4.3 Women, naturally peaceful?
4.3.1 Women in conflicts and at war
Pensar na escola, na possibilidade de retornar à carreira estudantil, e nela investir, eram fatos importantes na vida das educandas da EJA aqui tratadas. Não se pode desconsiderar que ainda, em nossa sociedade, a mulher ocupa, na maioria dos casos, o lugar da “dona de casa”, sendo, em tantas outras vezes, a responsável pela manutenção e cuidados com a casa. Investiguei se isso acontecia, também, na vida dessas mulheres e qual o peso disso no processo de aprendizagem.
Ester disse que o seu trabalho em casa era de grande monta, mas que
se tornou uma rotina de vida do cotidiano, pra mim, de segunda a segunda. Então, eu saio pro trabalho, eu já deixo um monte de coisa na minha casa já feita, chego do trabalho algumas coisas não dá pra fazer mesmo de noite, mas outras são, assim eu chamo aquilo de, pra mim aquilo já é como rotina. Então assim, eu levantar de manhã, fazer um café, deixar um mesa, aposto meus filhos, o que eles vão tomar de café, uma lancheira arrumada, essas coisas assim já deixar lá, chamar minha menina falar com ela que ela vai levar e de noite eu chegar revisando caderno, arrumando mochila, já colocando uniforme de novo, isso pra mim já é rotina de vida, então eu já nem comento mesmo não.
Ana disse ter uma rotina na lida com a casa.
É igual a Ester falou, é do cotidiano da gente mesmo, chegar do servi... deixar os uniformes dos meninos ajeitado, arrumar casa é mais no final de semana mesmo, porque dia de semana não dá. E tento fazer o possível, deixar o que posso deixar arrumado, o que eu puder deixar adiantado, o café dos meninos, tudinho, eu já deixo já adiantado também.
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Vou pro fogão fazer janta ué. Fazer janta, lavar vasinha, mexer com trem,
mexer… Vida de dona de casa não para não. Chego, vou fazer janta, tomo
banho e venho pra escola estudar. [depois] Pra cama. Vou direto pra cama. Tem meus menino, mas eu deito lá na cama lá e deixo minha menina tomando conta deles lá e apago.
Ela mencionou dividir parcela do cuidado dos filhos com a filha mais velha, Provavelmente ensinou a filha a fazer isso, pois extenuada por um dia de trabalho e de uma jornada noturna na escola, precisava descansar, mas, para isso, alguém precisava olhar as crianças.
Para Letícia, a situação era um pouco diferente, pois, como trabalhava fora a maior parte do dia,
quem cuidava de tudo lá em casa era minha mãe. Tudo era ela. O único trabalho que eu tinha à noite quando eu chegava do serviço, essas coisas, era o para casa da minha filha, o uniforme dela, era o cabelo, ou a minha filha tava passando mal levar pro hospital, essas coisas né. Agora a rotina da casa mesmo era por conta da minha mãe, só nos finais de semana, que aí eu dava uma faxina na casa, ajudava a passar uma roupa, essas coisas assim. Mas eu não tinha aquela responsabilidade... todo o dia eu chegar e lavar vasilha e fazer comida, lavar roupa, isso aquilo. A única obrigação que eu fazia lá em casa do serviço era só com a minha filha, que meus meninos já é tudo homem, né. No mais tudo da casa era minha mãe, que ela não trabalhava fora e eu sustentava a casa e ela cuidava das coisas pra mim.
Perguntadas se o trabalho em casa atrapalhava-as a estudar, Ana respondeu de imediato que não. Inicialmente, Ester mostrou-se ponderada.
Às vezes, às vezes, no meu caso, por exemplo assim, às vezes alguma coisa atrapalha, porque se eu tirar um tempo pra mim fazer, estudar, por exemplo, cheguei, mas tem uma matéria, eu sei que no serviço não e eu vou estudar, aí eu tenho uma coisa lá em casa pra fazer, aí o que que eu faço. Eu abro a mão do estudo e continuo a fazer a coisa de casa, porque assim, são coisas que ficam esperando por mim mesmo. Aí às vezes, até eu falo com meu esposo assim, nossa, mas porque você não fez. – Ah não, deixei pra você. – Então tá bom. Aí eu deixei a escola de um lado por causa das obrigações de casa. Mas assim... no outro dia já acumulou aquela coisa que era de hoje e mais outra coisa pro dia de amanhã, ainda. E assim vai.
Mas continuou dizendo que nem sempre essa era uma situação tranquila.
Ahhh. Às vezes eu quebro o pau. Ahhh, eu não conta não, eu sou uma só, eu não dou conta não, cês vão me matar, cês vão conseguiiiiiiiiiiir. [risos]. E o pior é que eu continuei fazendo. Ana me conhece quando eu chego lá em casa.
E falou da reação de sua família.
Quando o generalzinho aqui em casa chega. Aí eu falo assim, aí eles já fica assim: oh meu Deus, já devem ter pensado, nossa senhora chegou o general. Aí eu olho prum canto, não fez, beleza! Me aguarde! Vai perder isso. Ahhh, Ah, ah. Não deu, beleza. Aí meu marido... Não tem conversa! Eu tô tralhando pra te ajudar, agora já que você não pode me ajudar. Então também eu não vou ajudar.
Contou um fato ocorrido com ela e o marido no dia anterior, referindo-se ao episódio do marido ter perguntado a ela se tinha dinheiro.
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– Pra quê? Me fala por que a causa do dinheiro que você quer meu! – Oh Ester, quem vê você assim acha que eu sou o gigolô seu.
– Não, você não é meu gigolô, simplesmente eu tô sustentando um
pouquinho a mais que você. Pra quê que cê quer o dinheiro?
