5 Task 3: Integration issues
5.6 Institutional issues
"Nem quero ser estanque como quem constrói estradas e não anda. Quero no escuro como cego tatear estrelas distraídas". Zeca Baleiro32.
Neste capítulo, veremos, por um lado, como a relação intersubjetiva que se estabelecia no campo terapêutico e a forma paradoxal de Carol se relacionar com os objetos oferecidos nas sessões, levavam a terapeuta, cada vez mais, a usar a noção de uso de objeto e fenômenos transicionais, provenientes da teoria da criatividade de Winnicott. Por outro lado, foi se revelando a situação de intenso sofrimento psíquico em que a menina se encontrava devido à impossibilidade de poder brincar de forma espontânea e, assim, usar seu potencial, seu corpo, o tempo, o espaço e os objetos a ela oferecidos.
Atendimento terapêutico propriamente dito
No primeiro encontro após as férias, eu estava curiosa. Será que Carol viria com a sua boneca? Pois bem, além de não trazê-la, a menina tinha outra atitude:
animada, interessada, foi logo escolhendo um dos jogos já conhecidos. Durante
essa e várias outras sessões, ela aceitava e pedia esclarecimentos, respeitava limites e queria entender as regras, envolvendo-se com jogos que favoreciam o desenvolvimento da dimensão cognitiva. Mostrava que podia lembrar-se de fatos acontecidos em outras sessões. O aumento de confiança na relação e o
envolvimento com os objetos oferecidos eram evidentes. Percebia-se assim uma
diferença considerável no tipo de atitude de Carol em relação à terapeuta e aos objetos, destacadas pelos grifos acima, em oposição ao período anterior.
Evidentemente, trabalhava numa linha psicopedagógica, buscando o desenvolvimento do aspecto cognitivo, isto é, das dimensões do corpo e da imagem. Pela assimilação ocorria a criação de novos esquemas de ação e pela acomodação acontecia a internalização de imagens e do exercício da lógica. O objetivo era "devolver à menina a dimensão de seu poder: poder escrever, poder
saber, poder fazer para poder dar crédito às potencialidades de seu ego". (PAÍN,
1985, p. 77) Jogos de se esconder ou esconder objetos, para depois achá–los, eram também comuns nessa fase, ao lado de outros escolhidos por ela, como pega-varetas, Ciclovia, Solta bichos, Cara a Cara, jogo-da-velha, forca etc. As sugestões técnicas de Paín norteavam o projeto terapêutico e permitiam graduar as propostas de atividades, segundo o desenvolvimento das possibilidades cognitivas de Carol, que demonstrava grande interesse e envolvimento com elas.
Entretanto, não se tratava de um movimento linear e progressivo. Nos períodos em que Carol ousava e experimentava mais, ora parecia feliz com suas conquistas, ora voltava a criar a mesma atmosfera de suspense e segredo, ora parecia bastante assustada. O brilho do olhar de Carol, os pequenos e sutis "sinais" que ela expressava, eram o tempo todo um sinalizador para mim, possibilitando as intervenções. Por exemplo, às vezes, Carol parecia desligada e depois me dava um sinal de que estava ligada. Outras vezes, ocorria o oposto: parecia atenta, mas, por algum sinal, deixava-me perceber que tinha estado no
mundo da lua. Gostava quando eu conseguia verbalizar e discriminar a diferença
entre essas situações para ela. Brincando, às vezes, eu lhe dizia: Ah! Querendo
brincar de dar uma de boba, para saber se eu estou atenta, né? Ela sorria feliz.
Note-se que essa intervenção é bem diferente de uma outra que poderia interpretar que a menina dava uma de boba para fazer alguém de bobo. Na primeira, assinala-se - o que não é pouco - um campo de experimentação e investigação por meio de um brincar, o que abre ainda mais a criação do espaço de jogo. Note- se ainda que a terapeuta está tão implicada no movimento quanto a criança, o que reafirma a sua participação e interesse genuínos, diminuindo,
inclusive, o clima de perseguição. Era gratificante observar como os olhinhos de Carol brilhavam naqueles momentos em que se sentia compreendida, mostrando- se, cada vez mais presente, envolvida e interessada.
