Mas o grande incremento do futebol aconteceu, quando o cónego Thomas Arnold reformou radicalmente a prática de vários desportos, conferindo-lhes um inigualável valor educativo. Ao assumir, em 1828, a direcção do Colégio de Rugby, onde se jogava por tradição um futebol brutal, faz dos vários desportos, e não só do futebol, veículos poderosos à formação do carácter e ao exercício da liderança, da disciplina, da lealdade – tudo isto à luz do velho ditado “mente sã, em corpo são”. Um parêntese: a ideia da mente sã em corpo são era um platonismo (Platão viveu entre 428 e 347 a. C.) que via no ser humano um espírito, encurralado dentro de um
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corpo. Sob este ângulo de visão, “a alma racional é substância completa, espírito puro, anterior ao corpo, com o qual se une acidentalmente” (António Freire, O Pensamento de Platão, Livraria Cruz, Braga, 1967, p. 132). Por isso, cabia à alma conduzir e comandar o corpo, pois que (lê-se no Fédon, 66 b-d) “enquanto possuirmos o corpo e a alma estiver mergulhada nesta corrupção, impossível nos é alcançar o que desejamos, isto é, a verdade”. Descartes (1596-1650) e Hegel (1770-1831) continuam o platonismo, se bem que sem os extremos de idealismo em que o autor da República descambou, já que o tempo de Platão era bem diferente daquele que Descartes e Hegel viveram. No entanto, num ponto eles concordavam: na superioridade da alma, substância espiritual, sobre o corpo, substância material. “Num dia de 1806, o filósofo Hegel vê Napoleão trotando a cavalo, nas ruas de Berlim. Escreve logo a seguir numa carta que viu o espírito a cavalo. Para ele, a atitude da Revolução Francesa, prolongada por Napoleão I, representa o triunfo da razão. A filosofia das Luzes irá reinar sobre o mundo. A história das ideias está terminada porque a razão triunfa” (Bruno Jarosson, Humanisme et Technique, PUF, Paris, 1996, p. 9). Neste contexto ideológico, o corpo, que é simples matéria, deve trabalhar-se, para que a razão possa revelar-se em toda a plenitude. É este o espírito filosófico e pedagógico que preside ao progresso da educação física e do desporto, na Europa. Em poucas palavras: o corpo é instrumento da alma! O dualismo antropológico racionalista surgia também no treino desportivo, confundindo-se o treino físico com a ginástica, mas não emergindo dele o todo que o praticante é, nem a totalidade em que o futebol se desenvolve.
A modalidade de Futebol, pelas suas características, é normalmente classificada como modalidade desportiva colectiva, o que a coloca em comum com outras modalidades como o Andebol, o Basquetebol, o Voleibol, o Futsal e o Rugby, entre outras.
Essa classificação está assim definida, porque possui uma série de elementos comuns que se caracterizam, entre outros factores, pela aciclicidade técnica, por solicitações e efeitos cumulativos morfológicos, funcionais e motores e por uma intensa participação psicológica e mental (Teodurescu cit. Garganta, 1997).
Uma das questões fundamentais dos Jogos Desportivos Colectivos pode ser constatada numa situação de oposição, em que neste caso, se permite aos jogadores coordenar as acções com a finalidade de recuperar, conservar e fazer progredir a bola, tendo como objectivo criar situações de finalização e marcar golo ou a obtenção de ponto. (Gréhaigne & Guillon, 1992 cit. Garganta, 1997).
O Futebol é um jogo de oposição em que duas equipas se confrontam de forma dinâmica e invasiva (o que o distingue do Voleibol), onde o contacto físico é permitido (com limites – ao contrário do Basquetebol) e que não possui zonas de impedimento dos jogadores (diferindo do Andebol). A sua prática efectua-se ao ar livre (diferente das demais modalidades colectivas) o que determina a uma adaptação às condições climáticas, ao estado do terreno de jogo, etc., o que implica uma atenção especial a uma maior imprevisibilidade e aleatoriedade do resultado.
Esta leitura tem sido comprovada por Garganta (1997), tendo por isso definido o Futebol como um jogo colectivo, desenvolvendo-se num ambiente de elevado índice de aleatoriedade e imprevisibilidade em que duas equipas se confrontam, procurando controlar o tempo e o espaço através de acções se oposição sustentadas por experimentadas reacções de cooperação.
