Desde o início de nossa investigação, temos apresentado a narrativa sobre a República, composta por Graciliano Ramos, como um texto irônico. De fato, não apenas nós, mas as análises dos críticos que se debruçaram sobre esta obra, expostas na seção anterior, também conferem a mesma classificação. No entanto, até o momento, não deixamos claro qual o conceito que estamos utilizando para esta categoria, como a estamos compreendendo e sob que perspectiva. Por isso, precisaremos apresentar alguma consideração sobre o que é o recurso irônico e como ele se configura em “Pequena história da República” para podermos analisar criticamente esse texto.
Com este propósito, será importante observarmos a conceituação de Duarte (2006), pesquisadora e crítica literária, que percebe a ironia como um recurso
[...] apresentado mais comumente como a figura de retórica em que se diz o contrário do que se diz, o que implica o reconhecimento da potencialidade de mentira implícita na linguagem. Por isso a ironia pode ter formas e funções extremamente diversificadas, em que há pelo menos dois graus de evidência: um primeiro, em que o dito irônico quer ser percebido como tal, e um segundo – caso da ironia humoresque -, em que o objetivo é manter a ambiguidade e demonstrar a impossibilidade de estabelecimento de um sentido claro e definitivo. (DUARTE, 2006, p.18).
Desse modo, percebe-se que, entre os diversos sentidos atribuídos à ironia, o mais comum é o de considerar irônico o dizer que, na verdade, diz o contrário do que está sendo dito. Assim, percebe-se que na ironia ao menos dois sentidos são manifestos: um sentido está no dito e o outro no dizer. Como Duarte (2006) aponta, dizer o contrário do que está sendo dito também implica em transformar aquilo que se disse em mentira. Trazendo essa consideração para a análise de “Pequena história da República”, temos que a presença da
ironia no relato historiográfico transformaria a narração historiográfica em mentira ou em não verdade:
D. Pedro II veio de Petrópolis e tentou organizar um novo ministério, o que não foi possível. No dia 16 S. M. recebeu uma dolorosa mensagem: nela o marechal Deodoro, em nome do governo provisório, lhe pedia o sacrifício de, com a sua família, no prazo de vinte e quatro horas, deixar o território nacional. O monarca deposto respondeu que embarcaria, forçado pelas circunstâncias.
Afirmou que guardaria do Brasil muita saudade e fez votos ardentes pela sua grandeza. Uma resposta digna, como se vê: o Imperador gostava da palavra escrita. Falando, porém, deixou algumas frases de menos efeito. Na noite de 17 desceu as escadas do palácio bastante contrariado, resmungando para o tenente-coronel Mallet, que o ia buscar.
- Estão todos malucos. Não embarco, não embarco a esta hora, como negro fugido.
Embarcou. No dia 18, com todos os seus, a bordo do Alagoas, seguiu para a Europa. A 28 de dezembro enviuvou, a 5 de dezembro de 1891 morreu. (RAMOS, 2010, p.151. Sobrescritos nossos. Itálicos do autor). No trecho, intitulado “Não sou negro fugido”, vê-se claramente a ironia em tratar o episódio da expulsão do ex-monarca d. Pedro II. Inicialmente, através do uso do termo “lhe pedia o sacrifício”, quando na verdade, a família real estava sendo expulsa compulsoriamente do país. Em seguida, pela resposta do monarca, que diante daqueles que o foram buscar desmentiu o que havia dito por escrito, afirmando que não embarcaria. Por fim, a ironia do narrador em relatar, secamente, que “Embarcou”.
Além da crítica realizada através do relato do episódio, a ironia incide também sobre o discurso escrito. Escrevendo, o imperador havia deixado belas e dignas palavras. No entanto, falando, o discurso mudara. Com isso, o narrador evidencia a artificialidade não só dos discursos por escrito do ex-monarca, mas da palavra escrita em geral, pois o próprio relato do episódio é composto, inicialmente, de forma a solidarizar-se com o monarca (“recebeu uma dolorosa mensagem”) para, no fim, relatar de forma sintética e objetiva, sem qualquer adjetivação (e, com isso, sem qualquer relação de empatia com o ex-monarca), o resto da vida de d. Pedro II (como se vê no último parágrafo do excerto).