Logo surgiria um outro tipo de jogo que evidenciava, ainda mais, o aumento na relação de confiança: a menina me pedia para ficar fora da sala de atendimento para que eu tentasse achar algum objeto que ela escondera. Hoje, diria que ela estava lidando com a questão da ausência na presença e vice-versa, interpondo espaço e tempo entre nós, apropriando-se do espaço físico e da presença da terapeuta na sua ausência.
Ressalte-se a diferença de uma interpretação à moda de Klein em que se poderia assinalar o ataque na forma de roubo do espaço da terapeuta.
Na esteira da técnica sugerida por Paín, numa situação ocorrida algum tempo depois da abertura desse espaço de jogo, interesse e curiosidade de Carol, apresentei-lhe um jogo semelhante a outros que ela sempre usava e gostava muito. Usando Paín, o objetivo da minha intervenção era provocar o desequilíbrio, o que permitiria o surgimento da falta e o caminhar da menina em direção ao resgate do prazer da aprendizagem.
Quando apresentei o jogo para Carol, ela não só não se envolveu com ele, como novamente começou a criar o tal cenário de confusão, segredo e dúvida. Assinalei que talvez ela resistisse a continuar desenvolvendo-se para ficar como o "bebê moranguinho". Seu olhar desvitalizou-se e pela primeira vez ela saiu da sala de atendimento dizendo que ia ao banheiro.
Hoje posso nomear o incômodo sentido na época, enquanto a esperava e indagar-me se a interpretação feita sobre a sua resistência em querer desenvolver-se não teria a ver com a minha decepção por ela não ter se envolvido com o jogo que eu havia lhe apresentado. Lembrei-me do movimento das duas
sessões antes das férias, descrito no capítulo anterior, em que além de vir com a boneca ignorou o jogo que eu lhe oferecia, impôs o seu e escolheu um, a partir de um gesto que poderia ser visto como de oposição e resistência.
Cada vez mais me dava conta de que a sugestão de Paín, no sentido de cortar a repetição do vínculo familiar na transferência, caracterizava uma atitude mais diretiva do terapeuta, opondo-se ao que seria o exercício da função de testemunhar e acompanhar o processo da criança como em Winnicott.
Uma outra observação interessante é que, embora na época não me desse conta, estava lidando com a idéia de pulsão de morte e de vida, se considerar a primeira como objetalizante e a segunda como desobjetalizante. Assinalar que, talvez, ela resistisse a continuar desenvolvendo-se para ficar como o "bebê moranguinho", enfatizava o não suportar lidar com o conflito e a tentativa de reduzir o nível de tensão a zero (pulsão de morte). Observações desse e de outros atendimentos foram mostrando o aspecto de desvitalização do olhar e a expressão de desesperança das crianças com inibição diante de assinalamentos como esses.
Na volta da sua ida ao banheiro, Carol propôs que fizéssemos um jogo – o
jogo da múmia. Não só concordei, como pedi que me ensinasse. Ela fecharia ou
tamparia seus olhos para não enxergar e não pensar. Só faria sons cavernosos e de olhos fechados, tentaria me tocar. Quando isso acontecesse, eu também me transformaria em múmia. Em outras palavras, “o contato” mumificava.
Temos, aqui, de forma belamente colocada, a metáfora de uma relação: o olhar de medusa congela e paralisa não apenas as trocas na dimensão da relação intersubjetiva, humana, mas também a da possibilidade de pensar. O jogo, além de expressar a forma como Carol se sentia aprisionada em determinado lugar (PAÍN), também revelava o intenso sofrimento psíquico que a mantinha em estado de paralisia, sem poder brincar, usar a imaginação, os órgãos dos sentidos, seu
corpo e, assim, comunicar-se e estabelecer relações com o mundo de realidade externa. Sabemos que sem ação e troca com os objetos, não ocorre a atualização e o desenvolvimento da rede cognitiva.
Com Carol também aprendi que, às vezes, um afastamento, a falta ou atraso do paciente numa sessão, poderia ser a forma encontrada para sustentar o campo de experiências compartilhadas, não sendo nem a expressão de um ataque ao vínculo, nem o medo de uma retaliação (KLEIN). Note-se que, saindo da sala, Carol pôde manter a presença da terapeuta na sua ausência, mantendo viva a sua imagem no dentro e no fora do espaço físico. A menina não parecia mais ser lançada num “buraco negro”, vivência sem tempo nem espaço, onde não podia brincar, nem sonhar, nem usar seu corpo e órgãos dos sentidos.
