Ao longo do século XX, escolas, institutos, concursos, homenagens, fundações, trabalhos científicos, discussões, debates, seminários, entre outros, não cessaram de discutir e homenagear a obra e o escritor. As leituras e reações da obra de Euclides da Cunha não
cessaram. Assim, não podemos deixar de considerar Os Sertões sobre as suas várias facetas. Assim,
[...] não teria sentido se Os Sertões, além de ser um documento histórico, uma epopéia negativa, uma denúncia, um panfleto gigantesco e impiedoso, fosse uma obra de ciência escrita como uma obra de arte [...]. (STEGAGNO-PICCHIO, 2004, p. 400)
A estrutura da obra é constituída em função de um determinado objetivo: estabelecer relações entre as três partes: a Terra, o Homem e a Luta. Essa relação trata de uma tese possível acerca da formação do homem sertanejo e do povo brasileiro. Tese esta que vale das doutrinas deterministas acerca da influência do meio ao homem, e que, ao mesmo tempo, explicariam o desenvolvimento do conflito armado no sertão baiano.
Tal consideração, sobre as relações entre o meio e o homem é encontrada no filósofo Roberto Ventura, um estudioso da literatura que discute as postulações teóricas de Hypolite de Taine, autor citado por Euclides da Cunha n`Os Sertões. Assim, Ventura (2002) nos informa sobre a influência exercida por Taine sobre a literatura brasileira à época de Euclides da Cunha:
[...] Taine considerou, na Histoire de la Littérature Anglaise [História da literatura inglesa] (1863), que a vida de um povo seria determinada por três fatores: o meio, ou o ambiente físico e geográfico; a raça, responsável pelas disposições inatas e hereditárias; e o momento, resultante das duas primeiras causas. Esse modelo também foi seguido por Silvio Romero, em sua História da Literatura Brasileira (1888), que tomou a literatura do Brasil como expressão da natureza e do povo, explicando o seu surgimento a partir da ação diferenciadora do mestiço. (VENTURA, 2002, p.182)
Com relação às ideias de Taine, verificamos que o autor justifica sua teoria argumentando que:
[...] Trois sources différentes contribuent à produire cet état moral élémentaire, la race, le milieu et le moment. [...], ce sont ces dispositions innées et héréditaires que l'homme apporte avec lui à la lumière, et qui ordinairement sont jointes à des différences marquées dans le tempérament et dans la structure du corps. (TAINE, 1870, p. 23 )5
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(Tradução nossa: Três fontes diferentes contribuem para produzir esse estado moral elementar, a raça, o ambiente e o tempo. Estas são disposições inatas e hereditárias que o homem traz consigo a luz, e, geralmente, estão ligados às diferenças marcantes no temperamento e estrutura do corpo).
Como observamos na análise de Roberto Ventura, Taine explicita a relação entre o meio e o homem na formação deste. Sobre essa questão, verificamos que as três partes do texto de Euclides da Cunha demonstram a influência das diversas áreas dentro das quais sua obra foi debatida. Sua divisão segue os preceitos de Taine e, ele próprio (Euclides da Cunha), anuncia sua influência e intenção. Iremos explorar essa faceta ao analisarmos a questão do interdiscurso e a influência das ciências naturais na obra.
É importante destacar novamente que, antes mesmo de se deslocar para o local do conflito, no sertão baiano em Canudos, Euclides da Cunha já possuía uma coluna no Província de São Paulo, em que discorria sobre o conflito, intitulada “A Nossa Vendéia”. Sua primeira coluna foi motivada pela derrota sofrida pelo coronel Moreira César para os colonos de Antonio Conselheiro (SANTANA, 2001, p. 90) Aliás, em função desses artigos, Euclides da Cunha foi convidado a realizar a cobertura do conflito como enviado de guerra.
