A categoria Articulação entre os profissionais circunscreve a intensidade de articulação profissional entre as diferentes áreas que integram a equipe de avaliação diagnóstica pesquisada. Nesta categoria, surgiram três temas: bom nível de articulação,
diversidades de opiniões e expectativa de melhoria da articulação entre a equipe.
Como descrito anteriormente na Seção 4.1, o indivíduo suspeito de ter deficiência intelectual será avaliado individualmente pelos profissionais de cada área. Se necessário, duas ou três áreas poderão realizar a anamnese juntas. Por exemplo: Psicologia e Serviço Social; Enfermagem, Fisioterapia e Terapia Ocupacional; Fonoaudiologia e Pedagogia. Após a coleta dos dados junto ao usuário e sua família, haverá posteriormente a discussão do caso por toda a equipe de avaliação.
No decorrer do processo avaliativo, os profissionais precisam realizar trocas e complementação de informações para obter um resultado mais fidedigno. Assim, o processo de interação profissional deve ser marcado pela liberdade de expressão e pelo respeito à opinião do outro. O bom nível de articulação é de suma importância para o êxito dos trabalhos realizados pela equipe e foi apontado pelos profissionais ao descreverem que a equipe diagnóstica realiza uma articulação satisfatória entre seus membros, conforme indicam as verbalizações a seguir:
P1: A articulação ocorre mediante reuniões e discussões de cada caso. É bem discutido... tem uma integração total porque, se não tiver, a gente não consegue fechar esse diagnóstico [...]. Então, todas as áreas têm que ter essa articulação e essa integração.
P4: O nível de articulação é grande e ao mesmo tempo intenso, porque cada um tem a sua área específica. Então, a gente tem um nível de articulação muito bom.
P6: Eu acho que nós temos uma interação muito boa. Eu não tenho do que reclamar [...] A gente discute muito os encaminhamentos.1
Tais falas remetem à abordagem feita por Costa (2007) ao citar que o trabalho em equipe interdisciplinar possibilita a integração das disciplinas científicas, pois elas se apoiam e se operacionalizam em tecnologias que se refletem no fazer cotidiano. O trabalho em equipe deve ser o ideal das práticas de saúde, pois, entre outros motivos, ele assume o lugar de solução apaziguadora para os conflitos entre as diversas áreas profissionais inseridas neste contexto.
Mesmo não sendo uma constante nos serviços de saúde, o trabalho interdisciplinar é descrito pela equipe participante deste estudo como algo real em sua prática de trabalho. Conforme atestam Vilela e Mendes (2003) e Minayo (1991), a visão interdisciplinar propõe uma concepção unitária em substituição à compreensão fragmentada do homem. Essa compreensão unitária apenas pode ocorrer se houver um estabelecimento de conexões, de integrações e de correspondência entre as diversas áreas do saber que compõem uma equipe. Assim, é preciso encontrar o equilíbrio necessário para organizar as informações coletadas pelas áreas, isoladamente, e construir uma síntese em comum, compartilhada por todos. Portanto, ser uma equipe interdisciplinar pressupõe escolher um processo de trabalho dinâmico, articulado e integracionista no enfrentamento dos problemas que envolvem o ser humano. A abordagem interdisciplinar é enfatizada no modelo conceitual proposto no Sistema 2010 da AADID (2010). Considerar que a deficiência intelectual é explicada segundo cinco dimensões (habilidades intelectuais, comportamento adaptativo, saúde, participação e contextos) e que a investigação do funcionamento no interior de tais dimensões perpassa pelo domínio de diversas disciplinas justifica a atuação interdisciplinar da equipe de avaliação.
Os profissionais da equipe descrevem um elevado grau de maturidade democrática, o que não significa dizer que não haja divergências. Quando elas ocorrem, o que é considerado normal, a decisão é debatida, e o grupo procurar chegar ao consenso. Desse modo, surge o segundo tema desta categoria, as diversidades de opiniões, que marca a liberdade de atuação e
de expressão entre os profissionais membros da equipe de avaliação. A diferença entre as opiniões no âmbito de cada caso estudado é importante para o crescimento mútuo e para a reafirmação das decisões a serem tomadas. Para Vilela e Mendes (2003), a primeira condição para a efetivação da interdisciplinaridade é desenvolver a sensibilidade de entender o outro e de esperar a própria vez de se manifestar. O trabalho em equipe é feito com o outro, por isso, ouvi-lo, discutir, refletir e considerar suas expressões contribui para o enriquecimento do trabalho. As verbalizações abaixo exemplificam isto:
P1 Mesmo não sendo da sua área específica, dá sugestões, troca informações, tira dúvidas.
