Em análise realizada do conteúdo apresentado pelos capítulos desta pesquisa de mestrado, foi possível levantar algumas conclusões, as quais permitem gerar proposições que colaborem com o processo da acessibilidade digital para pessoas com deficiência visual.
Já no primeiro capítulo, observou-se que apesar de o Brasil apresentar um histórico político bastante intenso em relação à criação de políticas públicas em prol da inclusão e da acessibilidade, o país ainda se encontra em fase inicial no que se refere à acessibilidade digital.
No universo imensurável da internet, apenas uma pequena parcela dos sites prestadores de serviços digitais são abordados pelo Estado, com a imposição da prática de adequações de acessibilidade, com o objetivo de receber os usuários cegos como clientes.
Assim, constatou-se que apenas sites governamentais e de instituições financeiras são legitimamente obrigados a prestar serviços de maneira adequada ao usuário com deficiência visual.
Tal imposição ter efeito parcial tem por consequência o não comprometimento dos demais sites em relação à preocupação em aplicar os recursos de acessibilidade digital nas páginas dos seus sites.
Essa ação desvincula legalmente os demais sites da responsabilidade em oferecer boas condições de navegação para atender grupos vulneráveis, como é o caso dos usuários com deficiência visual, pessoas idosas e outros que necessitam da navegação mais acessível.
Essa parcela de usuários não é composta por um número tão reduzido de pessoas, pois, considerando o citado no decorrer da pesquisa, quando falamos em acessibilidade, não estamos falando de benefícios apenas para as pessoas com deficiência, mas também em melhores condições de acesso a todas as pessoas que fazem parte do universo online.
No início desse processo que estamos vivendo, em que a inclusão digital é assunto de discussão, nota-se que a sociedade caminha lentamente em busca de ações que solucionem efetivamente a problemática da exclusão digital, quando nos referimos as pessoas com deficiência visual. Contudo, não devemos ignorar que mesmo não sendo no ritmo desejado, existem esforços concentrados em buscar ações que promovam o respeito à diversidade com o desenvolvimento de trabalhos, incluindo gradativamente os diferentes como participantes ativos, apesar das limitações, as quais não podem ser ignoradas.
Aos poucos, a sociedade vem descobrindo que as informações visuais podem e devem ser repassadas de modo a serem compreendidas, explorando os demais sentidos que não a visão, com o propósito de alcançar a comunicação também com as pessoas que não possuem tal recurso.
Dessa forma, especificamente para a inclusão digital das pessoas com deficiência visual, conforme apresentado no capítulo três, há mais de 15 anos pesquisadores e empresas brasileiras dedicam-se ao desenvolvimento de ferramentas que torne acessível o universo visual da web.
Atualmente, o Brasil conta com facilidades na aquisição de diversos leitores de telas tanto nacionais quanto do exterior, que tem por objetivo promover a interação entre os usuários cegos e as tecnologias da informática. Entre os programas de voz apresentados nesta pesquisa, fica a critério do usuário a opção pelo programa que mais atende suas necessidades ou expectativas de navegação.
Porém constatamos que a carência da acessibilidade digital ultrapassa os limites de apoio oferecidos pelos softwares de voz, conforme vimos nas declarações dos técnicos. Vimos que os leitores de telas são programados para buscar palavras descritas nas telas, verbalizando, assim, apenas a leitura das informações textuais. Desse modo, constatamos que é também de responsabilidade dos profissionais desenvolvedores da web, o crescimento da acessibilidade na internet por meio da criação de páginas que obedeçam às recomendações para a construção do site acessível.
O fato é que as informações que auxiliam o desenvolvimento de páginas acessíveis ainda se encontram fora do campo de conhecimento da maioria dos profissionais que lidam com a criação e manutenção de sites. São poucos os profissionais da web que têm acesso a tais informações e menos ainda os que aplicam os padrões de acessibilidade em seus projetos.
