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4.2 Methodology - Classical EMD

4.2.2 Voltage measurement L12

A bula Unam Sanctam foi assinada em 18 de novembro de 1302, pelo papa Bonifácio VIII, por ocasião de um conflito com Felipe IV, rei da França80. Ela é um dos principais documentos em favor não somente da unidade da Igreja, mas do poder papal e da salvação exclusiva de quem obedece a esse poder, afirmando que toda a realeza viria apenas do poder eclesiástico, uma vez que fora dele o pecado gerava morte81. Segundo algumas interpretações desta bula, o mundo governado pelo poder espiritual, uma vez que este conseguisse vencer os conflitos com o poder temporal, seria uma prévia do “milênio” citado no Apocalipse, onde haveria plena paz com a prisão de Satanás, e um paraíso reinaria sobre a terra.82

79 LOGAN, F. Donald, A history of the church in the Middle Ages, p. 193

80 SOUZA, José Antônio de C. R. & BARBOSA, João Morais, O reino de Deus e o reino dos homens: as

relac̜ões entre os poderes espiritual e temporal na Baixa Idade Média, p.178

81 DENZINGER, Heinrich & HUNERMANN, Peter, Kompendium der Glaubensbekenntnisse und kirchlichen Lehrentscheidungen, p.305

Este poder secular, centralizado da igreja, hierárquico e tendo o pontífice como seu “único piloto” seria, em essência, a oposição dos ensinamentos de Wycliffe, ou, sob outro prisma, exatamente o que ele considerava como a igreja dos papistas:

Segue o texto da bula Unam sanctam:

Forçados pela fé nós somos obrigados a acreditar e sustentar a ideia de que a Igreja é apenas uma, Sagrada, Católica e também apostólica. Nós acreditamos nela firmemente e confessamos com simplicidade que fora dela não há nem salvação e nem remissão dos pecados, assim como a esposa nos cânticos proclama: mas uma é a minha pomba, a minha imaculada, a mais querida de quem a deu a luz. E isso representa um só corpo místico de quem Cristo é a cabeça, e a cabeça de Cristo é Deus. Nela está esse único Senhor, única fé, único batismo. Assim como foi na época de Noé uma única arca, prefigurando uma única igreja, como a arca, tendo sido feita em um único côvado, tendo um único piloto e guia. E nós podemos ler isso em Noé, que tudo o que estava fora da arca, na terra, deixou se existir e foi destruído.83

Ora, essa pequena passagem, introdução à bula papal, é riquíssima no que se trata de compreender o poder papal durante a Idade Média e, portanto, compreender as críticas feitas por Wycliffe e suas justificativas contra o poder papal. Dividindo este pequeno excerto em partes temos:

“Assim como a esposa nos cânticos proclama: mas uma é a minha pomba, a minha imaculada, a mais querida de quem a deu a luz.”

Trata-se de uma citação, incompleta, do versículo 9 do 6º capítulo dos Cânticos dos Cânticos:

Sessenta são as rainhas e oitenta as concubinas, e as virgens sem número. Mas uma é a minha pomba, a minha imaculada, a única de sua mãe, e a mais querida de aquela que a deu à luz, vendo-a as

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filha lhe chamam bem aventurada, as rainhas e as concubinas a louvarão. (grifo nosso)

Primeiramente notamos que o papa Bonifácio VIII omitiu a parte “a única de sua mãe”, talvez justamente por estar utilizando a passagem para colocar a noiva como igreja a se casar com Jesus. Se a mulher citada nos cânticos era a única de sua mãe, então quem poderia ser essa mãe da igreja? Justamente para não suscitar questionamentos como esse a bula omite tal parte da passagem.

Obviamente também é omitida a parte inicial, sessenta são as rainhas e oitenta as concubinas. Como poderia caber a essa comparação, já que estão falando da Igreja enquanto noiva de Cristo, concubinas e rainhas? Quais seriam as concubinas e rainhas múltiplas de Jesus? Aqui, igualmente o melhor seria simplesmente ignorar essa parte. Justamente por isso ignorar a última parte também, uma vez que se não pode citar as rainhas e concubinas não se poderá falar que estas a louvarão.

