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Ao olharmos para os desafios da missão em nosso tempo, temos que necessariamente tentar enquadrá-la em uma perspectiva que sirva como parâmetro da atualização da tarefa cristã no mundo. E dentre tantas perspectivas possíveis, parece-nos que uma tem especial necessidade de afirmar-se, que é a perspectiva da redenção, que nos foi conquistada por Cristo no mistério da sua paixão, morte e ressurreição.

Tomemos como ponto de partida a antropologia presente na encíclica Redemptoris

Hominis, de João Paulo II, referência para o nosso tempo. Nesta carta, que marca o início de

seu pontificado e marca como que o seu programa, a missão da Igreja é posta sobre uma única finalidade: “que cada homem possa encontrar Cristo” (RH 13). Esta nobre missão é colocada

sobre o pano de fundo dos processos históricos, nos quais Jesus Cristo deve tornar-se novamente presente, apesar de suas “aparentes ausências” (RH 13) e de todas as limitações

da presença e atividade institucionais da Igreja. Reafirma a encíclica que o caminho principal da Igreja é Jesus Cristo, que deverá ser manifestado “com a potência daquela verdade e daquele amor que nele se exprimiram como plenitude única e que não se pode repetir” (RH

13).

A estrutura própria da fé e consequentemente da missão cristã tem seu fundamento na fé cristológica da Igreja: Cristo é o caminho da Igreja e é também o caminho para cada homem. A solicitude de Cristo deve ser a solicitude da Igreja como “sinal e salvaguarda do

caráter transcendente da pessoa humana” (RH 13, cf. GS 76).

Aqui, portanto, trata-se do homem em toda a sua verdade, com a sua plena dimensão. Não se trata do homem abstrato, mas sim real: do homem concreto, histórico. Trata-se de cada homem, porque todos e cada um foram compreendidos no mistério da redenção, e com todos e cada um Cristo se uniu, para sempre, através deste mistério. Todo homem vem ao mundo concebido no seio materno e nasce da própria mãe, e é precisamente por motivo do mistério da redenção que ele é confiado à solicitude da Igreja. [...] O objeto destes cuidados da Igreja é o homem na sua única e singular realidade humana, na qual permanece intacta a imagem e semelhança com o próprio Deus (RH 24).118

A missão da Igreja, neste ponto, reveste-se de uma importância singular, pois ao anúncio de que Cristo redimiu o homem pelo mistério da sua Páscoa, deve-se seguir ao anúncio de que este mesmo Cristo revela o homem ao próprio homem, e mais, de certa forma o Cristo encarnado uniu-se a cada homem, pensando, trabalhando, agindo e amando com uma vontade humana, enfim tornando-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (cf. RH 8).

O mistério da redenção, que deverá ser anunciado em todo tempo e lugar ao homem, coloca, portanto, o mistério de Cristo na base da missão da Igreja e do cristianismo (cf. RH

11). Esta tarefa fundamental é, de fato, “dirigir o olhar do homem e de endereçar a consciência e experiência de toda a humanidade para o mistério de Cristo, de ajudar a todos os homens a ter familiaridade com a profundidade da redenção que se realiza em Cristo Jesus” (RH 10). E esta profunda admiração que a revelação cristã deve suscitar no homem

chama-se exatamente Evangelho, Boa-Nova, que além de estabelecer a verdade sobre o homem mesmo, sobre a sua existência, deve também estabelecer o lugar de Jesus Cristo, “o seu particular direito de cidadania na história do homem e da humanidade” (RH 10).

A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a redenção que se realizou por meio da Cruz, restituiu definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em considerável medida por causa do pecado. E por isso a redenção realizou-se no mistério pascal que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição (RH 10).

Esta concepção do “homem remido”119 e a sua situação no mundo contemporâneo, que já havia sido alvo da análise acurada de Paulo VI na Carta Encíclica Ecclesiam Suam

(1964), e que tinha como contexto principal exatamente o mundo e a Igreja do Concílio

Vaticano II, é renovada agora em continuidade magisterial pelo Papa João Paulo II, acentuando a preocupação da Igreja por cada homem e sua vida. Nenhuma situação intra- mundana pode evitar que essa verdade chegue ao coração do homem de nossos dias, pois “se Cristo se uniu de certo modo a cada homem, a Igreja, penetrando no íntimo deste mistério, na sua linguagem rica e universal, está vivendo também mais profundamente a própria natureza e missão” (RH 18, cf. GS 22).

Desta forma, podemos afirmar que a mensagem cristã deverá fazer com que o homem do êxodo contemporâneo se abra ao “advento da eternidade no tempo”120 e que essa

possibilidade o coloca como protagonista de uma aliança baseada em uma iniciativa livre da parte de Deus que chama, e uma resposta livre do mesmo homem como sujeito histórico, possibilidade que revela a sua autêntica dignidade diante do Criador e do mundo.

119 Este é o título do capítulo III da Redemptor Hominis (13-17), onde João Paulo II retoma o tema da atenção da Igreja pelo homem, em continuidade com a Ecclesiam Suam, de Paulo VI, que coloca tudo o que é humano num primeiro círculo de preocupações da Igreja, pois “tudo o que é humano, nos diz respeito” (ES 54).

