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2   Task 1: State‐of‐the‐art

2.3   Wind and energy

2.3.3  Wind velocity in the urban context

“Toda experiência é construída ou, melhor dizendo, toda experiência é em construção”.Figueiredo.20

Neste capítulo pretendo contar como a busca de compreensão sobre o funcionamento mental de crianças com inibição intelectual permitiu aproximar as duas vertentes de formação e atuação como psicopedagoga e como psicanalista, desenvolvidas inicialmente de forma paralela. Tenho claro que não falo do que realmente aconteceu e sim daquilo que a memória – enriquecida por muitas outras experiências pessoais e profissionais – alcança.

Recorte do quadro de inibição intelectual

Desde o início do meu trabalho clínico tanto nas escolas quanto nas Clínicas de Saúde Escolar e, também, no consultório, era o grupo de crianças com inibição intelectual o de diagnóstico mais grave, o que mais me mobilizava a uma reflexão, constituindo um objeto privilegiado de observação e questionamentos21.

O que me intrigava é que, além da dificuldade para fazer o diagnóstico diferencial dessas crianças, elas apresentavam uma boa evolução e desenvolvimento, principalmente, quando alguém da família e/ou da escola

apostava no seu potencial e se envolvia com elas de forma genuína. Entretanto,

não era isso o que a literatura psicanalítica, especialmente a kleiniana, preconizava sobre o quadro.

20 FIGUEIREDO, L. C. (2002) O tempo nos processos de singularização (apostila usada em aula).

21 Isso foi tema do cap. 6 em Pelos caminhos da Ignorância e do Conhecimento e dos cap.4 e 5 em Pelos

Soifer conta que Pichón-Rivière cunhou o termo oligotimia ou inibição cognitiva para estabelecer a diferenciação entre esse quadro e a oligofrenia (deficiência mental). Na classificação que faz sobre os quadros psicopatológicos, numa perspectiva psicanalítica, Soifer inclui esse quadro no grupo das psicoses simbióticas e salienta um prognóstico bastante desfavorável para ele. Descreve as características das crianças oligotímicas da seguinte maneira:

crianças com características autistas e, ao mesmo tempo, simbióticas, que mostram retração e dependência (...) apresentam persistência de situações orais primitivas associadas a núcleos depressivos e a intensa ansiedade de separação, a traços de fixação anal e elaboração deficiente da problemática edípica. Excessiva ansiedade paranóide constitucional ligada a ansiedade de aniquilação no início da vida. (SOIFER, 1985, p.115)

Além do forte colorido kleiniano, trata-se de um prognóstico bastante fechado. Note, caro leitor, que o meu interesse em investigar o quadro de inibição, como psicopedagoga, nasce da distância entre o que observava a partir da experiência especialmente na instituição e o que a literatura psicanalítica falava sobre elas. Na busca de compreender tal distância, após 1987, época em que saí da Secretaria Municipal de Educação, segui aprofundando o estudo sobre o funcionamento mental dessas crianças que, apesar de inteligentes, não aprendiam. Diferentes autores contribuíram para o meu caminhar.

Na realidade, o meu percurso no campo dos problemas de aprendizagem foi influenciado por duas linhas que se desenvolveram, a partir da contribuição de Freud e Klein, na Argentina, nas décadas de 1960 e 1970. Uma desenvolvida por meio das contribuições de Pichón-Rivière, que cunhou o termo oligotimia ou inibição cognitiva, e outra que continuou usando o termo inibição intelectual. Enquanto Pichón-Rivière – perspectiva adotada por Paín – acrescentava a

dimensão social à abordagem de Klein, Luzuriaga acrescentava a contribuição de Bion à de Klein, cunhava a noção de contra-inteligência22 e seguia usando o termo inibição intelectual. O uso de terminologias diferentes para nomear o mesmo quadro já evidencia diferentes concepções e anuncia a complexidade do tema.

As questões mobilizadas pelo diálogo entre a prática e diferentes contribuições teóricas.

