• No results found

6.3 Elevene

6.3.1 Elev A: ”Kåre”

De repente, no meio da tarefa, a mais terrível das dúvidas, a dúvida de si mesmo, se apodera do seu espírito. Uma interrogação, tenebrante como uma pua, insinua-lhe no cérebro: será acaso um verdadeiro escritor? Ou, quem sabe, não

passa dum grafômano vulgar? Angustiosa e deprimente, a dúvida acaba por lhe tirar completamente o ânimo. Julga-se então um impotente mental, incapaz de escrever qualquer cousa que mereça ler-se. Não, não escreverá. Para quê? Eduardo Frieiro. Inquietude, melancolia. 1930

Se a leitura foi um desejo concretizado desde muito cedo, a vontade de escrever chegou tarde e desconfiada.

[...] Até os trinta anos, eu só escrevia o meu nome no livro de ponto da Imprensa Oficial. Passavam-se anos sem que eu escrevesse uma carta ou um simples cartão

escreve ele ao acadêmico Augusto de Lima Júnior, em carta de 15 de setembro de 1941. A decisão tardia de escrever e a sua estréia nas letras, segundo história que se tornou conhecida na época, teria sido algo semelhante a uma descarga de tensão acumulada durante os longos anos de leitor omnívoro e de interlocução com outros intelectuais. Homem feito, era papo disputadíssimo nas rodas literárias da provinciana Belo Horizonte da década de vinte, com sede na Livraria Alves da Rua da Bahia, lembra Wilton Cardoso (1982, p.3). Aliás, não se pode falar dessa casa de livros sem recordar o dia que ficou marcado na história cultural da cidade, história fixada no papel por seu confrade Wilton Cardoso, no texto citado, e pelo psiquiatra José Nava (1960, p.109-26). Contam eles que os leitores contumazes da cidade, que não perdiam a abertura dos caixotes de livros chegados com as últimas novidades de Paris, se espantaram, certo dia, quando o recatado e discreto Frieiro saiu, de repente, saltitando por entre as prateleiras, brandindo um volume sagazmente descoberto: “É o Goncourt, minha, gente, é o Goncourt!” De fato, o autor de À la recherche du temps perdu, havia conquistado, pouco antes, o mais cobiçado prêmio literário da França. Desde então, Frieiro ganhou a fama de ser, em Minas, o primeiro leitor de Proust.

Mas, ler e escrever parecem ser faces de uma mesma moeda223, como ele revela à leitora Ruth

Nielsen, em carta de julho de 1964:

[...] Quem lê muito, acaba sentindo uma necessidade incoercível de escrever. Foi o que me aconteceu. Escrever é uma forma de comunicação, uma maneira de conversar com os prossíveis leitores.

Assim, o leitor inveterado acordou certa manhã com a idéia de fundar uma revista. Diferente daquelas até então conhecidas, pluriautorais, a revista imaginada por Frieiro teria um único

colaborador: ele próprio. Ou, explicando melhor, escreveria ele mesmo todos os artigos, multiplicados, contudo, na pena de vários heterônimos que se encarregariam de artigos para a seção de Política, Letras, Artes Plásticas, História além de outros assuntos voltados para o público intelectualizado das revistas de cultura. Segundo o Prof. Wilton Cardoso, que também contou essa história em artigo para o Suplemento Literário do Minas Gerais (1982, p.3), a seção que mais deveria desafiar o escritor polígrafo talvez fosse a referente às Letras ema vez que Frieiro intencionava desdobrar-se em ficcionista, teórico de idéias gerais e crítico. Para levar a cabo tal empresa e assegurar a dinâmica da revista, seria necessário que a mesma pessoa, Frieiro, por suposto, assumisse, sob heterônimos diferentes, idéias particulares e até contraditórias a respeito dos mesmos temas. Logo o escritor se dá conta do caráter algo fantasioso dessa aventura intelectual e passa a trabalhá-la como ficção, isto é, decide recriá-la no formato de romance. Desse modo empresta a diferentes personagens, reunidas na redação de uma revista fictícia, o posicionamento antes destinado aos seus heterônimos e pseudônimos. Reescreve, então, em forma de diálogo, os argumentos pensados para os diferentes artigos da revista inicialmente idealizada, provendo a história do enredo e do ritmo necessários.

