Passemos, agora, a considerar as características linguísticas gerais do texto: o léxico, a sintaxe e a estilística, tomando o cuidado de o fazermos com vistas à melhor compreensão do processo literário, ou seja, das possibilidades de leitura e interpretação de um texto de Literatura.
Pensando no léxico utilizado em “Pequena história da República” temos de concordar com o já apontado por Lins (1976) e já mencionado neste trabalho:
[...] Tais expressões ressaltam um aspecto importante, mais de uma vez referido neste breve estudo: a perícia com que a matéria verbal, em Graciliano Ramos, serve aos fins propostos. O objetivo de apresentar, da República, um quadro realista e, se necessário, ridículo, exigiria também uma linguagem no mesmo tempo enérgica e incisiva, uma linguagem
eficiente, bem longe dos clichês aplicáveis às “Histórias” convencionais.
(LINS, 1976, p.185, grifo do autor).
Esse distanciamento em relação às “Histórias convencionais” se dá em uma linguagem próxima do linguajar coloquial: Câmara e Senado andam em “turras” com o Marechal; os
dezoito do Forte são “doidos”; os jagunços de Canudos são “a pior canalha da roça” e os proprietários de terra após a abolição da escravatura ficaram “murchos, bambos”.
O léxico em “Pequena história da República” serve ao objetivo de desconstruir a linguagem cientificista historiográfica e, desse modo, retirar do relato a suspeita de documento científico. Como o próprio Lins (1976) comenta, em trecho anterior ao citado acima, a História sem documentos idôneos não possui valor científico. Do mesmo modo, sem o vocabulário adequado a esse gênero textual, distancia-se da historiografia e perde o valor documental.
O vocabulário também serve ao propósito de desmistificar aquilo que é narrado, desconstruindo a visão tradicional da formação republicana no Brasil. Ao apresentar as personagens históricas por meio de um léxico coloquial, o narrador do texto as coloca no mesmo nível do cidadão comum e as destitui de qualquer grandeza ou aparente superioridade.
Com isso, nos é apresentada uma história composta por “criaturas vulgares”, que são mencionadas no relato por conta das ações que realizaram e da participação que tiveram na construção de nossa “Pequena República”, sem, no entanto, cobri-las de uma “áurea” especial ou de colocá-las acima das demais pessoas. Afirma-se antes de tudo, através do vocabulário utilizado, que as personagens históricas são homens e mulheres comuns, nem melhores nem piores do que os demais cidadãos.
Contribuindo para essa leitura, percebemos que a sintaxe também opera para a desconstrução da visão laudatória da formação da República no Brasil. Predomina a utilização no texto da sintaxe mais simples e coloquial: sujeito – verbo – objeto. Vejamos o excerto abaixo, do bloco intitulado “Wenceslau Brás”, como exemplo:
De 1914 a 1918 tivemos complicações, resultantes da situação interna e também da guerra européia, que durou tanto como o governo de Wenceslau Brás.
Até 1917 fomos neutros, mas por fim nos decidimos a entrar no conflito. Entramos sem espalhafato.
Os alemães torpedearam cinco navios mercantes brasileiros – e fomos arrastados à luta. Mandamos para a Europa uma esquadra, pequena, e alguns médicos. O Presidente, em proclamação, recomendou parcimônia ao povo, conselho absolutamente desnecessário.
Entregamos aos nossos aliados vários navios aqui detidos. Foi o diabo. Feita a paz, dificilmente esse material voltou, bastante avariado. (RAMOS, 2010, p.176-177).
Conforme se pode observar, excetuando-se as duas primeiras sentenças, que apresentam inversão sintática de alguns termos, as outras sentenças mantém predominantemente a ordem direta do Português brasileiro com o sujeito sendo seguido pelo verbo e o complemento verbal. Essa ordem mais comum contribui para a percepção da “vulgarização” de eventos e personagens que são postas no mesmo nível dos demais cidadãos.
A sintaxe também contribui para a compreensão de que “Pequena história da República” não se pretende laudatória e se mantém afastada do jargão historiográfico. As sentenças curtas e diretas, que predominam no texto, trazem a ideia de objetividade e clareza, focalizando nos acontecimentos mais importantes, mesmo com as interferências do narrador.
É perceptível, ainda, que a organização sintática do texto preza pelo enxugamento, a dispensa de alguns conectores e de relações de subordinação entre orações, levando à formação de algumas sentenças que parecem telegrafadas. Essa escrita “telegráfica”, pouco conectada, termina por dá a impressão geral de fragmentação no texto, como se as ideias, assim como as sentenças, não possuíssem relação de proximidade umas com as outras.
Essa sensação de fragmentação, no contexto geral da obra, nos leva a perceber a República como também fracionada, fruto de ações que não possuem relação estreita entre si e, por isso, são postas em locais separados. Essa separação é iniciada na descrição das camadas sociais que se indispuseram com o Imperador (os antigos senhores de escravos, os antigos escravos, os padres e os militares) até os motivos que geraram a Revolução de 1930. A falta de unidade política no Brasil, assim como a falta de um projeto comum, é refletida na composição de sentenças que parecem não se articular, restando ao leitor compor o quebra- cabeças.
Com isso, podemos pensar que a escolha de uma sintaxe simples e com poucas relações de coordenação e/ou subordinação, demonstram uma das características de bases da nossa República, proclamada por um grupo pequeno e pouco articulado e mantida da mesma forma, sem um projeto político unificador, em um país de contrastes enormes entre estados e regiões.
Em relação aos recursos estilísticos visualizados em geral no texto, temos de destacar a utilização da ironia. Esse recurso é tão utilizado e explorado no texto, como também é tão complexo e multiforme, que precisaremos nos valer de diversos conceitos e autores para
abordamos da forma menos superficial possível. Da mesma forma, esse recurso parece-nos especialmente importante para compreensão do papel do narrador no relato e na interpretação dos fatos históricos, matéria que nos levará, na seção seguinte, a estabelecer relação entre sociedade e literatura através do texto. Por isso, destacaremos uma sessão especial para o estudo desse recurso e sua utilização em “Pequena história da República”.