Alfredo Ellis Júnior era o filho mais jovem dos dez filhos do Senador Ellis. Formou-se em direito pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1917, foi promotor público, deputado estadual de 1925 a 1930 e de 1934 a 1937. Em 1939, tornou-se titular da cátedra de História da Civilização Brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Era defensor da república liberal federalista e fez parte de um grupo de intelectuais do PRP que fizeram do Correio Paulistano o defensor da paulistanidade e da visão republicana paulista. O grupo congregava entre seus membros a ala verde-amarela do movimento modernista, representada por Menotti Del Picchia, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo e por historiadores como Afonso de Taunay e Alfredo Ellis Jr.
Esse grupo foi responsável pela constituição de uma tradição cultural e política que cultuava o passado paulista, constituindo uma visão de mundo própria a São Paulo.
A recuperação da figura do bandeirante como uma aristocracia ancestral, mais antiga do que a nobreza imperial, foi um dos motes preferidos dos intelectuais e artistas paulistas que criaram a Semana de Arte Moderna de 1922. Como observa Waldman (2013) os filhos da nascente burguesia paulista haviam estudado em Paris. Lá se encontravam, debatiam e criavam as suas perspectivas artísticas e intelectuais, que posteriormente trouxeram para São Paulo.
Na década de 1920, Paris e sua efervescência cultural atraíam artistas e mecenas de todos os lugares do mundo. No caso dos artistas brasileiros, lá estavam Tarsila do Amaral (1886-1973), Anita Malfatti (1889-1964), Victor Brecheret (1894-1955), Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), Heitor Villa-Lobos (1887- 1959) e Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), entre outros, muitos deles patrocinados por Paulo Prado, como Brecheret, Di Cavalcanti e Villa-Lobos. (WALDMAN, 2013, p. 214)
Alguns membros do grupo representavam os interesses de sua família no exterior, como o caso de Paulo Prado que exerciam a atividade de comercialização de café no exterior.
A longa estadia em Paris, em plena Belle Époque levou ao refinamento dos jovens paulistas, que tornaram-se mais sensíveis às linguagens das vanguardas artísticas, abrindo novos horizontes no plano da atividade cultural, permitindo que se trouxesse ao Brasil as novidades europeias. A semana de arte moderna não foi um ato de inovação, mas uma recriação da atmosfera a que esses artistas e intelectuais estavam acostumados na Europa.
Para vários de seus participantes, a semana era um fenômeno propriamente paulista, porque só São Paulo possuía as condições econômicas, políticas, sociais e culturais para esse tipo de modernidade.
Nos textos escritos por Menotti Del Picchia, Oswald e Mário, a Semana não somente é divulgada com entusiasmo, como começa a ser considerada em termos exclusivamente paulistanos. Menotti, por exemplo, sob o pseudônimo de Hélios, escreve no Correio Paulistano que “São Paulo, no mundo do pensamento, como em todos os ramos da atividade humana, é ainda o Estado que dá a nota e dita o figurino do país”; já Oswald, no Jornal do Comércio, afirma que “é de São Paulo a glória de abrigar os primeiros portadores da nova luz”; enquanto Mário não deixa por menos e, no primeiro dia do evento, logo canta a dianteira paulista, no jornal A Gazeta: “A hegemonia artística da corte não existe mais. No comércio como no futebol, na riqueza como nas artes, São Paulo caminha na frente”.“Socialmente falando”, conclui Mário de Andrade em um balanço sobre a Semana de Arte Moderna, vinte anos depois: “o Modernismo só podia mesmo ser importado por São Paulo e arrebentar na província”, pois São Paulo é “fruto necessário da economia do café e do industrialismo consequente”.
Em relação ao caráter de elite da Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade explicava que o
movimento modernista teria um fundo “nitidamente aristocrático (...), não da aristocracia improvisada do Império, mas da outra mais antiga, justificada no trabalho secular da terra” (WALDMAN, 2013, p.218.) Como observa Waldman (2013), também Oswald de Andrade segue o mesmo raciocínio e em uma conferência pronunciada em 1944, definiu o impulso inicial do modernismo com um “diagrama da alta do café, da quebra e da revolução brasileira”(WALDMAN, 2013, p.218.)
A relação com a terra evoca de imediato a imagem de uma aristocracia de espírito paulista, uma imagem que vinha sendo cunhada desde os trabalhos de Pedro Taques, ao lançar a nobiliarquia paulista, apontando os troncos originais de bandeirantes e das famílias que seriam suas descendentes. O modernismo, neste sentido, não inova, mas retoma a tradição da locomotiva paulista, trilhada já no
final do século XIX. Como movimento cultural, a propagação das ideias modernistas representa para seus criadores a confirmação da superioridade paulista.