– Pra mim comprar remédio.
– Aí eu, aqui, quem tá com a dor né você não é? Então passa na farmácia e
compra.
– Ah, mas eu não tô com dinheiro não.
– Tem cartão de crédito não tem, não importa passa isso lá. – Ah não vou comprar não.
– Então problema, morra pra lá. Mas não morra falando que eu te... [risos].
Ester não recebia, em casa, auxílio nos afazeres domésticos. Mesmo ela considerando que se os familiares ajudassem poderia ter um tempo maior disponível para os estudos, ela mesma apontou que não abriria mão daquilo que achava que já fazia parte de sua rotina: o trabalho doméstico.
Ao estimular Ester a contar um pouco mais do seu cotidiano, perguntei para ela o que fazia ao retornar para casa. Ela disse que
quando eu volto pra casa, assim quando eu chego lá em casa já.. tá… já deixei os menino.. é.. dei lanche, janta… Meu marido já deu janta pros
menino, então quando eu chego eles já tão deitado aí sobra pra mim.. Aí vai assim, zumzumzum na cabeça aí eu falo: Pronto, basta, basta, basta! Num guento não. Aí eu dou um basta porque às vezes eu chego estressada. [...] Eu
fico doida! Eu falei… Eu vou ficar doida, não guento mais.
Ela não sabia dizer se o que a fazia sentir-se mais cansada era o trabalho durante o dia, a escola ou, ainda, o trabalho doméstico, no retorno depois da escola.
Eu acho que é o que me cansa mais é… Assim, tudo cansa mas tipo assim…
Acho por eu não trabalhar saindo direto, direto, direto, então assim, tudo sobra só pra mim. Aí eu chego em casa um problema já tá.. Pronto! Aquele zumzumzum de menino, o tempo todo falando. Faz isso. Ah não, eu tô cansada, trabalhei demais! Eu falo, meu filho, pelo amor de Deus, tira um pouquinho da carga da sua mãe porque é assim direto. Eu não tô trabalhando. Desde o ano passado que eu parei de trabalhar, final do ano. E isso é assim o tempo todo. Eu tenho que ficar atenta de tudo, num me ajuda em nada.
Ester avaliou que, independente de tudo, ela tinha as suas responsabilidades com a família e com a casa, mas não podia perder de vista a escola.
Porque assim, trabalho vai existir aí eu tenho que saber… Eu tenho que saber
dividir meu tempo. [...] Aí segunda-feira, terça-feira, tem aula até quinta. Ah, seis e meia, a aula começa sete horas, falta meia hora, tô tão cansado, não vô. Quem tá saindo no prejuízo? A escola ou eu? É eu que tô saindo no prejuízo. Porque eu preciso aprender, tendeu? [...] Enfim, quem precisa sou eu. Então como se diz, se eu cheguei cansada ou não, faltando dez minutos ou cheguei em cima da hora, mas se eu moro perto, eu vou correr pra escola. Porque quando eu chegar em casa, eu faço minhas coisa. Se não deu pra fazer
janta… Igual eu falei lá em casa, não deu pra fazer janta, não deu. Pronto, faz
alguma coisa, engana, come ou dorme. Faz um lanche, dorme. No outro dia deito mais cedo, vou chegando da escola, tomo um banho. Se não der tempo de tomar banho, deito e vou dormir. [...] Então assim, pra mim faz muita
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falta, então eu gosto de levar as coisas.. Tudo aquilo que eu pego, eu gosto de levar com responsabilidade. Porque é questão de responsabilidade.
Letícia, referindo-se à rotina que assumiu depois de morte de sua mãe, contou que quando saía do serviço, ia direto para casa. Ela relatou suas atividades, quando chegava do trabalho, e complementou depois, dizendo como era, quando voltava da escola.
Aí eu venho, troco de roupa, venho embora, tomo banho na minha casa, faço janta pros meninos, ajeito o que tenho que ajeitar, uniforme pra minha filha ir pra escola no outro dia e vou dormir. Quando eu chego em casa da escola, eu faço marmita dos meus menino, né! Chego do serviço, da escola, faço marmita, vou ver as coisa da minha filha. Para casa, esses negócio todo, né! Dá uma ajeitada na casa também que quando eu chego tá de perna pro ar. E tomo um banho, janto e vou dormir.
Camila foi mais sucinta e disse que fazia tudo em casa: lavava, passava, cozinhava, e deixou o entendimento, também, que isso já estava naturalmente incorporado em sua rotina. Em compensação, foi a única das entrevistadas que falou um pouco da preocupação em ter algum tempo com atividades de lazer. Ela disse que, nos finais de semana, “ah, final de semana eu saio um pouco, tomo uma cervejinha. Isso só.”.
Percebo que as educandas mostram aqui que suas experiências de vidas culminam em aprendizagens que são incorporadas aos seus cotidianos de dona de casas e que isso ajuda a lidar com possíveis dificuldades que se apresentam por cumprirem duplos papéis. Isso as ajuda a estarem preparadas para o estudo e estarem presentes na escola.
As experiências são processos vitais e únicos: expressam uma enorme riqueza acumulada de elementos e, portanto, são inéditos e irrepetíveis. Por tudo o que já foi mencionado, é que é tão apaixonante, como exigente, a tarefa de tentar percebê-las, extrair as suas aprendizagens e comunicá-las. Tentamos apropriar-nos criticamente das experiências vividas e damos conta delas, compartilhando com outras pessoas o que foi aprendido. Isto implica registar os acontecimentos e posteriormente ordenar e reconstruir o processo vivido, para poder realizar uma interpretação crítica dele, extrair aprendizagens e partilhá-las. (JARA, 2009)