No entanto, para que o conhecimento sobre a produção da acessibilidade digital passe a fazer parte do universo dos desenvolvedores de web, bem como dos administradores de sites, é necessária a execução de trabalhos de sensibilização digital com o objetivo de promover o acesso a tais conhecimentos. Contudo, constatamos que poucos são os sites que desenvolvem de maneira eficiente a acessibilidade das interfaces, e sabemos que mudanças efetivas só serão possíveis a partir da aproximação do conhecimento técnico das reais necessidades de acesso dos usuários com deficiência visual.
Esse modelo de trabalho em parceria, conforme apresentado no quarto capítulo desta pesquisa, foi adotado por alguns grupos que tem a missão de tornar acessíveis as páginas de grandes sites em execução na rede. Assim, dentro de uma análise de resultados, de acordo com a opinião dos próprios usuários com deficiência visual, concluiu-se que os três casos de desenvolvimento de acessibilidade analisados obtiveram resultados positivos em relação à eficiência no acesso de informações disponíveis nos sites.
Todavia, é de suma importância para o crescimento da acessibilidade digital que a sociedade reconheça as pessoas com deficiência visual como uma parcela de usuários potenciais da internet, já que os gráficos nos mostraram um crescimento progressivo do antes e do depois da adequação da acessibilidade das páginas do site do Banco estudado.
O crescimento desses números comprova que existe uma parcela da sociedade alheia às oportunidades de negócios disponíveis na web, devido à falta de estrutura e despreparo dos sites em recebê-la. Ao mesmo tempo, os gráficos mostram que se trata de usuários que permanecem aguardando as oportunidades de participação oriundas da acessibilidade digital. O processo de transição sócio-cultural, no qual vivemos na contemporaneidade, configura-se como um momento de mudanças no que diz respeito às diversas condições sociais.
Os pré-conceitos culturais que carregam as pessoas com deficiência visual ainda dão vazão para que a maioria dos desenvolvedores não considere a possibilidade de um usuário cego acessar sozinho as páginas de um site. Esse histórico descontinuado é visto como um dos fatores de forte barreira a impedir uma maior velocidade no crescimento da acessibilidade nos ciberespaços.
Considerando todos os detalhes trazidos por esta pesquisa de mestrado, seria de grande importância a apresentação de números que pudessem quantificar a participação das pessoas cegas no universo digital. Infelizmente, mesmo explorando todas as possíveis fontes de informações que pudessem trazer esses dados, não foi possível identificar um número aproximado de usuários cegos ativos na internet. Com ausência desses dados, torna-se ainda mais difícil a ruptura de barreiras que dependem de ações externas para mudança.
No entanto, em análise de gráficos que mostram os resultados de uma pesquisa realizada com cinquenta usuários cegos, foi confirmada a capacitação de 100% dos participantes em utilizar a internet com o auxílio de leitores de telas, admitindo a condição de autonomia parcial, devido às dificuldades de acesso encontradas nas operações dos sites.
Os gráficos apontam também que diversos seguimentos de sites recebem a visita de usuários cegos com frequência.
A constatação de uma lista de dez itens homologados pelos próprios usuários com deficiência visual sugere proposições para as questões referentes à busca de elementos que tornam acessíveis as interfaces da web. Esses itens aparecem invariavelmente como necessários para a conclusão de uma operação realizada por essas pessoas, por meio do canal internet.
Por fim, a proposta assumida por este trabalho de mestrado de pesquisar quais são os desafios na acessibilidade para pessoas com deficiência visual nos processos comunicacionais na rede revela as condições de acessibilidade para que uma interface ofereça navegação a contento para essa parcela de usuários. São elas:
• Utilizar do atributo “Alt” para fazer a descrição textual de todos os objetos disponíveis na tela, ou seja, acrescentar rótulos que identifiquem elementos como: links, botões, campos editáveis (formulários de preenchimento e campos protegidos para senha ou login), além da descrição textual de gráficos e imagens, quando tratar-se de informações importantes do site.