P4 Algumas áreas são muito questionadas. [...] Às vezes, eu acho que uma determinada coisa é de uma forma, e a psicopedagoga questiona que se trata de outra, mas respeitando cada área, né? Cada área é muito bem-respeitada. Mas é discutido item por item.
P5 [...] Num outro momento, a gente se reúne para articular a opinião de cada um. Tem hora que a gente não tem a mesma opinião formada. Até tem divergências para um resultado satisfatório.
P7 [...] É uma discussão que envolve riqueza, ouvir o que o outro profissional tem a dizer sobre o que ele observou, e eu, com a minha pontuação, falar o que observei e o que eu posso acrescentar naquilo. Às vezes, falar assim: “mas o que eu observei foi diferente”... Aí, entra o consenso, porque pode ser que, na minha avaliação, tenha havido uma situação mais agravante [...] Então, é muito importante ouvir o que o outro tem a falar para evitar errar mesmo.2
Verifica-se que os profissionais observam a diversidade de opiniões como algo necessário ao fechamento do diagnóstico de deficiência intelectual. Os relatos sinalizam um processo de decisão partilhada dentro do grupo de trabalho, em que a dinâmica laboral é marcada pela consideração e pelo respeito pelas opiniões dos membros da equipe.
Agir de modo interdisciplinar não significa que os profissionais tenham de estar de acordo em todas as discussões. A diversidade de pareceres deve conduzir à integração real das disciplinas envolvidas no processo avaliativo e não apenas à justaposição de visões. A necessidade de se buscar um equilíbrio entre as ideias defendidas pelos profissionais deve estar presente durante todo o processo avaliativo. Como aponta Minayo (1991), um dos obstáculos a ser ultrapassado na construção de uma atuação interdisciplinar é a dominação de determinados saberes instituídos que gera processos de competição, de posição defensiva entre os profissionais. A concentração do poder nas cátedras e nas pessoas e a hierarquização
de disciplinas limitam e podem prejudicar outras formas de conhecimento. Por isso, a participação ativa das diversas áreas do conhecimento deve ser uma constante na equipe cuja filosofia de trabalho seja marcada pela ação interdisciplinar. O tempo de experiência profissional dentro da equipe de avaliação pode interferir com a articulação entre os membros. Profissionais inexperientes ou não adaptados à realização das etapas do processo de avaliação podem sentir-se incomodados, prejudicando a expressão de suas opiniões. A abertura de espaço de atuação e de expressão no interior da equipe é fundamental para que o profissional atue plenamente, com todo o seu conhecimento.
Abordando a possibilidade de melhoria do nível de articulação entre os membros da equipe de avaliação, surge a terceira temática desta categoria, a expectativa de melhoria da
articulação entre a equipe. A fragmentação do saber, decorrente do avanço científico e da
herança positivista, ainda é muito presente nos dias atuais. A influência das ideias positivistas na formação acadêmica promove a ação isolada e a crescente especialização das disciplinas. Tal situação compromete e recua a proposta interdisciplinar. Os reflexos desse processo são observados no exercício laboral de profissionais que insistem em agir isoladamente, valorizando apenas os seus saberes, impedindo a construção de um conhecimento integrado (GOMES; DESLANDES, 1994; MINAYO, 1991). Dessa forma, dificuldades de interação podem ser manifestadas na realização do trabalho em equipe. Superar a individualidade de atuação é uma necessidade para construir um trabalho interdisciplinar que vá ao acordo do modelo conceitual defendido no Sistema 2010. A seguir, um relato que manifesta a expectativa de melhoria da articulação entre os membros da equipe de avaliação:
P2 [...] de quando eu entrei até hoje, eu percebi melhoria na articulação das informações, das opiniões. No começo, eu senti um pouco de falta de integração. Hoje eu já sinto mais integrada, um pouco mais tranquila, mas ainda falta uma articulação melhor, do conhecimento de cada um assim, né? Cada um compreender melhor o conhecimento do outro e porque aquela opinião está sendo defendida daquela forma, né? E às vezes de forma até veemente. Mas, eu vejo uma melhora na articulação, e acho que a tendência é melhorar mais.3
Verifica-se, no relato, que a experiência adquirida no dia a dia facilita e contribui para a articulação entre os profissionais que estão na equipe. Há também uma crescente expectativa quanto ao nível máximo de articulação entre os atores envolvidos na avaliação diagnóstica. Isto é positivo, uma vez que denota uma abertura para o exercício interdisciplinar. Japiassu (1976) aponta a interdisciplinaridade como uma tecnologia
necessária na resolução de problemas complexos que não são respondidos por um enfoque unidisciplinar ou pela simples justaposição das disciplinas. Esse é o caso da construção do diagnóstico da deficiência intelectual segundo o Sistema 2010.