O Deus que vem é incomensuravelmente outro e soberano com relação ao homem, que é e continua sua criatura. Justo por isso, porém, a ideia bíblica do protagonista humano da aliança é a de uma antropologia da liberdade. Abrir-se ao advento significa para o sujeito histórico ir ao encontro do não-dedutível e do novo, debruçando-se sobre a impossível possibilidade do Eterno: isso quer dizer conhecer a única e possível liberdade da necessidade férrea da ideia, bem como da angustiante insídia do nada. Longe de fazer concorrência à criatura, a transcendência do Deus vivo constitui a condição de possibilidade de sua liberdade e, por isso, fundamenta sua autêntica dignidade. Diante de Deus e com Ele, o homem decide, pondo-se no horizonte do tempo e da eternidade. A aliança – categoria central da fé judeu-cristã – apresenta-se como o mistério da eternidade no tempo, do advento que se cumpre no êxodo e do êxodo que se abre às insondáveis possibilidades oferecidas ao protagonista humano da história pelo Senhor dela.121

Fica aberto aqui um novo caminho, uma nova possibilidade, um Reino que irrompe no tempo: o advento do eterno é afirmação do êxodo, graças ao dom da revelação, revelada na história em palavras e acontecimentos conexos que fazem do homem um protagonista da aliança, “homo capax dei”,122 já que o mesmo Deus Criador “quer que todos os homens se

salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4), isto é, de Jesus Cristo.123

A proposta da missão cristã – fundada na convicção de que Cristo é plena revelação do ser humano e da sua altíssima vocação – não poderá, portanto, revestir-se nem de um anti- humanismo, nem tampouco de um humanismo negativo, próprio do niilismo pós-moderno, mas será verdadeira oferta de um “novo humanismo”124, jamais separado do anúncio explícito da singularidade de Jesus Cristo125 e da salvação nele oferecida, e inseparável também de sua

121 FORTE, Bruno. Para onde vai o Cristianismo?, p.107.

122 IBIDEM, p. 109. Cf. ainda o Catecismo da Igreja Católica, que abre a sua exposição doutrinal na Primeira Seção (Capítulo I) com esta expressão: “O Homem é capaz de Deus” cf. CATECISMO da Igreja Católica, 26- 27.

123 Cf. CATECISMO da Igreja Católica, 74; cf. ainda Jo 14,6. 124 FORTE, Bruno. Para onde vai o Cristianismo?, p. 115 et. seq.

125 Esta singularidade de Cristo, como “ser humano exemplar” (grifo nosso) é a fonte primária deste novo humanismo cristão, que só se realiza enquanto superação do ser próprio, a partir daquele que fez com que o ser humano e o ser divino formassem em sua pessoa uma unidade. Esta primeira superação precisa ser acompanhada de uma segunda superação, que diz respeito a toda a humanidade: “Se Jesus é o ser humano exemplar em que se manifesta plenamente a verdadeira figura do homem segundo a ideia de Deus, então não pode ser que ele seja destinado a ser apenas uma exceção absoluta, uma curiosidade em que Deus nos mostra o que é possível. A sua existência deve dizer respeito a toda a humanidade. O Novo Testamente exprime esta percepção chamando-o de „Adão‟. Essa palavra é usada na Bíblia para indicar a unidade do ser humano como um todo, tanto assim que se pode falar da ideia bíblica de uma „personalidade corporativa‟. Se Jesus é chamado de „Adão‟, há nisso a

dimensão ética no horizonte de Deus e de seu advento entre nós: “pode-se legitimamente pensar que o futuro da humanidade está confiado às mãos dos que serão capazes de transmitir às gerações de amanhã razões de vida e esperança” (GS 31).

Mais ainda: precisamos das esperanças – menores ou maiores – que dia após dia nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar todo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor a dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até o fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde ele é amado e onde o seu amor nos alcança. [...] E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que íntuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é „verdadeiramente‟ vida (SpS 31).126

A mensagem da missão cristã tem aqui seu fundamento teológico, a partir de uma antropologia da liberdade humana que, objeto da solicitude divina, torna-se capaz de Deus. Esta possibilidade de aliança, inscrita nas entrelinhas da história e no coração do homem127 torna-o protagonista do próprio destino, nas condições mesmas da história, que não poderá, no entanto, estar privada de seu sentido último, escatológico.

A parábola da modernidade nos indica que estas mediações históricas - que Deus mesmo escolhe na sua providência para se comunicar ao homem – constituem como que uma

“economia sacramental”128 como sinais eficazes na nova aliança, portadoras também de um novo ethos, também sacramental, e que devem manifestar a novidade de vida própria do evangelho acreditado e vivido, do homem remido, tal qual a revelação nos permite vislumbrar, como sacramento do advento em pleno êxodo da condição humana.

intenção de afirmar que ele é destinado a reunir em si todo o ser de „Adão‟. Podemos concluir, portanto, que aquela realidade que Paulo chama de „Corpo de Cristo‟, uma expressão que para muitos hoje parece incompreensível, constitui uma exigência intrínseca dessa existência que não pode ser uma exceção, pois deve atrair a si (cf. Jo 12, 32) toda a humanidade.” RATZINGER, J. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2006, p. 176.

126 Bento XVI destaca ainda nesta encíclica os lugares de aprendizagem e exercício da esperança : a oração como escola da esperança (32-34); o agir e o sofrer como lugares de aprendizagem da esperança (35-40) e o Juízo final como imagem de esperança (41-48).

127 Cf. CATECISMO da Igreja Católica, 27.

3.4 AS QUATRO DIMENSÕES DA MISSÃO CRISTÃ: ANÚNCIO, DIÁLOGO, SERVIÇO