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Vurdering av fagkompetanse etter samhandlingsreformen

Kapittel 7. Kompetanse i hjemmetjenesten etter samhandlingsreformen

7.3 Vurdering av fagkompetanse etter samhandlingsreformen

Areté, ou de Aquiles ao Soldado Desconhecido

“Eu fui cobrir a guerra e a guerra me cobriu”206 (Herr, 1991, p. 20) Em outubro de 1415, o rei Henrique V, após o bem sucedido cerco ao porto de Harfleur, norte da França, decide retornar à Inglaterra, em vista da proximidade do inverno. A marcha de seu exército a Calais visando alcançar o porto mais próximo para cruzar o Canal da Mancha é, todavia, barrada pelas forças do rei francês Charles VI, nas proximidades da vila de Agincourt. No dia seguinte, 25 de outubro, mais uma batalha da Guerra dos Cem Anos é travada. Na noite anterior ao embate, enquanto os franceses bebem otimistas, os ingleses, seriamente inferiorizados numericamente, rezam. A vitória dos 30.000 franceses sobre os 9.000 ingleses parece ser inquestionável, mera questão de tempo. O que ocorre em Agincourt, no entanto, é “um dos mais extraordinários reversos de fortuna na história da luta corpo-a-corpo”207 (Keegan, 1999, p.53); a batalha representa, indubitavelmente, um marco na história da guerra.

Quando os cavaleiros franceses, nobres e representantes de uma elite guerreira com tradição secular, celebrada em sagas medievais como a Chanson de Roland (sec. XI) e fomentada nos torneios, partem ao ataque em um front apertado e afetado pela chuva, são dizimados pelos arqueiros ingleses que os esperam na defensiva. Ademais, cavaleiros medievais carregavam consigo o enorme peso da armadura, o que impedia qualquer reação ou movimento, uma vez derrubados de seus cavalos. As flechas inglesas também causam pânico no exército francês e a retaguarda foge desordenadamente. A vitória é tão fácil quanto imprevista. Em Agincourt, percebe-se que a natureza da guerra havia mudado. Seria obviamente um exagero, e uma grosseira simplificação, afirmar que a guerra antes desta data era travada de uma forma e que, após esta data, passou a ser travada de outra forma. John Keegan explica que o ocaso do que ele chama de “homem a cavalo” foi um longo e tortuoso processo, dificilmente perceptível para aqueles nele envolvidos (1994, p. 295-98). No entanto, por sua relevância histórica, por apresentar uma vitória aparentemente impossível de ser obtida, e por facilitar nossa compreensão de uma mudança de paradigma, Agincourt permanece exemplar. O “homem a cavalo” de Keegan é provavelmente a principal mudança estratégica, e tática, na natureza da guerra, que temos da Ilíada a “Henry V”. No épico grego, o cavalo é

206 “I went to cover the war and the war covered me”. 207

unicamente um meio de transporte para e do campo de batalha. Não é usado para o combate. O cavalo começa a ser adotado com a chegada dos povos da estepe, aqueles guerreiros oriundos dos povos nômades aos quais me referi no capítulo 1, de breve história de conflitos armados. O cavalo oferece, no campo de batalha, uma mobilidade que nem as falanges gregas nem as legiões romanas possuíam. Com o advento do arco e flecha e, depois, da pólvora, a mobilidade, no entanto, será substituída pela distância como diferencial primordial na prática da guerra.