O facto de a modalidade ter emergido a partir da capacidade criativa e adaptativa de gente ligada à educação e cultura, torna-a naturalmente mais emblemática e universal. “Há duas grandes razões que ajudam a explicar a popularidade do Futebol: uma o teor transgressivo e bizarro do seu padrão gestual, isto é, o facto de este desporto, ao contrário dos demais, ser jogado com os pés, as extremidades mais afastadas do nosso mediador da
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consciência que é o cérebro e, por isso mesmo, uma das partes do corpo mais negligenciadas (…) Ao invés, as mãos simbolizam, desde sempre, o poder (…). Ora, integrar a actividade dos pés no desígnio inteligente com admiráveis manifestações de beleza e precisão é algo que surpreende e fascina. A outra prende-se com a sua simplicidade de processos e de normas – qualquer pessoa entende imediatamente as regras e a intencionalidade deste fantástico jogo” (José Antunes de Sousa – Desporto em Flagrante, Livros do Brasil 2010, pg. 166).
A sua vertente cultural enquanto ligada ao poder simbólico e místico que retrata na forma como é jogado (sem o uso das mãos), permitiu, com efeito, marcar a diferença entre as demais modalidades de desporto colectivo. A permanente resistência no que respeita à mudança ou alteração criteriosa das suas regras por parte da Internacional Board, confere-lhe também uma acentuada singularidade, uma vez que as sucessivas modificações poderiam provocar uma desencorajante diminuição da margem aleatória e incerteza do resultado (Daolio, 2000 cit. Costa, 2005).
Sem dúvida que estas premissas conduzem aos aspectos emotivos com que se debate o confronto entre equipas, promovendo e influenciando as opiniões mais desconcertantes na sociedade onde estão inseridas e onde, por isso, cada equipa revela, pela sua forma de jogar, as características da comunidade que representa (Costa, 2005).
Todos estes factores, relevam o forte impacto social que o Futebol possui, nos diversos países, sendo assim um reflexo de expressão cultural de um povo (Lobo, 2002). O mesmo autor refere que cada estilo de jogo é produto das idiossincrasias em se envolveu. A preservação dos traços identitários de cada local são fundamentais para que o Futebol mantenha as suas características genuínas, e, definidoras dos seus “futebóis”.
Poderemos, por isso, caracterizar por exemplo, as diferentes formas de jogar como decorrentes de um determinado contexto social, cultural, dum tipo de sociedade que lhe dá suporte. Anotamos alguns exemplos:
Argentina: os jogadores apresentam algumas características-tipo, tais como: uma grande voluntariedade e
entrega ao jogo, aliada a uma boa capacidade atlética e visão de jogo, qualidade técnica superior, habilidade e objectividade que partilham como os europeus. Exemplos: Simeone; Sensini; Maradona; Valdano; Saviola; Zanetti; Lisandro Lopez, etc.
Brasil: jogadores com grande capacidade criativa, com alto pendor ofensivo, mas de fraca objectividade e uma
elevada tendência egocêntrica, fazendo valer a sua máxima característica no toque de bola criativo com o primado da arte e da genialidade. Exemplos: Pelé; Romário; Garrincha; Zico; Ronaldinho Gaúcho; Robinho; KaKá, etc.
Itália: jogadores com elevada qualidade na leitura de jogo e sua compreensão táctica. Pragmáticos,
objectividade de função e sentido colectivo aliado a uma elevada capacidade técnica e habilidade. Exemplos: Baresi; Paolo Maldini; Pirlo; Nesta; Baggio; Del Piero, etc.
Holanda: normalmente os jogadores deste país apresentam uma grande capacidade técnica aliada a uma
excelente leitura de jogo, objectividade e rapidez de execução, resultando num Futebol colectivo e de grande sedução. Exemplos: Ruud Gullit; F. Rijkaard; Van Basten; M.Overmars; D. Bergkamp.
