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A VSLUTTENDE DRØFTING AV KAPITTEL FIRE

In document ”Se, jeg klarer!” (sider 65-70)

4. ANALYSE AV FUNN KNYTTET TIL PEDAGOGENS ROLLE I SAMSPILL MED EVEN

4.3 A VSLUTTENDE DRØFTING AV KAPITTEL FIRE

helena Brandão

Resumo: Em 2005, Miguel Gonçalves Mendes recebe o desafio de realizar um filme

sobre a terra onde cresceu — Olhão. Daí resultam duas obras: Floripes ou a Morte de um

Mito, apresentada em 2005 na iniciativa Faro Capital nacional da Cultura, e Floripes,

uma versão mais longa que só estreará comercialmente em 2007. o realizador inspirou‑ ‑se numa lenda de influência árabe sobre uma moura encantada para fazer um trabalho híbrido entre a ficção e o documentário. Neste ensaio procura ‑se, através de uma análise comparativa dos dois filmes, descodificar as diferenças que os separam mas também as cumplicidades que os aproximam.

Palavras ‑chave: ficção; documentário; identidade; crítica; filmologia.

“se é verdade ou mentira, não sei. Mas era mais bonito que fosse verdade.”1

era uma vez uma moura encantada chamada Floripes. Por ocasião da reconquista cristã dos territórios do sul do país aos mouros, o seu pai teve de fugir tão apressadamente que não a conseguiu levar consigo, encantando ‑a e deixando ‑a para trás. reza a lenda que, desde então, Floripes deambula pelas ruas de olhão na esperança de seduzir um homem corajoso e bom, capaz de lhe quebrar o encanto. Para isso, ele teria de a abraçar junto ao rio e fazer ‑lhe um corte no braço, do lado do coração — o que não seria, convenhamos, um feito particularmente heroico. no entanto, depois, teria também de atravessar o mar com uma vela acesa: se a vela se mantivesse ateada e ele não fosse engolido

pelas águas, teria como prémio o casamento com Floripes e a herança de todos os tesouros de seu pai. se, por outro lado, falhasse, Floripes, por castigo, teria de lhe comer o coração.

em 2005, ano em que Faro foi a Capital nacional da Cultura2, é atribuído

a Miguel Gonçalves Mendes um financiamento de 30 mil euros (Almeida, 27.02.07) para realizar uma curta ‑metragem documental (rodrigues, 11.08.06 e Pires, 02.05.07) sobre a terra onde cresceu (apesar de ter nascido na Covilhã, o realizador passou a maior parte da sua infância em olhão). o autor opta, então, por recuperar esta lenda e, utilizando ‑a como pretexto, trabalhar sobre a sua terra, sobre outros mitos, medos e realidades que a passagem do tempo ameaça com o esquecimento. o objetivo de partida era tão simples quanto ambicioso: criar uma obra com um conteúdo universal mas através de um modo de produção absolutamente local3. Assim, atores, estagiários, a banda sonora e até a banda

desenhada do genérico inicial envolveram habitantes e criadores da região. Devido ao prazo imposto pela promotora do evento para a entrega do filme (cerca de três meses), Miguel gonçalves Mendes apresentou inicialmente, a 28 de dezembro de 2005, a versão possível (com sessenta e sete minutos), mais próxima do documentário, Floripes ou a Morte de um Mito. Mas não era esse o filme que tinha escrito e filmado: nove meses de montagem depois (Sousa Dias e Cipriano, 2013), termina então Floripes (simplesmente) — um objeto artístico híbrido que, ao longo de duas horas, procura intencionalmente (con)fundir os géneros ficcional e documental4, e que só viria a estrear a 20 de dezembro de

2007.

2) A iniciativa encomendou quatro filmes, a outros tantos realizadores, subordinados ao tema Sul/ Algarve, dando assim origem às curtas ‑metragens A Conquista de Faro, de rita Azevedo gomes;

Elogio ao ½, de Pedro sena nunes; Claro Azul Ausente, de Marina estela graça; e Floripes ou a Morte de um Mito, de Miguel gonçalves Mendes. (“A Conquista de Faro conclui rodagem”,

disponível em: http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=619846 [consultado a 23 de abril de 2013]).

3) “o tema é transversal ao Algarve e ao país e, por isso, a tentativa de focalizar esta questão somente em olhão é errada”, comenta Miguel gonçalves Mendes em entrevista a Antunes, n. (03.05.07).

4) “gosto de passar pelos géneros e isso para mim é que é a real aprendizagem e o domínio da técnica” (exerto de entrevista de Miguel gonçalves Mendes, em sousa dias e Cipriano, ibidem).

