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Vurdering av den overordnede organiseringen av Husbanken

O Futebol desperta paixões, suscita críticas, inspira artistas, podendo mesmo dizer-se que o melhor dele está nos muitos mundos que contém e naquilo que este poderá dar ao mundo (Garganta, 2004 cit. Ribeiro, 2008). Segundo Maciel (2008), trata-se de um epifenómeno, visto que não sendo fundamental para a existência humana, funciona como um complemento que lhe é fundamental.

O Futebol tem um forte impacto na sociedade, justificado pelos programas televisivos e radiofónicos, o alcance jornalístico, ou na expansão dos sítios da internet e blogues ou nos comentários do quotidiano que um simples jogo envolve.

Esta omnipresença do Futebol na nossa sociedade levou, Costa (1990) a considerar esta modalidade como a grande festa dos tempos modernos, que suscita fascínios, ao ponto ninguém ficar indiferente, constituindo-se como um idioma global.

O Futebol é o desporto mais popular do planeta, envolvendo directa e indirectamente bilhões de pessoas, quer na sua prática, quer na qualidade de adeptos e profissionais pelos serviços prestados (Murad, 2007 cit. Maciel 2008).

Na tentativa de se compreender quais as razões para tal popularidade, o mesmo autor salienta o facto de ser considerada pelos especialistas como uma modalidade espontânea, imprevisível, simples, barata e democrática para os seus praticantes. Assim se percebe, como nos refere Bento (1995) o porquê da sua expansão, configurando-se como um processo de civilização, como elemento de cultura, como local de encontro, de convivialidade, da sociabilidade e do bem-estar dos homens.

De acordo com Toledo (1996 cit. Costa 2005), “o Futebol é considerada uma das modalidades mais difundidas nas manifestações desportivas das sociedades modernas, exercendo um grande impacto nos hábitos culturais desportivos dos nossos dias, podendo mesmo constituir-se como laboratório de análise social”.

Em relação à popularidade do Futebol, será oportuno e justo referenciar o escritor Mário Vargas Llosa, galardoado em 8 de Outubro de 2010 com o prémio Nobel da Literatura, quando escrevia antes do mundial de 1982, sentado numa bancada do Camp Nou, poucos minutos do jogo inaugural entre a Argentina e Bélgica: “há uns anos ouvi o antropólogo brasileiro, Roberto da Matta dizer que a popularidade do Futebol resulta da legalidade, igualdade e liberdade que lhe subjaz. Trata-se de um argumento ao mesmo tempo inteligente e divertido. Para Da Matta o povo vê o Futebol como uma sociedade modelo, governada por regras claras e simples, que toda a gente compreende e que, se violadas, levam ao castigo imediato dos prevaricadores. Um campo de Futebol é um espaço igualitário que exclui todos os tipos de favoritismo ou privilégio. Na relva marcada por linhas brancas, uma pessoa é avaliada pelo que é: pela sua habilidade, dedicação, imaginação e eficácia. Nomes, dinheiro e influência não contam quando chega a hora de marcar golos e receber aplausos ou

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apupos. O futebolista exerce o único tipo de liberdade que a sociedade permite aos seus membros: fazer tudo o que lhe apetece, dentro das regras.

Se calhar o Futebol limita-se a oferecer às pessoas aquilo que não encontram em mais nenhum lado: uma oportunidade de se divertirem, exercitarem-se, sentirem as emoções intensas que a rotina do quotidiano lhes nega. Mas há muitos que não percebem e criticam. Vêem-no como deplorável porque, dizem, aliena e empobrece as massas, desviando-as das questões essenciais. Quem pensa assim esquece-se da importância do divertimento. Também olvidam que o que caracteriza o entretenimento, por mais intenso e absorvente que seja, é que é efémero, não transcendente, inócuo. É uma experiência cujo efeito desaparece ao mesmo tempo que a causa” (Jornal “A Bola” 09-10-2010).

