Considerei que a pesquisa é um processo de co-construção do conhecimento produzido na relação entre a pesquisadora, os sujeitos participantes da pesquisa e o contexto social, que dá sentido à realidade do fenômeno em observação que emerge aos observantes. Desse modo, considero como contexto empírico no qual atuei os diferentes momentos do processo da pesquisa de campo, compreendidos no espaço que recorto – a universidade – ocupado pelas pessoas envolvidas na dinâmica dessa interação, na pesquisa (Minayo et al., 2000/1994). Portanto, desde a entrada no trabalho de campo até a análise, interpretação e organização dos resultados.
Alguns encontros conversacionais, diálogos, aconteceram entre a pesquisadora e alguns elementos considerados importantes no processo de sensibilização das instituições para aceitação da realização da pesquisa no local. Eles fizeram parte da entrada no campo da pesquisa, na busca de aproximação do universo a ser pesquisado e na apresentação da proposta de estudo aos envolvidos.
Contei com a colaboração de quatro monitoras, na instituição particular, e com duas, na instituição pública, no processo de sensibilização dos participantes para a pesquisa e no momento da coleta de dados para registro e observação das dinâmicas dos grupos.
Na universidade particular, inicialmente entrei em contato com a pró-reitora acadêmica para apresentar o projeto da pesquisa e obter o consentimento institucional para
sua realização. O projeto foi aceito e o acesso aos professores e estudantes foi mediado pela coordenadora do curso de Pedagogia.
Na universidade pública, foi feito contato com a diretora da faculdade, que também facilitou o acesso aos professores e estudantes do curso de Pedagogia.
A - Escolha dos sujeitos
Os sujeitos-participantes da pesquisa foram estudantes, professores e coordenadores do curso de Pedagogia de duas instituições universitárias, uma particular e outra pública.
Na universidade particular, foram convidados pessoalmente todos os professores do curso de Pedagogia, em reunião de professores e coordenadora de curso; e todos os alunos presentes em sala de aula das turmas do curso, que funciona em período noturno.
Na universidade pública, os professores foram convidados por e-mail e alguns pessoalmente, contemplando todos os professores do curso de Pedagogia; e todos os alunos presentes em sala de aula dos períodos do curso de Pedagogia do turno da manhã.
Nesses encontros, foi feito o convite para participação na pesquisa, apresentando o problema e o método e um formulário a ser preenchido com dados pessoais e de averiguação da disponibilidade de horário dos participantes. Em ambas as universidades também foram colocados cartazes reforçando os convites.
Em cada instituição foi formado um grupo com as pessoas que aceitaram participar. As que compareceram aos encontros conversacionais de grupo constituíram os grupos de reflexão, assim formados:
- na universidade particular, um grupo com 12 participantes: cinco professores e sete estudantes. Todos do sexo feminino. Por acaso, as professoras faziam parte de um projeto institucional de formação ética.
- na universidade pública, um grupo formado por 17 participantes: dois professores e 15 estudantes. Dos professores, um era do sexo feminino e um do sexo masculino. Dos estudantes, dois eram do sexo masculino e 13 do sexo feminino, sendo que um deles participava de movimento estudantil e um de “ações afirmativas”, na universidade. De um modo geral, os estudantes eram jovens. E os professores, em torno de 50 anos.
A escolha de estudantes e professores reunidos em uma unidade grupal se fundamenta na idéia de que o grupo é um espaço de veiculação de crenças e valores, portanto de produção de representações sociais. Por ser o foco da pesquisa na produção de idéias do grupo como uma unidade interacional, não tive a preocupação de caracterizar os sujeitos.
Assim, os grupos desta pesquisa foram constituídos voluntariamente por estudantes e professores, a partir da demanda de um problema definido – o problema da pesquisa – e dos critérios de aceitação para fazer parte do grupo: ser estudante ou professor do curso de Pedagogia de duas universidades, sendo uma pública e outra privada. O que uniu esses elementos em um grupo foi o interesse pelo tema e pela pesquisa. O grupo constituiu a condição de produção do material discursivo para análise e interpretação dos dados, não se restringindo ao discurso dos indivíduos isolados. A unidade de análise da pesquisa é o grupo em interação.
B - Instrumentos de coleta de dados
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi o grupo de reflexão, realizado por meio de três encontros conversacionais em cada universidade, os quais constituíram os momentos de apreensão da produção discursiva dos participantes sobre direitos humanos, formação ética e práticas educativas. O grupo de reflexão é uma modalidade de dinâmica de grupo originada do grupo operativo, em que articulei os passos do processo grupal dos encontros conversacionais como referências para a condução e o desenvolvimento das reflexões e ações do grupo, tendo como objeto a construção de significados sobre o fenômeno dos direitos humanos e das práticas educativas na universidade. Os encontros conversacionais são uma forma de exploração mútua do problema, através de diálogos (Anderson; Goolishian, 1993), que vem sendo desenvolvida por um grupo de especialistas, no qual me incluo, como parte da metodologia de atendimento sistêmico de famílias e redes sociais (Aun; Esteves de Vasconcellos; Coelho, 2007).
Tendo em mente o problema a ser pesquisado, realizei um grupo piloto com três monitoras, para testar a forma de discussão do problema a partir de algumas questões geradoras de reflexão e poder modificá-las, se necessário. Considerei que as questões estavam adequadas para atender à abordagem do problema e aos objetivos da pesquisa.