Mais do que um director’s cut, o que temos pela frente são duas obras distintas, ainda que tenham por base as mesmíssimas imagens captadas ao longo de setenta horas de rodagem (Avó, 07.01.2006), todas elas filmadas em 2005. As variações na montagem sugerem que as duas vertentes — documental e ficcional — poderiam perfeitamente existir de forma autónoma: Miguel Gonçalves Mendes teria conseguido contar a história de Floripes através dos registos das personagens do documentário, ou tê ‑la apenas ficcionado depois de ter ouvido essas pessoas, sem que elas tivessem necessariamente uma presença efetiva na imagem. em qualquer dos casos, o espectador poderia ler, em cada uma, a mesma narrativa e o mesmo estilo do autor. Mas, em vez disso, o realizador propõe ao seu público uma espécie de jogo, uma vez que ficção e documentário são tratados nos dois filmes de formas notoriamente diferentes: no caso das entrevistas, predominam os planos diurnos e luminosos, fixos, maioritariamente grandes planos, tão grandes que são permitidas às personagens breves saídas de campo, quando se movem, porque a câmara está fixa; por seu lado, a ficção foi filmada “como se fosse um documentário”, com câmara à mão5, quase sempre

à noite e respeitando as tradicionais escalas de planos, campos e contracampos, nomeadamente nos diálogos (no documentário, o contracampo seria a câmara ou, no limite, todo e qualquer espectador). no entanto, isso acontece de forma subtil e natural, sem que tal jogo implique uma abordagem paternalista ou redutora em relação ao público, do tipo: “estás a ver, tu que não percebes nada disto, esta parte aqui é ficção, e a seguir é documentário.” Ou seja, seria perfeitamente “espectável” que uma moura encantada escolhesse a noite para deambular por olhão, ao som das doze badaladas, como também não causa espanto que as entrevistas e depoimentos sejam registados maioritariamente durante o dia.

Assim, se tivéssemos de resumir a caracterização destas obras, seria incontornável que começássemos pela multiplicidade de texturas e, paralelamente, pela variedade dos registos: além da questão da ficção e do documentário, o autor funde imagens de arquivo com fotografias (na primeira versão), banda desenhada ou vestígios de animação (no genérico inicial da segunda versão),

5) “(…) No caso das entrevistas a imagem é sempre hiper ‑cuidada, com plano fixo, e a ficção filmámo ‑la como se fosse documentário, com câmara à mão” (idem, ibidem).

planos de corte que funcionam como imagens ‑foto (e não cartões ‑postais — afinal, segundo Miguel Gonçalves Mendes, “Olhão é a Amadora do Algarve, feia todos os dias” — ibidem); na mistura sonora sobrepõem ‑se camadas ora de som direto, ora dobrado6, complementadas por uma banda sonora composta

especialmente para o filme, mas que inclui também os sinos da igreja, tambores e cantos tradicionais e religiosos. Paralelamente, ao longo das entrevistas e a pretexto da história de Floripes, multiplicam ‑se outras lendas que ficamos a conhecer pela voz dos anciãos da terra, como a do “Menino dos olhos grandes” (que o autor também inclui na ficção), lobisomens, lavadeiras ‑fantasma, caveiras que apareciam nas redes dos pescadores ou o homem com a alcunha de “os sete cabelinhos”, que morreu com uma mão marcada na careca7.

A própria descrição de Floripes é polifónica: uns dizem que ela era loura, outros morena; uns fazem descrições muito detalhadas8, outros quase sussurram

entre dentes que se tratava de uma prostituta, de uma história que se contava para que as pessoas não saíssem à rua de noite por causa do contrabando, ou ainda de um conto infantil para intimidar os mais novos quando não comiam a sopa toda. Miguel gonçalves Mendes não julga nem escolhe uma versão unívoca e definitiva, dando ‑nos acesso a todas essas versões que, no seu conjunto, como se de um puzzle se tratasse, compõem um imaginário coletivo, oral e muito antigo. Floripes é tudo isso! Mesmo que a ficção se aproxime mais de um ou de

6) “todas as cenas na ilha foram dobradas porque como tínhamos o gerador era uma barulheira bruta, portanto há muitas cenas à noite que foram dobradas; depois há aqueles pseudo ‑efeitos especiais como o som dela a arrancar o coração (um coração de porco com sumo de groselha) e na altura achava ‑se que o filme pode ter uma grande dimensão sonora, pode ser importante. Fizemos a montagem sonora na Tóbis e aquilo custou quase 15 mil euros, só o som do filme, porque se pagou duas ou três semanas de montagem de som, mais duas semanas de misturas e foi caríssimo, sobretudo para um filme que não tinha orçamento. Mas tínhamos previsto que algumas coisas podiam correr mal e fizemos logo as dobragens em espaços fechados para que alguns atores não tivessem que vir a lisboa” (ibidem).

7) os dois últimos exemplos só surgem na versão de 2007.

8) Descrição feita por uma das personagens do filme: “Ela era loura, com os cabelos compridos, era uma figura esbelta, com os olhos azuis e os cabelos loiros todos dourados, que mal se via, mas que por baixo dos panos que tinha de cetim, via ‑se. eram arrendados e o vestido também era arrendado, vestido cremezinho, não era branco, completamente branco, era tudo assim, creme, muito transparente até. Ela tinha, diz que tinha uma figura esbelta, bonita, toda airosa.”

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