria terminaram em uma integração reacionária do campesinato aos regimes existentes então.

Por outro lado, sob a égide de governos burgueses, em diferentes países latino- americanos as reformas agrárias se realizaram, mesmo que parcialmente, mas sob o signo da chamada Aliança para o Progresso, dirigidas por Washington, tuteladas pelo regime da propriedade privada, da produção mercantil e apartada dos mais ele- mentares interesses sociais. Evidentemente, esta foi a resposta dos Estados Unidos à radicalização das grandes massas do continente ante o triunfo da Revolução Cuba- na e aos exemplos de radicais transformações socais que ela, então, representava.

Ressalta-se, ainda, que a força deste ascenso camponês, sentido em nível mundial, materializou-se com a vitória das Revoluções Chinesa e outros movimentos de libertação nacional e antiimperialistas espalhados por diferentes partes do mundo. É importante dizer, também, que estas revoluções trouxeram e continuam trazendo inspirações políticas, mas seus signatários não foram capazes de resolver o problema estrutural da terra na América Latina mesmo depois de terem chegado ao governo de inúmeros países.

No Brasil, durante o governo Costa e Silva, tendo como principal perspectiva relacionar-se com a questão fundiária sem trazer quaisquer ameaças ao “sagrado” direito à propriedade privada, a problemática da terra

[...] e particularmente da terra na Amazônia, transformou-se progressivamente num problema militar. O Ministério do Interior, ocupado pelo general Albuquerque Lima, um general nacionalista identificado com o pensamento da Escola Superior de Guer- ra, definiu como objetivo nacional prioritário a política de integração da Amazônia. Reduzindo a questão a termos simples, os problemas de pressão social e fundiária do Nordeste poderiam ser resolvidos na Amazônia, mediante o desenvolvimento de projetos de ocupação de “espaços vazios”, criação de pólos de desenvolvimento, com envolvimento decisivo das Forças Armadas. (MARTINS, 1984, p. 41-42)

Este procedimento político e econômico, profundamente anti-social, adotado pelos governos militares produziu nefastas repercussões sociais, presentes na reali- dade brasileira até os dias de hoje.

O salto em direção à agricultura empresarial: o agro-negócio (agrobusiness)