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Segundo Leite, Barros, Dias e Silva (2010), a AC pode dialogar com outras teorias, que lidam com o texto e com o discurso, podendo servir de quadro teórico mais geral para o estudo integrado do texto conversacional. Os autores justificam a afirmação demonstrando que há mecanismos, tais como a repetição e a correção, que podem ser interpretados como estratégias de envolvimento entre os participantes da interação, como procedimentos indicadores de afetividade que auxiliam a criação dos efeitos de verdade.

Apesar dos autores citados conceberem o diálogo da Análise da Conversação com as teorias da Linguística Textual e da Análise do Discurso, não citando o paradigma funcionalista, acreditamos que esse diálogo seja possível, ou que, pelo menos, que as duas áreas (AC e Funcionalismo) não sejam vistas como excludentes. Muitos conceitos da Análise da Conversação são seminais a qualquer estudo que trate de dados da fala em interação social. Desse modo, muitas ideias dessa teoria puderam ser retomadas em nossa análise, apesar de nosso enfoque principal ser o funcional.

Há alguns termos que têm concepções distintas na GDF e na AC e que, apesar disso, muitas dessas ideias não são antagônicas. Portanto, acreditamos ser oportuna a descrição de alguns conceitos de tais teorias, esclarecendo como eles estão sendo considerados em nosso trabalho, tendo em vista a afirmação de Saussure (1972, p. 18) de que

é o ponto de vista que cria o objeto.

O primeiro conceito a ser explanado nesta seção é o de ouvinte, noção fundamental para nosso estudo. Como vimos, na Análise da Conversação, ele é o participante que interage com o falante na conversa, que permuta de papel com este, que monitora o turno e mostra como o falante está sendo compreendido. O ouvinte é um participante ativo da comunicação, ele coparticipa da construção do enunciado e tem uma função social. Na GDF, também se concebe ouvinte (Addressee) como participante da interação que alterna seu papel

com o falante. Ele desempenha, nessa teoria, a função de reconstruir todos os aspectos relevantes à expressão linguística, a partir da produção efetiva desta pelo falante e de informações do Componente Contextual, que é compartilhado entre ambos, e de seus conhecimentos. Vale esclarecer que estamos concebendo ―ouvinte‖ a partir da soma de tais conceitos, pois, a nosso ver, eles não são excludentes.

Outro termo que tem conceitos distintos, na AC e na GDF, é formulação. Na GDF, formulação designa uma operação do Componente Gramatical que diz respeito aos níveis Interpessoal (pragmático) e Representacional (semântico), que juntamente com a operação de codificação (Níveis Morfossintático e Fonológico) processam e organizam a informação e a envia para o Componente de saída. Na AC, o termo formulação parece abranger as duas operações da GDF, formulação e codificação, uma vez que diz respeito ao processo de construção dos enunciados e ao resultado obtido nele. Iremos utilizar o termo ora como concebe a AC, quando tratamos de problemas de formulação textual , ora conforme a concepção da GDF, quando verificamos em qual das operações descritas no Componente Gramatical recai o escopo da colaboração.

Outro termo relevante que tem concepção distinta nas duas teorias supracitadas é o tópico. Na AC, como observamos, tópico diz respeito a uma categoria discursiva, que vai além do nível sentencial, uma vez que é caracterizada como aquilo que é passível de ser identificado no discurso. Nessa perspectiva, tópico tem como principal característica ser uma categoria abstrata e primitiva, já que há procedimentos tanto no contexto comunicativo, no conhecimento de mundo dos participantes, como na própria mensagem que tornam possível sua identificação (JUBRAN; RISSO ET AL, 2002). Tópico diz respeito ao(s) assunto(s) discutido(s) na conversação, ―sobre o que se fala‖ ou ―sobre quem se fala‖. Essa concepção não se confunde com a noção de Tópico (de Tópico/Comentário) que vimos no capítulo sobre funcionalismo, já que, na GDF, Tópico é tido como uma função pragmática relacionada à informação que é o ponto de partida de onde deve ser compreendida a mensagem, à entidade sobre a qual um discurso passa informação, à informação mais à esquerda na oração.