Na estação anterior, contei que na década de 1980, era difícil a inserção de questões ligadas ao campo dos problemas de aprendizagem no meio psicanalítico que eu freqüentava. A crença era de que a dimensão emocional, afetiva,- organizava e dirigia o desenvolvimento psicomotor e cognitivo. A ludoterapia era a técnica utilizada e o foco era o mundo interno de relações objetais e a fantasia inconsciente da criança. Os fatores ambientais pouco contavam, mesmo quando havia queixas de problemas de aprendizagem. O mesmo acontecia com os psicopedagogos que mantinham um distanciamento em relação a temas psicanalíticos voltados para a participação do inconsciente e da subjetividade no processo de aprendizagem. Assim, era difícil o diálogo entre os profissionais dessas áreas, o que dificultava uma interlocução significativa.

É preciso lembrar que durante a minha formação como psicanalista havia começado minha análise pessoal e algumas supervisões na tradição do modelo Kleiniano, sendo essa perspectiva uma das adotadas no curso que eu fazia no Instituto Sedes Sapientiae – SP. Como era comum naquela época, me via muito mais submetida à dimensão conceitual do que propriamente ao movimento presente na experiência com o paciente. Como é sabido, a experiência vivida nas supervisões clínicas e, especialmente, na análise nos marca profundamente.

Outra experiência, também marcante, foi proveniente de um grupo de estudos formado por mais quatro psicanalistas. Nele, aprofundávamos o estudo da leitura histórico-crítica da obra de M. Klein, realizada em dois volumes, por J. M

Petot23. e, também, a leitura de A Pulsão de morte24, um livro resultante dos

trabalhos apresentados por vários autores, durante o Congresso de Marselha, realizado em 1984. Ambos foram publicados no Brasil, em 1988.

A mola propulsora das indagações e do diálogo com tais publicações provinha da clínica e se relacionava com o tema da repetição da pulsão e da possibilidade de mudança psíquica dos pacientes. No meu caso, o das crianças com inibição, especialmente, na experiência institucional.

A Contribuição de Green e Segal

No final de março de 1984, foi realizado o Simpósio de Marselha em que várias questões foram colocadas, acerca da pulsão de morte. “Seria tal noção

necessária para compreender a natureza conflitiva do jogo pulsional e a idéia de morte na atividade psíquica? Permitiria ela explicar os limites da ação terapêutica e daria conta das estruturas psicopatológicas?” (GREEN, p. 95). Em síntese, a

indagação era: qual a utilidade da teoria sobre a pulsão de morte, tendo em vista a prática clínica? O que manter dela?

O curioso foi que dos pensadores ali presentes, os que mais se aproximaram foram Hanna Segal e André Green. Ambos reconheciam a importância da noção de pulsão de morte na clínica, relacionando-a com a noção de desinvestimento. Em Hanna Segal, há uma fantasia de desinvestimento que expressa um ataque contra o desejo. Para ela, todo narcisismo é uma expressão da pulsão de morte, na medida em que é desobjetalizante, o que a aproximou de Green, que já havia feito referência à noção de narcisismo de morte. Além de reconhecerem que o desinvestimento das representações era obra do instinto de morte, havia uma concordância em articular a pulsão de vida com a função objetalizante e a de morte com a função desobjetalizante.

23 PETOT, Jen-Michel. Melanie Klein I e II. Estudos 96. São Paulo: Perspectiva, 1988. 24 GREEN et al. A pulsão de morte. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo: Escuta, 1988.

Interessante resgatar os pontos que me mobilizaram na época e determinaram a mudança que foi se operando, aos poucos, no meu modo de pensar. O primeiro foi o salientado por Green: a compulsão à repetição é uma propriedade fundamental da pulsão em geral e, em particular, da sexualidade. Em toda pulsão, há uma tendência repetitiva, como já apontava Freud; assim, a pulsão, conclui Green é conservadora e, portanto, ligada à compulsão e à repetição. Esta é ainda mais forte quando ligada à pulsão de morte.

O exemplo apresentado por Green, para ilustrar tal idéia é brilhante e inquestionável. Ele estabelece uma diferenciação entre o luto estruturante, salientando o seu caráter de mudança e o luto impossível, sempre infiltrado por elementos destrutivos, opondo a melancolia ao luto. Hanna Segal acrescenta, na mesma linha de Green, que enquanto o instinto de vida permite a elaboração do luto e a simbolização, sendo uma força de adaptação e de mudança, as forças de morte são estáticas. Se são estáticas, levam a uma paralisia.

Durante um tempo, fez sentido, para mim, a idéia de Isabel Luzuriaga de que a inibição intelectual seria fruto de um conflito em que a pulsão de morte levaria a melhor, já que o que observava nas crianças com inibição era uma impossibilidade de movimento, de brincar e de estabelecer trocas com o mundo externo.

