2.1 Related work
2.1.1 Vulnerability measures and metrics
A negação do vivido apareceu como uma reação às formas de relações vivenciadas no passado:
Minha mãe nunca deixou brincar com coleguinha. Minha mãe achava que isso era errado, e filho tinha que ficar dentro de casa. Não podia sair para lugar nenhum. Então, assim, eu não crio meus filho dessa maneira que eu fui criada, porque eu acho assim, que os filho não... Eles são muito importante na vida da gente. Então, a gente não deve criar eles pra ser escravo da gente não, né? (Renata)
As reticências, hesitações, solicitações de confirmação (né?) e expressões como “eu
acho...” nas falas, revelam dúvidas, questionamentos e elaboração de idéias. O sujeito na AD
é caracterizado pela dispersão, constituindo uma polifonia. Os fenômenos citados deixam transparecer uma conversa interior com concordâncias, refutações, questionamentos, etc., que freqüentemente usam o entrevistador como tela, na qual são projetados interlocutores imaginários, de gerações passadas e atuais. Na fala acima, a mãe aponta o sentimento de ter sido “criada para ser escrava”, para trabalhar para os pais. Alega que, como os filhos são importantes em sua vida, eles não devem ser vistos como propriedade. Solicita confirmação dessa alegação, mostrando que a visão de sua mãe ainda tem valor, a ponto de fazê-la questionar a sua própria visão. Essa fala, aparentemente “individual”, atesta uma transformação em andamento na percepção social do conceito de criança. A história mostra (DONZELOT, 1980) que os filhos têm utilidade para os pais, seja na preservação do seu patrimônio, na preservação de seus poderes (casamentos com fins políticos), no trabalho para a sobrevivência ou para a acumulação de capital. Ainda hoje, em regiões rurais mais preservadas da invasão tecnológica e do aculturamento, persiste a valorização da prole numerosa, sobretudo masculina, para o cultivo da terra e para a pecuária. A representação da criança como “utilitário” tem gradativamente mudado, sendo sinais disso a diminuição do
trabalho infantil e a valorização do brincar. A criança, na visão dessa mãe, deve ser educada para ela mesma. Essa fala endossa uma visão atual de áreas da ciência que se dedicam à criança (pedagogia, psicologia, pediatria, direito, etc.) e de parte, já considerável, da sociedade leiga. Aquilo que confere importância à criança, na fala dessa mãe, não é sua utilidade, mas, aparentemente, o vínculo afetivo mais puro. De forma geral, poder-se-ia dizer que os crescimentos econômico, tecnológico e demográfico têm permitido formas de organização social que podem prescindir da criança como utilitário, mantendo-a somente simbolicamente como continuidade da existência.
A “libertação da criança” passa, assim, por questões econômicas e políticas mais amplas, como atesta, na atualidade, a necessidade de remuneração de famílias pelo Poder Público, para que ela liberta do trabalho (este, às vezes, realmente escravo), possa, ao menos, estudar. Essa medida política carreia, além do dinheiro, uma mensagem de que o lugar da criança na família é outro e que ela tem um espaço por ela mesma.
Uma mãe pertencente ao corpus 2 refere-se, na fala seguinte, à forma agressiva com a qual foi educada. Inicia sua fala justificando que não sabe se a resposta está certa, pois, provavelmente, esteja apreendendo novas formas de educar que até então desconhecia por sua história de vida. Além disso, pode se ler na expressão “oh, eu não sei se a resposta é certa” uma preocupação com o julgamento do interlocutor, dando pistas sobre a representação do mesmo no seu imaginário: alguém socialmente investido de poder e direito de julgamento de suas concepções e comportamentos. Esta preocupação, estar “certo ou errado” poderia não aparecer e não ser enunciada em outra situação, com outro interlocutor.
Oh, eu não sei se a resposta é certa, mas é... Eu não quero mais fazer com o Chiquinho o que fizeram comigo, porque eu apanhei muito. Apanhei da minha mãe, apanhei dos meus irmãos. Os meus irmãos que é a família que me criou. Hoje, eu acho que educar uma criança é conversar... Eu acho que se tem, assim, que pegar pra bater. Eu acho que vale mais um castigo, porque a marca de uma varada, de um tapa, de uma correiada, uma chinelada... dói muito. Porque agora eu vejo o tanto que ele sofria, e foi aonde que eu falei: ‘Eu não quero que ele passe o que eu passei’, porque machuca muito. (Samira)
A entrevistada refuta a forma violenta como foi educada, estabelecendo uma relação entre o que pensa agora e o que vivenciou no passado. Vê-se, porém, que em seu encaminhamento ao PFA há relatos de espancamentos de seu filho de 2 anos de idade que o levaram a ser atendido em um pronto-socorro. Note-se que essa entrevista se realizou em uma
instituição pública, com uma mãe que se encontra sob tutela, participando de um programa que visa, dentre outros aspectos, ao bem-estar familiar. A repetição de comportamentos apreendidos e vivenciados coexiste com um novo discurso, em elaboração, mostrando que o discurso se tece polifonicamente, num jogo de várias vozes cruzadas, complementares, concorrentes, contraditórias (BRANDÃO, 2004). Essa mãe vive, no momento, uma dissociação entre aquilo que está mais explícito na fala e aquilo que faz, pois a violência contra o filho é recente. A expressão se tem, assim, que pegar pra bater, revela um outro lado do seu discurso: dito de forma abstrata, como uma máxima, mostra uma representação da relação pais (ou cuidadores) e filhos. Enquanto o eu acho que sugere uma dúvida, a expressão citada sugere uma certeza antiga que conflita com os novos valores apresentados. O reconhecimento da dor do filho pode ter sido possibilitado pelo reconhecimento de sua própria dor.