O professor José Esteves, o primeiro, no tempo, dos sociólogos do desporto, em Portugal, através do seu livro O

Desporto e as Estruturas Sociais (Prelo Editora, Lisboa, 1964, p. 11) escreve, neste mesmo livro: “Só há uma

forma de entender o fenómeno desportivo: na perspectiva das estruturas sociais. O que há de característico e fundamental, no desporto, é, justamente, o que define e caracteriza a sociedade em que ele se realiza”. Gustavo Pires, também um autor de admirável nível intelectual, aqui pode ser citado: “De uma maneira geral, a maioria das pessoas, incluindo a generalidade dos dirigentes desportivos e políticos, tem do desporto uma ideia estática, a partir de uma ilusória concepção de tempo. Para elas, o desporto existiu desde sempre como uma actividade à margem da sociedade, pelo que não tem passado nem futuro” (Agon – Gestão do Desporto – O jogo

de Zeus, Porto Editora, Porto, 2007, p. 19). E mais adiante o mesmo autor: “O desporto tem uma história e tem

futuro, tem um discurso que o deve organizar no tempo e no espaço, de acordo com a sociedade onde está inserido” (p. 21). Por isso, a evolução do futebol, ao longo das idades, surge como consequência lógica da evolução social, que lhe dá sustentabilidade.

A importância social e cultural do Futebol é tão profunda nas sociedades actuais que o conceito de Marcel Mauss, conhecido como fenómeno social total (Karsenti, 1994 cit. Cardoso et al, 2007), pode ser evocado, na medida em que mobiliza a totalidade das instituições e da sociedade que as compõem.

A modalidade de Futebol expandiu-se como a mais popular em todo o mundo. As causas de tal facto residem no padrão transgressivo da sua gestualidade, na sua simplicidade coreográfica e normativa e na fácil acessibilidade à sua prática: “as suas regras são poucas, simples e relativamente claras (e por serem assim é que os árbitros são tão veementemente criticados): todos acham que a sua leitura do lance é que está certa. É também por isso que o Futebol se joga por todo o tipo de pessoas em qualquer esquina, em qualquer favela – em qualquer canto do planeta” (José Antunes de Sousa, ob.cit. pag.102).

De acordo com Gonçalves, A.(2002: 129), “o Futebol é um espectáculo de massas, de bairro, de rua e de escola, de colegas de trabalho e de torneios universitários, joga – se e vibra – se pela televisão e pela rádio, entre amigos ou vizinhos. Nos restaurantes, nos cafés, no trânsito e no emprego, em casamentos e baptizados, sem raça, sem cor ou religião, onde o máximo que se pode esperar num E.U.A. vs Irão, é um golo. O Futebol vai muito além dos 90 minutos e das portas dos estádios onde se joga. É motivo de muita conversa e controvérsia, substituindo a meteorologia enquanto recurso temático para início de discussão entre diferentes actores sociais”.

“No Futebol tudo é foco de atenção do público. Não apenas a concretização do objectivo do jogo, a marcação de um golo na baliza do adversário, também os passes certos e os falhados, os hinos, os palavrões, os treinadores de bancada, as bandeiras, os cachecóis, as claques, tornam mais empolgante ou dramatizam o próprio jogo.

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Aliás, estas são outras características que fazem do Futebol o fenómeno que todos conhecemos, já que para muitos adeptos, assistir a um espectáculo não é apenas a visualização descontraída de um evento, mas sim mais um momento de excitação, de nervosismo, e, por vezes de drama. Os fãs de Futebol experimentam ansiedade, frustração e raiva, quando a equipa tem um mau desempenho e euforia, êxtase e divertimento quando a sua equipa apresenta uma boa prestação” (Duquin, 2002 cit. Cardoso et al, 2007)

O Futebol, considerado “desporto-rei”, praticado em todo o mundo, é sem dúvida um instrumento de referência abrangente a toda uma comunidade universal. São poucos os que não vêm, não sentem o fulgor entusiástico que se difunde por entre multidões ávidas em aplaudir uma jogada ensaiada ao pormenor dum belo passe ou proveniente da magia dum ousado drible ou, mais ainda, pela força aglutinadora imprimida na bola coroando em golo aquele bruaá sacudido pelas malhas. O Futebol goza de uma elevada aceitação social por parte de todos os que o respiram à volta do estádio ou tanto quanto se curvam perante ele. Talvez por isso, e a história no-lo documenta, apesar da guerra entre El Salvador e Honduras ter começado a partir dos acontecimentos que envolveram um jogo de Futebol de apuramento para o campeonato do mundo de 1970, tenham sido muito reduzidos os aproveitamentos do jogo como forma de protesto ou reivindicação social, pois como sugere Eco (1993: 165 cit. Cardoso et al, 2007) “há uma coisa que ainda que se julgasse essencial – nenhum movimento estudantil, revolta urbana, contestação global, ou seja o que for, se poderá jamais fazer. É invadir um campo desportivo ao domingo.”

