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4.3 Methodology - Online EMD

4.4.4 Voltage measurement L12 - Online EMD

O papa agora é o mesmo e o sumo pontífice é o mesmo que existiu no tempo de Pedro, assim como o povo romano de agora é o mesmo que existe já há mais de mil anos, e também o Tibre é o mesmo rio que existiu desde o princípio. Os homens sim são diferentes, porque os que constituem o povo romano passam e tornam a passar, mas o povo romano continua o mesmo. Assim também a água flui e reflui, contudo o rio romano é sempre o mesmo, porque formalmente é sempre o mesmo, embora não o seja materialmente, porque a água, que é a matéria deste rio, está sempre fluindo e refluindo, e é ora uma, ora outra. (...) Assim também o sumo pontífice é sempre o mesmo, embora nem sempre seja o mesmo homem que constitui esse ofício.95

O termo “Igreja Católica” praticamente não aparece na obra de Wycliffe. Normalmente ele utiliza o termo papista96 para definir os seguidores do papa, e

o termo verdadeiros cristãos para definir aqueles que são cristãos e não seguem ao papa97. Então há aqui uma dúvida inicial. Acaso Wycliffe estava fazendo acusações específicas ao papa vigente em sua época, ou a toda a instituição da Igreja Católica?

Em 1380, ano provável de publicação do The Wicket, o papa era Urbano VI, tendo assumido o papado dois anos antes em 1378. Tendo em vista que o conclave que elegera Urbano VI foi um dos mais complicados da história, e também um dos mais curtos98, poderíamos entender que Wycliffe via a questão dos “papistas” versus “cristãos” como algo específico deste papa. No mesmo ano da eleição de Urbano VI, cardeais franceses se negam a aceitar a eleição do papa e elegem um novo papa, Clemente VII. Desta forma ocorre o chamado

95 ROMANO, Egídio, Poder Eclesiástico, Livro 2, Capítulo IV 96

Embora também haja referências como seguidores do anticristo, prelados do anticristo, etc.

97 Ou, ao menos, mesmo que não se oponham oficialmente ao papa e não se declarem abertamente contra a idéia de segui-lo agem conforme os ensinamentos de Cristo deixando as ordens do papa como

secundárias. E em caso de conflito entre uma ordem do papa e o exemplo de Cristo não se deixam levar por esse questionamento pois já sabem de antemão a necessidade de seguir o exemplo de Cristo acima de qualquer poder hierárquico.

98Ele foi eleito em 8 de abril de 1378, apressadamente pelos cardeais reunidos em Roma, que visavam eleger um papa antes que os cardeais que estivessem em Avignon pudessem fazê-lo.

Cisma do Ocidente99, onde a Igreja Católica fica dividida entre dois papas. Enquanto Escócia, França, Aragão, Navarra, Castela e Portugal seguem a Clemente VII, Flandres, as cidades italianas e a maior parte do Sacro Império Romano Germânico, seguem Urbano VI.

Uma época controversa, de dois papas, parece ideal para que haja críticas audazes dos seguidores de um papa em relação ao seu opositor100. Desta forma as críticas de Wycliffe ao papado poderiam estar inspiradas por esses acontecimentos e se referir, portanto, a uma situação específica e não ao papado e institucionalização da Igreja Católica em si. Essa tese poderia ser reforçada pelo De Officio Pastolali, onde Wycliffe faz uma crítica específica à divisão da igreja decorrente do papado de Avignon101. Contudo, tal afirmação seria insustentável devido a uma série de fatores. Primeiramente em nenhuma das obras estudadas de Wycliffe ele faz menção específica a nenhum papa102, e ele já havia criado o termo papista antes103 da publicação do The Wicket. Sendo assim o papado de Avignon era apenas uma manifestação da não santidade do papado em si, seja ele romano ou francês, e não o fator gerador dos pensamentos de Wycliffe. Igualmente, já na época de Gregório XI, predecessor de Urbano VI, Wycliffe já havia se posicionado várias vezes contra

99 Alguns auores, como Carter Lindberg, em The European Reformations, define o Cisma do Ocidente como sendo um dos processos de reforma da Igreja, e não somente uma das causas de uma reforma que só viria no século XVI.

100 Diversos autores defendem a teoria de que na época do cisma o mais provável era acreditar que esse cisma se encerraria com a morte de um dos papas, levando assim a um concílio unificador. Não parecia ser possível crer que esse cisma criaria décadas de papado dividido e duas linhagens papais distintas. Temos, por exemplo, Philip H. Stump em The reforms of the Council of Constance, 1414-1418, a defesa da ideia de que o Concílio de Constança, que põe fim à essa divisão da Igreja, poderia e deveria ter ocorrido anos antes, caso houvesse a ideia de que a cisão fosse mais permanente, quando enfim, após o Concílio de Pisa, descobriram que “o monstro do Cisma não iria morrer de causas naturais” (p. XII) Já Patrick Granfield, em The Papacy in transition, define que o ano de 1378, assim como o Concílio de Constança em 1414 definiu não só o futuro da Igreja Católica, mas especialmente marcou quais seriam os reais poderes e funções de um papa, uma vez que o colegiado de cardais, no Concílio de Constança, acaba assumindo o poder acima dos 3 vigentes de sua época.

101

Capítulo 32

102 Obviamente essa afirmação deve ser comprendida dentro da ideia de que, ao falar sobre os papistas e sobre a ligação da Igreja Católica com o anticristo, Wycliffe não faz menção específica a nenhum papa, não havendo uma relação clara entre essa acusação e um dos dois papas do cisma. Obviamente em situações específicas Wycliffe faz menções, tanto a papas mais antigos, como Silvestre, como inclusive a papas contemporâneos a esse, entretanto neste último caso essas menções se referem a respostas

específicas de acusações que Wycliffe sofreu, e não enquanto a associação da figura destes com as suas teorias a respeito do poder papal.

103 Devido a ampla perseguição sofrida pelos seguidores de Wycliffe, tanto no final do século XIV como no início do século XV é difícil definir com precisão as datas de publicação de cada uma de suas obras, enquanto algumas possuem datas muito claras, como The Wicket outras, como os comentários ao testamento de São Fracisco, não possuem datação precisa. Sendo assim não é possível determinar qual a obra mais antiga de Wycliffe a se utilizar do termo papista.

decisões papais. Sendo que a primeira destas vezes teria ocorrido em 1366, ainda no pontificado de Urbano V, por motivos relacionados a impostos, tendo este auxiliado o parlamento inglês na defesa do não pagamento à Igreja.

Desta forma podemos concluir que a crítica de Wycliffe é referente ao papado em si e não a papas específicos de sua época. Isso deve ser ainda reforçado pelo fato de, mesmo papas considerados oficialmente santos pela Igreja Católica, são criticados por Wycliffe, como é o caso de Silvestre, que, segundo ele, teria sido um dos principais marcos da deterioração das ideias de Jesus dentro da Igreja. Sendo assim podemos definir que a questão não é nem somente a decadência de um papado que estaria ocorrendo nas últimas décadas, mas a própria ideia do papado em si era pejorativa para Wycliffe.