No que concerne ao comércio e às repercussões nesta atividade, é possível apontar três tipos de estabelecimento. Um primeiro que mantém a sua conceção inicial (ex: a mercearia da Rua de São Miguel, o Café & Pastelaria da Rua de São João da Praça, a sapataria da Rua dos Remédios). Os seus detentores assumem desde logo o enorme contributo dos turistas para a manutenção do negócio, referindo que os maiores inimigos do comércio local são as grandes superfícies e o IVA, considerando o turismo como potencial revitalizador do pequeno comércio. Reforçam também a importância do turismo menos efémero, que se estabelece por uma semana ou duas em Alfama, comprando produtos na mercearia, na sapataria, no café local, ao contrário do turismo apenas de passagem, a pé ou de tuk tuk. Um segundo grupo de estabelecimentos mantém em paralelo a sua função original, tendo, no entanto, a necessidade de reinvenção, nomeadamente através da comercialização de souvenirs (ex. Loja do Rei dos Botões e a Alfama Shop- O passeio da Dona Sardinha e do Senhor Bacalhau - Rua dos Remédios). Estes comerciantes revelam alguma nostalgia e encaram esta reinvenção como necessária para a sobrevivência do negócio, tendo depositado esperanças, além de fundamentado esta reinvenção, na construção do terminal de cruzeiros e no aumento da turistificação do bairro.
O terceiro grupo de lojas com que nos deparámos é detido por comerciantes de uma geração mais nova e recentemente chegados a Alfama (ex. Alfama Cellar – Wine, Cheese and Saussage e a Loja LoCais - Rua dos Remédios). É evidente o seu entusiasmo num comércio pautado por uma noção de “nova loja”, “virada para a rua”, mais do que exclusivamente para turistas ou para moradores. Na primeira, a venda de vinhos, queijo e enchidos destaca-se das restantes lojas de recordações portuguesas; na segunda, evidenciam-se os produtos feitos à mão, desde bijuteria aos ímanes. No entanto, apesar do entusiasmo, muitos dos mais recentes negócios não conseguem sobreviver o suficiente para criar uma clientela estável, verificando-se no mesmo espaço comercial um sucedâneo de comércios num curto espaço de tempo.
Debruçando-nos sobre atividades exclusivamente turísticas analisamos os tuk tuk, que proliferam por toda a capital e, em Alfama, se alguns dos habitantes classificam estes veículos como «engraçados» e dinamizadores do turismo no interior do bairro – embora a sua passagem não culmine em consumo dos
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turistas –, a maioria concorda que os mesmos destabilizam um quotidiano que almejam sossegado. No entanto, mesmo existindo algumas hostilidades, por norma tal não se concretiza em formato de confronto direto.
A empresa EcoTukTours, apostada na ecologia como imagem de marca, é apontada pelos moradores de Alfama como a melhor alternativa aos tuk tuk “tradicionais”, por serem elétricos, e, consequentemente mais silenciosos, combatendo a poluição sonora criada pelo enxameamento de tuk tuk. Apesar deste ponto a favor, a verdade é que, em termos de marketing, o facto de ser uma empresa ecológica parece contar apenas para um nicho de mercado relacionado com a preservação da natureza como opção de vida. É mais relevante a maior capacidade de lugares de passageiros destes veículos.
A não existência de uma legislação referente à circulação e ao número permitido de tuk tuk em Lisboa, acaba por beneficiar a sua propagação descontrolada, bem como a inexistência de regularização da situação profissional dos condutores, os quais, por não deterem qualquer vínculo com a empresa, recebem apenas através de pequenas comissões a partir do que faturam efetivamente. Reitera-se ainda que a rentabilização e lucro das atividades económicas dirigidas ao turismo não são sinónimo de melhores condições de trabalho, como no caso da Inside Lisbon, onde a parcela remunerativa corresponde a menos de 10% do total arrecadado pela empresa, sendo que em sistema Walking Tours – com poucos custos associados para a entidade empregadora.
Todas estas atividades, que perspetivam o turismo como mercadoria, não “alimentam” o comércio de forma dispersa e generalizada. A forma planeada dos roteiros das visitas guiadas e das viagens de tuk tuk garantem percursos que se repetem quase sistematicamente, permitindo parcerias com comerciantes e estabelecimentos particulares, onde os turistas são direcionados e instigados a consumir. No caso do terminal dos cruzeiros, é bastante explícito que este não é, e dificilmente será, uma fonte de rentabilização do comércio de Alfama, ao contrário das expectativas resultantes da sua proximidade. A maioria dos turistas provenientes dos cruzeiros compram pacotes promocionais que incluem visitas organizadas a locais como Sintra ou Fátima. Chegados ao terminal, os turistas são encaminhados para autocarros que os transportam diretamente para estes locais, deixando pouco espaço e tempo para explorar livremente a cidade e o bairro.
5. Conclusão
Não se pretende tecer laudes ao modo de vida tradicional e popular de Alfama, nem ao exótico sob a forma de kitsh. Ilustrar os lisboetas como acossados pelo turismo é desvalorizar que a revitalização do centro histórico motivada pelo turismo traz potenciais benefícios generalizados. No entanto, parece fundamental que alterações drásticas como as que atravessa o bairro de Alfama, num mosaico de fenómenos que não permite apontar relações causa-efeito, sejam acompanhadas de uma reflexão cautelosa. Que tenha em conta não apenas o interesse económico do turismo, mas também os interesses
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e anseios de populações locais que aos poucos são afastadas da ribalta do bairro, para deixarem entrar outros atores mais lucrativos.
Agradecimentos: À Professora Paula Godinho que nos acompanhou durante este trabalho. À Inês
Amaral e Sara Gonzalez por terem partilhado o terreno connosco. A todos os interlocutores que se mostraram disponíveis para nos ouvirem e responderem.
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X CONGRESSO DA GEOGRAFIA PORTUGUESA
Os Valores da Geografia
Lisboa, 9 a 12 de setembro de 2015
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