Assim, o conceito de Tópico, na GDF, se refere ao tipo de informação veiculada na mensagem, geralmente coincide com a informação dada, ou seja, a informação conhecida pelos interlocutores e que pode ser acessada no momento da comunicação, podendo, ainda, ser considerada informação inferível. Essa noção de Tópico se relaciona à função Comentário, que vem após o Tópico e traz a informação mais relevante no discurso. Esta é a concepção assumida a partir daqui, em nosso estudo.

Vale ressaltar que há termos que, mesmo sendo analisados sob a ótica de dois enfoques diferenciados, têm definição semelhante nas duas teorias. Dois desses termos são primários em nosso estudo, a saber, ato discursivo e turno.

A noção de Ato discursivo descende da visão de que a linguagem é uma forma de agir, portanto todo dizer significa um fazer - teoria dos atos de fala de Austin (1965); Searle (1979). Ato discursivo é definido, como vimos, como ―a menor unidade identificável de uma conduta comunicativa‖ e se organiza em um esquema ilocucionário (um propósito), que, no funcionalismo, tem relação com as intenções comunicativas do falante envolvido na interação. Hengeveld; Mackenzie (2008) lembram que, algumas vezes, Ato discursivo e Move coincidem e que a principal diferença entre eles é o fato deste sempre provocar uma reação do interlocutor que faz com que a conversação avance.

Turno é a posse da palavra em ambas as teorias, diz respeito a uma unidade

discursiva. Como vimos, Move pode corresponder ao turno do falante, como na primeira fala do exemplo (03), visto no capítulo 2 e que retomamos, em parte, a seguir:

Ex (03):

A: Qual a capital da Latvia? (Move 1)

No exemplo (3), temos um turno correspondente a um Move. Um falante A, durante algum tempo, esteve com a posse da palavra e fez uma pergunta a um falante B. Com essa pergunta, o falante causa, no seu interlocutor, uma reação: a de responder a uma pergunta feita. Vale ressaltar que, nesse exemplo, o turno corresponde ao Move, e este corresponde a um Ato discursivo: o de perguntar.

Um Move é um turno discursivamente qualificado como aquilo que é ou provoca uma reação na conversação. O Move pode não corresponder ao turno, podendo haver um turno contendo mais de um Move, como na fala do falante B após a pergunta do falante A do exemplo anterior, que mostramos, a seguir:

Ex (03):

A: Qual a capital da Latvia? (Move 1)

B: Riga, Por que você pergunta? (Move 2 e Move 3)

No processo de colaboração intraturno, temos um turno que está sendo desenvolvido em coparticipação com o ouvinte e, dentro deste, há vários Moves

metalinguísticos e metadiscursivos que visam completar o turno, como vemos no seguinte exemplo52:

Ex (11): 04D2

Doc. ( ) pronto gente aí a gente agora pode falar sobre os assuntos que forem do interesse de vocês o senhor por exemplo você disse o senhor disse que ia falar

sobre o que mesmo? (Move 1 – turno 1)

Inf1. não era um poblema de família ((risos)) (Move 2 –colaboração - Interação intraturno)

Doc. PRONTO (Move 3 –retomada do turno 1)

No exemplo (11), temos um turno interrompido pelo próprio documentador (Doc) em busca de auxílio do informante (Inf1) para completar sua fala. O informante colabora com o turno do documentador com um Move metadiscursivo, esclarecendo sobre o que ele ia falar era um problema de família. E, por fim, o documentador retoma seu turno com um terceiro

Move, um marcador discursivo que encerra seu turno (Pronto). Note-se que o turno teve início

quando o documentador disse o senhor por exemplo.... e só foi concluído quando foi dito que o assunto sobre o qual o informante ia falar era um poblema de família. Assim, essa fala não é considerada um segundo turno por nós, mas uma fala momentânea no turno já iniciado. No entanto, ela constitui uma reação a outro Move (o senhor disse que ia falar sobre o que

mesmo?) e que, em seguida, provoca um Move de aceitação (Doc: PRONTO). Esse ponto de

vista será discutido, de forma mais aprofundada, no próximo capítulo, em que tratamos da Colaboração no Move.