Segundo Gonçalves (2002), o Futebol, como espectáculo aberto à comunidade, pode também ser enquadrado enquanto dimensão de fuga do contexto profissional e familiar das sociedades contemporâneas, uma vez que poderá ser utilizado como catarse das tensões acumuladas navida quotidiana.

Outra das dimensões que poderá servir de análise crítica é aquela em que se procura analisar o Futebol como decorrência de experiências sociais e humanas, como seja a guerra, a tribo e a religião. É claro que duas equipas disputam entre si a oportunidade de alcançar a vitória, mas daí até transformar a competição, numa guerra, é questão plenamente insustentável. Mas o Futebol contém uma dimensão de utopia que está ameaçada de extinção no contexto da expressão “o Futebol não pode ser diferente da sociedade no qual é jogado. Da mesma maneira que existe na referência à América como terra de possibilidades ilimitadas a qualidade humana dum horizonte de expectativas, também o rectângulo mágico do relvado se mantém como espaço onde as promessas podem tornar-se realidade” (Detler Claussen, “Sobre a estupidez no Futebol”, Análise Social, n.º 179, 2006, pg. 584).

Uma outra abordagem do Futebol é a referenciada por correntes de inspiração, que poderíamos considerar de teor marxista, que focam a sua atenção no paralelismo com a devoção religiosa, onde o estádio (catedral), a proliferação dos ícones, a glorificação dos jogadores, a vertente clerical e o fervor clubístico seriam hoje o “ópio do povo” dos tempos modernos (Cardoso et al, 2007), como a religião o foi em tempos passados: “o que mais seduz numa ideia não é o seu valor mas o seu preço. Por isso, para o comum dos homens, será sempre mais fascinante morrer porque o nosso clube perdeu do que escrever a crítica da razão pura” (Vergílio Ferreira,

Pensar, 559, 5.ª Edição-1997). E ainda noutra obra: “toda a corte de deuses modernos, desde Chefe a Causa, até

às formas mais degradadas de divinização – como um clube –, são os mitos que respondem ao nosso sonho ou saudade de mitos, num tempo que desejou destruí-los” (Do Mundo Original, 2.ª Edição, 1979, pg. 147).

O Clube de Futebol tem uma dimensão projectiva e vicarial na sua relação apaixonada com os seus adeptos. Ou seja: o adepto delega e depõe no clube a esperança escatológica numa vitória definitiva que lhe aquiete e

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preencha a alma, num claro exercício de transferência psicológica, isto é, reclama do clube o que não logra obter a nível pessoal.

O Futebol assume-se nos dias de hoje como um fenómeno de grande complexidade, um espaço público de união, alicerçando, de forma verdadeiramente abrangente, toda uma sociedade sem fronteiras, onde a sua linguagem universal se documenta e exalta.

Li, há pouco tempo, o livro de Pierre Bourdieu, Science de la science et réflexivité (Raisons d’Agir, Paris, 2001). Trata-se da edição de um curso no Collège de France, de Paris, sobre a temática referida em título. O autor, conforme o salienta no prefácio e na introdução (pp. 5 ss.), pretende defender a autonomia da ciência, em relação a outros saberes e à própria filosofia. É que a ciência tem uma prática e uma história que a autonomizaram, no cotejo com outros campos simbólicos. E é bem explícito, quando escreve que “deverá ser tomada em consideração a totalidade das práticas que produzem realidade e não apenas as práticas da escrita” (p. 43). Sem mais me adentrar neste livro oportuníssimo, julgo que deverá não esquecer-se que, sem prática, não há conhecimento fiável e os práticos do futebol sabem, melhor do que ninguém, que é à luz das ciências humanas que melhor conhecem esta modalidade: quanto melhor se conhecer o Homem, mais preparado se está para entender os homens que jogam. Os laboratórios, a tecnologia são indispensáveis ao conhecimento do futebol, mas… não bastam! De facto, não há matemática que consiga medir completamente um ser humano. Este não se explica, compreende-se! Há sociólogos do futebol que não sabem em que medida o futebol é ciência, ou que fazem dele uma ciência ao jeito do positivismo. É duvidosa uma reflexividade científica assim. O futebol é um fenómeno social? Mas é também um dos aspectos da motricidade humana. E é no respeito pela sua autonomia científica que deve ser observado e estudado. Como é do conhecimento generalizado, para Kuhn, os paradigmas são psicologicamente exclusivos, historicamente descontínuos, logica e epistemologicamente incompatíveis, incomensuráveis e não cumulativos.