Kapittel 9. Samhandlingsreformen og pårørende
9.6 Pårørende som yter lite eller ingen hjelp
Os principais colaboradores deste estudo foram os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental da escola na comunidade de Jacarandá. A escolha dos colaboradores se deu pelos seguintes motivos: primeiro, porque eu sentia necessidade de verificar os fundamentos presentes em discursos preconceituosos em torno dos saberes dos alunos da comunidade; segundo, porque no trabalho de orientação pedagógica na Superintendência Regional de Ensino (SRE) de Pirapora tínhamos como prioridade o acompanhamento da alfabetização em escolas estaduais, principalmente dos alunos do 3º ano do ciclo inicial. Quando entrei em contato com a coordenadora da escola em 2011, ainda não tinha certeza se na escola haveria demanda para uma sala do 3º ano. A confirmação da turma foi feita no princípio de 2012. A escola teria uma sala multisseriada composta por alunos do 3º e 4º anos. Para mim, isso era uma novidade, já que nas escolas estaduais sob nossa orientação não temos a realidade de salas com essa organização.
Iniciei a pesquisa com onze crianças, sendo que uma delas mudou-se da comunidade em março, depois da Semana Santa. O trabalho, então, prosseguiu com dez crianças, com idade entre 8 e 10 anos, que foram observadas em eventos de letramento na comunidade e na escola. Em 2012, período da pesquisa de campo, elas estavam em uma sala multisseriada composta pelos alunos do 3º ano do ciclo de alfabetização (seis alunos) e 4º ano do ciclo complementar (quatro alunos). Um aspecto discutido com as crianças um mês após minha inserção no campo de pesquisa diz respeito à preservação da identidade dos participantes conforme as normas do Conselho de Ética em Pesquisa com seres humanos27. Compreendida
a determinação da Resolução 196/96, no que diz respeito à preservação da identidade dos colaboradores na pesquisa, combinou-se que eles escolheriam um pseudônimo com o qual gostariam de ser nomeados na tese. A escolha dos nomes deu origem a uma seleção de craques28 do futebol: Alan29, Felipe, Rivaldo, Luís30, Messi, Neimar, Cristiano, Ronaldinho e Leo
27 Resolução n. 196, de 10 de outubro de 1996. Conselho de Ética em Pesquisa com seres humanos. Disponível
em: <https://www.ufmg.br/bioetica/coep/images/stories/196_96.pdf>. Acesso em: 2 out. 2010.
28 A escolha por nomes de jogadores famosos se deve à preferência pelo esporte e à identificação com jogadores
que representam ou representaram a seleção brasileira.
29Alan foi morar com sua mãe na cidade de Ponto Chique (MG) depois da Semana Santa e não retornou mais à comunidade.
30 Refere-se ao jogador Luís Henrique Pereira dos Santos. Ele nasceu em Pirapora (MG) no dia 20 de
Moura. Além dos nove meninos duas meninas, Alice e Fernanda, enriqueceram este trabalho com suas experiências.
Convém lembrar que Alan participou da pesquisa apenas nos dois primeiros meses de aula. Como sua matrícula ainda não tinha sido efetivada e ele tivesse se mudado antes de concretizá-la, ele não foi representado na tabela abaixo. A tabela a seguir mostra alguns dados do perfil das crianças organizados a partir do registro de matrícula na escola. A Tabela 3 traz quatro colunas de informações sobre a identidade das crianças. Na primeira coluna, o nome das crianças colaboradoras na pesquisa; na segunda, a data de nascimento; na terceira, a série; e na quarta, a cor.
Tabela 3 -Dados da matrícula escolar das crianças pesquisadas/2012
Crianças Data de nascimento
Série Cor *
Alice 04/05/2004 3º ano Branca
Fernanda 23/05/2004 3º ano Negra
Rivaldo 21/06/2004 3º ano Branca
Felipe 11/11/2003 3º ano Parda
Messi 15/07/2003 3º ano Parda
Ronaldinho 27/08/2003 3º ano Negra
Leo Moura 10/06/2003 4º ano Negra
Neimar 15/03/2003 4º ano Parda
Cristiano 02/07/2002 4º ano n/preencheu
Luís 21/01/2003 4º ano Preta
Fonte: Pesquisa de campo, 2012.
