2 Theoretical background
2.2 Mechanical pulping processes
2.2.3 CTMP
A prática da justiça é amar, porque amar pode ser definido como a relação correta dos homens, quando estabelecem determinadas relações: para possuírem mais vida e se tornarem mais humanos216 e chegarem a agradar a Deus com seus feitos.
Para Comblin, o tema amor não foi muito tratado pela teologia latino-americana – como pela Teologia em geral – durante o último meio século. Estamos em uma fase histórica em que predomina a esperança – o cristianismo é vivido mais espontaneamente como esperança217. No entanto, não pode-se perder de vista a escala dos valores, pois o amor por mais que esteja esquecido como prática ao outro, juntamente com Comblin vê-se a necessidade da retomada do tema, amor ao próximo, como função primordial para implantação da justiça.
Na afirmativa de Gustavo Gutiérrez sobre justiça, o escritor deixa claro da seguinte forma: ―Conhecer a Deus é fazer justiça218‖. O conhecimento de Deus é o amor por Ele. Na
linguagem bíblica, conhecer não é fator puramente intelectual é estabelecer relações justas entre os homens, é também reconhecer os direitos dos pobres – conhecer significa amar e pecado é ausência de conhecer a Deus219 e quando isso não acontece pode-se dizer que Deus é ignorado. É nesta ausência de conhecimento que se cria relações de injustiça e se opta pela opressão e luta contra a libertação, ainda se fingindo crer em Deus. Para Comblin, o amor vem primeiro:
―Deus é amor e, por conseguinte, somente pode estar presente em nós por dom de Deus. O conhecimento de Deus é diferente de qualquer outra experiência de conhecimento. O amor não deriva do conhecimento como acontece na vida diária: mas o amor vem primeiro e dele deriva o
216 ARAYA, Victorio. El Dios de los Pobres. São Pedro de Montes Oca, San José Costa Rica: DEI, 1985, pg.
141.
217 COMBLIN, José. O Caminho: um ensaio sobre o seguimento de Jesus São Paulo: Paulus Editora, 2005, pg.
137.
218 GUTIÉRREZ, Gustavo. A Força Histórica dos Pobres. Petrópolis: Editora Vozes, 1984, pg. 20. 219 Ibidem pg. 21.
conhecimento. Quem conhece a Deus ama-o. Esse seria o caminho habitual nas nossas relações humanas. Seria reduzir o amor a Deus ao nível dos amores terrestres. Deus é diferente. Constantemente as pessoas religiosas tendem a procurar amar a Deus da maneira como alguém ama outra pessoa. Por exemplo, oferecem coisas que acham que devem agradar a Deus, porque agradam aos amigos. Mas Deus não quer receber coisas. Quer que amemos com o amor que dele procede‖220.
Apesar dessa diferença de pensamentos entre os autores citados, ambos concordam que amar é dar vida e ter vida comum relacionada a uma sociedade mais justa. Então, o Evangelho expressa claramente que amar é fazer, os sentimentos, gestos e sinais simbólicos não são suficientes. O que se valoriza no amor são os atos práticos, que produz resultados visíveis, o que realmente beneficia o outro, e não somente falar ou sentir. Amar é uma opção de vida, e por isso resulta de uma conversão – aquela que constitui a orientação definitiva da nossa vida221.
Outra forma de amar é se solidarizar com o próximo, pode-se dizer que solidariedade para Comblin não é dar algo ao outro e sim dar-se ao outro, ou seja, deixar se afetar pelo sofrimento de outros seres humanos, fazendo com que as barreiras sociais sejam eliminadas e o homem possa ser tratado como igual. Monsenhor Romero222 afirmou muitas vezes, de forma
220 COMBLIN, José. O Caminho: um ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo: Paulus Editora, 2005, pg.
141.