As mudanças a que me refiro no parágrafo anterior, de paradigma e da natureza da guerra, dizem respeito à figura do individuo no combate, a sua maneira de agir e, consequentemente, a seu poder no campo de batalha: areté. Em Agincourt, os ingleses criaram uma verdadeira zona de matança e “a flor dos cavaleiros franceses insistiu em atacar este espaço letal, como lemmings, com resultados desastrosos, perdendo seis mil homens”208 (O’Connell, 1989, p. 104). Para o cavaleiro, era impensável, inconcebível, adotar o arco e a flecha; toda sua educação, sua forma de vida, sua própria identidade repousavam sobre uma forma de guerra que pregava o enfrentamento pessoal, frente a frente. Mais ainda, e agora retomo algumas das observações tecidas nos capítulos anteriores, desde Homero o arco e a flecha são vistos como armas covardes, que permitem uma luta à distância, sem celebrar ou mesmo respeitar o código guerreiro de coragem e confronto individual. Na Ilíada, Diomedes critica e despreza o troiano Paris, após este feri-lo com uma flecha: o arco é a arma de um homem inútil, não de um guerreiro (XI.390). O arco e a flecha permitem um distanciamento que não só pode ser visto como covarde por aqueles que pregam um ideal homérico de combate face a face, mas também, ao separar os combatentes, levam à impessoalidade, um primeiro passo em direção ao anonimato que veremos mais adiante. Os cavaleiros medievais, embora cobertos pela armadura, se diferenciavam por cores, emblemas e outros elementos – eles buscavam individualização, pois a glória do combate precisava ser outorgada a alguém em particular. O arco e a flecha, além de separarem os guerreiros fisicamente, dificilmente outorgam glória a um indivíduo, uma vez que flechas são usadas em grande quantidade, desferidas por formações de diversos arqueiros – como saber quem foi o responsável pela flecha que matou um oponente em particular? E, mais ainda, muito provavelmente não é uma única flecha, são muitas as flechas necessárias para abater um cavaleiro medieval. Conforme vimos na Ilíada, é imperativo saber quem matou – a glória deve ser outorgada àquele capaz de subjugar seu inimigo: Heitor matou Pátroclo, Aquiles matou Heitor.

208 “The flower of French knighthood insisted on charging like lemmings into this lethal space with disastrous results,

Agincourt e “o premeditado estabelecimento de uma zona de matança introduzem de forma importante o elemento de total impessoalidade na guerra européia”209 (O’Connell, 1989, p. 104). A tradição homérica começa assim a ser substituída por uma prática que torna as guerras modernas, tecnológicas, possíveis. Uma prática que não mais celebra a coragem de enfrentar alguém frente a frente e buscar glória, mas uma prática na qual não fugir perante a morte se torna mais valioso, ou celebrado. Matar o inimigo a poucos metros ou até centímetros de distância se torna, cada vez mais, improvável ou virtualmente impossível; resta ao guerreiro a coragem para encarar as flechas e, mais tarde, as balas de canhão, de metralhadora, as gigantescas bombas, de forma estóica. O’Connell argumenta que assim “a sorte e os agentes sem face da morte viriam cada vez mais a reinar sobre o campo de batalha”210 (1989, p. 104). Os termos da citação, “sorte” e “sem face”, sinalizam claramente o processo de diminuição ou anulação de areté: não é o poder, ou excelência, de um homem que vence o oponente – é a sorte; o guerreiro nomeado, digno de kléos, vai perdendo sua identidade – ele se torna sem face, sem nome.

Agincourt também é relevante do ponto de vista histórico, e para os propósitos desta pesquisa, porque se tornou um símbolo recorrente da glória e da grandeza da Inglaterra. Em momentos de crise e dificuldade, a simbologia de Agincourt é retomada, como exemplo inequívoco do que a nação pode fazer; dos feitos a que a Inglaterra pode almejar, e da força que a Inglaterra pode demonstrar para superar obstáculos aparentemente intransponíveis. E o elemento central desta simbologia, espaço sempre revisitado para celebrar a glória deste feito, é a peça “Henry V”, de William Shakespeare. “Henry V” criou o mito da batalha de Agincourt e sempre o renova. Recordemo-nos das elaborações de Samuel Hynes acerca do mito da guerra: o mito da guerra é a forma como uma guerra é lembrada, são as imagens, práticas ou acontecimentos que associamos a uma guerra; em suma, é a estória (narrativa) que empresta significado a uma guerra. A peça de Shakespeare não representa exata e fidedignamente tudo o que ocorreu próximo à vila de Agincourt em outubro de 1415. Nenhuma peça de teatro, ou romance, ou conto, ou mesmo obra de historiografia ou relato de testemunha pode representar exata e fidedignamente aquilo que ocorreu no passado. Sabemos, e é desnecessário tecer mais articulações, da natureza inescapavelmente incompleta e retroativa de qualquer representação do passado. No entanto, é a “Henry V” que nos remetemos quando pensamos na Batalha de Agincourt.