*Dados preenchidos pelos pais na ficha de matrícula.
Conforme revelam os dados na tabela acima, as crianças se encontravam numa faixa etária entre 8 e 10 anos, ou seja, algumas já estavam com uma defasagem idade-série. Essa defasagem era proveniente de fatores como ingresso tardio na escola e migração dos pais para outras cidades. Entretanto, um dado importante é a percepção da família quanto à cor: 2 das crianças foram definidas pelos pais como brancas; 3, como pardas; 4, como negras e uma não constava a definição da cor. Ao tomarmos a definição de raça pela cor da pele, pode- se afirmar que existe uma incompatibilidade nos dados da tabela, já que não se verificou nesse grupo crianças com a cor de pele branca. E duas das crianças de cor de pele parda poderiam ser definidas como negras. Em fevereiro, presenciei um conflito na escola com características de preconceito, mas não foi direcionada às crianças que moravam na comunidade. O fato se
deu com o aluno Luís, colaborador da pesquisa e classificado na Tabela 3 pelos pais como criança de cor preta. Ele foi matriculado na escola em fevereiro. Morava em uma fazenda próxima da comunidade e vinha todos os dias, utilizando o transporte escolar. Mostrava-se muito tímido, quase não interagia com os colegas de sala. Logo na primeira semana de aula, alguns conflitos aconteceram na hora do recreio envolvendo este aluno. Isto foi resolvido com a intervenção da professora, que, avisada sobre o conflito, conversou com os alunos dentro da sala de aula.
Hoje a professora conversou com os alunos sobre o problema que está ocorrendo com o aluno Luís. Ele é mais claro que as crianças da comunidade. Tem os cabelos lisos e por isso os outros alunos ficavam implicando com ele. Na hora do recreio ele não estava à vontade e não queria brincar. A professora o levou para a sala e passou atividades no quadro para ele fazer. Quando o recreio terminou, a professora cobrou da turma mais respeito ao novo colega de sala. E afirmou: ue o gosta ia de te u a elo liso,
li do o o o dele. Eugosta ia . (Notas. Diário de campo, 2012)
Características físicas do outro e manifestações intrapsíquicas expressaram-se de forma espontânea e livre de censuras nesse episódio. Foram necessárias algumas semanas para que Luís se sentisse mais à vontade dentro da sala de aula. Aos poucos, foi interagindo com os colegas.
A percepção dos pais (TAB. 3) traz uma indefinição até mesmo para as crianças sobre sua identidade (SCHWARCZ, 2006). Como afirma o senhor Bento,
Não existe pessoa branca aqui na comunidade, existe assim um pouco mais clara. Mas gente branca aqui não tem. Tem gente que chega aqui, mas das pessoas nossas aqui não tem. Eu acho que isso está até prejudicando a si próprio, a sua criança que for querer transpor a cor. Eu acho que não é justo. (Entrevista, Sr. Bento, 2012)
A meu ver, no relato do Sr. Bento observa-se a manifestação de referências transmitidas nas interações familiares. No contexto familiar a transferência vai se construindo pela formação de valores necessários à integração social do sujeito. Nosso nome, o gênero, a cor e outras características constituem nossa identidade e nos diferenciam de outros indivíduos. Em outras palavras, a identidade tem uma relação de inteira dependência com a diferença. Nesse sentido, todos nós somos diferentes e únicos em nossa singularidade e subjetividade. Também no grupo de crianças pesquisado, são experiências31 individuais
31Para Brah (2006, p. 360), a diferença como experiência é um processo de significação que é a condição mesma
(BRAH, 2006) distintas que dão especificidade ao cotidiano em que essas crianças estão inseridas. Considerando essa experiência, sinalizo algumas especificidades dos colaboradores desta pesquisa.