Não me aprofundarei, aqui, nas apresentações de Segal e Green. Entretanto, um outro ponto assinalado por Segal é importante. Segundo Freud, negociamos com a pulsão de morte desviando-a para dirigi-la contra os objetos. Após ilustrar com o exemplo clínico do impulso de um paciente de querer matá-la, como único meio de enfrentar a morte dentro dele, Segal afirma que Klein vai mais longe:

(...) O ponto de vista de Melanie Klein, tal como o compreendo, é que o desvio da pulsão de morte, contra os

objetos, não é apenas uma transformação em agressividade, mas antes de mais nada uma projeção. Ao mesmo tempo, a pulsão de morte de dentro se torna agressividade (o desvio de que fala Freud) dirigida contra o objeto mau criado pela projeção original. Na situação analítica, a projeção da pulsão de morte é freqüentemente muito potente e afeta a contra-transferência. (p. 39-40).

(grifos nossos)

Isso significa que, se em Freud, a pulsão de morte opera de forma sutil, disfarçada e silenciosa no próprio corpo do indivíduo, em Klein ela é extremamente turbulenta, atingindo o ambiente, impedindo a discriminação e lançando o indivíduo num estado confusional.

De qualquer forma, o ponto que interessa para este trabalho relaciona-se ao aspecto de compulsão à repetição – propriedade fundamental da pulsão em geral, e, em particular, da sexualidade, sendo mais forte ainda, quando ligada à pulsão de morte, conforme ressaltado por Green.

A contribuição de Petot

Ao resgatar anotações da época do grupo de estudos, verifiquei que as questões significativas encontram-se no vol. II – mais especificamente, nos capítulos 11, 12 e 13 da obra de Petot (1988). O primeiro trata da questão da inveja e da gratidão, o segundo da relação entre a metapsicologia kleiniana e os processos de mudança e o terceiro da atualidade das últimas concepções kleinianas.

No capítulo 12, Petot assinala que, para Klein, o objetivo do trabalho psicanalítico seria facilitar a integração no ego da parte destrutiva, invejosa e voraz, até então, destacada pela clivagem e projetada no outro. Essa integração

efetuar-se-ia na e pela depressão, bem como estaria relacionada com o desenvolvimento da capacidade de reparação.

O encontro com Petot foi providencial. Ao focalizar a meta psicologia kleiniana e a questão da possibilidade de mudança terapêutica do paciente, ao longo de uma psicanálise, ele discute a importância do papel etiológico dos fatores do meio, nas últimas concepções de Klein. Salienta que as declarações otimistas rareiam a partir de 1946. Em 1952, em Inveja e Gratidão, ela admite que “a existência de fatores inatos assinala os limites da terapia psicanalítica”.

Segundo Petot: “Mais preocupada em avançar sua prática do que

fundamentá-la em teoria, ela pôde simultaneamente formular as premissas de um raciocínio que, levado a sua conclusão, afirmaria a imutabilidade da constituição psíquica”. (PETOT, 1988, p.174)

Para Klein, a inveja implica a destruição do objeto e é uma expressão sádico-oral e sádico-anal dos impulsos destrutivos a operar desde o início da vida. Sabemos que tais impulsos provêm da intensa ansiedade persecutória despertada pelo nascimento, sendo a sua base, portanto, constitucional. Dessa ansiedade decorre a relação dupla com a mãe, isto é, com o seio bom e o seio mau. Essa seria a projeção originária de que fala Segal.

Não bastasse o fato de a relação inicial com o seio ser já naturalmente difícil, ela poderia, ainda, ser agravada por circunstâncias externas, tais como parto difícil, falta de oxigênio etc. Nesses casos, a capacidade do bebê de experimentar fontes de gratificação é prejudicada, pois ele não pode internalizar suficientemente um objeto primário realmente bom.

Assim, tanto a inveja quanto a pulsão de morte atacam até mesmo a vida e as fontes de vida. Klein nunca mudou seu pensamento em relação ao que afirmou,

especialmente, entre 1929 e 1946: o verdadeiro amor objetal funda-se na culpa e na necessidade de reparar.