As associações à grandeza militar inglesa podem ser percebidas logo na questão da data de escrita da peça. Os organizadores do The Oxford Shakespeare – The Complete Works afirmam que a

209 “the premeditated establishment of a killing zone introduced in a major way the element of total impersonality into

European warfare”.

210

obra não pode ter sido escrita após a primavera de 1599. Para tanto, utilizam a incomum e direta referência, presente no coro do Ato 5, a um general da graciosa imperatriz que em bom momento retornará da Irlanda, glorioso, trazendo a rebelião sufocada em sua espada (Shakespeare, 1998, p. 567). O general é o Earl of Wessex, que retornou em desgraça no dia 28 de setembro. Fica assim claro que afirmar que ele voltaria em glória, quando de fato retornou em desgraça, só seria possível antes de setembro de 1599. Porém, mais relevante é a referência à glória militar de sufocar uma rebelião em 1599 estar presente em uma peça ambientada cento e oitenta anos mais cedo. Além da observação sobre a data de escrita, os organizadores também corroboram as afirmações acima sobre a simbologia da obra e comentam que Henry é o mais heroico rei guerreiro de Shakespeare, e que a peça, diversas vezes acusada de jingoísmo, é popular especialmente em tempos de guerra (Shakespeare, 1998, p. 567). Uma das mais aclamadas versões cinematográficas da peça, adaptada, dirigida e estrelada por Laurence Olivier, estreou em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. A também criticamente elogiada série norte-americana sobre as tropas na Europa em 1944-45 chama- se Band of Brothers – a maneira como Henry se dirige às tropas no Ato 4, após a vitória. “Henry V”, poderíamos afirmar, é um locus central de areté e kléos, na tradição militar da Inglaterra. As elaborações sobre kléos estão reservadas para o capítulo 5; tentarei, portanto, ater-me a areté, embora saiba que tais separações são, por vezes, ilusórias e arbitrárias. Os três termos estão interligados e as obras não se prestam a uma divisão tão precisa e inquestionável.

Uma leitura atenta da peça tende a acrescentar argumentos às acusações de exacerbado nacionalismo, de jingoísmo. Os oponentes franceses são arrogantes e nem por um só momento duvidam da vitória – num gesto de escárnio, o embaixador francês entrega bolas de tênis como tesouro a Henry, para que ele desista de suas reivindicações ao trono (I.ii.258). A única exceção parece ser o rei Charles, que respeita Henry como oponente. Os personagens ingleses, por outro lado, não oferecem um retrato tão unívoco: há traidores, soldados que preferem estar em casa ao invés de lutar (exemplos a serem analisados no capítulo seguinte, sobre nóstos) e aqueles que desprezam os franceses.

Em um artigo intitulado “Henry V: Shakespeare’s just warrior” (“Henrique V: o guerreiro justo de Shakespeare”), John Mark Mattox desenvolve uma argumentação e demonstra de que forma o rei é retratado como um homem justo e decente; alguém que só se dispõe a guerrear após estar certo de que a justiça está do seu lado, de que suas reivindicações (nada menos que o trono da França) têm o que poderíamos chamar de respaldo legal. Segundo Mattox, Shakespeare faz de Henry “um monarca que conduz sua guerra de acordo com as exigências da tradição de guerra justa ocidental. É este aspecto do retrato shakesperiano de Henry V que o transforma e o eleva do status de meramente o

