3. Theory
3.4. Wheat
Em todo o contexto desta tese, ora aqui, ora ali, foi dada muita ênfase ao que significa alfabetizar. Neste capítulo, vai-se apresentar um paralelo entre alfabetização e consciência linguística para, posteriormente, buscar a confirmação por meio de pesquisa, o quanto nas práticas da alfabetização é possível formar a consciência linguística da criança e vice-versa, no sentido de que uma venha a facilitar a outra.
Para fazer um paralelo prático do aprendizado entre alfabetização e consciência linguística da criança pode-se recorrer ao item 2.8 (reprisando os aspectos práticos do METRAMAR pelo recurso a imagens e desenhos) a fim de se perceber a diferença de apresentação entre o que a criança olha e o que ela lê.
As frases dos diferentes campos ideo-picto-lexicais anteriores, quando lidas com as crianças, são verbalizadas assim:
(1) ‘A bola é do Davi’. ‘A boneca é da Vera’.
(2) ‘A bola é do Davi’. ‘A boneca é da Vera’. ‘O caderno é da Vera’. ‘O cachorrinho é do Davi’.
(3) ‘A bola é do Davi’. ‘A boneca é da Vera’. ‘A mochila é do Davi’. ‘A casa é do Davi’.
(4) ‘O caderno é do Davi’. ‘O cão é do Davi’. ‘O computador é da Vera’. (5) ‘A bola é do Davi’. ‘A boneca é da Vera’. ‘A mochila é do Davi’. (6) ‘A boneca é da Vera’. ‘A bola é do Davi’. ‘Vi o computador da Vera’. (7) ‘Eu vi o cachorrinho do Davi’.
(8) ‘Eu olho a boneca da Vera’.
Sem dúvida, para haver leitura no sentido literal da palavra, é preciso que a escrita seja representada pelas letras e signos do alfabeto, visto que, quando lemos, é olhando-as e decodificando-as que estamos efetivamente praticando o ato de ler propriamente dito. No estrito senso, lemos a partir do estudo das partes (fonemas, letras, sílabas, morfemas, palavras, sintagmas, frases...).
Nisso, infere-se que, para ler, faz-se necessário reconhecer as letras e a função de cada uma e, a partir disso, completar o ato de ler. Entretanto, metodologicamente, qual é a melhor forma de se chegar à compreensão da função das letras a fim de utilizá-las nos contextos dos textos da escrita? É apresentá-las uma por uma e, a seguir, recorrendo a elas, ler ou, antes de apresentar as letras uma por uma, ajudar a criança a entender em que consiste o ato de ler para, somente depois, passar a ajudá-la a completá-lo? Seria possível passar à criança a
noção prévia do que significa o ato de ler, antes dela saber ler? Como responder a essas interrogações?
Para resolver tais problemas, o METRAMAR segue por um caminho bem diverso dos tradicionalmente utilizados para dar à criança o acesso à alfabetização. Por ele, antes de se colocar a criança em contato com as letras, através do recurso a desenhos, simula-se o ato de ler. Essa simulação é conduzida de tal forma que exija todos os comportamentos do ato de ler. Assim, depois que a criança tem compreensão em que consiste o ato de ler, passa-se à escrita de frases, utilizando letras (em forma de conectivos gramaticais) e desenhos, para, por fim, deixar totalmente de lado os desenhos, na escrita das frases a fim de praticar atos de leitura no real sentido das palavras. Em outras palavras, somente se dá à criança a noção do que são letras depois que ela efetivamente tem compreendido em que consiste o ato de ler. É dessa forma que ela vai adquirindo a consciência linguística e aprendendo a ler e vice-versa.
Talvez, para nós alfabetizados, a forma utilizada pelo METRAMAR para ajudar a criança a chegar ao ato de ler pareça estranha. Visto que ela não parece obedecer a ordem lógica das coisas: ler antes de conhecer as letras, utilizando outros signos previamente convencionados com a criança. Esse é o processo de alfabetização por mim apresentado na dissertação de 2007. Nele mostrou-se que se estava partindo da real capacidade de a criança de ir do concreto para o abstrato. Dado que a escrita, como objeto material, apresenta-se ao visual da criança, como um aglomerado de signos, ainda por ela desconhecidos. Não leva em conta que ela necessita de ir do conhecido para o desconhecido, gradativamente e com conhecimento de causa. Antes, ser ajudada a antecipar-se à compreensão e à descoberta da função das letras para, a partir dessas antecipações e conhecimentos, ler. Como já referi em outros contextos desta, a criança vem à escola com dois saberes: sabe falar (comunicar-se) e sabe desenhar (garatujar). É por esse caminho que o METRAMAR ajuda a criança a ir do conhecido para o desconhecido.
