3.2 Kulturpsykologisk forståelse
3.3.3 Signifikante andre
Entretanto, não somente a origem das treponematoses levou à formulação de várias hipóteses. Além das treponematoses, outras patologias causaram enormes transtornos quando foram levadas a populações que antes não haviam tido contato nenhum com determinados agentes infecciosos. Assim, a vinda de Colombo e outros exploradores para as Américas
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certamente levou à dizimação de populações ameríndias (Merbs, 1982). As principais patologias que a partir do transporte transoceânico mataram milhares de americanos nativos incluem sarampo, varíola, difteria, malária, peste bubônica, febre amarela e possivelmente também tifo (Merbs, 1982). Segundo o mesmo autor, antes de Colombo já existiam várias doenças na América; dentre elas treponematose (sífilis e pinta), doença de Lyme, tuberculose, formas de leishmaniose e tripanosomíase, além de artrite reumatóide, fungos que produziam a coccidioidomicose e paracoccidioidomicose e várias infecções causadas por cocos, legionellose, doença hidática e uma variedade de infecções gastrointestinais. Entretanto, Merbs (1982) não descarta a possibilidade de que algumas dessas doenças já existirem em ambos os hemisférios antes de 1492.
Conhecer a origem e as formas de disseminação de doenças infecciosas é peça fundamental para que se compreenda melhor a natureza de cada doença e sua interdependência com fatores ecológicos, climáticos e culturais. Estabelecer os fatores que as tornam mais ou menos virulentas possibilita ainda traçar diretrizes mais eficazes para combatê-las no futuro (Nesse & Williams, 1997).
Resumo cap. III. Existe muita controvérsia sobre a origem das treponematoses. As hipóteses colombiana, pré-colombiana e unitária não conseguem emplacar apesar de vários estudos a respeito. A lepra na Europa no período de retorno de Colombo coincide com a epidemia da sífilis causando mais controvérsias com relação a sua origem.
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IV - RECONSTRUÇÕES DE PROCESSOS DE SAÚDE-DOENÇA E QUALIDADE DE VIDA EM POPULAÇÕES PRETÉRITAS
Como se depreende dos capítulos anteriores, estabelecer diagnósticos diferenciais em populações pretéritas é bastante complexo. Além disso, as estimativas de expectativa de vida de grupos humanos escavados em sítios arqueológicos também são extremamente dificultosas de avaliar, principalmente pela falta de informações sistemáticas sobre taxas de crescimento populacional, devido ao número inconstantemente baixo de amostras. Pelo fato de uma verdadeira paleodemografia ser impossível de ser realizada na ausência de coleções osteológicas modelo, ao invés destes dados, os bioarqueólogos dão ênfase a outro aspecto: a qualidade de vida. Esta está intrinsecamente ligada à distribuição de idade de óbito, estatura e a vários tipos de lesões esqueléticas que juntos perfazem o índice de saúde (Steckel et al., 2002).
Para avaliar a qualidade de vida de grupos pré-históricos são utilizados indicadores de estresse. Enquanto o estresse fisiológico não é mensurável diretamente, ele pode ser inferido pela variedade de seus efeitos sobre o organismo em geral e sobre o tecido ósseo em particular. Se o estresse é grave e crônico, então ele é passível de ser evidenciado no desvio de crescimento, em alterações permanentes da dentição ou mesmo da estatura, nas diversas patologias não específicas, assim como também na idade de óbito (Goodman et al. 1984). Uma das formas de avaliação de qualidade de vida em indivíduos pré-históricos é a estimativa do comprimento de ossos longos, ou de características como as linhas de Harris e as hipoplasias de esmalte dentário, que podem revelar o desvio de crescimento ocorrido durante estresses fisiológicos em vida (Goodman et al. 1984).
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Figura 4: Distribuição geográfica e temporal de treponematoses. Casos destacados refutam principais hipóteses sobre a origem da sífilis (modificado de De Melo et al, 2010).
Contrário à Hipótese Unitária: Não há associação direta de tipo de treponematose com clima ou nível cultural
Bejel: não só em regiões áridas Yaws: não só em clima tropical úmido
Contrário à Hipótese Colombiana: Sífilis 6000 AC na Sibéria
Contrário à Hipótese Colombiana
Contrário à Hipótese Pré-colombiana: Bejel não só em regiões áridas (Y, Ca) Bejel 6000a + antiga que proposto (SD) Sífilis antes de 5000a não só na Ásia
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Entretanto, na prática, é extremamente difícil parametrizar saúde, doença e tempo de vida, quando contamos apenas com ossos milenares e incompletos para a formação de conceitos (Wood et al. 1992). Existe a necessidade de se levar em consideração o “paradoxo osteológico”, que, valendo-se da análise osteopatológica, alega não permitir conhecer exatamente o que aquele indivíduo sofreu em vida (Wood et al., 1992). De acordo com o senso comum, um esqueleto com intensas marcas de desgaste ou patologias é visto como refletindo alguém com problemas de saúde, enquanto que um esqueleto sem marca alguma é usualmente interpretado como resto de um individuo saudável. Porém, o paradoxo osteológico inverte esta relação. Se forem identificadas osteopatologias no esqueleto, isto significa que esse indivíduo com lesões viveu tempo suficiente para sobreviver e eventualmente superar as doenças que o afligiram (Wood et al., 1992). Um esqueleto livre de lesões, por outro lado, pode representar alguém que sucumbiu rapidamente a um insulto agudo.
Ao invés de declarar a paleodemografia e, até certo ponto, também a paleopatologia como exercícios infrutíferos (Bocquet-Appel & Masset, 1982), outros autores (Steckel et al., 2002) demonstraram que existe sim uma correlação positiva entre a idade de óbito e a qualidade de vida (que é tanto maior quanto menor for a quantidade ou qualidade de lesões observadas no material esquelético).
Utilizando-se de vários marcadores osteológicos, Steckel et al. (2002) sugerem que deve permanecer válida a interpretação tradicional que dava importância às patologias ósseas como indicadores de quedas na qualidade de vida e deteriorização da saúde. Isto decorre do fato de existir uma correlação positiva entre a incidência de patologias com uma piora da qualidade de vida, quando se considera os contextos históricos e paleopatológicos específicos (Bennike et al., 2005).
O índice de saúde parte da premissa que há dois componentes: o tempo de vida e a qualidade de vida saudável durante todo esse tempo. Hoje se calcula este índice subtraindo todo o tipo de enfermidade que tenha alijado uma pessoa de suas atividades durante a vida, do tempo usufruído até sua
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morte (índice de saúde – OMS). Atualmente este índice é praticado pela OMS e serve de referência na saúde pública para o mundo inteiro, o que o torna importante a título de comparação entre os diferentes serviços de saúde.
Com relação aos povos pré-históricos, o que se pode estimar é a idade de óbito dos indivíduos e, por vezes baseados nas patologias ósseas, estimar quais foram as doenças que os acometeram, sempre levando em consideração o paradoxo osteológico. Entretanto, determinar a causa mortem em material esquelético arqueológico é um exercício quase impossível (Ortner & Putscar, 1985).
Assim, não somente para auxiliar no diagnóstico diferencial de treponematoses, mas para contextualizar de uma maneira mais geral a saúde de populações antigas, vários marcadores e patologias devem ser considerados.