maior guerreiro da Inglaterra ao status de guerreiro justo consumado da Inglaterra”211 (2000, p. 30). Já vimos, no primeiro capítulo, as implicações e quais construções ideológicas estão por detrás da noção de guerra justa, na tradição ocidental. O modelo ocidental de guerra prega um certo tipo de enfrentamento e de desenvolvimento de combate que favorece suas próprias práticas; e tudo aquilo que se encontra fora do escopo deste modelo é considerado, e rotulado, como criminoso, terrorista e injusto. Também digno de nota no comentário de Mattox é a representação de Henry não só como possuidor de areté no sentido de excelência em combate, de poder como guerreiro, mas como um grande guerreiro, e líder, justo. A excelência de Henry repousa em valores tanto bélicos como morais e éticos: ele só luta se estiver ao lado da justiça. Logo no Ato 1, Henry se aconselha com nobres e com o clero. Ao requisitar a opinião do clero sobre a guerra, Henry alerta o arcebispo de Canterbury para ter cuidado com suas palavras: “pois Deus sabe quantos com saúde / derramarão seu sangue em aprovação / ao que vossa reverência nos incitará a fazer”212 (I.ii.18-21). Note-se que Henry será “incitado”, levado à guerra, na voz passiva – como se o conflito lhe fosse imposto como única alternativa razoável. Canterbury não só assegura o rei de seu direito ao trono da França como oferece dinheiro à empreitada – uma soma, segundo ele, nunca antes levantada para outro monarca (I.ii.132- 35). Com relação a seu valor como líder, e areté (tanto sua como de seus comandados), um exemplo se encontra no discurso às tropas, antes do combate: o rei inicia com a já célebre e repetidamente citada exortação “Once more unto the breach, dear friends” (III.i.1) – “mais uma vez à rusga, caros amigos”. Note-se que Henry frequentemente se dirige a seus comandados como amigos, como companheiros, criando assim uma ligação com eles, igualando-se a eles e, naturalmente, fomentando as circunstâncias para obter mais lealdade, de maneira similar àquela usualmente adotada por Napoleão. O rei então continua com seu discurso e vai ensinando aos soldados como se comportar em combate: qual olhar adotar, como ranger os dentes, como demonstrar ira (III.i.5-16). A seguir, Henry, de forma muito semelhante a Nestor na Ilíada, recorre aos grandes homens do passado e ao legado, à herança, que os soldados trazem consigo; Henry resgata gerações de guerreiros e conclama seus homens a se provarem à altura de areté do passado:

Mais nobres ingleses

Cujo sangue é oriundo de pais testados na guerra, Pais que como tantos Alexandres

Têm nestas partes tanto lutado […] Não desonrem suas mães; agora provem

Que aqueles a quem chamavam de pais de fato criaram vocês.

211 “a monarch who conducts his warfare in accordance with the demands of the Western just war tradition. It is this

aspect of Shakespeare’s portrayal of Henry V that transforms and elevates him from the status of being merely England’s greatest warrior to the status of England’s consummate just warrior.”

212 “For God doth know how many now in health / shall drop their blood in approbation / of what your reverence shall

incite us to”. Futuras referências à peça usarão o tradicional formato de ato em algarismos romanos de forma maiúscula, cena em romanos minúsculos e linhas em algarismos arábicos.

Sejam cópias dos homens de sangue mais grosso, E os ensinem a guerrear [...]

Juremos que vocês são dignos de sua linhagem213 (III.i.17-28).

Durante o desenrolar da obra, o conflito é construído de forma que a culpa pela guerra recai totalmente sobre a irredutibilidade francesa em acatar a justa demanda do monarca inglês, a quem nada resta senão a força (Humphreys, 1994, p. 676). Todos os acontecimentos de natureza dúbia, que não podem de maneira alguma ser vistos como inquestionavelmente éticos ou morais, não são de responsabilidade direta do rei. Antes do confronto, ao ordenar a execução dos traidores Richard, Henry e Sir Thomas Grey, ele afirma que pessoalmente não busca vingança, mas deve zelar pela segurança do reino (II.ii.171-2). Quando se dirige aos defensores de Harfleur, ordenando-lhes que abram as portas da cidade após seu cerco, Henry os ameaça dizendo que, caso não se rendam, seus homens estuprarão as virgens, ficarão loucos e ele nada poderá fazer; a cidade deve ceder enquanto os guerreiros ingleses ainda estão sob seu comando (III.iii.84-114). Durante a batalha, após perceber que os franceses se reorganizam, ele ordena que cada soldado mate seus prisioneiros (IV.vi.36-7). Mais tarde, na cena seguinte, Gower afirma que o rei ordenou as execuções em retaliação pelos franceses terem massacrado os garotos da retaguarda – e termina sua fala observando: “O, que rei galante”214 (IV.vii.5-19). Isto não é verdade: Henry dá a ordem antes de saber do massacre dos garotos e em resposta à reorganização do inimigo. Sobre a luta em Agincourt, Henry é enfático: “Ó Deus, vosso braço estava aqui, / e não a nós, mas a vosso braço somente / tudo atribuímos. Quando, sem estratagema, mas em choque direto e jogo justo de batalha, / soube-se de tão grandes e pequenas perdas / de uma parte e da outra?”215 (IV.viii. 112-16). Além dos aspectos religiosos, que permeiam toda a obra e tendem a reforçar a noção da guerra justa, pois Deus está ao lado de Henry, nesta exortação do rei encontramos mais uma vez a valorização dos elementos do modelo ocidental de guerra: confronto direto, sem estratagemas, ou subterfúgios. Cabe ressaltar que esta opinião não encontraria respaldo no inimigo. Os cavaleiros franceses certamente considerariam uma vitória com arcos e flechas covarde e injusta, obtida por métodos criminosos. Os cavaleiros franceses, descendentes diretos do ethos guerreiro homérico, poderiam muito bem repetir as palavras de Diomedes a Paris e ver os ingleses como homens inúteis, não guerreiros.

