Roma caracterizava-se pela grande diversidade humana e cultural, sendo greca-etrusca pela cultura e latina pelas suas
instituições. Com todas essas particularidades, o mundo romano transformou-se no primeiro espaço de integração racial (melting pot) da História, principalmente durante o período imperial. Foram mais de oito séculos de História, o que já nos diz de sua enorme importância e alcance.
Do ponto vista político e social, a influência do Direito latino num primeiro momento muito beneficiou os velhos. Porém, esse lugar oferecido aos velhos está distante de ser vantajoso, ou sinônimo de enaltecimento: significa, sobretudo a sua “presença” e, com ela, os problemas que a acompanham, sejam eles demográficos, culturais, sociais, etc.
Os latinos em Roma, ao contrário de outros povos, tiveram uma visão coerente das coisas e da contagem das idades. No campo do Direito, temos a criação da “Tábua de Ulpiano”, na qual existiam estimativas empíricas de uma idéia aproximada da esperança de vida dos romanos por faixa etária. A partir dela, puderam concluir que havia poucos romanos que ultrapassavam os 60 anos.
No Direito romano se dava aos velhos o poder na figura do
pater famílias, aspecto fundamental da sociedade romana. Em
Minois (1987), pode-se verificar o grande poder dos velhos na dinâmica instalada por esse conceito:
(...) ora estes poderes alargados ao chefe de família sob a República explicam o papel essencial dos velhos na sociedade. À medida que avançam na idade, vêem a
família e os bens aumentarem e ao mesmo tempo crescer o seu poder. Como o conservam até a morte, entende-se muito bem a crescente impaciência dos filhos, que assim se vêem obrigados a submeter-se ao velho pai até uma idade relativamente avançada. Os conflitos de gerações, que existem em todas as sociedades, aparecem aqui exacerbados pela posição como menores que os filhos mantêm até a morte do pai. Por isso, é evidente que esta situação provocava verdadeiros ódios em relação aos velhos que nunca mais morriam, e a própria comédia romana fará eco desses conflitos. (p. 108)
A profunda raiva com relação aos velhos se explicaria pelo fato de homens já adultos (20, 30, 40 e 50 anos) serem obrigados a prestar obediência incondicional ao pai. Diante da lei, o pai envelhecido é exaltado com poder e força, mas diante da família se vê desprezado e odiado. Essas forças (poder e desprezo) se relacionam de modo diretamente proporcional. Já a mater familias tem uma sorte mais obscura, tem certa autoridade sobre os filhos, mas possui os mesmos direitos desses, porém, isso só ocorre se ela está devidamente casada. A mulher velha que vive sozinha é igualmente detestada e desprezada.
Em meados do século IV, a crescente desagregação da gens originou o termo familiae independentes, pelo qual os membros da família uniam-se por um laço apenas jurídico, não mais por critério natural. Ou seja, eram colocados agora sob o mesmo patria
potestas, seja por nascimento do mesmo pai, pelo casamento ou até
por adoção.
No Império, o termo patria potestas declina, a partir de queixas de abuso de poder, chegando até a emancipação dos filhos, os quais começam a reivindicar seus direitos de várias maneiras. E, finalmente, no baixo Império o termo declina ainda mais, perdendo o caráter público e tornando-se apenas familiar. E de forma crescente, os direitos foram sendo readquiridos, com o passar dos anos, e o poder do velho foi, então, diminuído. Embora sua autoridade moral permaneça, o seu lado decadente fica em evidência, caracterizando-se um período de gozo da independência por parte dos filhos e afastamento da figura do velho.
Com relação ao papel político da velhice, como é usual, existiam duas vertentes: uma de valorização dos velhos e a outra de desvalorização. No Senado, por exemplo, a velhice era enaltecida, pois um cargo de senador era a culminação de uma série de experiências, enfim, denotava certa maturidade para o cargo. Por isso, o Senado era composto, em sua grande maioria, de velhos. Um dos exemplos do período republicano foi Catão, o Velho, que faleceu em 149, com 85 anos, e manteve-se ativo até o final de seus dias. As guerras civis também tinham ambiciosos velhos durante os combates.
Por outro lado, ainda no Império, a velhice foi de certa forma desvalorizada a partir de Augusto, que teve um acentuado declínio físico e mental em sua velhice, o que gerou uma diminuição do
poder dos velhos no Senado, que já não dirigem mais a política vigente. Institucionalmente, não foram os velhos que governaram Roma, mas havia destaques individuais, de pessoas brilhantes, que se destacaram no governo. Em razão desse fato, a confiança nos velhos continuava a ter certo lugar de destaque com referência à experiência e sabedoria. Por isso, muitos dos grandes cargos ainda eram entregues aos mais velhos, apesar de seu declínio político, social e familiar.
A partir da sátira de Juvenal, pode-se notar a visão pessimista sobre a velhice que já vigia na época:
(...) a velhice é em primeiro lugar esse rosto deformado, odiento, desprezível; em vez da pele, uma feia couraça, faces pendentes, rugas semelhantes àquelas que a mãe- macaca esfrega em redor de sua boca... Os velhos são todos parecidos: a voz treme como as suas pernas; não há cabelos sobre o crânio polido; o seu nariz pinga como de uma criança. Para mastigar o pão, o pobre velho apenas dispõe das gengivas desdentadas. (apud Minois, 1987, p. 116)
Essa visão negativa não era uma realidade apenas literária, mas, sim, o cotidiano dos velhos romanos, que com freqüência se sentiam extremamente solitários. Diversos relatos indicam também um aumento dos suicídios de idosos na época.
Depois de Juvenal, que satirizava as fraquezas dos velhos, estes ficaram esquecidos pela literatura, por conta dessa negação
do velho. As únicas obras que nos lembram um pouco dos velhos são as Punicas, de Sílio, ou as Elegias, de Maximiniano. Logo, o tema da velhice parece entrar em esquecimento entre a população.
Uma obra latina que se tornou um marco na visão sobre o velho, no final do Império Romano, foi De Senectute, de Cícero. Foi a única que apresentou uma argumentação consistente e fazia claramente uma apologia da velhice. A obra estruturava-se por meio de diálogos entre personagens históricos: Catão, o Velho, com 84 anos e sempre jovial, e mais dois jovens, Cipião e seu amigo Lélio.
Os mais novos admiravam e respeitavam a figura de Catão, independentemente de sua idade mais avançada. Na história, Catão sempre argumenta favoravelmente à velhice. Cícero apresenta duas questões culturais cristalizadas: 1) a velhice nos incapacitando de nos ocuparmos de negócios; 2) A velhice como redutora da nossa juventude.
Como diz Minois, na civilização romana,
Estas visões contrastantes provam, acima de tudo, que esse mundo romano teve consciência da ambigüidade fundamental da velhice, sempre nobremente trágica e ridiculamente cômica, mesquinha nos seus defeitos e sublime nas suas qualidades. (1987, p. 140)