Inglaterra: jogadores, do ponto de vista atlético, muito fortes, com grande tendência ofensiva e que fazem do
passe à distância a sua marca, acompanhada dum elevado pragmatismo acompanhado pelo respeito às regras,
fair play e lealdade, desprezando qualquer tipo de situação injusta que possa ter ocorrido. Exemplos: Bobby
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Alemanha: jogadores com grande porte atlético, sendo muito fortes no aspecto colectivo. Registam uma notável
capacidade posicional, com muita agressividade e boa visão de jogo, aliando a eficiência à forma objectiva de bem jogar. Exemplos: F.Beckembauer; K. Rummenigge; J.Klinsman; L.Mathaüs; S. Effenberg, etc.
Portugal: é dos poucos países que rivalizam com o Brasil no que concerne à produção de jogadores com
capacidade de improvisação, com elevado espírito de jogo ofensivo, capacidade técnica elevada e improvisação. A pouca objectividade e algumas características do individualismo não destroem a espectacularidade do criativo e do imaginativo. Exemplos: Eusébio; Fernando Gomes; Luís Figo; Paulo Futre; Chalana; Rui Costa; Cristiano Ronaldo; Ricardo Quaresma, etc.
O Futebol português, segundo Lobo (2002) foi fortemente influenciado pela miscigenação, resultante da inclusão de jogadores das ex-colónias. O Futebol português “tem o cheiro de África e do Brasil sul-americano, o toque, o bailado à brasileira, como gostavam de referir os analistas”, caracterizando-se pela dominância dos aspectos técnicos, pelo passe curto, a desmarcação constante, e pelo improviso dos jogadores.
A dinâmica imprimida pelas formas de jogar, implica algumas referências que não podem ser separadas do viver das sociedades que lhe estão associadas. Podemos dizer, por isso, que o modelo latino é normalmente caracterizado como sendo representativo do “romantismo”, revelando um estilo de jogo com base no domínio da posse de bola, explorado pelos passes curtos, ancorado na virtuosidade individual, procurando o espectáculo assente numa elevada capacidade técnica e criatividade (Soares, A; 2002).
Na opinião do autor atrás referido, o Futebol anglo-saxónico tem como premissas a aplicação dum estilo de jogo fundamentado na força físico-atlética, capacidade muscular, falta de improvisação, mecanizado e sem imaginação.
Ao contrário do Futebol latino, por muitos denominado “futebol poesia”, o anglo-saxónico, é considerado um jogo sem capacidade imaginativa, um “futebol prosa”em que predomina a segurança de posse com base nas triangulações, em que o colectivo se preocupa em passes longos “geométricos” e de grande agressividade pela posse da bola ou na reconquista da mesma (Xavier, M; 2004 cit. Costa, 2005).
Ainda em relação ao Futebol latino, Freitas Lobo, L. (2008), documenta a forma de jogar como geneticamente defensivo, ganhando vida própria no contra – ataque. E continua: “é este o seu A.D.N. Itália, Portugal, Espanha e França são os seus exemplos. O Futebol português tem o cheiro de África, do Brasil e da América do Sul”.
A França, à medida que começou a receber alguns jogadores provindos da África negra, ilhas do Pacífico e suas antigas colónias foi modificando o seu padrão de jogo.
A Espanha absorveu a raça e o carácter da América Latina (ex-colónias) e implementou o estilo da fúria ao seu modelo de jogo.
A Itália manteve-se fiel às raízes. O seu mundo reserva-se pela manutenção de estilo. Por isso o Cattenacio continua a fazer sentido, sendo a expressão da sua mais genuína escola.
Seguindo o raciocínio de Luís Freitas Lobo, o autor remete-nos para essas características de Futebol jogado, adequadas aos diferentes países. Referindo-se ao estilo francês, comenta que o mesmo não foi capaz de provocar grandes paixões, até o surgimento da “outra França” de Zinedine Zidane. O grande sucesso do futebol francês foi ter recebido essa força aglutinadora duma corrente migratória que lhe conferiu uma identidade muito própria.