É interessante ressaltar que a “verdade” ou a “mentira” não é o critério para distinguir obra literária de obra não literária. A forma como o discurso é construído é que é fundamental para nossa compreensão de literatura, pois, como se sabe, o critério da verdade, hoje, parece ser completamente insuficiente, por não sabermos, pela filosofia ou pela ciência, o que vem a ser “verdade”. Assim, a potencialidade de mentira implícita na linguagem, como destaca
Duarte (2006), está em perceber a escrita, tanto literária quanto histórica, como constructo, como ficção. A presença da ironia e, consequentemente, de um sentido duplo ao dito ou da negação do que está sendo dito pela construção de um sentido contrário, gera a desconfiança do discurso escrito como “verdade”. Para o discurso historiográfico, este é um lugar que deve ser evitado, embora, conforme vimos na segunda seção, ao menos a compreensão teórica de Hayden White (2001) sobre a escrita da História, tem percebido a ficcionalidade dos textos e relatos de sua área. No entanto, para a Literatura, longe de diminuir seu valor, a “mentira” pode ser vista como sua razão de ser, seu jogo com a linguagem, pois o texto literário sabe-se incapaz de reproduzir ou representar a verdade ou o mundo.
Ainda tratando do conceito de ironia, vemos em Muecke (1995) a compreensão de que o recurso possui um conceito vago e inconcluso, que tem variado no correr do tempo (p.22). No entanto, o autor não se esvai de algumas definições e nos apresenta a concepção deste recurso como paradoxo, fusão de tese e antítese (p.40), e enquanto significação aberta, permitindo múltiplos sentidos (p.48). Essas compreensões asseveram a presença da ironia nessa obra de Graciliano Ramos, como um recurso de linguagem que rompe com a coerência entre o dito e o dizer para multiplicar as possibilidades de leitura.
Além desses autores, Sônia Brayner (1976) também se debruça sobre esse recurso, afirmando que
Na retórica tradicional, foi o termo [ironia] colocado ao lado dos chamados “tropos primários” – metonímia, sinédoque, hipérbole. [...] A força da ironia jaz no antigo e sempre prazer humano em fazer contrastar a Aparência com a Realidade, isto é, no conflito de dois significados dentro de uma estrutura dramática peculiar. [...] Utilizando-se do vocabulário saussuriano, pode-se dizer que a ironia se estabelece na inadequação voluntária de um significante com seu significado. Trabalho retórico e, mais amplamente semiótico, a ironia, como todo fenômeno de humor, prefere um significante não habitual, menos provável, através do qual instala seu coeficiente de incerteza. Nem transparente em demasia, pois seu caráter artificioso estaria imediatamente decodificado, nem opaco, tampouco, prefere estabelecer uma relação de translucidez [...], sempre na dependência da personalidade estilística do ironista, na capacidade de percepção do público para esta mensagem codificada em um segundo grau e, finalmente, nas condições em que se estabelece o percurso deste sentido. (BRAYNER, 1976, p. 100)
É justamente na tensão entre “aparência” e “realidade”, no conflito entre dois significados contrastantes, que a ironia se manifesta, produzindo um dizer que ultrapassa os dois sentidos delimitados. É nesse sentido que tomamos o recurso irônico em “Pequena
história da República”: a de um dizer que extrapola, que mantém a tensão entre dois sentidos, estabelecendo a incerteza e aumentando, com isso, as possibilidades semânticas e de leitura. Pois, conforme já mencionado neste trabalho, consideramos a noção de Massaud Moisés (2004) sobre o funcionamento da ironia, “como processo de aproximação de dois pensamentos, e situa-se no limite entre duas realidades, e é precisamente a noção de balanço, de sustentação, num limiar instável, a sua característica básica, do ponto de vista da estrutura” (MOISÉS, 2004, p.247).