Tal é a gênese de O clube dos Grafômanos, seu primeiro livro, sobre o qual ele escreve à amiga leitora do Rio de Janeiro:

[...] Publiquei meu primeiro livro em 1927 e eu já passava dos trinta anos. Antes dos trinta não me passava pela cabeça a idéia de escrever. Se me houvessem dito:“você ainda escreverá muitos livros”, eu sorriria incrédulo. Publiquei meu primeiro livro à minha custa, quase em segredo e com surpresa das pessoas que me conheciam, que ademais não suspeitavam em mim quaisquer veleidades literárias, embora me soubessem leitor infatigável e de boa formação letrada.224

Esse episódio é significativo na trajetória do escritor por marcar o momento em que seu espírito crítico, não cabendo mais no espaço de leitor contumaz e de redator de pequenos artigos opinativos, transborda para o lugar do scriptor e assume-se, plenamente, como sujeito da enunciação. A rigor, antes de O Clube dos Grafômanos, havia publicado alguns artigos assinados com pseudônimos em pequenos jornais de São Paulo (A Lanterna) e de Belo Horizonte (Avante!) A julgar pelo teor de ironia amarga que exala do Brotoeja Literária (Avante! 20 de agosto de 1925) 225, esses primeiro artigos representaram, sobretudo, um gesto

224 Carta Ruth Nielsen, datada de 06/02/1967.

225 Tais artigos, mencionados por Moacir Andrade (1999, p.18) não estão incluídos na bibliografia dos trabalhos

dramático de afirmação de um jovem solitário e ressentido, mas que já havia acumulado um extraordinário capital cultural bebido em Montaigne,Voltaire, La Rochefoucauld, Renan, Eça de Queiróz, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e todos os outros autores a quem ele credita sua formação intelectual. Aliviado com o primeiro jorro de amargura logo ele encontraria o seu lugar como escritor lúcido e de estilo apurado. É o que parece mostrar esse trecho:

[...] No jornal [Minas Gerais] eu trabalhava como revisor e tinha o dia livre. O serviço de revisão, penoso para outros, era para mim uma brincadeira. Levava livros, que eu lia nos intervalos do trabalho. E tinha o dia todo para ler. Foi então que eu senti comichões para escrever. Como toda a gente escrevia mal! Pensava eu comigo. Eu, decerto, escreveria melhor. Tentei-o, pela primeira vez, escrevendo quatro ou cinco artigos para a Imprensa e algumas picuinhas anônimas num jornaleco. 226

Mas, a esse respeito, o que me parece curioso é a coincidência da sua estréia como romancista ter ocorrido naquele momento de grande transição da literatura brasileira. Assim, mirando a iconoclastia dos novos poetas, saía a campo um escritor tão inédito quanto maduro, imbuído da vontade de defender o padrão de língua escrita e a tradição literária que aprendera a valorizar, pontos que o modernismo queria, justamente, questionar. Como ele assinala:

[...] de espanhóis li uma quantidade enorme de medievais, clássicos e modernos, especialmente os da famosa “geração de 98”. [...] E, é claro os hipano-americanos. Sem falar nos portugueses, com os quais apurei a língua, e nos brasileiros, preferidos sempre os de correto elóquio.227

Em carta de 23/03/1933 a Agostinho Campos, professor catedrático de Filologia Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, lamenta a influência do modernismo sobre a língua, o que chama de “abastardamento da linguagem escrita”:

[...] Neste momento recebo pelo correio os recortes de dois artigos seus – “Linguagem” e “Língua e Brasil”- que teve a bondade de me remeter. Agradeço mais uma vez, muitíssimo sensibilizado, as desvanecedoras referências feitas em meu obscuro nome. Concordo, em gênero e número com as restrições que faz ao artigo do nosso romancista Xavier Marques a propósito dos processos dissolventes que ameaçam a integridade da língua portuguesa no Brasil. Ao tempo de Machado

mesmo Frieiro os tinha arquivados. A Lanterna, jornal de linha anarquista publicado em São Paulo, circulou de1901 a 1904 e de 1909 a 1935. [Fonte: Arquivo Edgard Leuenroth, UNICAMP, disponível em <<http:// www.ifch.unicamp.br/ael>. Acesso em : 30/3/07]. O Avante!, semanário de quatro páginas de propriedade do Dr. Amadeu Teixeira, fazia oposição ao governo estadual Melo Viana, nos anos 1920. Três números desse pequeno jornal, inclusive o número do dia 20 de agosto de 1925, podem ser lidos no site da Coleção Linhares <http://linhares.eci.ufmg.br/.

226 Pequeno trecho manuscrito, inserido entre as cartas recebidas, no Acervo Eduardo Frieiro, AML. Acredito

que se trate de rascunho de alguma carta enviada.

de Assis, Rui Barbosa, Francisco de Castro, Bilac, Silva Ramos, e outros, operou-se nas letras brasileiras um movimento de salutares conseqüências contra o “instinto [de] transgressão das massas”, contra o abastardamento da linguagem escrita. Ajudaram muito no movimento escritores como José Feliciano de Castilho e Cândido de Figueiredo, que davam pela imprensa lições de boa elocução. Ficaram então em moda os “consultórios gramaticais”, as utilíssimas cátedras públicas que ensinavam o que se devia ou o que se não devia dizer. A boa moda passou. Veio a moda contrária. Agora, com o “modernismo” literário, turbulento e anárquico, com o mal compreendido nativismo da chamada “escola de brasilidade”, todos se abandonam à indisciplina e à relaxação verbais. Porém, como tudo vai e volta, é de esperar que não tarde a reacção disciplinadora. Porque a verdade é que os mais difíceis de contentar, os selectos, optam sempre pela disciplina.

Na avaliação do ex-dileto aluno Wilton Cardoso, (1983, p.3) “o escritor mineiro, que entendia a Literatura essencialmente como um fato de linguagem, não podia compactuar com a ‘escola da brasilidade’, tal como a via praticada, a saber, descrição de alguns aspectos de um país primitivo e ignorante numa língua ignorante e primitiva”. Para Frieiro, havia o Brasil branco, luso-americano, no qual se incluem muitos pretos e mulatos de mentalidade européia, a exemplo de Machado de Assis, Tobias Barreto, Ferreira de Araújo, entre outros. E havia o Brasil mulato, abrigando, por sua vez, muitos brancos que renegam suas raízes européias, peninsulares, lusitanas, tanto de tradição como de cultura, contaminados de mulatismo, querendo pensar e pensar preto (FRIEIRO, 1986, p.272). Menos que a cor da pele, pensava ele, o mulatismo é uma certa forma de espírito, certa atitude mental. E especificava, no mesmo texto: “O mulatismo é a filáucia, a petulância, a carência de compostura.” Discordava do pernóstico Mário de Andrade na proposta de reivindicar uma língua escrita brasileira como meio de expressar uma literatura nacional. Afirma Frieiro:“Tenho para mim que o movimento modernista de 1922 apressou a insurreição da mulataria dentro da nossa tradição literária européia (Frieiro, 1986, p.368). Aos ouvidos “puros” do escritor, europeu diaspórico, soavam bem as musas clássicas228 como ele parece deixar entredito em carta a Ruth Nielsen, de

7/4/1965:

[...] Fui leitor, na minha mocidade, dos escritores da celebrada “generación del 98”. Li muito Baroja e Azorín, êste principalmente, que eu admirava como maravilhoso estilista. [...] O que diz Azorín a respeito dos clássicos é certo pelo menos com referência ao leitor comum. Os clássicos, dizia João Ribeiro, são os grandes autores que ninguém lê. Para apreciá-los bem é preciso ter a preparação e o gôsto (um tanto anacrônico) do puro letrado, ou do professor de literatura [...].