213 “you noblest English, / whose blood is fet from fathers of war-proof, / fathers that like so many Alexanders / have in

these parts from morn till even fought [...] “dishonour not your mothers; now attest / That those whom you called fathers did beget you. / Be copy now to men of grosser blood, / And teach them how to war […] let us swear / that you are worth your breeding ”

214 “O ‘tis a gallant king”.

215 “O God, thy arm was here, / and not to us, but to thy arm alone / ascribe we all. When, without stratagem, / but in

Tomando o arco e flecha como ponto de partida, e levando em conta a forma como é visto e utilizado na Ilíada e em “Henry V”, é possível desenvolver algumas elaborações que em muito elucidam o processo de modificação da natureza de areté e ajudam a entender as mudanças na prática de guerra e sua representação na literatura. Conforme vimos, o combate homérico e dos cavaleiros medievais apregoa um confronto direto, individual, frente a frente – um confronto entre homens, entre iguais, em busca de supremacia. Recordemo-nos da Ilíada e do foco narrativo nos heróis, nobres da aristocracia, não na multidão; também os cavaleiros medievais eram membros da classe mais alta, da nobreza. Com arco e flecha, a luta não mais é individual, e nem entre iguais – qualquer arqueiro pode alvejar até mesmo um rei. Para chegarmos às elaborações acima mencionadas, e melhor esclarecer estes pontos, devemos sair da guerra humana e brevemente penetrar no combate entre animais.

A violência é uma característica comum e inerente ao mundo animal. Carnívoros estão sempre caçando, matando e comendo outros animais. A violência e, portanto, o combate devem ser vistos como essenciais à sobrevivência de inúmeras espécies – tanto o predador como a presa devem recorrer a ela para comer e evitar serem comidos. A guerra, todavia, conforme já salientado, é uma instituição humana – ressalva feita à formiga. Por conseguinte, a violência presente entre os animais difere da violência humana. No entanto, é possível traçar paralelos e encontrar semelhanças entre estas duas formas de enfrentamento – animal e humano – e chegar a reveladoras conclusões que nos auxiliam na compreensão de areté, e de sua mudança através da história. Para tanto, utilizo as observações e análise de Robert O’Connell em seu estudo Of Arms and Men – a history of war,

weapons, and aggression (1989), sobre o que podemos chamar de combate predatório e intra-

específico. Uma vez que o principal interesse de O’Connell reside nas armas, sua evolução e aplicação, o autor primeiro define o que é uma arma e como é usada. Para enfatizar que armas não são uma ferramenta exclusivamente humana, ele analisa como predador e presa utilizam suas armas naturais: garras, presas, chifres, veneno e similares. Para ele, a boca de um tubarão, o galho pego por um assustado chimpanzé, o arco de um caçador e um F-16 (1989, p. 14) estão funcionalmente ligados: sua essência é a habilidade de ferir ou evitar ferimento. É durante esta argumentação que O’Connell aborda as categorias de combate predatório e intra-específico e suas respectivas características.

Agressão intra-específica pode ser definida como conflito entre membros da mesma espécie. Primeiramente, e essencial para o propósito de traçar paralelos entre a guerra e o combate na