Primeiramente, destaco a predominância do gênero masculino. Eram apenas duas meninas em um grupo de dez alunos. Alice e Fernanda tinham ambas oito anos de idade e estavam na mesma etapa do ensino, 3º ano do ciclo de alfabetização. Alice adorava ir para escola vestida de rosa. Nos materiais escolares também havia uma preponderância da cor rosa, provavelmente reproduzindo uma representação social da cor considerada apropriada às meninas ou mesmo influência das imagens femininas construídas no meio familiar. Alice levava sempre um batom em sua bolsinha de lápis e, por vezes, ela e Fernanda pintavam a boca durante a aula. Gostavam de brincar de casinha, aulinha, pique pega, bicicleta, mas, assim como os meninos, adoravam futebol. Elas faziam parte do time infantil de futebol feminino da comunidade.
Já no grupo dos meninos, que também era diverso dentro dele mesmo, Rivaldo, Felipe, Ronaldinho e Messi, com idades aproximadas entre 8 e 9 anos, estavam também na mesma etapa de ensino, 3º ano. Leo Moura, Cristiano, Neimar e Luís tinham idades aproximadas entre 9 e 10 anos. Eles estudavam no 4º ano do ciclo complementar. Messi, Neimar, Felipe, Leo Moura e Ronaldinho, em geral, estavam juntos nos momentos de brincadeira, como futebol, pique pega, carrinho, caça, polícia e ladrão, congelado, adedanha. Segundo Neimar, ele brincava muito com os amigos, mas também brigava. Como afirma Neimar, eles brincavam De bola e quando a gente não tem nada melhor para fazer a gente inventa um monte de coisas . Já Cristiano não circulava na comunidade como as outras crianças. O espaço de convivência estava mais restrito às proximidades da casa de seus avós. Brincava com maior frequência com seu vizinho. Ao mencionar seu círculo de amizade, relatou que Não tenho muitos amigos não, mas tenho alguns. Neimar é meu melhor amigo. Desde meus quatro anos que nós brincamos. Brinco muito com ele de jogar bola . Algumas situações observadas durante o trabalho de campo mostraram a identificação dessas crianças com o futebol. O corte de cabelo estilo Neimar e os gestos de celebração dos jogadores do Atlético Mineiro (Foto 1) foram algumas manifestações que apareceram nesse grupo.
Foto 1 - Alunos reproduzem gestos dos jogadores (Ronaldinho e Jô) do Atlético Mineiro
Fonte: Acervo da autora, 2012.
As tarefas domésticas eram outro aspecto que fazia parte da experiência dessas crianças. Varrer a casa ou o quintal, lavar a louça, levar recados ou encomendas pela comunidade, buscar produtos na mercearia, cuidar dos irmãos mais novos são algumas das atribuições que os observei fazendo em 2012.
O dia está muito quente. As crianças estão em suas casas, algumas brincam sob as árvores. Recebo Ricardo e sua irmã em minha casa. Ele não foi à aula hoje porque ficou cuidando da irmã, para que sua mãe pudesse ir até Ibiaí fazer compras. Enquanto organizo minhas anotações no caderno de campo, eles brincam no chão da sala. (Notas. Diário de Campo, 2012).
Desse modo, o mundo do trabalho se revela um círculo importante na vida das crianças de comunidades populares. É comum que elas sejam iniciadas em pequenos afazeres domésticos já aos oito anos de idade. Essa inserção em atividades do lar, principalmente quando os pais precisam se ausentar, na arrumação da casa, na criação de animais e outras, torna, como afirma Brandão (1995), crianças escolares em meninas e meninos precocemente trabalhadores.
Os espaços da asa ta de a a a a dife e ça o o e pe i ia a ida das
crianças. Dentre as crianças pesquisadas, 60% dividiam o espaço da cama com outros irmãos ou pessoa da família. A invasão da individualidade vivenciada pela dimensão espacial do lugar traz experiências do viver e sentir-se membro de uma cultura particular. Na instituição familiar, a experiência mais intensa para as crianças eram os valores dessa cultura.
Compartilhar e cooperar eram verbos materializados nesses espaços. Assim, brinquedos, vestimentas, acessórios, alimentos e outros produtos se tornavam de uso comum - instrumentos de relações sociais com forte apelo afetivo, pautados pela cooperação, luta por poder, negociações, trocas e também por aprendizagens. Nessas condições distintas, as crianças constroem sua personalidade. Essa é uma breve caracterização dos colaboradores desta pesquisa. Na próxima seção, descreveremos os pais ou responsáveis.