3. Theoretical background
3.1. Warehousing
O movimento Escola Nova refere-se a todo um conjunto de princípios tendentes a rever as formas tradicionais de ensino [...] [derivados] de uma nova compreensão de necessidades da infância, inspirada em conclusões de estudos da biologia e da psi ologia. Com essa afirmação, Lourenço Filho (1963, p.17) introduz seu Estudo da Escola Nova, onde apresenta-nos o conhecido movimento de renovação da educação que se baseava na concepção de que o processo educativo deveria ter como função geral o desenvolvimento individual de capacidades e aptidões. A essa concepção somou-se, posteriormente às duas grandes guerras, a preocupação com o papel da educação para a organização social como um todo.
A origem do movimento, contudo, remonta às pesquisas sobre as diferenças individuais às quais nos referimos anteriormente. Entre os psicólogos e pedagogos que aderem a esse revolucionário movimento no campo da educação, encontramos alguns dos principais representantes da Psicologia Diferencial, tais como: os americanos Jonh Dewey (1859-1952) e Stanley Hall (1844-1924), funcionalistas de primeira linha, bem como Alfred Binet e Edouard Claparède (1873-1940), este último, autor de A Educação Funcional, publicado também no Brasil em 1934, na coleção Atualidades Pedagógicas.28
Ao movimento escolanovista se impunha combater uma concepção tradicional de educação caracterizada por uma metodologia apoiada nos interesses da sociedade industrial capitalista e que previa a direção e o controle pelo adulto, da suposta índole desordenada e caótica das crianças. Como resposta, p op e u a edu aç o e t ada a ia ça , esse o o se edese hado pela psi ologia e pe i e tal do i í io do s ulo. Essa ia ça o a carregava consigo aptidões e interesses que não poderiam ser desprezados pelo processo educativo. Ao contrário, era preciso criar condições para que se desenvolvessem da melhor forma, permitindo que encontrassem, através da passagem pela escola, um lugar social compatível com suas inclinações naturais.
A concepção de criança subjacente ao movimento de renovação da educação que se organizava, era extraída, como indicamos, das pesquisas em Psicologia Diferencial, e supunha um ser i atu o e o e oluído DEWEY, 1978, p.42) cuja natureza tenderia para o desenvolvimento das aptidões e capacidades em relação a um ambiente propício ao es o. Segu do Clapa de , p. O edu ado pode, ali s, i te i pa a au ilia a Natu eza. , esta ele e do as o diç es pa a o dese ol i e to de dete i adas capacidades em detrimento de outras.
Essa será a concepção fundamental que se desdobrará em uma série de princípios norteadores das propostas educativas baseadas no novo modelo. Aos poucos muitas escolas começam a adotá-la e em diversos países são fundadas ou reorganizadas escolas em consonância com os novos princípios. Destacam-se, nesse contexto, a iniciativa de Faria Vasconcelos, fundador da escola nova de Bierges-Lez-Wavre em 1912, na Bélgica e a criação do Instituto Jean Jacques Rousseau por Claparède, no mesmo ano em Genebra.
28 A coleção Atualidades Pedagógicas foi publicada durante 51 anos, de 1931 a 1982, pela Companhia Editora
Nacional e teve grande importância na divulgação das ideias pedagógicas escolanovistas no Brasil, tendo entre seus títulos alguns dos principais representantes desse movimento na Europa e, posteriormente, no Brasil.
Antes de prosseguir, é preciso registrar que concordamos com a ressalva feita por Patto (1993), de que subjacente à maneira como se organiza e orienta a proposta escolanovista havia um interesse legítimo de seus idealizadores pela construção de uma so iedade igualit ia, li e e f ate a Patto, , p. . A íti a ue fa se di igida não às intenções dos autores, mas aos meios através dos quais o movimento se engendra. Para ela, as justificativas que se produzem sobre a educação e seus problemas, amparadas por pesquisas que, com o rótulo de científicas, legitimavam a desigualdade social, é que se constituía no verdadeiro problema a ser denunciado. Embora concordemos com Patto (1993) em sua análise dos efeitos sociais do movimento, que produz, segundo suas palavras, um conte to ideol gi o efo ista ide , p.43) no tratamento das questões da educação, nossos interesses se diferenciam. Ao refazermos, mesmo que abreviadamente, o percurso da constituição dos saberes instituídos sobre a educação e seus impasses, pretendemos localizar a origem dos modos como os professores da escola pública, ainda hoje, abordam as supostas dificuldades experimentadas por seus alunos no processo de aprendizagem. Para além dessa localização, contudo, temos como objetivo último dar sustentação à tese de que os modos como se constituíram e ainda se constituem as explicações sobre as dificuldades de aprendizagem das crianças jamais consideram a posição das mesmas sobre o que lhes acontece. No contexto da abordagem psiqui t i a das patologias asso iadas edu aç o essa postura, como vimos, fica evidente. É curioso observar, contudo, que mesmo uma pedagogia o a ue se diz e t ada a ia ça seja o e ida a pa ti de u a o epç o de criança forjada por pesquisas científicas decorrentes de observação e experimentação. Nesse modelo à criança não é dada a possibilidade de dizer sobre o que se passa com ela ou como entende a educação que recebe. Os dados referentes a cada criança são colhidos através dos instrumentos de medida, os quais, como sabemos, são feitos para identificar e medir, em última instância, as próprias teorias que os sustentam. Nesse caso, prevalece a definição de criança como um organismo, cujas funções, das mais simples às complexas, devem se desenvolver em consonância com as exigências do meio onde se encontra. Nossa crítica, diferentemente da empreendida por Patto (1993), se fundamenta na evidência da total exclusão da voz das crianças nas abordagens das dificuldades que enfrentam no contexto escolar.
Prosseguindo, então, nosso exame, constatamos que as ideias e práticas escolanovistas europeias e americanas encontraram significativa ressonância no Brasil
republicano do início do século. Vejamos, assim, a forma que tomaram no contexto brasileiro, à qual se encontra claramente expressa no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, documento subscrito por um grupo de notáveis intelectuais brasileiros, que se tornou referência do pensamento educacional subsequente.