Considerando essa noção mais ampla sobre a manifestação irônica e percebendo a presença da ironia em “Pequena história da República”, podemos identificar um tipo de ironia como predominante no relato graciliânico. A manutenção da incerteza em relação aos sentidos do dizer e do dito, construindo sentenças que parecem, ao mesmo tempo, tratar com seriedade e humor os fatos narrados, nos permitem afirmar que a ironia humoresque16 predomina no relato. Essa ironia é apontada por Duarte (2006) como a que apresenta significações contraditórias que estarão juntas na linguagem, não fixando nenhum sentido. Esse tipo de ironia manterá a tensão entre os sentidos, sem ressaltar dito ou dizer. Esse recurso, que não permite o predomínio de um sentido particular, coincide também com o conceito de ironia instrumental17 de Muecke (1995), pois é recurso de fingimento de um ironista que deseja ser crido, mas instaura um paradoxo de sentidos, conforme podemos observar no excerto abaixo:
[...] E já aí os batalhões patrióticos deviam ter dado ao governo a certeza de que, em horas de cólicas, ele não contaria com o Exército. Por que o Exército não tinha coragem? Maluqueira. Sem tocar em fatos anteriores, lembremo-nos de que em Canudos houve bravura: excetuando-se a brigada Girard, todos lá se comportaram bem e, quando foi preciso, souberam morrer direito. (RAMOS, 2010, p.187).
16
“Se a ironia retórica coloca uma dupla possibilidade, mas tem um ponto de chegada, a intenção da ironia
humoresque ou de segundo grau não é dizer o oposto ou simplesmente dizer algo sem realmente dizê-lo. É,
ao contrário, manter a ambiguidade e demonstrar a impossibilidade de estabelecimento de um sentido claro e definitivo, pois o texto construído com essa ironia se configura como código evanescente e lugar de passagem.” (DUARTE, 2006, p.31-32).
17 Além dos conceitos já citados, Muecke (1995) nos apresenta a ironia de duas formas possíveis, de acordo
com a presença ou não de um ironista que formula a ironia: a ironia observável e a instrumental. A ironia observável seria a ironia em que não há ironista, ou seja, ninguém formula um dizer irônico, mas ocorre uma situação irônica no cotidiano, em eventos ou no discurso de personagens vítimas de ironia de circunstância (também conhecida como “ironia do destino”). Na ironia instrumental teríamos um ironista, que formula a ironia intencionalmente, e é o responsável pelo efeito irônico ou pela observação de um evento ou dizer irônico. Neste caso, o ironista constrói seu discurso de forma que se acredite que o que está sendo dito é aquilo que se queria dizer, embora seja também percebido pelo menos mais um sentido no dizer do ironista.
A ambiguidade de sentidos, no trecho, está em afirmar a bravura e coragem dos soldados do Exército ante um episódio em que os militares tiveram extrema dificuldade em combater camponeses analfabetos, destreinados e mal equipados belicamente. A ironia é reforçada pelo trecho final em que se afirma que a bravura do Exército era tal que, quando necessário, os soldados sabiam morrer direito. O narrador faz o leitor acreditar que está elogiando o exército, embora também construa um sentido subjacente: a incapacidade das forças militares.
Dessa forma, o leitor é convidado a compreender o jogo de sentidos exposto, devendo ser capaz de entender os dois sentidos e de crer que ambos são plausíveis. O jogo está em perceber a inversão semântica, mas não tomar o sentido inverso como único ou verdadeiro. Deste modo, cabe ao leitor a reflexão: um dizer pode comportar dois sentidos antagônicos? Afinal, o Exército é bravo e incapaz ao mesmo tempo?
A ironia em “Pequena história da República” indica o caráter paradoxal de nosso país que comporta, simultaneamente, as mais díspares realidades sociopolítico-econômicas. O Brasil se torna uma República democrática, mas quase em todos os períodos governamentais o presidente mantém decretado estado de sítio. A capital federal sofre uma grande obra de urbanização, enquanto ocorrem revoltas contra a vacinação anti-varíola. As contradições perpassam todo o relato e configuram a estrutura de nosso país.
A lista de trechos em que podemos perceber a chamada ironia humoresque ou instrumental é grande, mas deixaremos apenas mais dois exemplos. O trecho abaixo se refere à presidência de Afonso Pena, que morreu antes de finalizar seu mandato:
Afonso Pena só esteve no poder dois anos e sete meses: tomou posse a 15 de novembro de 1906 e expirou a 14 de junho de 1909, legando-nos estas belas palavras, as últimas que pronunciou: Deus, pátria, liberdade, família. Era, conforme se vê, um homem de convicções muito profundas. (RAMOS, 2010, p.173).