Assim, para cada encontro conversacional foi feito uma planejamento das atividades e da forma de coordenação. Em cada um, foram apresentadas as questões relativas ao problema da pesquisa para serem objeto da conversação de cada grupo, semelhantes à colocação da tarefa externa, no grupo operativo - uma tarefa a ser realizada pelo grupo. As seguintes questões foram colocadas aos participantes:
1- O que pensam sobre direitos humanos? O que são direitos humanos?
2- O que pensam sobre práticas educativas na escola universitária? O que são práticas educativas?
3- O que pensam sobre a formação ética na universidade?
4- Qual a relação entre a formação ética e a consciência dos direitos humanos?
5- Qual a relação que vêem entre direitos humanos e práticas educativas na universidade?
As conversações foram livres, sendo mantidas em torno do problema, de modo que os participantes fossem colocando suas idéias, fazendo conexões, formando suas concepções, coletivamente. Assim, os significados dados às questões foram sendo construídos através de consensos e contradições de idéias, que se ampliaram a cada encontro, pelas experiências, opiniões, histórias pessoais.
Os encontros conversacionais foram coordenados por mim e consistiram em ir definindo a forma de organização do grupo para a realização da tarefa, em fazer perguntas conversacionais, dialógicas, que possibilitassem a compreensão mútua do que estava sendo objeto de reflexão, a fim de permitir a exposição de idéias, atitudes, valores, motivações e comportamentos de todos os membros do grupo. A conversação em grupo permitiu-me observar o processo grupal, as dinâmicas e mudanças de opiniões, a forma do grupo lidar com as diferenças de pontos de vista.
Cada encontro conversacional se estruturou em três momentos, levando em consideração o processo de envolvimento do grupo na tarefa: aquecimento, discussão, conclusão. O produto da conversação de cada encontro era analisado nos intervalos dos grupos de reflexão e apresentado pela coordenadora no encontro seguinte, como uma forma de ligação para dar continuidade à reflexão, de modo que os participantes pudessem ir acompanhando o processo de construção das idéias, retificando-as e/ou produzindo novas idéias, no processo dos três encontros.
Em resumo, diante de uma demanda externa, no caso a proposição do problema da pesquisa, realizaram-se três encontros conversacionais de grupo de reflexão em cada
universidade para discussão do tema (problema), com a minha presença como moderadora do grupo e a de monitoras que co-coordenaram, observaram, registraram suas observações. Foram apresentadas as mesmas questões prévias em todos os três encontros conversacionais, acrescidas do resumo das idéias criadas em cada encontro.
Para Doise (2002), a teoria das representações sociais permite integrar a forma de conhecer do indivíduo (sistema cognitivo individual) com o conhecimento presente no metassistema de relações simbólicas que caracterizam uma sociedade, ou seja, no sistema de crenças, estilos de vida específicos dos grupos sociais e que afetam o indivíduo. Desse modo, os significados são produzidos na interação social, implicando uma interação lingüística de ações, práticas e significados em um processo dinâmico de relações mútuas. O grupo, como instrumento de pesquisa, é um espaço para que essas relações aconteçam.
Como coordenadora do grupo, considero que faço parte da construção da realidade emergente, uma vez que, como participante em uma posição colaborativa, minhas atuações e a comunicação com e no grupo influem nas conversações, constituindo o contexto de produção desses significados. Essa concepção corresponde a uma visão construtivista que considera que o mundo (a realidade) não existe independentemente do observador: “o mundo se torna um mundo de sistemas observantes (Foester, 1994/1981) no qual (...) o modo de observação modifica o observado” (Goolishian e Winderman, 1989/1988, 20).
Assim, procurei adotar uma posição colaborativa (Aun, 1996; 2007), colocando- me em posição de “não saber”, em um metaponto de vista, para possibilitar a criação de um contexto de autonomia no grupo, em que todos tivessem oportunidade de participar: “A posição do ‘não saber’ implica uma postura e atitude por parte do terapeuta (observador- coordenador), na qual suas ações comunicam uma grande e genuína curiosidade” (Anderson e Goolishian, 1993/s/d, 12). Com essa postura, foi possível assegurar a coesão do grupo, convidando todos os elementos para uma participação colaborativa, usando intervenções que levaram à reflexão, não fazendo pressão para a participação, garantindo o direito de voz a todos. O processo de construção dos significados e ações emergente no grupo é, então, percebido como uma co-construção, que supõe a participação conjunta de todos os envolvidos no problema (Aun, 1996). As idéias, opiniões, sentimentos que emergem dessa relação constituem os conteúdos das conversações, e as formas de interação constituem as condições de produção do discurso, nas quais a minha atuação está incluída. No dizer de Aun (1996; 2007), os sujeitos da pesquisa são experts em conteúdo e a coordenadora é expert em contexto, em processo relacional.
Apresentarei, no final desta seção, alguns aspectos teóricos sobre grupo, que poderão esclarecer seu uso como instrumento de coleta de dados. Continuo apresentando outros elementos do método.
C - Registro dos dados
Todos os encontros conversacionais dos grupos de reflexão foram gravados em fita cassete, filmados e transcritas as gravações. Foi usado também registro escrito de observações feitas pelas monitoras dos grupos de reflexão e de diário de campo. A esse registro foram acrescentados comentários e observações sobre os encontros conversacionais dos grupos, produzidos em encontros conversacionais com as monitoras, realizados após cada grupo de reflexão. Essas conversações permitiram avaliar a forma de coordenação e de condução do grupo, bem como planejar o grupo seguinte. Todos os feed-backs foram considerados como parte do processo de construção da pesquisa, na análise do processo grupal.