No caso, sair da sala constituiu um gesto que pôde abrir o campo de comunicação significativa, à medida que a terapeuta sustentou a continuidade da relação. Percebe-se com isso que o gesto da criança ao mesmo tempo afasta e repudia a terapeuta, que se tornou estranha e invasora. Ao ter liberdade para sair da sala e encontrar tudo como antes, Carol permitiu a comunicação da situação através da criação do jogo da múmia. Seu gesto não caía mais no vácuo. Havia um outro para quem ela podia endereçar uma comunicação. Por meio do jogo, ela pôde expressar o sofrimento que a impedia de se desenvolver e se realizar como pessoa.
Quando eu estava como múmia comecei a falar da escuridão, do medo e da solidão presentes. Penso que fui dando voz à sua vivência. Abria-se ainda mais o campo da comunicação significativa na experiência compartilhada. O término do jogo da múmia se deu através de um toque mútuo em que voltávamos a ser humanas, após o que ela quis brincar de luta, podendo usar vários objetos (corda, cadeira, almofada), estabelecer algumas regras para determinar a separação de campos etc. Ela podia usufruir mais livremente do tempo e do espaço que lhe eram oferecidos, bem como dos movimentos do próprio corpo.
Na sessão que se seguiu, Carol entrou animada, comentando que havia levantado sem fazer barulho, para não acordar o "bebê moranguinho", que de fato nunca mais compareceu concretamente na sessão.
Em seguida, fez o desenho de um passarinho preso numa gaiola. Do lado de fora havia uma bomba perigosa na entrada de um caminho. Fez também um desenho com tinta branca e vermelha, dizendo que era neve pintada com manchas vermelhas. Muito perigosa! Quem chegasse perto morria. O último desenho feito, nessa sessão, foi de duas borboletas separadas por um traço.
Vale assinalar que até então Carol, como geralmente acontece com crianças com a mesma problemática, preferia jogos e objetos com formas definidas, evitando contato com material sem forma (plastilina, argila, tinta etc.).
Seguiu-se um período de várias sessões em que ela lidou com situações de separação demonstrando cada vez mais autonomia. Até que em determinada sessão, fez dois desenhos querendo usar tinta. No primeiro desenhou naves perigosas que soltavam bombas. No segundo, após dividir a folha no meio, disse que havia, de um lado, uma cidade escura, onde as pessoas tinham medo e, de outro, uma cidade clara: era o mundo feliz.
Quando foi lavar os pincéis, enxugou-os na toalha branca, e não na que deveria ser usada para enxugá-los. Ao observar o seu olhar provocativo, comentou: “Ah! Como o 'bebê moranguinho', né?" Ela disse rindo: "Ele sempre
gosta de fazer o que não pode".
Veja-se como a dimensão da agressividade começou a entrar em cena com o aumento da confiança e como ela foi podendo botar “as manguinhas de fora”, estudando o que acontecia no ambiente externo.
Durante muito tempo, indaguei-me sobre o significado daquela boneca. Penso hoje que, desde o início, ela apresentava por um lado uma dimensão dissociada de Carol e por outro revelava a busca e esperança de poder ser reconhecida e, assim, desenvolver-se através de um novo encontro. Indaguei-me também se a boneca não era usada para repudiar o outro, quando este se portava como um estranho invasor, pois ela comparecera na sessão em que eu de fato tinha aumentado as minhas expectativas sobre o seu desempenho e tentado apressar o seu desenvolvimento cognitivo. Comecei a pensar na boneca como um objeto subjetivo, já que ela era usada para ganhar tempo, estudar e testar a fidedignidade do ambiente e, principalmente, para não ter que se submeter ao desejo do outro.
Na sessão que se seguiu, Carol entrou dizendo que havia deixado o "bebê moranguinho" de castigo, porque ele estava malcriado e tinha aprendido a cuspir. Foi até o armário, e pegou um jogo de montar. De forma apressada, começou a montá-lo sozinha. Rapidamente pegou outro, chamando-me para montar junto. Novamente não me esperou. Disse: “Pronto. Ganhei!”.
Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, vemos aí, um funcionamento do tipo hiper-assimilativo e hipo-acomodativo que caracteriza, segundo Paín (1985), o problema de aprendizagem como sintoma. Este é o caminho de evolução no tratamento do quadro de inibição. A função cognitiva se desenvolve, mas sob a égide da dimensão subjetivante, cuja lei é o desejo. Fui aprendendo com Carol e outras crianças que é preciso que seja assim, o que foi me levando, aos poucos, a reconhecer a importância do processo de regressão à dependência e ao paradigma de mãe suficientemente boa (WINNICOTT, 1945, 1960).
Depois, Carol começou a rabiscar a mesa num movimento ao mesmo tempo "disfarçado e provocativo", enquanto me observava com o mesmo olhar entre a "gozação" e a expectativa.
Assinalei que ela parecia estar me provocando e que eu sabia que ela sabia muito bem disso. Nós duas sabíamos. Ela sorriu levemente. Depois, pegou uma folha de papel, onde desenhou duas borboletas separadas. Ela vinha desenvolvendo, cada vez mais, a capacidade de discriminar as suas próprias ações das dos outros.
Hoje diria que a agressividade vai podendo ser usada de forma integrada à ação para inscrever o gesto e se realizar no mundo, à medida que um processo de separação, vai acontecendo. Carol, às vezes, ficava assustada quando podia repudiar ou apossar-se de algo. "A integração traz consigo a expectativa de um
ataque (...).A reunião dos elementos do self associada à constituição de um mundo exterior produz por algum tempo um estado que poderia ser rotulado de paranóide"" (WINNICOTT, 1990, p. 141). Através do atendimento de Carol e
outras crianças com inibição observei que isso é tanto mais verdadeiro quanto mais tardiamente acontece. Note-se que o uso da "boa" agressividade, ou seja, aquela que não se confunde com destrutividade, permite o desenvolvimento da capacidade de discriminação, que é a base do processo de aprendizagem formal.
Em todos esses movimentos, é possível reconhecer a idéia apontada por Winnicott (1975) de que ao longo do processo de desilusão gradativa do bebê, é preciso a oposição do meio, para que a agressividade entre em cena. À medida, que surge um lado mais ativo da menina e sua agressividade vai surgindo, ela vai querendo deixar sua marca no ambiente. Assim acontece a passagem do estágio de "relação de objeto para a de uso de objetos", o que vai permitindo uma mudança em termos de princípio de realidade. Isso será aprofundado no atendimento de Eric, o Homem-Aranha.
Outra tomada de sessões ocorridas mais adiante, mostra como Carol começou a transitar entre e nos diferentes espaços através do brincar.
Em determinada sessão, ela disse que ia me mostrar uma coisa que tinha aprendido na escola, durante a aula de artes. Misturou algumas tintas num papel, depois o dobrou, apertando os dois lados. Ao abri-lo, apareceram manchas com formas. Enquanto colocava o papel para secar disse que era uma cidade cheia de morcegos e que lá tinha um morcego que vivia sozinho, que podia até morrer de tanto medo que tinha dos outros que, por sua vez, também, tinham medo dele.
Em seguida, pintou uma folha com tinta preta, dizendo que ia fazer a escuridão. Enquanto passava o cabo do pincel, fazendo sulcos na tinta, disse que estava fazendo a cidade ficar mais clara.
Quando foi lavar tudo, pareceu assustada ao ver que tinha sujado a blusa da escola e disse que a mãe ia ficar brava. Foi até o banheiro, para limpá-la. Lembro que já havia solicitado à mãe de Carol que a trouxesse com roupas velhas e adequadas para o tipo de atividade que vínhamos realizando. Não entendia por que ela a trazia pronta para ir à escola, embora voltasse com a menina para almoçar em casa, antes de ir para lá.
Ao voltar para a sala de atendimento, Carol quis brincar. Ela seria a mãe. Eu, a filha de quatro anos que ia ficar vendo TV, enquanto ela (mãe) saía para comprar brinquedos de montar, de números e palavras, que era o presente que a filha gostaria de ganhar.