Em 1952, ela reafirma, de forma categórica, o mesmo de 1946: "(...) o ego

está presente e ativo desde o começo da vida, o que deixa claro que o ego não se forma, que ele dispõe de uma força constitucional, ou seja, inata e repartida de forma desigual, segundo os indivíduos". (PETOT, 1988, p 163).

E quanto ao peso dos fatores do meio? Ele seria, por princípio, nulo: o indivíduo teria apenas uma quantidade limitada de agressividade a gastar para responder às privações ou aos acontecimentos que sinta como desagradáveis.

Ainda segundo Petot, Klein:

tende a sucumbir ao peso de uma verdadeira ideologia constitucionalista, a qual parece não apreender o caráter aporético. Após ter admitido que as privações reais podem modificar um certo equilíbrio pulsional e dar lugar à avidez, ela limita radicalmente o alcance desta afirmação, assinalando que a avidez sobrevém tão mais facilmente na medida em que o componente agressivo inato é mais poderoso e não hesita em concluir: conseqüentemente a força das pulsões destrutivas em sua interação com as pulsões libidinais fornece a base constitucional da intensidade da avidez. (PETOT, 1988, p.173).

Paín e o modelo pulsional de Klein

Ao discutir o texto kleiniano de 1952, Paín (1989) aponta que, se o lugar do sadismo na obra de Klein permanece o mesmo desde 1933, o mesmo não ocorre em relação à angústia persecutória que passa a estar mais ligada ao medo de aniquilamento vinculado ao instinto de morte do que ao medo da Lei de Talião.

Paín assinala que, para Klein, o motor do interesse do bebê pelos objetos novos e pela simbolização procede das pulsões destrutivas. Considera, também, extremamente difícil sustentar a hipótese de um sadismo e de um narcisismo primário, a menos que se veja aí a projeção do adulto. É ela quem afirma:

O sadismo é o prazer provocado pelo sofrimento de outrem. Para ter um prazer sádico seria preciso, não somente, que esse sofrimento fosse percebido claramente como estando no outro, mas também que fosse diferente do prazer que o sádico sente. Sabemos que a criança só tardiamente é capaz de presumir no outro sentimentos que ela não sente simultaneamente (...). Além disso, dado que a noção de parte e de todo como continuidade interdependente é bastante tardia, seria impossível para o bebê conceber uma idéia de destruição sem ter, ao mesmo tempo, idéia de fragmento. Ora, o bebê habita um universo absolutamente fragmentado, à maneira de um quebra-cabeças disperso e variável, cuja organização lenta e laboriosa é o resultado da ação sobre as coisas. Como o despedaçamento, sendo anterior à noção de objeto, não pode inicialmente ser imaginado como diferença. A tensão que o adulto sente perante um lactente que grita é acompanhada de uma urgência para acalmá-lo. O adulto pode ser conduzido, então, a atribuir ao bebê intenções agressivas, mas para o pequeno é a única maneira de mobilizar o meio. O sadismo é instalado no bebê como uma projeção do adulto que dá significação aos seus gestos e comportamentos. “Que impaciente! Seja bonzinho! Como tu és mau! Não chore!” introduzindo-o num universo ético.”25

(PAÍN, 1999, p.146-7)

25 PAÍN, S. A função da ignorância. As estruturas inconscientes do pensamento. vol. 1. A gênese do

Paín assinala que o bebê demonstra mais curiosidade do que temor quando ocorre a destruição de um objeto que ele manuseia, a não ser quando os pais reagem violentamente. Ainda segundo Paín: “(...) o bebê é um pesquisador: ele

vai colocar o fantasma à prova inúmeras vezes para tentar conhecer a causa eficaz da reação materna”.( PAÍN, 1999,p.146).

Penso que o encontro com Sara foi significativo. Ela dava ainda mais sentido de realidade às contribuições trazidas por Petot sobre Klein, ligadas à dificuldade de mudança psíquica; e por Green e Segal ligadas à função objetalizante da pulsão de vida e a desobjetalizante da pulsão de morte. Na realidade, por meio de Paín pude seguir aprofundando o estudo sobre a importância do papel do meio ambiente na possibilidade de mudança psíquica das crianças com inibição, como veremos, ao longo deste trabalho.

Assim, passo agora a focalizar o confronto que pude fazer das contribuições de Klein e Paín no sentido de compreender o funcionamento mental de crianças com inibição.