• Ainda, segundo opinião dos usuários: os textos descritivos devem ser reduzidos a poucas palavras que levem a compreensão do objeto, evitando, assim, a navegação cansativa e leitura de frases extensas pelo software de voz.
• Outro elemento de grande importância para a conclusão das operações online é o acesso de navegação entre as caixas combinadas, que permitem selecionar uma entre as demais opções de escolha disponíveis na caixa. Assim como o processo de seleção dos check Box com a barra de espaço, já que conforme apontado no terceiro capítulo: a navegação da pessoa cega é feita em sua totalidade por meio dos recursos do teclado devido aos clicks do mouse serem estritamente visuais.
• Ao final das operações, é de suma importância que os usuários cegos tenham acesso à leitura de todo o conteúdo apresentado pelos resultados da operação, como, por exemplo, ao conteúdo do contrato de compras, assim como ao conteúdo da mensagem final no ato da conclusão da operação.
• Finalmente, chegamos aos dois últimos itens apontados na lista de acessibilidade e que são diretamente ligados à usabilidade das telas: a sequência organizada de navegação, que norteia a compreensão do usuário cego durante a leitura dos elementos da tela. Segundo declaração dos usuários, a navegação desordenada dos elementos faz com que o usuário se perca na leitura e desista facilmente de concluir a ação pelo site. Já a aplicação dos links de direcionamento ou chamados links de âncoras abreviam a quantidade de tabs que o usuário deverá acionar até chegar ao conteúdo desejado, pois, na ausência dessa âncora, o usuário com deficiência visual, involuntariamente, passeia por todos os links da tela antes de chegar a leitura do conteúdo desejado.
Observa-se, então, que os dois últimos itens apontados pela pesquisa colaboram com a acessibilidade da página, porém, tais elementos são propriedades discutidas pela usabilidade. Portanto, apesar de serem tratadas como duas diferentes vertentes em relação ao estudo das páginas, foi possível constatar que a parceria da usabilidade com a acessibilidade é fundamental para alcançar um bom nível de acesso às páginas por todos os usuários, independentemente das condições de navegação apresentadas por eles.
Assim, conclui-se que estamos em um momento em que o crescimento da acessibilidade digital está vinculado a diversos fatores, entre os quais o mais emergente se apresenta como a necessidade de divulgação das informações, fazendo com que as formas de adequações e recomendações referentes aos itens disponíveis nas telas se tornem conhecidos pelos desenvolvedores. Para facilitar a divulgação da acessibilidade na web, organizamos visualmente os dez principais elementos para a promoção de uma interface acessível para a navegação com software de voz.
Ilustração 15: Tabela com os dez elementos para uma interface acessível para pessoa com DV
[Descrição de imagem: Tabela com os dez elementos para uma interface acessível para pessoa com DV]
Com essas medidas de correção, é possível projetar um futuro próximo com sites mais acessíveis e que obedeçam aos padrões do desenho universal, atingindo, assim, uma navegação a contento para a parcela de usuários cegos existente na web.
No decorrer do texto desta pesquisa, propositalmente, incluímos a participação das leis da simplicidade de John Maeda, em diferentes pontos, já que elas se conectam com as ações que projetam a acessibilidade. Sendo assim, a simplicidade aparece presente nos nós deste trabalho, com o objetivo de estimular uma associação entre acessibilidade e simplicidade. Nesse sentido, se observarmos cuidadosamente os elementos da lista de
proposições à acessibilidade na web, encontramos muitas das leis da simplicidade implícitas em cada uma das propostas. Portanto, pode-se afirmar que a acessibilidade das coisas percorre o trajeto que busca a simplicidade em tudo.