Em outra carta, ao filólogo Rodrigues Lapa, datada de 10/3/1955, sua posição diante da

[...] Não me lembro de ter ouvido da bôca do povo os têrmos calhoada, pisorga, e leso. Conheço os dois últimos por via literária. Mas o meu depoimento nada vale no caso: Conheço mal o interior de Minas e é escasso o meu interesse pela fala popular. (Grifos do autor)

Não obstante, muito tempo decorrido dos ventos renovadores da Semana, sempre inclinado à autocrítica, ele confessa:

[...] Tenho os meus preconceitos sobre a arte de escrever, os quais me afastam de muito escritor excelente mas incorreto. Acho, porém, a compensação nos que escrevem bem segundo os meus padrões de gosto literário.229

De qualquer modo, uma opinião recorrente dos contemporâneos que acompanharam a sua trajetória é que o escritor, em Frieiro, já nasce maduro, consciente dos desafios e riscos230 que

envolvem a aventura da criação literária. Seu livro de 1932, A Ilusão Literária, atualmente na terceira edição, teve recepção excepcional como verdadeira cartilha de estética literária e continua sendo útil para todo aspirante às letras. Um parágrafo dessa obra mostra o seu modo de ver o nascimento de um escritor como um lento sazonar de certas potencialidades individuais, calcadas na experiência pessoal, muito distante, portanto, considerando o seu respeito pela tradição européia, da imitação pura e simples das nossas matrizes d´além mar:

A arte, está entendido, é filha do tempo e da experiência, é vida vivida e sofrida. Sem dúvida, aos que nasceram com uma grande riqueza de alma e possuem a centelha do espírito criador, é permitido desdenhar os longos aprendizados e confiar nas súbitas iluminações. Porém os que não estão nesse caso especialíssimo, devem capacitar-se, como Baudelaire, de que “a inspiração é a recompensa do exercício cotidiano”. Não há criação sem gestação. Mesmo as iluminações repentinas são os sinais manifestos dum longo trabalho inconsciente anterior. (FRIEIRO, 1983, p.16).

Desse modo, a atitude mental por ele denominada mulatismo nas letras reflete, na criação literária, a produção casual e apressada, decorrente da mistura de elementos estranhos entre si os quais não cumpriram ainda o tempo de maturação e decantação. À metáfora da devoração, ele apõe a idéia de gestação. Assim escreve ele na mesma obra, no capítulo intitulado A religião da obra bem acabada:

Todos os manuais de literatura aconselham a trabalhar o estilo, a retocar as frases, a corrigir o pensamento, até que pareça impossível fazer melhor. O

228 Em contraposição ao que R. W. Emerson (1803-1882), fundador dos princípios da literatura americana

escreve em “Apelo aos estudantes americanos”: Escutamos por tempo demais as musas polidas da Europa”. Apud Pascale Casanova, A República Mundial das Letras, p.27.

229 Carta a Valdemar Cavalcanti, datada de 6/3/1961.

escritor deve apurar a forma, aperfeiçoar a obra, com insistência, com tenacidade. O primeiro jacto, por mais viva e fecunda que seja a inspiração, deixa sempre que desejar. Os textos aparentemente mais frescos e espontâneos costumam ser o resultado de pacientes e sábias sobreposições (FRIEIRO, 1983, p.25).

A preocupação com a correção do estilo e a maturação do tema aparecem na carta que Frieiro escreve ao então Presidente da Academia Mineira de Letras, o escritor Mário Casasanta, em 16 de abril de 1946. Com o falecimento do romancista Avelino Fóscolo, autor de A capital231, abriu-se uma vaga na AML. Alguns acadêmicos, seus amigos e admiradores, sugeriram a sua candidatura, embora já contando com a recusa de Frieiro. Mário Casasanta, contudo, dizendo falar em nome da Academia, não desistiu até conseguir dele a assinatura do requerimento de inscrição, que lhe havia levado já pronto, datilografado. Conta Moacyr Andrade232 que Frieiro não pediu votos a nenhum acadêmico, como é de praxe, sendo, entretanto, eleito por unanimidade.