Repetindo a ideia por outras palavras, o METRAMAR busca chegar à escrita por um caminho diferente e provisório da usual prática da representação da mesma sobre o papel. Nele, pelo psicologicamente simples, chega-se à lógica exigida pelo
processo da escrita. Para isso utiliza desenhos, imagens e conectivos gramaticais para, com eles, ajudar a criança a ter uma percepção prévia e antecipada da ideia do que vem a ser o ato de ler. De acordo com a metodologia do METRAMAR, presume-se que, antes de se ensinar a criança a ler, ela deve ter compreendido em que consiste o ato de ler. Julga-se que isso se constitui num pré-requisito necessário para haver consciência clara do que vem a ser a prática da leitura. Mais do que isso, além dessa forma chegar a um ato de ler provisório de leitura, visto que o mesmo recorre à formulação de frases pelo plano sintático da fala de nossa língua, em passo adiante, enriquecê-lo pelo recurso aos demais planos linguísticos da mesma.
O METRAMAR para chegar à escrita recorre a materiais diversos. Basicamente eles vêm constituídos de pictogramas, ideogramas e palavras lexicais a fim de conectar aqueles entre si formando frases. Vamos, pois, ver em que consiste cada um deles.
Pictograma:
Pictograma vem da palavra pictórico, isto é, adjetivo derivado de pintura. No METRAMAR, com frequência, utiliza-se o termo desenho pelo termo pictograma. Estes, apresentados assim servem para substituir a escrita de palavras. A criança os fará da maneira que for ela capaz e da maneira que lhe parecer melhor. Na realidade, os desenhos das crianças não passam de garatujas. Para a finalidade objetivada pelo METRAMAR isto é o suficiente. Portanto pictograma é uma representação em forma de desenho livre. Dentro desta metodologia, o desenhar não se constitui em proposta de aprendizagem, mas ele desempenha um importante papel como recurso de se chegar ao aprendizado da leitura. Assim sendo, não se faz exigências de maior ou menor perfeição. Ele, como recurso, importa que simplesmente desempenhe a função de substituir a escrita do vocábulo que por ele se deseja representar.
Por sua vez o ideograma vem da palavra ideia. Portanto, todo ideograma representa uma determinada ideia. No caso do METRAMAR, o único ideograma utilizado é a seta. Entretanto, pelo nossa metodologia de ensino na formação de frases, ele preenche papel de representar todo e qualquer conectivo gramatical de que se necessite para formar a frase, inclusive de qualquer verbo. Portanto, além de desempenhar a função de conectivo, nela é utilizado também para ser lido como se fora um verbo, seja qual for o verbo exigido na construção da frase. Dessa forma, possibilita-se a representação de qualquer frase que se queira utilizar.
Tanto a ideia da utilização dos pictogramas, quanto a do ideograma escolhido (seta) é uma criação nossa. Quem é alfabetizador sabe o quanto esses recursos facilitam a leitura de toda e qualquer frase. É dessa forma, portanto, que a criança consegue ter uma ideia clara e antecipada do papel da escrita antes de estar alfabetizada. A partir disso, ela entendendo objetivamente em que consiste o saber ler, tem condições de participar do processo de sua alfabetização e formação de sua consciência linguística como uma protagonista de sua aprendizagem. Tal protagonismo desempenha nela uma força motivadora ímpar, qual uma festa que a ajuda a alfabetizar-se sem dor (DEHAENE, 2012).
Palavras-chave sugeridas para se trabalhar com o METRAMAR:
Essas palavras, além dos conectivos gramaticais, são as sugeridas para alfabetizar e trabalhar na formação da consciência linguística da criança de acordo com nossa metodologia. Elas não são obrigatórias, porém, escolhendo outras, o que é permitido pelo método, o professor deve escolhê-las sempre tendo em vista a
Olha, olho, dado,
vida,
Davi,
Vera,
vejo, fada, nata, nada,
data,
faca, vela,
bola, boca, casa, sapo, dedo, gata, lata,
mala, nenê, pote, rato, sopa, tatu, vovô,
proposta do método. Fugindo disso, pode ocorrer que entre em contradição com a metodologia proposta.
Síntese complementar
Ao alfabetizar pelo METRAMAR como proposta metodológica, requer que o professor inicie o seu trabalho partindo de histórias, sejam elas lidas, contadas, dramatizadas, criadas ou vivenciadas (em acontecimentos), ou ainda, de eventos comemorativos, como: Páscoa, dia das mães, dos pais, da família, do folclore e outros. Ele sempre há de ter o cuidado de valorizar as histórias narradas pelos alunos, da maneira deles, e deixá-los à vontade, a fim de que eles se sintam partes e protagonistas do processo, tendo em vista o letramento deles.