O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte; Mas se a parte fez todo, sendo parte, Não se diga que é parte, sendo todo. (Gregório de Matos)
REFERÊNCIAS
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APÊNDICES
APÊNDICE A - FORMULÁRIO PARA PESQUISA EMPÍRICA
Dados pessoais Nome: Profissão: Onde trabalha: Estado residencial: Nº do RG
1 - Há quantos anos você é usuário da WEB? R:
2 - Você navega com o auxílio de um leitor de tela? R:
3 - Você encontra dificuldades de interação com as interfaces da web? R:
4 - Recentemente você teve problemas com a navegação com a interface de algum site? Qual?
R:
Assinale os sites com
(s) para sim (n) para não (f) frequentemente Bancos
Supermercados
Lojas virtuais como ex: Submarino ou Americanas Companhias aéreas
Companhias telefônicas Jornais e revistas Escolas e universidades
5 - Elementos fundamentais para acessibilidade de navegação das interfaces para DV: 1) Descrição dos Botões e links
2) Descrição dos campos editáveis (formulário de preenchimento/entrada de dados) 3) Descrição dos Campos de textos protegidos (senha ou login)
4) Acessibilidade em todo o conteúdo do resultado da pesquisa 5) Descrição de gráficos e imagens
6) Sequência organizada de navegação
7) Acessibilidade do conteúdo do contrato da operação 8) Leitura da mensagem do resultado da operação
9) Navegação entre os itens de caixa combinadas (combo box) 10) Seleção de caixas de opção
11) Navegação, descrição e seleção dos check box Obs:
APÊNDICE B - TERMO DE CONSENTIMENTO INFORMADO
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO - PUCSP
PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
TERMO DE CONSENTIMENTO INFORMADO
Você está sendo consultado(a) pela pesquisadora Viviane Ferreira Silva, orientada pela Profª Drª Lúcia Isaltina Leão, sobre a coleta de dados para uma pesquisa acadêmica. A investigação consiste na coleta de dados da opinião de usuários Web com deficiência visual, a respeito da acessibilidade às interfaces digitais, bem como aos dados provenientes da navegabilidade desse perfil de usuários aos websites e-commerce. Os dados contribuirão para o Projeto da dissertação "Desafios na acessibilidade para pessoas com deficiência visual nos processos de comunicação e-commerce". Salientamos que sua autorização é voluntária. Agradecemos sua colaboração para o desenvolvimento do conhecimento.
Att,
Viviane Ferreira Silva
APÊNDICE C - RELATÓRIO DA ENTREVISTA COM A EQUIPE DO PROJETO RENAPI Entrevista com a equipe do projeto Acessibilidade Virtual da Renapi no IFRS (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul) – Campus Bento Gonçalves
Data: segunda-feira 02 de Abril de 2012
Local: Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Bento Gonçalves
Coordenadora do projeto: Andréa Poletto Sonza
Pesquisadora: Viviane Ferreira
A missão do Projeto de Acessibilidade Virtual da Renapi (Rede Nacional de Pesquisa e Inovação do Ministério da Educação) é garantir um bom nível de acessibilidade nos sites do governo. Para isso, dividimos a nossa equipe de testes de acessibilidade em duas partes de especialistas que trabalham em diferentes fases dos estudos de acessibilidade das páginas.
Uma parte da equipe é constituída por pessoas com deficiência visual, que trabalham na primeira fase dos estudos, elaborando os testes das páginas apontando em quais pontos das telas os programas de voz não fazem a leitura correta dos itens.
Esses membros da equipe identificam os erros de acessibilidade e preenchem um formulário que chamamos de cheklist. Em seguida, os erros encontrados são passados para a segunda fase dos estudos por intermédio do checklist.
A segunda parte da equipe, é formada por estudantes de tecnologia da informação, que atuam como bolsistas do Projeto de Acessibilidade Virtual da RENAPI. Eles são
responsáveis por identificar os erros de codificações, analisar por que ocorrem esses erros e