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IT Some thoughts on future research

Aos 57 anos, Rachel era uma mulher bonita, empresária, representante de um importante negócio multinacional. Relatava estar vivendo um momento de muita dor e tristeza e, apesar de elegante, chegava com os olhos inchados de tanto chorar e com a postura encurvada.

Estava entrando na menopausa e contava as dificuldades nas relações sexuais. Cada vez mais raras, as relações sexuais e o desejo que há muito deixara de sentir por seu marido a incomodava. Referia-se a ele como alguém extremamente arrogante e doente, “parece que não sabe fazer o bem”.

Sempre temeu seus gritos nas constantes brigas conjugais. “Mas este medo eu não quis que as minhas filhas herdassem de mim. Eu trabalhei muito para que elas se desenvolvessem e pudessem ser melhores do que eu fui, e não terem medo deste pai, tão rígido e destruidor. Ele sempre é o médico. Ele sempre é o

senhor feudal do engenho, sempre pronto para açoitar com seu chicote os escravos na senzala”. Soluçante, ela dizia não mais agüentar tamanha humilhação. “Talvez devesse ser mais conformada e satisfeita com minha vida e aceitar que já não sou mais uma mocinha...”

Passou então a discutir se teria coragem para dizer não, para transgredir algumas regras e se permitir mudanças. Ainda que seus pais e marido a colocassem no lugar de menina frágil, ela lutava para se desprender desse lugar, pois reconhecia que já não era a menina indefesa, pelo contrário, era profissionalmente muito bem- sucedida.

O relato de episódios de sua juventude eram todos marcados por uma luta na tentativa de crescimento. Ela se dizia ser, desde pequena, uma grande lutadora, acreditava que deveria se desenvolver e se esforçar muito. A vontade de desafios a levou à música; paixão que permeou toda sua história. Seus pais incentivaram-na muito ao estudo musical. Tal manifestação de apoio, entretanto, velava sempre uma grande cobrança e Rachel sentia a obrigação em ser a melhor.

“Ser a melhor”, frase que ecoa em sua cabeça e é muitas vezes repetida nas sessões, quando questiona a analista se está sendo uma boa paciente, “se está fazendo a lição de casa”. A mulher de negócios com alto teor de responsabilidades, exercendo o controle sobre todos e tudo a sua volta, estava “presa” à sua estrutura familiar. Muito ligada (apesar da total e óbvia

independência) aos seus pais, a grande e forte mulher se via diminuída nesse “ninho”.

O casamento difícil e, ao mesmo tempo, preso a uma série de convenções estava começando a ceder; o lugar de guardiã dos pais e provedora não só de condições de vida, mas também do status, estavam sendo questionados, “será que eu tenho que pagar infinitamente por não ter tido o primeiro prêmio no concurso?”. Tal questionamento começava a ser também um marco que decidiria a verdade sobre a personalidade de Rachel, de sua história, suas decisões. Estava aprisionada em um papel que não lhe cabia mais. Agora quem sabe poderia recomeçar algo novo.

Subitamente conhece um homem pelo qual se apaixona e é correspondida. Ainda poder amar é maravilhoso e ameaçador. Em paralelo, uma culpabilidade que sempre fizera parte de sua história, agora aflorava com uma maior intensidade. Naturalmente um impasse se instala: o novo amor cobrava um lugar para poder existir e que não queria ficar na clandestinidade, e a continuação de um casamento que há muito havia deixado de funcionar.

Foi muito difícil para ela entender que existiam relações diferentes entre homem e mulher e poderia haver trocas entre eles, e não apenas alguém que domina e outro que é dominado. O trabalho analítico possibilitou a Rachel olhar para sua trajetória de vida e sair do lugar de vítima e boazinha para entender que esses lugares haviam também lhe proporcionado ganhos secundários.

Contrastando com a angústia desse impasse havia uma disposição para o trabalho, que lhe dava cada vez mais a certeza de que os seus esforços e talento especial lhe asseguravam um lugar de respeito e de muito crescimento. Da mesma forma o vínculo com as filhas era muito amoroso, e cheio de cumplicidade e ternura. Elas, constantemente, diziam que o importante era que Rachel seguisse a sua vida e pudesse ser feliz.

Ela dizia poder prescindir de toda uma excelente estrutura econômica, assim como vínculos sociais que há muito haviam se esgotado, pois tinha medo de estar perdendo um tempo muito precioso de sua vida.

Aprenderia, então, pela primeira vez na vida a esperar e compreenderia que a espera pode também ser uma atitude e ser tão ou mais intensa do que o agir. A não movimentação permite que se vislumbre o que muitas vezes recalcado não pode emergir. Sintomaticamente, em paralelo ao novo amor, ela retoma seu gosto pela música.

4.5.1 Comentários

A paciente demonstra como alguém que está na fase produtiva do envelhecimento freqüentemente tem a necessidade de rever as defesas que estão entrando em colapso por não mais servirem às solicitações da economia psíquica dessa fase. Assim, o exaustivo modelo de ser a “primeira” e a tendência a manter

elevados desempenhos, a custa de relegar a fruição da vida a um segundo plano (música, amores, sexo, etc.) não mais lhe servem.

Também a posição dissonante entre ser adulta e profissional de sucesso e a esposa e filha submissa e assustada começa a ficar mais clara. Portanto, em certo sentido, é somente a entrada nesse

ciclo de envelhecimento que permite a determinados pacientes entrar em contato mais profundo com as suas defesas mais arcaicas e rever sua vida. A saída dessa paciente implicava desacelerar,

entrar em contato com o aqui e agora, diminuir a dependência das

opiniões moralistas e superegóicas das figuras parentais e desprender-se das inibições libidinais, para poder vivenciar uma

vida amorosa e sexual mais genuína.