A noção de contra-inteligência de Luzuriaga

Luzuriaga (1972) desenvolve, em La inteligência contra si misma, a noção de contra-inteligência, para se referir ao processo em que a criança usa o próprio potencial intelectual para se manter numa atitude passiva, evitando, assim, contato com conteúdos dolorosos. Segundo ela, esses seriam os efeitos dos ataques destrutivos” da criança à própria inteligência e aos vínculos com a realidade interna e externa, seja ao conteúdo, seja àquele que o transmite26.

Médicas, Brasil. Na França, essa obra deu origem a uma outra reescrita por Paín e publicada em um único volume pela Ed. Peter Lang, Berne, em 1989. Desta, houve uma tradução para o português, em 1999.

Ela não considera que as dificuldades intelectuais das crianças se devam a distúrbios orgânicos ou a uma inibição de seu desenvolvimento mental. Não seriam, portanto, consideradas como uma detenção do desenvolvimento, mas sim fruto de processos inconscientes que mantêm a criança isolada. Às vezes, a percepção inteligente da realidade objetiva e de seu mundo interior mobiliza na criança conflitos e sofrimento psíquico.

Além de assinalar que a contra-inteligência luta contra a percepção e a compreensão do mundo externo e interno devido às vivências que ambas lhe despertam, Luzuriaga reconhece que os conteúdos vividos como perigosos são muitos e poderiam ser classificados, seguindo a denominação de Klein, em ansiedades depressivas e paranóides. Mas, segundo essa estudiosa, como os matizes tanto da perseguição quanto da culpa e da perda podem ser muitos, propõe-se a fazer uma apresentação de alguns tipos de ansiedades, classificando- as muito mais pelo conteúdo encontrado no material clinico, que pela sua qualidade (persecutória ou depressiva). Entre esses conteúdos aponta a rivalidade, a solidão e, especialmente, a inveja. É ela quem afirma:

Aprender do outro, significa que ele tem algo valioso, de forma que não entender pode ajudar tanto a negar este conteúdo que fere como a desvalorizá-lo já que é valioso, porém, ininteligível. O tédio diante do saber dos outros é uma forma de desprezo que constitui uma das melhores armas contra a inveja. Todas essas fantasias são totalmente inconscientes para o paciente, que somente vivencia delas uma ansiedade, cuja origem não consegue compreender, mesmo que busque explicações racionais. Essa origem só pode ser desentranhada por meio do trabalho psicanalítico porque se expressam de forma simbólica que cabe ao psicanalista decifrar. (LUZURIAGA, 1972, p. 89) [tradução

Para melhor compreensão, sugiro os casos clínicos e a excelente descrição fenomenológica por ela apresentados, pois não me deterei sobre eles, uma vez que fugiriam ao objetivo desta estação. A pouca consideração atribuída aos fatores ambientais, na perspectiva de Luzuriaga, empobrecia a possibilidade de compreensão e de intervenção clínica, pelo menos, com essas crianças. Não favorecia, também, a abertura do campo de relações da criança com o mundo de realidade externa. Além disso, não ajudava a compreendê-la no seu contexto ambiental mais amplo, suas repetências escolares e suas dificuldades de relacionamento familiar e escolar. Talvez a experiência como psicanalista com pacientes com outros tipos de queixas, tenha contribuído também, para que eu me desse conta de que carregar nas tintas da destrutividade, levava -os a um estado de isolamento e retração ainda maior. É importante notar que essa concepção não aposta na saúde.

É possível imaginar o que significou para mim o encontro com a contribuição de Sara, que se afinava mais com a linha de Pichón, buscando o sentido do sintoma e considerando o ambiente familiar e escolar. Na minha experiência, tal contribuição possibilitou, o que não foi pouco, definir a especificidade do trabalho psicopedagógico, reconhecer a sua inserção no campo da psicoterapia breve de orientação psicanalítica27 e discriminar que o olhar e a escuta clínica poderiam ser usados não apenas no consultório, mas também no contexto institucional.

Além disso, permitiu definir que o objetivo seria o resgate do prazer da aprendizagem e o foco do trabalho voltado para a observação das relações entre as dimensões afetiva e cognitiva do pensamento da criança reveladas pela sua forma de aproximar-se do objeto de conhecimento. Mais do que isso permitiu encontrar a primeira ponte para aproximar as duas vertentes de atuação