Para aprofundarmos a discussão sobre como a colaboração ocorre em relação ao
Move, retomaremos, nessa seção, as principais características que compõem a definição desse,
segundo o que vimos na GDF, e, em seguida, mostraremos algumas implicações possíveis que desenvolvemos a partir delas. Como vimos, Move:
◙ designa a camada mais alta do Nível Interpessoal – nível que trata das relações que se estabelecem entre os indivíduos, a partir do que pode ser interpretado pela expressão linguística produzida por eles;
◙ é composto por um ou mais Atos Discursivos - diferenciando-se destes por sempre causar uma reação no interlocutor ou ser ele uma reação a um Move anterior, ou seja, por ter sempre um efeito perlocucionário;
◙ pode variar em termos de sua complexidade – vai desde uma reação silenciosa (silêncio, olhar, dar de ombros, etc.) a um longo texto do discurso;
◙ pode corresponder ao turno, nos diálogos, ou ser apenas parte dele – quando corresponde ao turno, o Move se desenvolve na ação do falante que causa a resposta do ouvinte ou na resposta do ouvinte que se desenvolveu devido à ação de um Move anterior.
Essas características, apesar de trazerem muitas informações sobre o Move, para nosso estudo, não foram suficientes, quando tivemos que operacionalizar este conceito na análise das ocorrências de colaboração. Dessa forma, percebemos a necessidade de uma maior delimitação da abrangência de tal conceito, quando empregado em processos de colaboração entre os interlocutores.
Levando-se em consideração o que afirmam Hengeveld; Mackenzie (2008), o
Move, nos diálogos, pode corresponder ao turno ou ser parte dele e, sabendo que, no processo
de colaboração, o turno é interrompido, pressupomos que a ação primeira que iria causar a reação no interlocutor e o levar a construir seu turno foi também interrompida. Dessa forma, temos um turno interrompido e também um Move interrompido. Assim, acreditamos que, nos diálogos, temos um tipo de Move Turno que deve ser concebido como mais amplo em termos de complexidade, uma vez que ele só será concluído quando a colaboração tiver sido dada ou quando o problema de formulação tiver sido solucionado.
Retomando o que discutimos nos capítulos e seções anteriores sobre o modelo de ocorrência de colaboração no turno e o conceito de Move da GDF, entendemos que uma ocorrência típica da colaboração ocorre dentro de um Move mais amplo que denominamos
Move Turno. Este é interrompido por Moves secundários, em geral metalinguísticos, na
seguinte sequência:
a) Move de iniciação: corresponde à solicitação do falante, de forma explícita ou não, da ajuda do ouvinte. Este Move incita uma reação, uma resposta do ouvinte a tal solicitação;
b) Move de reação: corresponde à colaboração em si, a resposta do ouvinte a solicitação do Move de iniciação, a tentativa de resolução de um problema de formulação;
c) Move de avaliação ou feedback corresponde à avaliação ou aceitação que o falante faz da colaboração de seu ouvinte, ao retorno que o falante dá após o ouvinte colaborar.
Se adaptarmos o modelo de Hilgert (2002) ao esquema de Moves da GDF, de Hengeveld; Mackenzie (2008), uma ocorrência típica de colaboração pode ser representada da seguinte maneira:
Figura 11 - Manifestação da colaboração por Move
MOVE = TURNO
Fonte: Proposta nossa
Portanto, o Move Turno é constituído por outros Moves que atuam, metalinguística e metadiscursivamente, até que o primeiro Move seja retomado57. Esses Moves, que classificamos como secundários, funcionam como subtópicos do tópico discursivo
que vinha sendo desenvolvido no Move Turno. Segundo Koch et al. (2002, p. 128), esses subtópicos têm ―uma natureza de predicação paralela inserida na comunicação básica‖. Vejamos um exemplo58 de ocorrência da colaboração, a seguir, na qual representamos os três Moves secundários de iniciação, de reação e de avaliação ou feedback identificados,
respectivamente, por X, Y e Z: Ex(16):
Doc (F259) e:: além desses jantares dançantes as festas a senhora vai a alguma
outra festividade? [
57 Vale ressaltar que nem sempre o primeiro Move é retomado, sendo ele algumas vezes abandonado. Isso ocorre quando o falante que teve seu turno interrompido prefere ignorar a colaboração do ouvinte partindo para outro Move ou quando eles não encontram a expressão desejada e preferem mudar de tópico, desenvolvendo um novo. 58 Os exemplos citados nessa seção foram retirados de Hilgert (2002).
59 Hilgert (2002) explica que usa F2 para aquele que colabora com o enunciado interrompido e F1 para o falante que está com problema de formulação e interrompe o enunciado.
