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Um dos fenômenos dos séculos 20 e 21 tem sido a busca por novos modelos nas universidades. A Europa adotou o Processo de Bolonha. Nos Estados Unidos apesar de não haver um modelo novo, há um notável aumento das iniciativas interdisciplinares, tanto na pós-graduação, quanto nos cursos de graduação. No Brasil cresce o número dos cursos de pós-graduação interdisciplinares, credenciados pela Capes.

A Europa e o Processo de Bolonha

A Declaração de Bolonha é um documento conjunto assinado em 1999 pelos Ministros da Educação de 29 países europeus, reunidos na cidade italiana de Bolonha. Em 2011, 47 países já haviam aderido ao documento. A declaração desencadeou o denominado Processo de

Bolonha e marcou uma mudança em relação às políticas ligadas ao ensino superior dos países

envolvidos, estabelecendo uma Área Europeia de Ensino Superior, a partir do comprometimento dos países signatários em promover reformas de seus sistemas de ensino.

Embora a Declaração de Bolonha não seja um tratado, os governos dos países signatários se comprometeram a reorganizar os respectivos sistemas de ensino superior, de acordo com os princípios dela constantes. Três aspectos estão no centro do Sistema Europeu do Ensino Superior: mobilidade, empregabilidade e interdisciplinaridade.

O Processo de Bolonha tem sido considerado como um novo formato para a Universidade, devido especialmente ao fato considerar algumas características da contemporaneidade, como a redução no tempo de formação dos estudantes, o que atende a uma necessidade dos tempos atuais, em que não há mais necessidade de uma formação universitária tão extensa. A

mobilidade espacial proporciona a formação de um profissional do século 21 adaptado ao

imperativo de conhecer múltiplas realidades, além de seu espaço local. A mobilidade

institucional permite um processo de formação em diferentes instituições, possivelmente em

países diferentes. Por último, com a mobilidade disciplinar a tradicional formação em carreiras “definitivas” dá espaço a novas profissões, marcadamente multi ou interdisciplinares (Bursztyn, 2005).

Estados Unidos e o Modelo Pragmático

Desde a década de 1990, tem havido uma valorização da pesquisa e do ensino interdisciplinar nos Estados Unidos. O número de diplomas de graduação concedidos (bachelor's degree) anualmente em cursos universitários dos EUA classificados como interdisciplinares ou multidisciplinares subiu de cerca de sete mil, em 1973, para aproximadamente trinta mil em 2005, de acordo com dados do National Center of Educational Statistics (NECS)11. No entanto, alguns programas interdisciplinares foram fechados, apesar de funcionarem normalmente há algumas décadas2. Stuart (2005) viu essa tendência como parte da hegemonia das disciplinas e como uma tentativa delas de recolonizar a produção do conhecimento experimental, marginalizada pelos outros campos de investigação. Isto se dá devido à percepção de ameaça, aparentemente baseada na ascensão dos estudos interdisciplinares, contra a academia tradicional (STUART, 2005).

O fato é que grande parte dos estudos sobre meios de integração da ciência, como multi, inter e transdisciplinaridade, tem sido originada nos Estados Unidos, onde muitos autores (por exemplo, Julie Klein e Allen Repko) têm se dedicado a estudar e praticar pesquisa e método

11

http://nces.ed.gov/programs/digest/d07/tables/dt07_261.asp. Acesso em 14/11/2011.

2

Encerraram suas atividades programas como: Arizona International (anteriormente da University of Arizona); The School of Interdisciplinary Studies da Miami University; o Department of Interdisciplinary Studies da

interdisciplinar. Nos EUA, um dos mais recentes campos de discussão tem sido a consolidação de uma nova área de pesquisa interdisciplinar: as Ciências da Sustentabilidade que busca uma maior compreensão das interações complexas entre sistemas humanos e naturais.

Ciências da Sustentabilidade – campo recente para a Interdisciplinaridade

A necessidade de Ciências da Sustentabilidade há muito vem sendo demonstrada pelas dificuldades existentes em promover um desenvolvimento sustentável - amplamente definido como a prática de realçar o bem-estar humano no âmbito geral da busca do progresso, preservando ao mesmo tempo sistemas ecológicos. O conceito de sustentabilidade como meta política vem influenciando as agendas oficiais de governos por todo o mundo. Entretanto, não há ainda consenso amplo sobre o melhor caminho para atender a este desafio.

Uma estratégia para alcançar os objetivos aparentemente conflitantes das metas da sustentabilidade e do desenvolvimento pode ser fundamentada numa melhor compreensão das relações existentes entre sistemas sociais e ecológicos. O propósito central das Ciências da Sustentabilidade é usar métodos científicos rigorosos para melhor entender estas relações, mas com o objetivo normativo subjacente de promover um futuro sustentável. Para realizar esta meta, esta nova área precisa tomar de empréstimo: conceitos teóricos e metodologias de uma grande variedade de campos estabelecidos. No entanto, elas são mais que a soma de suas partes disciplinares. Se as Ciências da Sustentabilidade não são meramente uma coleção de programas de pesquisas estabelecidos, relacionados às interações humanas com o meio ambiente, então o que elas são? E como atualmente as empregaríamos?

Como um campo científico, as Ciências da Sustentabilidade podem ser entendidas como sendo, antes de tudo, definida pelas peças de um “quebra-cabeças” que busca explicar suas interações e, talvez, a melhor forma de se começar seja a elaboração de temas e questões centrais de pesquisa (Andersson et al., 2008). As questões centrais que têm sido propostas nas Ciências da Sustentabilidade que mostram uma paisagem rica e complexa de investigações. Tomando-se quaisquer peças destes quebra-cabeças, percebe-se a exigência e esforços de pesquisas que transcendem disciplinas e empregam metodologias múltiplas.

Estes novos padrões que vêm se estruturando mundo afora têm gerado outros tipos de arranjos que vêm sendo criados a partir das experiências interdisciplinares e podem ser avaliados como fórmulas a serem exploradas. Alguns fatos podem ser norteadores para se avançar na reflexão sobre o desenho possível e desejável, a ser assumido pela Universidade, que mostra sinais de crise em seu modelo fragmentado de organização.