Relativamente ao Futebol em Espanha, verificou-se que durante muito tempo prevaleceu, como atrás foi evidenciado, um Futebol de “fúria” espanhola, expressão utilizada pela 1.ª vez por Paco Bru nos jogos de
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Antuérpia em 1920 em que a selecção espanhola se sagrou vice-campeã. Mais do que um estilo de jogo, era um estado de alma. As atmosferas regionais geraram um Futebol híbrido, onde coexistiam diferentes escolas. No entanto, novas gerações imprimiram outros conceitos e por consequência, outras influências. Assim é que o Basco é diferente do Andaluz e este do Galego e do Catalão, sem contudo perder uma ideologia técnica latina verdadeiramente transversal. A Espanha, revela-se assim um caso muito particular, visto que mais do que uma identidade nacional, existe uma forte identidade regional, um “cocktail de estilos”. A variedade de mentalidades, dificulta a estabilidade de um sentimento aglutinador, onde, devido a estar perante um espelho de diversas culturas, tem sempre muitas dificuldades em apresentar o seu verdadeiro estilo (Lobo, 2002).
Relativamente a Portugal, refere que geneticamente e geograficamente se insere na escola latina, tendo contudo personalidade muito própria, naturalmente influenciada pela presença dos jogadores africanos e brasileiros, como vimos. Por isso, sendo mais lento que o espanhol, é incomparavelmente mais artístico.
Na cultura holandesa, não obstante notar-se a referência aos traços técnicos, artísticos e imaginativos por inspiração sul-americana, nunca descuraram a condição atlética que gerou o conceito de Futebol–total.
No Brasil, o Futebol representa uma actividade que tem sobre a sociedade um efeito tremendo, constituindo-se como a prática de eleição da população, peladas na praia, na rua ou em qualquer outro lugar, assim como jogos de futevolei, são sempre integrantes da paisagem brasileira (Lobo, 2002).
Magno et al. (2007), salienta que o modelo de vida dos brasileiros se conjuga com o estilo brasileiro de jogar, onde o jeitinho e a malandragem se manifesta e pode ser celebrado como estratégia de sobrevivência social. A paixão pelo Futebol no Brasil, constata-se nas seguintes palavras de Netto, (2005): “No Brasil, o menino ao nascer ganha nome, religião, e um time de futebol. Mal começa a andar e já chuta bola com uniforme do clube de preferência. Inicia-se assim a construção social do acto de torcer no futebol, do que resulta um fato sócio- histórico que mescla a identidade pessoal e colectiva do chamado torcedor”.
Como vimos, a exploração das diversas formas de jogar está de acordo com a adaptação às condições sociais e culturais de vida vigentes, pela sociedade lhe está subjacente. Por isso é que os padrões de jogo se vão modificando à medida dos índices migratórios de jogadores oriundos de países de diferenciadas culturas. A este propósito e no sentido de ilustrar uma certa dicotomia entre a tipologia do jogo brasileiro e, com algumas
nuances, do “tipicamente latino” e da tipologia do jogo basicamente anglo-saxónico, julgo ser pertinente evocar
o testemunho de Gilberto Freire que insistentemente nos seus trabalhos frisava essa diferenciação, enfatizando esses dois estilos antagónicos de se jogar Futebol aliados, por sua vez, a dois estilos de culturas, também eles opostos: um “apolíneo”, isto é, mais formal, mais contido, mais geométrico, mais pensado, o europeu e outro, “dionisíaco”, mais impulsivo, mais espontâneo, mais emotivo, mais individualista, bem ao jeito do mulato. Ele escreveu: “no Futebol, como na política, o mulatismo brasileiro se faz marcar por um gosto de flexão, de surpresa, de floreio que lembra passos de dança e de capoeiragem. Mas sobretudo de dança. Dança dionisíaca. Dança que permita o improviso, a diversidade, a espontaneidade individual. Dança lírica. Enquanto o Futebol europeu é uma expressão apolínea de método científico e de esporte socialista em que a acção pessoal resulta mecanizada e subordinada à do todo, o brasileiro é uma fórmula de dança, em que a pessoa se destaca e brilha” (Gilberto Freire em “Sociologia”, 1945, citado por Tiago Maranhão em Análise Social, pg. 443).
Novos conceitos se vão ministrando. Os estilos de jogo adquirem diferentes rostos ao longo do tempo nestes “estádios” com o carimbo da globalização.
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Não obstante algumas referências marcadamente positivas pelo conhecimento generalizado e daí, mais profundo, algumas inquietações se perfilam perante a ameaça da globalização, muito em especial no que concerne ao estatuto da representatividade máxima dum país, como seja a Selecção Nacional, hoje ainda ameaçada por duplas nacionalidades de contorno duvidoso.
Mas a mundialização da nossa vida colectiva é irreversível!