Um Move de iniciação
Um Move de reação
Um Move de avaliação ou
feedback
Inf (F1) ah:: também ( )... quando (tenho que ir)... sempre é em função dessa socieDADE que meu marido está já está há dez anos... assim:: na diretoria... uma vez ele era tesouREIro... outra vez vice-presidente outra:: agora ele é::... eu disse vice-presidente ainda agora né? mas não vice-presidente é o outro... ele FOI no ano passado... ele é:: como é que se diz a pessoa que cuida do CLUbe... que toma:: não é ecônomo é o que toma conta assim do::... dessa parte:: que ele tem que cuidar da das Obras tudo (X)
Doc (F2) diretor patrimonial (Y)
Inf (F1) di/diretor:: do patrimônio... é isso... né? (Z) (p. 92)
Podemos observar, no exemplo dado, a dificuldade que F1 (Falante 1) tem em achar a expressão certa para o cargo de seu marido, tendo ele de solicitar, explicitamente, por meio de um Move de iniciação (X), a colaboração de seu ouvinte (F2). Neste momento, F1 sinaliza a F2 que está tendo problemas de formulação por meio do prolongamento da vogal (é) e solicita a colaboração de F2 com a pergunta como é que se diz... (Move de iniciação - X).
Moves desse tipo são comumente utilizados nessas situações, nos termos de Castilho (2010), e
se caracterizam como segmentos epilinguísticos60. Vemos, também, na ocorrência que F1 oferece, a todo momento, pistas da denominação que está sendo buscada (a pessoa que cuida
do clube). Em seguida, F2 colabora com a expressão diretor patrimonial (Y), que é aceita, pois F1 utiliza um marcador de confirmação e a incorpora a seu enunciado por meio da reformulação da colaboração di/diretor:: do patrimônio... é isso... né? (Move de avaliação
ou feedback) (Z).
Dessa forma, temos, na ocorrência (01), uma colaboração típica em que há um
Move de iniciação composto por perguntas e esclarecimentos do falante como é que se diz?, que toma:: não é ecônomo é o que toma conta assim do::... dessa parte, mostrando
explicitamente que o falante está tentando processar a informação, mas ele não está conseguindo formulá-la verbalmente e, por isso, solicita o auxílio do ouvinte. Temos um segundo Move, de reação, por meio do qual o ouvinte colabora dando a resposta à pergunta do falante (diretor patrimonial). E, por último, temos um Move de avaliação ou feedback do falante sobre a colaboração dada pelo ouvinte. (di/diretor:: do patrimônio... é isso... né?).
Esses três Moves formam o Move Turno, que, se não tivesse encontrado problemas de formulação, provavelmente, poderia ter sido expresso de forma fluida pelo F1, da seguinte maneira:
60―São epilinguísticos os segmentos em que o falante conversa sobre a língua, não sobre o assunto, verbalizando uma sorte de diálogo interior, em que ele discute a melhor forma de expor uma ideia, ou volta atrás, negando uma expressão já verbalizada, e assim por diante‖ (CASTILHO, 2010, P. 218).
Ex(17):
F1. ―ah:: também ( )... quando (tenho que ir)... sempre é em função dessa socieDADE que meu marido está já está há dez anos... assim:: na diretoria... uma vez ele era tesouREIro... outra vez vice-presidente outra:: agora ele é: diretor:: do patrimônio‖. (reformulação do Move Turno – adaptado do exemplo de Hilgert, 2002, p. 92).
Hilgert (2002) observou que as colaborações podem ocorrer de duas maneiras. Na primeira, há o desenvolvimento de um tópico temático metadiscursivo específico para a resolução do problema de formulação. Na segunda, não há comentário metadiscursivo, mas a integração imediata da colaboração, a fim de dar continuidade ao fluxo do turno do falante. Vejamos exemplos desses modos de colaboração, respectivamente, nos segmentos que seguem:
Ex (18):
L161 – Você\assistiu àquele filme... aquele ator americano lá (Move Turno)– ahn
como é que se chama? (Move de iniciação) –X
L2 – o Banzé no Oeste ? (Move de reação – colaboração do ouvinte) - Y L1 – não… não… é:… (Move de avaliação ou feedback)- Z
L1 - conta a história do oeste mais ou menos verdadeira né? naquele... naquela guerra que teve... acho que entre o sul e no norte... (Move de iniciação)
L2 – a guerra da secessão? (Move de reação – colaboração do ouvinte) - Y [
L1 – um general lá... (continuação do Move de iniciação) L2 – uhn... (Move de reação - marcador conversacional) - Y
L1 – não... foi um general lá que matou uma::... cacetada de índio... (continuação do Move de iniciação) - X
[
L2 – uhn (Move de reação - marcador conversacional) - Y
L1 – ator famoso aí... – como é que chama o desgraçado aí fez o Midnight cowboy-(Move de inciação) - X
L2 – ahn... o... ah já sei dos... – ai como é que se chamava –eh::... com Dustin Hoffmann né?... - Y
L1 – uhn...(Move de reação - marcador conversacional) -Y L2 – sei qual é (Move de reação) -Y
[
L1 – então você ainda se lembra nesse filme... (Abandono do tópico ―nome do ator‖ e início do novo tópico) (p. 98)
Ex (19):
L1 – porque realmente houve assim uma:: ...uma fuga... do engenheiro da da... da área de produção... dos laboratórios de experiências para... para a... (Move Turno) -X
61 Na representação de Hilgert (2002). L1 significa locutor 1, que no processo de colaboração corresponde a falante, e L2 designa locutor 2, no caso da nossa pesquisa o ouvinte que colabora.