Quanto à citação de Noé, Temos duas colocações diferentes, primeiramente que a arca tinha sido terminada com apenas uma janela e posteriormente que ela teria um único piloto.

Faze para ti uma arca da madeira de Gofer, farás compartimentos na arca e a betumarás por dentro e por fora com betume. E desta maneira farás, de trezentos côvados o comprimento da arca e de cinquenta côvados a sua largura e de trinca côvados a sua altura. Farás na arca uma janela e de um côvado a acabarás em cima, e a porta da arca porás ao seu lado, far-lhe-ás andares baixos, segundos e terceiros84.

No texto bíblico temos a confirmação de que havia uma única janela, mas aparentemente o fato de haver uma única janela de medida de um côvado, não precisa, necessariamente, indicar um único piloto. Na verdade a própria compartimentação da arca poderia indicar divisões e não unidades, apesar de ser uma única arca, ou ainda poderia haver a ideia de que esse um

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piloto fosse Jesus, e apesar dos diversos andares e compartimento da arca todos andavam juntos. Mas obviamente a justificativa eficaz somente poderia ser a ligação entre o papa e esse único piloto, onde a igreja seria essa única arca.

Na verdade a história em si não chega nem mesmo a falar em piloto ou nem mesmo em deslocamento que fosse da arca, nem em lemes ou qualquer elemento que pudesse permitir que ela fosse pilotada. A janela de um côvado aparece apenas nas seguintes passagens:

E aconteceu que, ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito. E soltou um corvo que saiu indo e voltando, até que as águas secaram de sobre a terra. Depois soltou uma pomba, a ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra.

A pomba, porém, não achou repouso para a planta de seu pé e voltou a ele para a arca, porque as águas estavam sobre a face de toda a terra e ele estendeu a sua mão e tomou-a e meteu-a consigo na arca. E esperou ainda outros sete dias e tornou a enviar a pomba fora da arca. E a pomba voltou a ele sobre a tarde; e eis arrancada, uma folha de oliveira no seu bico, e conheceu Noé que as águas tinham minguado sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou fora a pomba, mas não tornou mais a ele. E aconteceu que no ano seiscentos e um, no mês primeiro, no primeiro dia do mês, as águas se secaram de sobre a terra, Então Noé tirou a cobertura da arca, e olhou, e eis que a face da terra estava enxuta. 85

Desta forma, aparentemente a janela serviria para se enviar as aves para saber se a terra estava seca ou não. Se Noé precisou enviar o corvo e depois a pomba para saber se havia terra seca, provavelmente é porque ele não era capaz de olhar por essa janela e enxergar o horizonte, senão ele mesmo, com seus próprios olhos, poderia saber se há terra seca ou não. Desta forma não se pode manter a justificativa de que a arca de Noé tinha um único piloto que não fosse o próprio Deus.

Interessantemente a comparação de uma única igreja enquanto uma única arca, e esta arca ter de possuir um único piloto que seria o papa, é

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semelhante às ideias utilizadas posteriormente por filósofos absolutistas para justificar o poder real, como no caso, por exemplo, de O Leviatã, de Thomas Hobbes, onde o Estado é comparado a um grande corpo formado por todos os moradores do reino, mas que teria uma única cabeça para comandar todo o corpo, que seria o rei. Reforçando a ideia apresentada pelos autores citados acima que fazem uma relação entre a Igreja e os estados modernos, como se a Igreja tivesse sido o primeiro poder centralizador, ainda na Idade Média.

A Bula Unam sanctam, continua demonstrando como esse poder desta única Igreja deveria ser exercido: “De acordo com a ordem do

universo, todas as coisas não são mudadas de sua ordem igualmente e imediatamente, mas as menores são postas sob as intermediárias, e as inferiores sob as superiores. Assim nós devemos reconhecer claramente que o poder espiritual é maior em dignidade e em nobreza do que qualquer poder temporal, assim o poder espiritual é supremo ao temporal. (...) Pertence ao poder espiritual estabelecer o poder terrestre e julgar se ele não for bom.86

Estabelecendo essa ordem divina a única Igreja, que está sob comando de um único navegador, o papa, é suprema a todos os reinos e impérios. Sendo assim o papa tem o poder supremo sobre qualquer rei ou imperador. Mais do que isso, ele teria o poder de estabelecer o poder na terra e o julgar, podendo, portanto, condená-lo.