No excerto acima, percebe-se a ambiguidade da última sentença, que ora pode soar como um reconhecimento sincero das convicções do presidente, ora pode permitir uma leitura contrária, irônica, das últimas palavras do governante. O sentido é ambíguo e não pode ser fixado em uma ou outra significação. Podem-se perceber alguns elementos como marcadores de uma possível jocosidade, como o termo “belas palavras” e a expressão “conforme se vê”. No entanto, fica marcada a fusão de dois sentidos, suspensos e equilibrados, acentuando o
caráter dissipatório dessa ironia que busca exatamente a não fixidez. Com isso transforma-se em forma literária a passagem curta e pouco significativa que Afonso Pena teve na presidência, pela perspectiva do narrador.
O segundo exemplo de ironia refere-se ao contexto jornalístico que antecedeu a revolução de 1930:
Evidentemente não se tratava da liberdade de pensamento usada no Brasil. Isso nos deu o destampatório insultuoso que nada produziu. Lendo na folha a horrível diatribe, o leitor sensato aborrecia o deputado e o Presidente, uns ladrões, mas aborrecia também o articulista, um canalha. Inútil pôr o articulista no lugar do deputado. Tudo podre.
A propaganda feita antes de 1930 não tinha essa feição derrotista. Sem negar o que existia no Brasil, afirmava a possibilidade de se conseguirem coisas melhores – e isto era admirável. Muito cético se deixou seduzir. (RAMOS, 2010, p.187).
A leitura irônica no excerto acima pode ser percebida através da relação entre os dois parágrafos. No primeiro, o narrador evidencia a falta de credibilidade que o jornal também angariou pela forma como o articulista insultava os políticos desonestos. No segundo, ele mostra que antes de 1930 se divulgava uma ideia mais positiva e construtiva em relação ao futuro do Brasil, mesmo quando se indicavam as incorreções. Embora pareça menos pessimista que o primeiro parágrafo, é justamente através do segundo que se pode perceber a construção irônica. Não se pode definir se, de fato, o narrador elogia a forma como se fazia propaganda antes de 1930 ou se ele ironiza a construção de uma visão utópica para o futuro do Brasil. Caso nos detenhamos na expressão “e isto era admirável”, perceberemos o parágrafo como visão positiva da forma como se construía a ideia de um Brasil melhor. Caso nos foquemos na última sentença, “Muito cético se deixou seduzir”, poderemos tomar o sentido de todo o parágrafo de forma distinta: na verdade, após toda a construção textual enaltecendo a propaganda antes de 1930, o narrador desconstrói esta visão atestando o seu não fundamento, sua mera sedução enganosa, capaz até de angariar céticos. Dessa forma, o trecho permanece com um sentido duplo, contraditório, não sendo possível destacar mais um do que o outro. Ambas as leituras são possíveis e permitidas pelo texto.
Prosseguindo nossa análise, precisaremos pensar em mais um fator envolvido no tratamento irônico do texto: o riso. Por que se utilizar da ironia e, muitas vezes, ter como consequência desse recurso o riso do leitor, quando se está relatando a formação republicana do Brasil?
Henri Bergson (2007) busca compreender o significado do riso através da seguinte reflexão:
[...] O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma espécie de gesto social. Pelo medo que inspira, o riso reprime as excentricidades, mantém constantemente vigilantes e em contato recíproco certas atividades de ordem acessória que correriam o risco de isolar-se e adormecer; flexibiliza enfim tudo o que pode restar de rigidez mecânica na superfície do corpo social. O riso, portanto, não é da alçada da estética pura, pois persegue (de modo inconsciente e até imoral em muitos casos particulares) um objetivo útil de aperfeiçoamento geral. Tem algo de estético, todavia, visto que a comicidade nasce no momento preciso em que a sociedade e a pessoa, libertas do zelo da conservação, começam a tratar-se como obras de arte. Em suma, se traçarmos um círculo em torno das ações e disposições que comprometem a vida individual ou social e que punem a si mesmas através de suas consequências naturais, fica fora desse terreno de emoção e de luta, numa zona neutra em que o homem serve simplesmente de espetáculo ao homem, uma certa rigidez do corpo, do espírito e do caráter, que a sociedade gostaria ainda de eliminar para obter de seus membros a maior elasticidade e a mais elevada sociabilidade possíveis. Essa rigidez é a comicidade, e o riso é seu castigo. (BERGSON, 2007, p.15).