L2 – área administrativa (Move de reação – colaboração do ouvinte) - Y
L1 - área administrativa... (Move de avaliação ou feedback) - Z
L1 - hoje ele realmente:: se encontra em grande percentagem na Área administrativa... (p. 101)
Podemos observar, no exemplo (18), que há o desenvolvimento de um tópico paralelo, com o intuito de resolver o problema de formulação, achar o nome do filme que estava sendo comentado. L1 solicita a colaboração de L2 com a pergunta como é que se
chama?. L2, repetidas vezes, colabora com o enunciado de L1, mas demonstra incerteza em
suas colocações, pois sempre o faz utilizando perguntas o Banzé no Oeste?, a guerra da
secessão?, Dustin Hoffmann né? e não tem sucesso. L1, então, desiste e retoma o tópico que
tratava do filme, mesmo sem lembrar o nome dele.
No exemplo (19), L1 interrompe seu Move Turno por meio de hesitação
para...para a... e L2 dá sua colaboração área administrativa, que é aceita e integrada de
forma imediata por L1 a seu enunciado.
Além do desenvolvimento ou não de um tópico metadiscursivo no processo colaborativo, outro aspecto que pode ser observado é se o falante (L1) solicita explicitamente a colaboração do ouvinte (L2) por meio de um Move de inicação, ou se o ouvinte (L2) apenas interpreta a sinalização da ruptura do turno, quando L1 hesita, pausa, prolonga sons, etc., como um pedido ou uma oportunidade para colaborar. Nesse caso, não há propriamente um
Move de iniciação do falante, já que este não pratica uma ação para causar a reação do
ouvinte. Apesar disso, há o Move de reação62 do ouvinte (L2), mas esse em relação ao Move Turno, que estava sendo desenvolvido pelo falante (L1). Vejamos esses casos,
respectivamente, nos segmentos (20) e (21), a seguir: Ex (20):
L1 – porque antes... havia uma::... há/havia os procuradores... sem concurso e:: recebiam outro nome(Move Turno) você sabe? (Move de inciação)
[
L2 – era só advogado do Estado... (Move de reação – colaboração do ouvinte) L1 – advogado do Estado... (Move de avaliação ou feedback)
L2 – é... ( ) depois éh depois passou a carreira para ser procuradores do Estado... (p. 100)
62 A designação de ―reação‖ se justifica porque o ouvinte interpreta a hesitação do falante como uma oportunidade de colaborar com o Move Turno. É, portanto, uma reação do ouvinte à hesitação do falante (a hesitação é uma ação despropositada).
Ex (21):
L2 – porque daqui a pouco o pessoal vai começa::r a perder prazo porque::... chega um ponto (Move Turno)
[
L1 - que o acúmulo é muito grande né? de... (Move de reação – colaboração do ouvinte)
[
L2 – que o acúmulo é tão grande que não dá tempo da gente (Move de
avaliação ou feedback) (p. 109)
No exemplo (20), vemos a solicitação da colaboração através de uma pergunta expressa você sabe?; já em (21), não há solicitação explícita da colaboração, mas o falante interrompe o fluxo da informação quando prolonga o final da palavra porque::..‖ e pausa ―..., o que é interpretado pelo ouvinte como uma busca por uma expressão. O ouvinte então colabora mesmo sem ter sido incitado a isso. Vemos também que, logo em seguida, o falante retoma o turno reformulando a colaboração do ouvinte e continuando seu Move Turno inicial
que o acúmulo é tão grande que não dá tempo da gente. Esse tipo de colaboração, muitas
vezes, não é interpretado de forma positiva por aquele que teve seu turno interrompido sem ter sido solicitado, o que pode refletir uma tentativa de assalto ao turno.
Salientamos que a observação dos Moves que compõem o Move Turno nos possibilita entender como cada tipo de Move funciona nas interações dialogadas. O Move de iniciação, quando ocorre, vai ser responsável pela ação do ouvinte em colaborar com o falante; o Move de reação é o que expressa a colaboração, o foco de nosso estudo, e o Move de avaliação ou feedback evidencia as atitudes do falante em relação à colaboração do ouvinte. Nesse, o falante reflete sua aceitação ou não da colaboração do ouvinte. Esse Move, quando puder ser inserido no Move Turno, além de oferecer a avaliação ou feedback do Move do ouvinte, irá concluir o Move inicial do falante(Move Turno).
Na seção que segue, discutiremos a questão da aceitação ou não da colaboração, assim como os níveis de aceitação ou não da colaboração do ouvinte expressos pelo falante no
Move de avaliação ou feedback.