Essa capacidade de definir regras, definir os governantes e julgá-los, e todos esses poderes sob uma única pessoa, é muito semelhante ao poder dos reis absolutistas do século XVI, que podiam criar leis, decretos, julgar e condenar ao seu bel prazer.

Assim o poder terrestre será julgado pelo poder espiritual, um pequeno poder espiritual será julgado por um poder espiritual superior, mas o maior dos poderes espirituais somente poderá ser julgado por Deus, e nunca por homem nenhum, de acordo com o testemunho do apóstolo: O homem espiritual julga bem todas as coisas, mas ele não é julgado por ninguém. Essa autoridade, entretanto, não é humana, mas é

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divina, garantida a Pedro pela palavra divina e reafirmada, a ele e a seus sucessores, pelo próprio Jesus, a quem Pedro confessou, o próprio senhor disse a Pedro: O que quer que você ligar na terra será ligado também nos céus. Portanto qualquer um que resistir a essa poder ordenado por Deus, resistirá à própria ordem de Deus, a não ser que ele invente, como os maniqueístas, dois princípios , o que é falso e julgado como herético (...). Além disso declaramos e proclamamos, definimos que é absolutamente necessário para a salvação que cada ser humano seja totalmente sujeito ao Pontífice Romano.87

Ora, o maior dos poderes espirituais que somente poderá ser julgado por Deus é o próprio Papa. Sendo assim ele tem o poder de julgar qualquer rei, qualquer imperador, de fazer com que estes cumpram suas ordens e vontades. Tem o poder de julgar qualquer líder espiritual menor, como um bispo ou cardeal ou padre, mas não poderá jamais ser julgado por ninguém. Somente o próprio Deus poderia julgar o papa, assim sendo, nenhum outro ser humano poderia julgá-lo ou a nenhuma de suas ações, apenas obedecê-lo.

Também é feita a ligação de que qualquer um que desobedeça, ou mesmo julgue ao papa, terá desobedecido ao próprio Deus e suas ordens. As citações utilizadas para justificar esse poder foram retiradas de diversas passagens do novo testamento: O que quer que você ligar na terra será ligado também nos céus.

O contexto de tal citação seria:

E chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipo, interrogou aos seus discípulos dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns João Batista, e outros Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhe ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro respondendo disse: Tu és o Cristo, filho do Deus vivo.

E Jesus respondendo disse-lhe: Bem aventurado és tu, Simão filho de Jonas porque não foi a carne e o sangue que lhe revelou isso, mas meu Pai que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus

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e tudo que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.88

Embora não fique claro se o poder dado a Pedro poderia ser passado a outras pessoas ou se essa igreja que estava sendo criada tinha apenas um único líder, que seria o papa, o poder de ligar e desligar as coisas terrenas do céu parece bem claro, de onde esta é a principal citação a ser utilizada pela Igreja Católica nos séculos posteriores, e mesmo na época da reforma, para justificar seu poder. Obviamente a passagem não possui uma justificativa teológica tão elaborada quanto a Unam sanctam, mas neste ponto não lhe parece ser contraditória.

A continuação da citação feita é retirada da epístola de Paulo aos Romanos: Portanto qualquer um que resistir a esse poder ordenado por Deus, resistirá à própria ordem de Deus. A citação completa seria:

Toda alma está sujeita aos poderes superiores, porque não há poder que não venha de Deus, e os poderes que existem foram ordenados por Deus. Por isso quem resiste ao poder resiste à ordenação de Deus e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer o poder, faze o bem e terás o seu louvor. 89

