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Ergue-te, Gládio E acontece-te no céu!

Tristes doridos sobre a Hora Que se ergue como um cadafalso

E ao pé dele a nossa dor chora

Em choro lento, cego e falso.

Neste poema a hora é concetualizada como um objeto (uma máquina de morte) cujo movimento ascendente vai desenhando no espaço uma linha progressivamente perpendicular ao solo, razão por que a “hora” é concetualizada como cadafalso que se ergue [A HORA É UM CADAFALSO QUE SE ERGUE], que é uma extensão da metáfora convencional O TEMPO É UM OBJETO EM MOVIMENTO124. Uma vez que a hora é concetualizada como objeto que se move “para cima”, a metáfora subjacente à concetualização da hora é a metáfora primária CONTROLO É EM CIMA125 que se combina com o esquema imagético VERTICALIDADE126, visto que o movimento ascensional do “cadafalso” designa metonimicamente, como é sugerido pelo contexto verbal, o domínio da nação por uma ideologia contrária à do poeta, razão que o leva a criar uma imagem alegórica da ameaça que paira sobre a nação. Como a hora é concetualizada como máquina, o poeta sugere que há ideias destruidoras e para esse efeito metaforiza a ideologia ameaçadora numa máquina de morte [IDEIAS SÃO OBJETOS]. Assim, A HORA É UMA IDEIA PERIGOSA → UMA IDEIA PERIGOSA É UM CADAFALSO QUE SE ERGUE → A HORA É UM CADAFALSO QUE SE ERGUE.

A imagem do cadafalso é emocionalmente “forte” porque se trata de uma espécie de máquina construída para matar e é difícil separar o objeto da respetiva função. Como os objetos não são emocionalmente neutros, tal como já dissemos anteriormente, a hora é uma ideia materializada num objeto que mata e a emoção desencadeada pela imagem mental desse objeto. As emoções são concetualizadas como forças associadas aos objetos,

124Lakoff (1993: 216) 125Kovecses (2010: 40)

126Though the concept UP is the same in all these metaphors, the experiences on which these UP metaphors are based are very

different. It is not that there are many different UPs; rather, verticality enters our experience in many different ways and so gives rise to many different metaphors. Lakoff & Johnson (1987: 19)

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em função da avaliação dos mesmos pelo observador ou pelo pensador, no momento em que pensa. O poeta é o pensador emocionado com o estado da nação que decide verbalizar a emoção experienciada na “hora”. Nem as emoções nem o tempo são compreensíveis sem recurso à metáfora concetual; nesta, a seleção do domínio fonte depende da experiência de vida do falante e também do cruzamento entre as vivências pessoais e a mentalidade do grupo social de que o sujeito que metaforiza faz parte.

O recurso a uma imagem alegórica, como a que é explicitada no poema, foi determinada pelo impacto emocional que a visão de um cadafalso teve no poeta, possivelmente porque a máquina tem como alvo a cabeça, que é o contentor metafórico das ideias e o poeta valoriza a mente. Por outro lado, a máquina é fabricada pelos homens para matar os seus semelhantes e o poema sugere que os portugueses são responsáveis pela criação de ideias que os prejudicam: “Tristes, doridos sobre a Hora” (v.5). As ideias podem matar na medida em que são Forças que impelem à ação e esta pode ser destrutiva. Tal como dizemos que as ideias salvam, também o oposto é realidade: “Ter ideias destrutivas”. As ideias “circulam” pelo ar, porque imaginamos que elas saem da cabeça e se difundem um pouco por todo o lado. Por esta razão, o poeta invoca o Gládio, a espada mítica que está no ar para cortar as ideias perigosas: “Ergue-te, Gládio/ E acontece-te no céu!” (vv.3-4). O Gládio e o cadafalso erguem-se ambos, mas o primeiro ergue-se para salvar e o segundo, para matar. A ascensão da “hora” (materializada no cadafalso) significa que a ideologia que vigora no momento (a hora também designa metonimicamente o tempo, uma vez que tem como referente o “agora” da enunciação) é uma ameaça que se manifesta através de uma ação progressiva, tal como as emoções são consciencializadas progressivamente e a propagação das ideias é faseada, ou seja, uma ideia precisa de tempo para ser aceite pela sociedade. A forma verbal na oração relativa “que se ergue” poderia ser parafraseada por uma perífrase verbal (“que se está a erguer”) sugestiva de uma ação em curso. Assim, a hora é concetualizada como objeto em movimento porque as ideias e as emoções por elas desencadeadas se movimentam na mente e fora dela, se pensarmos na difusão das ideias na sociedade.

Em síntese, a hora é concetualizada como ideia-objeto-ameaçador: A HORA É UMA IDEIA AMEAÇADORA. Como emoção desencadeada pela ideia-objeto-ameaçador: A HORA É UMA EMOÇÃO (há emoções que matam) e como força: A HORA É A FORÇA DECORRENTE DE UMA EMOÇÃO. Como a emoção é concetualizada como ação [EMOÇÕES SÃO AÇÕES], a hora-cadafalso move-se ascensionalmente: a hora é uma ideia perigosa em vias de se propagar na sociedade, através do impacto emocional

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progressivo nos portugueses. Uma ação é uma força direcionada a um alvo, que é determinada por uma causa e que desencadeia consequências, como evidencia a metáfora CAUSAS SÃO FORÇAS127. Neste contexto, a hora é uma ideia (a causa) que está em vias de destruir (é uma força) a nação (o alvo).

O uso da preposição “sobre” no verso “Sobre a hora” (v.13) sugere que a hora, ao ser concetualizada como objeto destruidor, é também uma superfície metafórica em que se apoia a nação, no tempo presente designado por “hora”, sugerindo que os portugueses acreditaram e deixaram conduzir-se por ideias que os aproximam da morte espiritual, que é a razão que parece ter levado o poeta a descrever o cenário do sofrimento popular junto da base do cadafalso que lembra o cenário da crucificação de Cristo. As ideias são o alicerce metafórico das condutas humanas e é neste contexto que o conceito de hora é estruturado (enquanto objeto) pelo esquema imagético SUPORTE128, uma metáfora espacial que sugere o poder das ideias, na medida em que podem servir de justificação (ou de suporte metafórico) à morte (metafórica) dos valores simbolizados no Gládio.