Vemos a mudança e a ampliação na natureza no modelo de relação. Carol não fala mais por meio de um objeto subjetivo (bebê moranguinho) nem de um modelo de relação, cuja base é a sujeira e o desencontro e nem faz o papel de uma mãe brava e retaliadora. Na sua dramatização, ela expressa a possibilidade de um movimento de busca, encontro e prazer com alguém continente.
Na sessão seguinte, continuou querendo brincar de mãe e filha. Mas, diferentemente das vezes anteriores, quando ela determinava o tipo de filha que eu deveria dramatizar, disse que eu podia ser uma filha do jeito que eu quisesse. Começou, então, a representar uma mãe que duvidava o tempo todo e não largava do pé da filha, o que nos permitiu conversar sobre a sua dificuldade de ter mais autonomia e fazer amizades.
Veja-se que foi ela quem me autorizou a dramatizar uma filha do jeito que eu quisesse, porque, até então, ela era a diretora da cena e determinava como e o quê eu deveria ou não fazer. Mais tarde relacionaria e compreenderia a necessidade de crianças com inibição que sofreram invasões desde muito cedo de poderem ter o outro sob seu controle onipotente e usufruírem situações de continuidade do ser. (WINNICOTT, 1945, 1960).
Mais adiante, Carol dramatizou uma mãe que lia estórias para a filha. Fiquei impressionada com o envolvimento, interesse e fluidez da menina, durante a leitura. No início dessa mesma sessão, a mãe havia tentado entrar na sala. Isso, às vezes, ocorria e eu via – diferentemente de hoje – como uma invasão da mãe.
Nos últimos 10 minutos, quando então a mãe entrou, contou sobre um episódio que "reforçava a inadequação" da filha. Carol, então, pegou o livro tentando mostrar-lhe a sua conquista na leitura. Isso não pareceu interessar à mãe que a apressava para ir embora, alegando estarem atrasadas.
Não quero generalizar, nem estou dizendo que Carol era assim ou assado por "culpa" da mãe. Mas um fato era inegável: ela carecia da presença de um "bom" olhar que sustentasse o seu desenvolvimento.
Só o que me cega / O que me faz infeliz É o brilho do olhar que eu não sofri.
As sessões alternavam-se: Carol, às vezes, queria trabalhar com jogos de classificação e de azar, noutras com atividades plásticas e psicodramáticas. Estas últimas permitiam que a menina expressasse, por um lado, a solidão, tristeza, medo, confusão, paralisia e sujeira associadas com a escuridão e, por outro, a alegria, felicidade e beleza associadas com a claridade, luz e movimento. Ela parecia continuar resgatando vivências anteriores ao início do andar e enxergar em torno dos dois anos, época em que começou a usar óculos.
Havia uma diferença sutil nas suas diferentes formas de expressão e de ação, seja ao desenhar, pintar seja ao contar sobre fantasmas bravos que assustavam e deixavam crianças apavoradas. O mesmo acontecia quando desenhava cidades e casas que entravam em curtos circuitos que deixavam todos na escuridão. Entretanto, na relação comigo, já não ficava mais tão assustada e podíamos conversar sobre sua produção e sobre os sentimentos dos seus personagens. Em suas dramatizações apareciam cada vez mais mães e professoras continentes que ajudavam o desenvolvimento da criança.
Naquela época, ela e a mãe passaram a se referir a experiências novas: Carol podia ficar com o irmão sozinha em casa e aceitar sua ajuda; podia ser convidada e ir a aniversários. Paralelamente, demonstrava o desejo de querer ficar bonita: quis furar as orelhas para colocar brincos, mudar seus óculos e cortar o cabelo.
Todo esse movimento coincidiu com a época de seu aniversário, quando pediu, e ganhou, uma outra boneca de nome Menina-Flor. Talvez esse momento simbolizasse, e foi nessa linha que conversamos, a morte da menina Bebê Moranguinho e o nascimento de uma outra Carol – a Menina-Flor, que podia confiar em si mesma e nas pessoas, queria crescer e se desenvolver. Transcrevo
suas palavras ao referir-se, então, ao "bebê moranguinho": "malcriado, gostava de