• No results found

Neste trabalho, observamos que o grupo relacionou as personagens Anjo e Diabo ao Leão e à Feiticeira Branca do filme Crônicas de Nárnia. As Crônicas de Nárnia ou The Chronicles of Narnia, no original em inglês, é uma série de sete livros de fantasia, escrita pelo autor britânico C. S. Lewis.

O Leão é o criador e protetor de Nárnia e aparece sempre que o país está em perigo. A Feiticeira Branca ou Jadis é a falsa rainha de Nárnia. A série é considerada um clássico da literatura infantil, vendeu, mundialmente, mais de 120 milhões de cópias e figura como uma das obras literárias mais bem sucedidas e conhecidas de todos os tempos, traduzida em 41 idiomas.

As Crônicas de Nárnia foram adaptadas diversas vezes, inteiramente ou parcialmente, para rádio, televisão, teatro e cinema. As Crônicas de Nárnia apresentam, geralmente, as aventuras de crianças que desempenham um papel central e descobrem o ficcional Reino de Nárnia, um lugar onde a magia é corriqueira pois os animais falam e ocorrem batalhas entre o bem e o mal.

No filme, a personagem Leão representa o bem e a Feiticeira Branca representa o mal. Temos aqui expresso o motivo da escolha. Na obra Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, há, também, essa representação, o que denota a interpretação adequada feita pelo grupo.

104

O Onzeneiro, personagem interesseira e que só pensa em lucros, é representado por um empresário, engenheiro e político brasileiro que foi duas vezes prefeito de São Paulo, além de secretário dos transportes e governador do estado de São Paulo e candidato à Presidência da República.

Na política, Maluf associou-se ao conservadorismo político, ao populismo e à realização de grandes obras públicas, como a Marginal Tietê e o Elevado Presidente Costa e Silva.

A carreira de Maluf também foi marcada por seguidas acusações de corrupção e outros crimes – a promotoria de Nova Iorque o acusa de movimentar ilicitamente milhões de dólares no sistema financeiro internacional sem justificativa

fundamentada. Maluf é identificado pela população brasileira, no senso comum, como alguém que tem interesses não em ajudar e em trabalhar, mas em enriquecer através da política.

O Parvo é apresentado como uma moça ingênua e sonhadora, a personagem Encantada do filme Encantada. O Sapateiro é relacionado ao Rabicho do filme O Prisioneiro de Askhabbam da série Harry Potter. No filme ele era lento para aprender, muito fácil de ser influenciado e estava sempre perto dos mais fortes.

106

O Frade tem uma representação que não se adequa a um líder religioso. O grupo resolveu representar o Frade por meio de um político popular no Brasil, que na verdade, era um comediante e nada entendia sobre política.

Brisida Vaz é representada por uma atriz sensual e muito bonita, vestida de vermelho. Não há referências da figura escolhida com as características da personagem apresentada na obra.

Para representar o Judeu, os alunos escolheram uma personalidade admirada por muitos adolescentes por sua irreverência, entretanto, ele é, de fato, descendente de Judeu, o que motiva sua escolha.

Os cavaleiros, únicas personagens que entram, sem questionamento algum na barca da glória ou do paraíso, foram representadas pelas quatro personagens que lutam no filme Crônicas de Nárnia para conquistar Nárnia para o bem. Eles são os irmãos Pedro, Edmundo, Suzana e Lúcia.

Embora a linguagem empregada pelo grupo seja uma linguagem repetitiva, eles apresentaram uma boa relação entre a obra escrita no século XVI e a reescrita, produzida por eles, representando a sociedade no século XXI. Há alguns erros

108

ortográficos e na reprodução gráfica da imagem não conseguimos perceber, mas as falas são apresentadas na sequência em que as personagens surgem na peça. Primeiro entra a personagem que está a direita e fala, depois, consecutivamente a personagem da esquerda.

Faltou um fundo musical, entretanto, o grupo utilizou-se dos sons que existem na transição de um slide ao outro, empregaram apenas um fundo sonoro. O trabalho inicia-se com aplausos.

Podemos observar a apresentação e a representação da dialética Bem e Mal presente na obra vicentina. Os alunos reescreveram o texto com determinada sutileza e apresentaram as características do Anjo e do Diabo em suas representações.

As personagens da obra vicentina foram analisadas no capítulo dois desta dissertação e estão divididas em dois grupos: as personagens alegóricas e as personagens tipo.

No primeiro grupo inserem-se o Anjo e o Diabo, representando respectivamente o Bem e o Mal. No segundo grupo inserem-se todas as personagens restantes do Auto, nomeadamente o Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, o Parvo , o Frade, a Alcoviteira (Brísida Vaz), o Judeu, o Corregedor e o Procurador, o Enforcado e os Quatro Cavaleiros, todas são identificadas por suas características morais e éticas.

Segundo os PCNs (1998, p. 49)

Moral e ética são palavras frequentemente empregadas como sinônimos: conjunto de princípios ou padrões de conduta. A etimologia dos termos (mores, no latim, e ethos, no grego) é mesmo indicativa de um significado comum: ambos remetem à ideia de costume. Os costumes são o primeiro conteúdo da cultura, são maneiras de viver “inventadas” pelos seres humanos. O comportamento dos outros animais é determinado pela natureza - em qualquer tempo ou lugar, uma formiga, um castor, uma andorinha repetem os atos de formigas, castores e andorinhas que os precederam, atendendo às necessidades que a natureza lhes impõe, de forma automática, naturalmente condicionada. Com os seres humanos, é diferente, pois, para atender suas necessidades, criam formas de viver que se diferenciam em tempos e lugares diversos, constroem respostas diversificadas às necessidades inscritas na natureza, reformulando constantemente as respostas, inventando novas necessidades. Suas ações são mediadas tanto pela percepção do real como pela capacidade de formular diferentes respostas a um estímulo, uma necessidade.

Ao reescrever a obra vicentina, os alunos procuraram fazer uma análise das personagens, cada uma com sua representação social no século XXI e com a linguagem característica perante as novas necessidades da sociedade, mas a dialética Bem e Mal apresentada na obra vicentina permaneceu na reescrita realizada.

4.2.2 AUTO DA BARCA DO INFERNO DE GIL VICENTE – UMA RELEITURA DO