4.2 Push and pull factors of migration
4.2.2 Working conditions and worker’s rights in the home country
Lenta e quieta a sombra vasta Sem qualidade ou emoção.
Cobre o que menos vejo já Meu coração o que é que esquece?
[…] Se o que sinto foi em vão,
Poesia! Nada! A hora desce Por que me dói o coração?
Excerto do poema “Lenta e quieta a sombra vasta” (1930)
Transcrevemos os versos que iniciam este poema com a finalidade de mostrar a importância do contexto verbal na identificação e análise das metáforas de “hora” nos poemas ortónimos. Nesses versos iniciais, o Eu poético sugere o anoitecer: a sombra (da
164Lakoff & Johnson (1980: 56)
165Lakoff & Johnson (1987: 113) 166Lakoff & Johnson (1999) 167Kovecses (2010: 84, 262) 168Lakoff & Johnson (1999) 169Lakoff & Johnson (1980, 1999)
72
noite). Embora o item lexical “noite” não esteja presente, o facto é que se uma sombra “cobre” lentamente o que era até aí visível, parece-nos que é a sombra resultante do crepúsculo que é sugerida. Esta sombra crepuscular é “quieta” porque a escuridão não é propícia à ação, e é “lenta” porque a escuridão se faz notar progressivamente. Por outras palavras, o Eu descreve, em traços largos, uma paisagem crepuscular nos primeiros dois versos. O uso do advérbio “já” sugere que a sombra cria um obstáculo na hora em que o Eu se consciencializa da dificuldade de visualizar as suas emoções “esquecidas”: Meu
coração o que é que esquece? (v.5) Sem emoções, o Eu sente-se menos humano e a escrita
do poema torna-se difícil.
Isto quer dizer que o Eu não sai de si, ele é metaforicamente a paisagem observada [A MENTE É UMA PAISAGEM]170. Metaforicamente falando, está a anoitecer171 dentro da mente-paisagem, o que significa que o mundo exterior fornece uma representação de um espaço concreto que é ponto de partida para a metaforização da sua mente em termos de paisagem, razão por que concordamos com a seguinte afirmação de Teixeira (2001):
Intuições e imagens são equivalências que só se realizam no espaço. E se o processamento linguístico está profundamente imbricado no processamento de imagens mentais, não é difícil adivinhar a importância fundamental e prioritária que esta duplicidade espaço-imaginário desempenha no mesmo processo. E o espaço é a condição primeira para a génese de qualquer imagem mental.172
A dificuldade em visualizar as suas emoções é metaforizada na sombra que vai escurecendo a mente-paisagem do Eu. Não ver o interior da mente pressupõe não (se) conhecer, como evidencia a metáfora primária CONHECER É VER173, que acentua a dependência entre os domínios ver e saber/conhecer. A mente concetualizada como espaço sombrio não permite a visualização das emoções, concetualizadas como objetos luminosos, na medida em que permitem que o Eu se conheça. Ora, o Eu sente mágoa devido à experiência de uma hora “sem qualidade ou emoção” (v.4). A conjunção disjuntiva “ou” sugere que a hora vivida com qualidade é aquela em que a emoção está
170Esta metaforização da mente é usada por Fernando Pessoa noutros poemas, nomeadamente no primeiro poema analisado neste trabalho.
171Esta concetualização está presente também noutros poemas, como este do qual transcrevemos um breve excerto: “Ah, tudo é símbolo e analogia./ O vento que passa, esta noite fria. São outra cousa que a noite e o vento -/ Sombras de Vida e de
Pensamento.//”. Fernando Pessoa. Excerto do poema “Oiço passar o vento na noite” (1923). 172Teixeira(2001: 165)
73
presente. A mágoa sentida pelo Eu (“Por que me dói o coração?” v.7) repercute-se no Eu, levando-o a concetualizar a hora como objeto em desequilíbrio:
Os mapas relacionados a mágoa, tanto no sentido estreito como largo da palavra, estão associados a estados de desequilíbrio funcional. A facilidade de ação reduz-se. Nota-se a presença da dor, de sinais de doença ou de sinais de desacordo fisiológico, todos eles indicando uma coordenação diminuída das funções vitais. Se a mágoa não é corrigida seguem-se a doença e a morte.174
A hora designa metaforicamente os efeitos corpóreos que a emoção da deceção desencadeiam no Eu – a perda da verticalidade e consequente aproximação da terra: “A hora desce/ Sem qualidade ou emoção” (vv.3-4). O esquema imagético VERTICALIDADE175 estrutura o conceito de “descida” que é, geralmente, associado à negatividade porque é associado à terra, o limite físico da “descida”:
Esta, a verticalidade, baseia-se numa das características mais visíveis que identificam simultaneamente o homem como ser vivo (vida→ verticalidade) e como ser diferente dos outros animais (pelo menos na esmagadora maioria). A verticalidade é também a posição mais apta para garantir a sobrevivência. Para além de uma visualização que abarca um espaço maior (a principal razão que, segundo alguns biólogos terá levado à transformação da postura horizontal na vertical durante o longo processo da evolução), a postura vertical é a ideal para a defesa e para o ataque: cair, significa(va) perder a luta ou mesmo a vida.176
Pelo facto de descer, a hora é concetualizada como objeto que se move de cima para baixo. O eixo imaginário da verticalidade tem uma parte “em cima” e outra “em baixo”. As metáforas primárias FELICIDADE É EM CIMA e INFELICIDADE É EM BAIXO mostram como os conceitos EM CIMA/ EM BAIXO estão associados à experiência humana positiva e negativa, respetivamente.
Neste contexto, a hora é um espaço de tempo concetualizado como objeto em movimento descendente que se inspira na metáfora convencional O TEMPO É UM OBJETO EM MOVIMENTO NO ESPAÇO177. A tristeza experienciada na hora é concetualizada como objeto que desce pelo facto de se repercutir na perspetiva do Eu sobre si próprio, razão por que é uma força que empurra o Eu para baixo, na direção da terra enquanto espaço onde se concretizará a morte do Eu privado de emoções: EMOÇÕES SÃO FORÇAS
174Damásio (2003: 160)
175Lakoff (1987: 276) 176Teixeira (2001: 175) 177Lakoff & Johnson (1980: 42)
74
A metáfora genérica anterior é especificada na metáfora concetual A MÁGOA É UMA FORÇA DESEQUILIBRADORA.
Assim sendo, a hora é concetualizada como força que aproxima o Eu da terra porque a emoção é inseparável da hora em que é percecionada.