O modernismo refunda assim a crença na superioridade paulista, transformando-a em sinônimo de identidade cultural, ainda que vários movimentos de feitios modernistas tenham pipocado por todo país, sobretudo em Pernambuco, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O regionalismo paulista procura impor-se aos demais justamente pela negação de seu caráter local, travestido de nacional. Para isso, foi essencial a recuperação da figura do bandeirante. (WALDMAN, 2013,p.220.)
Oswald de Andrade, em artigo publicado no Jornal do Comércio refere-se ao importante papel de São Paulo:
(...) é “a cidade dos prodígios – herdeira das migrações e das entradas”. Assim, enquanto os bandeirantes dos séculos XVII e XVIII empenharam-se em conquistar novas fronteiras, os “novos mamelucos” assumiram a tarefa de estender o progresso e a modernidade paulista ao resto do Brasil. A imagem de São Paulo como a “locomotiva da nação” é então enfatizada, pois o apelo maior exercido pelo bandeirismo invoca uma adesão implícita à crença na superioridade paulista, idealizada como “a locomotiva a puxar vagões vazios” (WALDMAN, 2013, p.220.)
Ellis Júnior dedicou-se, como historiador, a produzir uma obra que buscava na história bandeirante as origens do que chamava de “democracia paulista”. Seguindo os mesmos princípios liberais norte-americanos cultuados por seu pai, Ellis procurou aproximar a história paulista da história norte americana, por meio da figura do self made man.
Para tanto, elaborou uma versão própria da imagem do bandeirante, articulando características específicas, todas marcadas pelo sinal da democracia. Racialmente, o bandeirante seria um mestiço eugênico; socialmente, seria fruto de setores médios com valores politicamente autônomo, e por última seria um liberal seguindo o caminho do self-government.
Ellis Júnior descreveu que em sua origem os bandeirantes paulistas teriam se caracterizado pela pobreza e pela mais completa igualdade social. Seu estabelecimento no planalto paulista teria constituído a fundação de uma sociedade marcada pelos valores de uma democracia social. Contestando diretamente a origem aristocrática do bandeirante que tinha sido veiculada por Pedro Taques e Oliveira Vianna, Ellis Júnior construía um imaginário paulista fundado em uma origem socialmente democrática, representando-a a imagem e semelhança da sociedade colonial norte- americana.
Considerava que em suas origens os bandeirantes, embora respeitassem a autoridade real ibérica, em razão de sua a pobreza e afastamento geográfico, teriam desenvolvido no planalto, um governo organizado sob suas próprias regras de igualdade. Ellis Júnior atribuiu a estes homens a organização de um governo autônomo fundado em um regime “de verdadeiro self-government, saturado de democracia” (Ellis Júnior, 1926, p.223). Ellis Júnior reforçava, assim, o caráter liberal e democrático das tradições políticas paulistas, que, diferentemente do resto do país comprovariam sua herança e destino liberal, empreendedora, moderna e progressista.
Para que pudesse fundamentar a tendência liberal e empreendedora, Ellis Júnior, precisou demonstrar que o latifúndio, base econômica de uma sociedade aristocrática, não predominava em São Paulo. Para ele, o planalto bandeirante teria se caracterizado pela pequena propriedade, base material do espírito democrático. Desta forma a pequena propriedade seria uma especificidade da história regional paulista que explicaria, juntamente com o espírito liberal, a organização democrática e o ímpeto empreendedor a “exceção paulista”.
A representação do bandeirante como dono de um espírito “ávido de aventuras, arrojado e impetuoso” era associado a um “espírito comunitário” (Ellis Júnior, 1926, p. 275). Com o advento do latifúndio cafeeiro, o paulista se isolou no sertão, perdeu o contato com os demais povoadores e distanciou-se do espírito comunitário. E assim, “o paulista se identificou definitivamente com o individualismo, atingindo o pináculo da sua evolução” (Ellis Júnior, 1926, p.290).
Todo o tratamento realizado por Ellis Júnior convergia na direção de acentuar a identidade entre os traços do homem médio norte americano que se tornou um sucesso econômico, evidenciado pelas grandes fortunas e poder econômico internacional e o paulista moderno, empreendedor, dotado de iniciativa e capaz de ascender à condição de magnata internacional.