Apesar da citação servir de embasamento para a bula, o seu contexto parece muito mais ligado à questão dos magistrados, dos juízes, do que do poder religioso instituído, o qual na verdade perseguia os primeiros cristãos, seja na sua vertente judaica, ou seja na figura dos romanos. Seja como for, a questão ainda se finaliza com “faze o bem e terá o seu louvor” a definição deste bem, entretanto, não está presente aqui nem na Epístola aos Romanos, podendo ser utilizada como simples obediência ao papa. Ainda que outras cartas de Paulo pudessem dar a entender o contrário, como a dirigida aos Gálatas:

88 Mt 16, 13-20 89

“Mas o fruto do Espírito é o amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé mansidão e temperança. E contra essas coisas não há leis.”90

A finalização da Bula Unam sanctam resume basicamente tudo o que já havia sido dito até então: “Além disso declaramos e proclamamos, definimos que é absolutamente necessário para a salvação que cada ser humano seja totalmente sujeito ao Pontífice Romano.”

Apesar da eminência do poder papal, muitos autores chegam a defender que o grande poder seria o papado em si e não a própria pessoa do papa. Uma vez que a hierarquização da Igreja já estava tão estabelecida, ainda que o papa nada fizesse, o papado, enquanto cúpula da igreja influenciando uma pessoa na figura de papa, poderia continuar tomando todas as decisões e mantendo o poder da Igreja em si. 91 Ou seja, o que seria forte em si seria não somente o papa, mas a cúpula eclesiástica, ou a escola dos cardeais, podendo estar estar ou não submissa a um sumo pontífice.

Seriam três as principais formas pelas quais a Igreja exerceria o seu poder92. Primeiramente através das indulgências, dadas largamente como moeda clerical, alegrando ao povo, garantindo a sua presença nos lugares e cumprindo as tarefas que lhe fossem pedidas, desde uma guerra como as cruzadas, a uma pereginação a Roma, à presença regular nas igrejas. Além disso, pelo poder da excomunhão, ou seja, o poder dado ao papa, segundo vimos, pela Bula Unam sanctam, de desligar qualquer pessoa do céu. Usando a metáfora da arca de Noé, a capacidade do papa de expulsar qualquer pessoa da arca, deixando que esta morresse afogada fora da Igreja, a única fonte de salvação. E como terceiro ponto a eucaristia, na qual ocorreria a transubstanciação do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo, dando à Igreja Católica o monopólio do produto mais importante de toda a Idade Média. Este

90 Gl 6, 22-23

91 SOUTHERN, R, W, Western Society and the church in the middle ages, p.135-137 92 Idem, p.137

último foi mais trabalhado em um capítulo anterior. Então aqui o foco estará sobre a excomunhão e sobre as indulgências.

Egídio Romano93, aluno de S. Tomás de Aquino e um dos importantes pensadores que auxiliam na estruturação do poder clerical defende: Esta é pois a ordem das coisas: O poder do Sumo Pontífice domina as almas, as almas devem de direito dominar os corpos, (....) já as coisas temporais sujeitam-se aos corpos (...) Assim entendemos que o poder do Sumo Pontífice não pode ser reduzido, não pode ser diminuído, mas existe universalmente sobre tudo e sobre todos.”94

Ou seja, o poder do papa era tão natural, como, por exemplo, na atualidade, consideraríamos natural a lei da gravidade. Ele ocorreria independente da vontade das pessoas, independente das contestações, independente do conhecimento das pessoas. Além de natural, tal poder seria eterno, nada nem ninguém poderia escapar desse poder em si.

93 Egídio Romano é um dos maiores comentadores de Aristóteles na Universidade de Paris na segunda metade do século XIII, Egídio, apesar de seguir um aristotelismo medieval, não é simplesmente um perpetuador das ideias de São Tomás de Aquino, pelo contrário, ele chega a contradizer alguns de seus argumentos propondo análises diferenciadas de algumas interpretações aristotélicas, como por exemplo a separação da ideia de essência e existência. Versado em filosofia natural e em teologia, Egídio Romano enverada pelo lado das argumentações políticas acerca do poder papal, em especial no que diz respeito à separação de poder temporal e poder religioso tendo por base a separação de corpo e alma, e a submissão do poder temporal ao religioso assim como o corpo é submetido à alma.

III.4.B. Definir o foco de Acusação de Wycliffe (Um ou mais papas