Ao se trabalhar com o METRAMAR, quanto menor é a idade das crianças, tanto mais se permanece no recurso aos desenhos. Com crianças de quatro a cinco anos, após passar uma temporada de meses desenhando elementos das histórias ouvidas, é possível, até o final do ano escolar, utilizar formas de representar frases pelo recurso a desenhos, pictografias, ideogramas e alguns elementos lexicais conforme foi orientado anteriormente. Assim, elas terão uma intuição bastante clara do que vêm a ser a leitura e a escrita, ainda antes de estarem alfabetizadas.
No ano de 2011, por exemplo, entre 29 crianças de Educação Infantil, nível III, pelo menos três concluíram o ano, não só compreendendo em que consiste a ato de ler, mas estavam alfabetizadas. Isso será mostrado pela pesquisa que foi feita naquele ano. Quando a metodologia é bem conduzida, é de se esperar que, ao concluir o período da Educação Infantil, várias delas já saibam ler e as demais, até meados ou final do primeiro ano do Fundamental, também.
O METRAMAR utiliza imagens (desenhos) ao iniciar a criança na alfabetização com a finalidade de que ele aprenda a ler e a interpretar desde o início do processo da aprendizagem da leitura. Efetivamente ela, já antes de entrar em contato com a escola, sabe falar e desenhar. O METRAMAR, levando em conta esses aspectos, visa a continuar a mantê-los no dia-a-dia da vida da criança. Continuando a levá-los em conta, a criança vai percebendo que tudo que ela aprendeu continua válido e, metodologicamente sendo valorizado. Pedagogicamente, esse aspecto tem muito valor, visto que a psique da criança nisso
não sofre abalos. É assim que se pode esperar que ela possa sentir-se protagonista do processo de sua aprendizagem. O método busca evitar rupturas psicológicas na vida da criança.
Nisso, bastará que o professor apenas exerça o papel de mediador e incentivador, ou seja, motivador da criança, que já sabe estruturar frases pela fala, portanto variar os elementos delas pela criação de novas frases, com vocábulos mais ricos ou de outros sentidos. Por exemplo, se ela lê: A bola é do menino. Substituindo o elemento bola pelo desenho de uma bota, já muda o sentido e o significado da frase. A criança vai ler: A bota é do menino. Dessa forma, o professor não está ensinando a criança a decorar ou a ler códigos sem sentido algum. Mas a está ajudando a compreender o que foi lido em função dos códigos. Perceber o sentido do que foi lido é o objetivo da leitura. Dito em outras palavras: na primeira frase, se está falando de um brinquedo; já na segunda, de um calçado; e ambos têm seu sentido próprio, significados e objetivos completamente diferentes. Dessa maneira, o professor não está só ensinando seus alunos a ler, mas incentiva-os a serem futuros pesquisadores, questionadores, críticos e, psicologicamente, seguros de si. Aprendem a analisar e a verificar o sentido do que leem.
Se a criança sempre tiver consciência clara do que estiver fazendo na condução de sua aprendizagem, simultaneamente vai formando sua consciência linguística.
Na utilização do METRAMAR, o professor, com relativa facilidade, pode premunir-se no sentido de evitar atropelos visto que, constantemente, consegue dar- se conta do grau de adiantamento e capacidade de cada criança. Ele pode ver e observar isso pela natural capacidade de que cada criança desenvolve e utiliza a autocorreção, a qual pode dar-se facilmente porque a criança tem condições de, efetivamente, estar consciente daquilo que faz, dado que ela, desde os três anos, fala e desenha. Tal percepção é observada quando o trabalho é desenvolvido pela forma homogênea, natural e integrada, como o desabrochar de uma planta. Dessa forma, o professor, ao natural, pode se aperceber de quando pode avançar no universo dos novos desafios de aprendizagens a serem apresentadas à criança.
- se alfabetize a partir da sintaxe seguida da utilização de todos os planos linguísticos;
- sempre utilize o “saber falar e desenhar” da criança;
- se propicie ao aluno constantes oportunidades de sentir-se o protagonista da caminhada de sua aprendizagem;
- desde os primeiros dias de sua escolarização, a criança se sinta fazendo parte do ambiente escolar;
- a alfabetização seja conduzida pelas mais diversas formas de contextualizar; - a alfabetização vá se transformando num jogo que, enquanto a mente do aluno se sente desafiada, ela se diverte ele aprende;
- todo e qualquer evento do ano escolar sirva de motivação para o ensino da leitura e formação da consciência linguística do aluno;
- pelos dez jogos de informática especialmente criados, na alfabetização se recorra aos mesmos como uma forma variante de conduzi-la.
Nos capítulos que seguem, vai-se apresentar o que, efetivamente, foi feito em pesquisas, buscando comprovar o desejável teórico do METRAMAR**, enquanto método de alfabetizar de interfaces com os planos da linguística.