Dessa forma, Bergson (2007) vê o riso como o castigo que a comicidade causa. O riso seria a resposta da percepção de que algo humano não está se comportando da forma esperada, pois a comicidade é propriamente humana e não existe fora da humanidade18. O filósofo também compreende o riso como um gesto social de ordem prática, inibidor de atitudes que causam rigidez do corpo, do espírito ou do caráter. Bergson (2007) analisa a comicidade em três categorias: ações, situações e linguagem, mas, para o autor, todas as três derivam dos mesmos procedimentos: rigidez, mecanicidade, ou distração social (BERGSON, 2007, p.82). Esses procedimentos evocariam o que não é humano, a falta de “elasticidade”, nas ações e/ou palavras, ou a falta de sociabilidade. Desta forma, qualquer rigidez de compreensão seria algo risível, da mesma forma que a distração em relação ao que deveria ser observado. Assim, até mesmo a distração da sociedade em perceber suas próprias mazelas pode se tornar cômica.
Bergson (2007) também nos dá a seguinte definição de ironia que contribui com as já elencadas até aqui:
A mais geral dessas oposições seria talvez entre a real e a ideal, entre o que é e o que deveria ser. Aqui também a transposição poderá ser feita nas
18 Cf. Bergson (2007, p.1-6), a comicidade é definida através de três atributos: que é própria dos seres
duas direções inversas. Pode-se enunciar o que deveria ser, fingindo acreditar que isso é precisamente o que é: nisso consiste a ironia. Pode-se, ao contrário, descrever minuciosamente e meticulosamente o que é, fingindo acreditar que assim as coisas deveriam ser: desse modo procede frequentemente o humour. O humour, assim definido, é o inverso da ironia. Ambos são formas da sátira, mas a ironia é de natureza oratória, enquanto o
humour tem algo mais científico. (BERGSON, 2007, p.95, grifos do autor). Desse modo, ressalta-se na ironia a capacidade de evocar algo mais “nobre”, de moral mais elevada ou mais próximo da idealização para com isso criticar o modo como as coisas são. Essa propriedade, que para Bergson (2007) torna a ironia de natureza oratória, consiste na capacidade de quem narra em apontar para algo superior à realidade. Nisso, podemos pensar que a ironia no texto graciliânico, por evocar dois sentidos distintos e mantê-los em suspensão: apela para a capacidade do leitor em enxergar uma crítica (pela evocação de algo superior) ou para a visualização de uma nação utópica, onde apesar dos pesares, no final tudo dá certo. Nesse sentido, a crítica incidiria também na distração da sociedade em perceber grandiosa a história de nossa pequena República.
Com isso, pensando no efeito cômico da ironia e dos comentários do narrador em “Pequena história da República”, poderíamos pensar que a comicidade se daria em apresentar a distração da sociedade brasileira em relação à sua própria história ou a rigidez de compreensão de como se configurou a passagem do Império à República. O efeito de riso, através da ironia, no relato de Graciliano Ramos serviria para desconstruir a compreensão até então produzida.
Em junho de 1889 o visconde de Ouro Preto expôs um programa liberal com que tencionava reprimir o movimento.
- É o começo da República, declarou um deputado.
- É a inutilização da República, respondeu o presidente do conselho. Engano. Ela veio cinco meses depois, mas o povo recebeu-a friamente. Foi o que disse Aristides Lobo. (RAMOS, 2010, p.147-148) A sentença final estabelece o tom irônico tipicamente característico da ironia humoresque e instrumental e pode provocar o riso do leitor, por perceber certa desconstrução da visão ufanista de que a República foi formada em atendimento às necessidades da sociedade brasileira, quando, de fato, foi um golpe praticado por uma minoria19. Além disso, evidencia também o quanto há de construção no discurso historiográfico da época e na