221 Ibidem pg.140.
222 Monsenhor Óscar Arnulfo Romero: Nasceu na cidade de San Miguel em 15 de agosto 1917, Arcebispo de
San Salvador, em El Salvador. Romero assumiu a diocese de San Salvador no meio de um conflito bélico em todo o país. De uma pastoral tradicional e com uma formação teológica conservadora. Ele teve que assumir rapidamente uma liderança frente à situação que vivia seu povo. Assumiu então uma postura difícil de pastor e profeta frente ao sofrimento causado pela pobreza extrema, a marginalização e a perseguição, levada até ao extremo de tortura e martírio, que sofreu o povo. Sua última missa foi na segunda-feira, 24 de março de 1980. Às seis e vinte e cinco da tarde, no momento do ofertório, quando o pão e o vinho são apresentados ao Senhor antes de ser consagrado pelo oficiante, um franco-atirador mirou nele, e com a destreza de um criminoso treinado, assassinou Monsenhor. Com um tiro na altura do coração, pretenderam dar fim ao profeta do povo que um dia antes, na homilia dominical na Catedral de San Salvador, havia feito um chamado aos homens do exército, às bases da Guarda Nacional e da Polícia para que deixassem de matar o seu povo. Disse: ―Nenhum soldado está obrigado a obedecer uma ordem contra a lei de Deus... Já é tempo de recuperarem sua consciência e obedecerem antes à sua consciência que à ordem do pecado‖. E acrescentou: ―Queremos que o governo leve a sério que de nada servem as reformas que vão tingidas de sangue‖. Seu delito foi condenar as infâmias do governo, denunciar a violência das forças militares e reclamar justiça para seu povo; e pagou esse delito com a sua vida. Seus inimigos cobraram seu atrevimento profético silenciando sua voz naquela tarde, enquanto cumpria com seu dever de pastor na capela do Hospital da Divina Providência. Suas demandas tornaram-se inaceitáveis para os poderosos. Sua pregação em defesa dos mais necessitados não foi tolerada pelos opressores e violentos.
lapidar: ―Se queremos que a violência cesse e que cesse todo mal-estar, temos que ir até a raiz. E a raiz está aqui: na injustiça social‖. O problema da pobreza é fundamentalmente a justiça223 e
ela se realiza no amor ao próximo que se demonstra na solidariedade; e, na medida em que a pessoa ama a Deus, agirá concretamente pelo amor ao outro; e, na medida em que ama o conhece e age de modo particular com o pobre, com o marginalizado, com o rejeitado, através do serviço. Ou seja, a conversão necessariamente nos leva a ser solidários e a favor da justiça.
―De acordo com o evangelho, o encontro com Deus realiza-se no encontro com o homem, de modo particular no encontro com o outro, com o pobre, com o marginalizado, com o rejeitado. Se é verdade que o cristianismo, como todas as religiões, inclui uma caminhada de reconhecimento de Deus pela interioridade ou pela experiência da natureza, é mais verdade o fato de que é mais específico do evangelho a experiência de Deus na aproximação com o outro. O que Jesus ensina é o encontro com Deus não pela mente ou por atitudes interiores, e sim pelo agir concreto, pelo amor que é serviço‖224.
Portanto, a justiça é amar a Deus e o próximo, e Cristo coloca essa ação como um mandamento único, pois alguns podem amar pessoas, como ateus, e deixar de amar a Deus. E outros, como místicos, amam a Deus e não conseguem amar as pessoas, porém esta ordem leva um peso de aproximar as pessoas diferentes para próximo do amor que Deus deseja para o ser humano, além dessa afirmativa, pode-se ver no amor cristão que não é possível separar as dimensões horizontais e verticais da vida cristã, isto é, o amor a Deus desemboca em serviço e amor ao outro, e assim, proporcionar justiça entre os seres humanos, ocasiona vida para todos. Amar é dar vida ou pelo menos ajudar a ter mais vida, já que somente Deus dá a vida. Amar é fazer com que aquele que estava rejeitado seja aceito, aquele que estava excluído seja incluído. Em vista disso, o reino de Deus é amor e vida. Amar é como fez Jesus: ―salvar‖. Jesus foi enviado como salvador, e também o somos. O evangelista João escreve ―assim como o pai me enviou eu envio a vós‖, (João:
223 SOBRINO, Jon. Onde está Deus? São Leopoldo: Editora Sinodal, 2009, pg. 101.
20.21). A salvação consta de muitos aspectos diferentes225. Há lugar na sociedade para muitas pessoas dispostas a amar. Salvar é dar a vida, mesmo que essa prática de justiça se torne exigente e radical a ponto de dar a própria vida, como exemplo da morte de Jesus abrindo assim espaço para vida. Somente se abre espaço para vida do outro quando se abre a vida para o próximo obter vida, como forma de justiça, quando se ama ao ponto de se tornar fraco com aquele que é fraco. Deus se tornou fraco e com isso amou e Comblin argumenta da seguinte forma:
―Deus torna-se fraco porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade? Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça ao aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das forças. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.‖(Jo. 15. 13). Aí está também a expressão suprema da liberdade‖226.
A articulação da atualidade nessa sociedade é sempre estar em vantagem e superioridade entre os outros, porém como insiste o autor, a força não determina a justiça nem a violência, sejam elas quais forem o que estabelece a justiça é estar do lado dos fracos e fazer com que eles sejam a resistência desse sistema que foi imposto, de que em tudo precisamos vencer e ser alguém acima dos outros que não possuem vida.