A.6 Electrostatic potential for a cylindrical geometry - potential difference
2.1 Physiological function of the interstitium
profunda transformação da velha agricultura tradicional em uma agricultu- ra de tipo empresarial, processo este ligado à penetração direta dos capitais transnacionais na agricultura da região, seja mediante a compra, absorção ou fu- são e/ou associação de grandes fazendas ou plantações, propriedades da burguesia agrária latifundiária.
Este processo, que surgiu na América Latina nos primeiros anos da década de 1970 e produziu um grande salto durante a década de 1980, é expressão da crise da acumulação do capitalismo que abarcava os países centrais, e que deu origem a uma nova onda de exportação de capitais aos países periféricos, e ao crescente peso do campona região, que passou a serchamado de agronegócio. Sua introdução foi parte das mudanças estruturais a que se viu submetida a América Latina como um subproduto da derrota do ascenso revolucionário dos anos 1970 e dos golpes militares que se sucederam em todo o subcontinente.
Segundo o inventor do termo agrobusiness, Ray Goldberg, da Harvard Business School, o agrobusiness compreende todos os indivíduos e organizações que partici- pam na produção, processamento, transporte, armazenamento, financiamento, re- gularização e comercialização do abastecimento de alimentos e de fibras em todo o mundo. Com efeito, segundo Goldberg, o agrobusiness é um sistema – da semeadura até o consumidor – composto de uma série de atividades estranhamente relaciona- das que, juntas, possibilitam a produção agrícola desde a plantação até o mercado.
Dito de outra maneira, trata-se de uma intervenção estrangeira, direta dos grandes monopólios da agricultura, da compra direta de terra, da internacionali- zação da propriedade da terra em mãos dos grandes monopólios, da conformação de verdadeiras agroindústrias, não só para a produção de matérias-primas, senão também para a produção de insumos para a agroindústria.
Estas mudanças, longe de significarem a liquidação da velha estrutura latifun- diária, reforçam-na: os investimentos de capitais, a aplicação da tecnologia desen- volvida, etc., são mais produtivos em enormes extensões de terra; por sua vez, a grande propriedade requer menos desembolso de capital, o que provoca nefastas conseqüências para o campesinato: a expulsão maciça de suas terras, a pauperiza- ção (já que o trabalhador não pode ser absorvido pelas indústrias dominadas pelos grandes monopólios com uso do capital intensivo e aumento da intensidade do trabalho mecanizado, que despreza a mão-de-obra), o desbaratamento dos tradi- cionais cultivos de subsistência que lhes impõem os monopólios agroindustriais. É assim que, no Brasil, a soja elimina a produção de milho, feijão e mandioca. A dieta camponesa básica, formada por estes produtos, tende a ser substituída pelos interesses do agrobusiness.
Discussões estratégicas ou mesmo socioambientais à parte, em nosso país este pro- cesso fica bastante evidenciado, particularmente na região amazônica, onde as maze- las e infortúnios sociais produzidos pelos sucessivos governos militares são analisados e criticados da seguinte forma por Bernardo Mançano Fernandes:
Sob o lema de integrar para não entregar, as terras da Amazônia sem homens que deveriam ser destinadas para os homens sem terra foram praticamente
entregues às grandes empresas beneficiadas pela política de incentivos fiscais. Em seu encaminhamento político, os governos militares utilizaram-se da bandeira da reforma agrária, mediante projetos de colonização, na promessa de solucionar os conflitos sociais no campo, atendendo assim aos interesses do empresariado nacional e internacional. Como o objetivo era colonizar para não reformar, o problema da terra jamais seria resolvido com os projetos de colonização na Amazônia, pois o que estava por trás desse processo era uma estratégia geopolítica de exploração total dos recursos naturais pelos grandes grupos nacionais/internacionais. Assim, o envolvi- mento das Forças Armadas, do Estado autoritário garantiu aos grandes grupos eco- nômicos a exploração da Amazônia. (FERNANDES, 1996, p. 34, grifos do autor)
Segundo Ariovaldo Umbelino de Oliveira (um dos principais estudiosos da questão agrária no Brasil), em 1968 o governo Costa e Silva interveio militarmente no Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (Ibra), criado em 1965 juntamente com o Instituto de Desenvolvimento Agrário (Inda) para substituir a Superintendência da Política Agrária (Supra), criada no governo Goulart. A razão da intervenção foi o relatório Velloso, preparado com base na Comissão Parlamentar de Inqué- rito (CPI) a respeito das denúncias de corrupção, “grilagem” e venda de terras a estrangeiros (OLIVEIRA, 1988b, p. 42).
Mas o pior ainda estava por vir:
[...] a intervenção militar era uma fachada moral que escondia uma estratégia geopolítica, em que os grupos internacionais e nacionais construíam condições polí- ticas para o controle das riquezas naturais do país. Em 1969 o governo criou o Grupo Interministerial de Trabalho sobre a Reforma Agrária (Gera) para analisar os proble- mas que impediam o desenvolvimento de medidas de reformulação fundiária. Esta ação representou a orientação da política agrária do Estado, que procurava fortalecer o corte empresarial da agricultura, por meio de políticas de incentivos fiscais. Nesta época, o governo militar beneficiou vários grandes grupos empresa- riais que adquiriram, nas regiões Centro-Oeste e Norte, imensas áreas de terra para projetos de colonização e projetos agropecuários. Dessa forma, os governos militares com sua política agrária praticavam mudanças no campo sem modificar o regime de propriedade da terra. (FERNANDES, 1996, p. 35, grifos do autor)
Enquanto isso, a miséria camponesa alcançava patamares nunca vistos. Milhões de seres humanos condenados à fome e principalmente à morte por inanição, mas também expulsos da terra. Assim, a presença do agrobusiness nos mercados internos produziu um consumismo insensato dos setores médios mais acomodados das cidades, coexistindo com a subalimentação e a desnutrição no campo e nos pobres das cidades. Com seus ajustes industriais e sofisticação
tecnológica, as companhias alimentícias produziram maciçamente uma impressionante gama de alimentos com maior valor agregado. Elas contribuíram para criar novos segmentos da indústria de alimentos, incluindo os pratos rápidos, instantâneos para serem preparados em microondas, além de bebidas e comidas industrializadas, pretensamente de baixa caloria e gordura, mas de altos preços e grande desperdício.