Podemos então considerar e constatar que, são três as principais fontes primárias da escrita de Os Sertões: os ensaios “A Nossa Vendéia” (CUNHA, 1897a), publicados entre 14 de março de 1897 e 25 de outubro do mesmo ano, no jornal Província de São Paulo; o “Diário de uma Expedição” no qual Euclides da Cunha esboça detalhes da paisagem e dos fatos presenciados em sua missão de cobrir a guerra de Canudos; e por fim, a “caderneta de campo” onde encontramos uma variedade de descrições e explicações científicas sobre a paisagem e os acontecimentos que o escritor presenciou.
Em “Diário de uma Expedição” (CUNHA, 2003a) o autor narra todos os fatos desde a saída para o Estado da Bahia até o término do seu trabalho de correspondente de guerra. O seu diário está assim dividido: Bordo do Espírito Santo, 7 de agosto; Bahia, 10 de agosto; Bahia, 12 de agosto; Bahia, 13 de agosto; Bahia, 15 de agosto; Bahia, 16 de agosto; Bahia, 18 de agosto Um episódio da luta; Bahia, 19 de agosto; Bahia, 20 de agosto; Bahia, 21 de agosto; Bahia, 23 de agosto; Alagoinhas, 31 de agosto; Queimadas, 1ª de setembro; Queimadas, 2 de setembro; [Queimadas], 3 de setembro; [Queimadas], 4 de setembro; Tanquinho, 4 de setembro; Cansanção, 5 de setembro; Quirinquinquá, 5 de setembro; Monte Santo, 6 de setembro; Monte Santo, 7 de setembro; Monte Santo, 8 de setembro; [Monte Santo], 9-10 de setembro; Monte Santo, 11 de setembro; Canudos, 10 de setembro [?]; Canudos, 24 de setembro; [Canudos], 26 de setembro; [Canudos], 27 de setembro; Canudos, 28 de setembro; Canudos, 29 de setembro; Canudos, 1o de outubro. (CUNHA, 2003a)
Na primeira nota de seu diário (7 de agosto) Euclides da Cunha faz um breve relato da viagem até a Bahia e reforça os valores republicanos: “[...] a disposição entre os oficiais é a melhor possível. [...] como um antídoto enérgico, um reagente, infalível, alevanta-se ao Norte, o nosso grande ideal - a República -.” (CUNHA, 2003a). Além disso, volta a citar as questões que discutiu nos artigos “A Nossa Vendéia” desejando boa sorte às forças republicanas.
Os posteriores registros do diário desenvolvem comentários sobre os aspectos referentes à paisagem, às pessoas e aos movimentos no front. Em um dos registros Euclides da Cunha relata a conversa com um jovem militante de Conselheiro que faz algumas revelações quanto à possibilidade de morrerem na luta contra o exército brasileiro. Em resposta a questão: o que promete Conselheiro àqueles que morrem na luta? O jovem responde: “[...] Salvar a alma.” E Euclides da Cunha comenta a resposta da seguinte maneira:
[...] Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão. (CUNHA, 2003a, s/n)
Percebe-se uma de suas primeiras impressões sobre os seguidores de Conselheiro. Nessa primeira análise o escritor concebe a religião dos nativos de Canudos como repleta de atributos pejorativos ligados ao messianismo e ao fanatismo. Essa visão será reforçada n`Os Sertões. Entretanto, sua visão do sertanejo sofrerá uma guinada em sua análise do homem. Veremos esse aspecto no capítulo destinado a analisar a influência das Ciências Naturais na obra.
Em sua “Caderneta de campo” encontramos registros ligados, em sua maior parte, à descrição da natureza repleta de fontes do saber científico natural. Em boa parte dos registros, também encontramos os relatos das experiências que viveu e presenciou, além de, em vários momentos, enaltecer os ideais republicanos e a República: “[...] rompê-las-emos em breve com as fulgurações da metralha e o cintilar vivíssimo das espadas. E domá-la-emos – a República é imortal.” (CUNHA, 2009, p. 72). No desenvolver de nosso trabalho abordaremos alguns outros interlocutores e referências que são importantes para compreendermos as influências que compõem a mentalidade e a obra de Euclides da Cunha.