Na América do Norte há dezenas de casos de treponematose pré- colombiana descritos (Powell & Cook, 2005). Neste subcontinente, as abordagens populacionais, portanto, são mais factíveis e também mais frequentes.
Assim, a treponematose na América do Norte foi identificada em 25 esqueletos de uma série de 2410 indivíduos do período arcaico (8000-1000 anos AC) e do período proto-histórico (1500-1600 anos AP) nas regiões montanhosas do Alabama, Florida, Carolina do Norte e, Tennessee USA (Hutchinson & Richman, 2006).
De 650 indivíduos analisados do Estado de Tennessee, 37 (5,7%) e no máximo 44 (6,8%) estão comprometidos com treponematoses. Pertencem a 5 sítios da fase Dallas, período de 1300 a 1550 AD, época esta caracterizada pela agricultura de milho florescente e uma estrutura de vida comunitária regrada. A baixa frequência de treponematose provavelmente estaria associada ao quadro geral de boa saúde que este grupo de pessoas apresentava (Smith et al., 2011).
Existe apenas um caso publicado de possível treponematose pré- contato europeu no Havaí. Trata-se de uma jovem adulta de Barber’s Point, O’ahu datada de 1425 – 1650 AD (Pietrusewsky et al., 1990). Este caso ocorreu antes da chegada do Capitão Cook a esta região; sendo que logo após o contato com europeus, várias epidemias eclodiram (Pietrusewsky & Douglas, 1994).
Avanços metodológicos estão permitindo confirmar diagnósticos de treponematose óssea em alguns casos. Utilizando-se de técnicas imunológicas modernas foram confirmadas lesões ósseas de treponematose em populações Inca e Asteca (Hutchinson & Richman, 2006). Outro trabalho apresenta evidências genéticas de treponematose nas Américas pré-colombianas. Combinando evidências osteológicas e moleculares com dados ambientais e práticas culturais, a pesquisa confirma a presença de treponematose em esqueletos humanos mumificados no norte do Chile em cemitérios datados de 5000 anos AC a 1100 anos AD (Kaye, 2008).
Treponematoses e outras paleopatologias em sítios arqueológicos pré-históricos do litoral sul e sudeste do Brasil
(j.Filippini - 2012)
Estudos etnográficos podem contribuir para o entendimento sobre doenças infecto-contagiosas de nossos ancestrais. Tribos modernas da Amazônia brasileira, com mínimo contato externo fornecem preciosas informações sobre essas doenças. Existe evidência imunológica de framboesia no passado em três tribos indígenas daquela região: Xikren, Kuben Kran Kegan e Mekronti (Black, 1975). Essas evidências foram coletadas a partir de testes florescentes de absorção de anticorpos da treponematose (FTA-ABS) ou do teste de imobilização de Treponema pallidum (TPI). Esses testes são usados para confirmar se as infecções por treponema são verdadeiras, como exemplo, o teste VDRL (Veneral Disease Research Laboratory), ou o teste reagente rápido plasmático (RPR). O resultado positivo destes testes indica qual o tipo de treponematose (Black, 1975). Três tribos Kayapós mostraram alta prevalência de infecção treponemática, com 60% de prevalência em adultos (testes VDRL e FTA-ABS). Outros 19% apresentaram positividade apenas em um dos dois testes. Resultados negativos foram apresentados nas crianças abaixo de sete anos sugerindo que o tipo de treponematose é framboesia e não sífilis venérea (Black, 1975). Entretanto, uma minuciosa investigação clínica comprovou não haver sinais de sífilis venérea ou congênita nesta população. Esta ausência de sintomas de sífilis indica que a infecção existente é branda e bem tolerada na população. Black (1975) sugere que entre os Kayapós há baixa virulência e/ou que a população apresenta alta resistência à treponematose. Estes resultados podem contribuir para a discussão acerca da manifestação destas doenças no passado.
Por fim, a controvérsia continua quando analisada a problemática sob o contexto histórico. Quando Colombo encerrou sua primeira viagem vinda da ilha La Espanhola (Haiti) no dia 4 de janeiro de 1493 chegou a Lisboa no dia 14 de março do mesmo ano e em Sevilha dia 31 de março, com uma tripulação de apenas 46 tripulantes e 10 índios. Partiu para Barcelona dia 24 de setembro de 1493 acompanhado da maioria de seus tripulantes que vieram da América. Já em março de 1494, Carlos VIII recrutava homens em Lyon na França. A maioria dos mercenários eram franceses, holandeses e suíços. A intenção era lutar contra a Espanha na Itália para apoderar-se de suas possessões. Florença e Roma se renderam sem luta e em fevereiro de 1495 os franceses
Treponematoses e outras paleopatologias em sítios arqueológicos pré-históricos do litoral sul e sudeste do Brasil
(j.Filippini - 2012)
partiram até Nápoles, onde seu rei Fernando II se rendeu também sem luta. No dia 22 de fevereiro de 1495, às 4 h da tarde (“hora natal da sífilis”), Carlos VIII entrou na cidade. Houve pequena resistência de algumas semanas, período em que as tropas francesas passaram a orgias incontroladas. Houve uma reação denominada da Santa Liga, para combater os intrusos que foram expulsos. Supondo que 10 homens no máximo, que acompanharam Colombo à América estivessem presentes nestas batalhas e tivessem atuado nas promiscuidades, nunca tão poucas pessoas poderiam ter causado uma epidemia de tão graves consequências, levando em conta que a contaminação da sífilis é de cerca de 30%. O desenvolvimento de uma epidemia como esta que afetou quase todas as pessoas susceptíveis entre o dia 22 de fevereiro e o dia 20 de maio de 1495 deveria ter muito mais pessoas envolvidas e infectadas. Se isto não bastasse, o período de incubação da sífilis é de aproximadamente 4 semanas, sendo que 100% dos infectados têm uma reação secundária que aparece entre 10 a 24 meses depois da primeira infecção. Por isso, os homens que acompanharam Colombo na viagem da América para a Europa e que supostamente estiveram presentes nas batalhas acima descritas na tomada de Nápoles e supostamente haviam adquirido a doença na ilha La Espanhola antes de sua partida em janeiro de 1493, não poderiam ter ocasionado a epidemia de “sífilis” na Europa do final de século XV. Houve um período de dois anos e 49 dias entre a chegada de Colombo das Américas e a rendição de Nápoles. Até este momento, entretanto, já teria de ter passado o período de infecção ativa da doença e, portanto, não poderia haver contágio. A probabilidade de que os tripulantes de Colombo tenham infectado alguém na rendição de Nápoles é muito menor do que 1% (Borobio, 2003).
Desta forma, a questão sobre a origem da sífilis venérea e outras treponematoses ainda persiste, porém mais importante do que demonstrar quem contaminou quem na história da treponematose é identificar qual é o relação biológica entre as treponematoses (sejam elas venéreas ou não) e qual o significado dessas doenças para o entendimento da coevolução entre hospedeiros e patógenos (Ortner, 2005).
Treponematoses e outras paleopatologias em sítios arqueológicos pré-históricos do litoral sul e sudeste do Brasil
(j.Filippini - 2012)
C: Teste de hipóteses usando paleopatologia e análise filogenética