Mas volto à carta que motivou essa pequena história e que diz muito do modus operandi do escritor:

Prezado Dr. Mário:

Para o meu discurso na Academia, julgo indispensável conhecer o primeiro romance de Avelino Fóscolo, A Mulher, escrito em colaboração com Luís Cassiano, patrono da cadeira que ocupo. Arranja-me esse livro e marque a posse para daí a quinze dias. Não é a fobia pelos auditores o que me retém. É, sim, o tema do discurso. Preciso conhecê-lo, antes de o abordar. Sou um pouco, é certo, como aquele pintor intelectualizado de Anatole France que, maníaco da exatidão, para pintar um gato na taboleta do botequim Le Chat Maigre, consultou trezentas obras sobre o gato e seus costumes, e, afinal, apertado pelo dono do botequim a quem prometera a pintura, declarou-se ainda não habilitado a conhecer o gato; portanto, como poderia pintar o que não conhecia? E a verdade, no meu caso, é que não conheço bem o escritor Fóscolo. Preciso de ler ou quando muito de ver o tal romance. Sem ele, sinto-me inibido.

Sempre seu, Com afeto, E. F.

A resposta à carta de um autor estreante, do mesmo modo, reflete esse rigor para consigo mesmo no julgamento de suas obras. Isso o atormentou desde a sua estréia, senão antes. Confessa Frieiro que esse suplício continuou fomentando o seu conflito interior: fazer-se o

231 Primeiro texto a tomar a nova capital como cenário. 232 ANDRADE, M., 1999, p.21.

centro do processo da escrita, isto é, efetuar a escrita afetando-se a si próprio, para usar a expressão de Barthes233, ou negar o que denomina ilusão literária.

[...] Compreendo, meu caro, os seus escrúpulos e rigores para consigo próprio. A insatisfação, neste caso, é benéfica à criação. E, realmente, para que pressa de publicar, quando se escreve pelo prazer ou a necessidade de expressar no papel o que sentimos no interior? Eu comecei a escrever tarde, e mesmo assim nunca escrevi nada que verdadeiramente merecesse publicidade, fora do mero jornalismo literário, ocasional e efêmero. E já estou abandonando as minhas frioleiras escritas.234

Na realidade, ele somente abandonará o labor da escrita pelos efeitos irreversíveis da idade avançada. Embora tenha vivido a questionar a finalidade da atividade escritural, desconfiado das afirmações categóricas, o certo é que sua obra é um preito à “mais cara das nossas ilusões”. Para que escrever, então?, resta-lhe, sempre, a dúvida:

Para que? Para nada. Mas justamente esse nada – a ilusão literária – é tudo para uma certa raça de imaginativos. É dessa ilusão que se alimentam os indivíduos de curso lento, os introvertidos, os que aborrecem a vida frenética e cobiçosa dos indivíduos voltados para fora e só pedem que lhes seja permitido saborear devagarinho as doçuras e branduras das cousas inúteis. A esta raça livre e pródiga pertencem os que preferem a fantasia à realidade e acham que a vida vale a pena de ser ... escrita.” (FRIEIRO, 1983, p.9)

Se estava certo o Professor Wilton Cardoso, que o conheceu de perto, o ceticismo visceral de Frieiro, que ameaçava conduzi-lo à negatividade e à inação seria “menos produto da descrença do que da incapacidade de opção em face do variado mundo das idéias que o seduzia e deslumbrava.”(1982, p.3). Seja como for, a angústia da criação acompanhou nosso escritor até o fim. Encontrei-o, muitas vezes, ao longo da sua correspondência, a disfarçar o desejo de escrever, envolvendo-o com a capa do segredo e do esquecimento, como nos primeiros escritos anônimos, ou cobrindo-o com o véu do descaso pelo sucesso de público.

[...] Eu, pelo que me toca, escrevo por teimosia e porque nunca fiz muito caso do favor público. Considero-me e sempre me considerei um escritor amador que não pensa na glória nem na pecúnia.235

233 BARTHES, R. Escrever, verbo intransitivo? In: O rumor da língu. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 37. 234 Carta a L. Cavalcante, datada de 20/01/1951.

Pensar, enfim, que a liberdade de espírito, em nome da qual recusou trabalhos e cargos, ele a viveu como condenação, no sentido sartreano, deixando-lhe na alma, “um acre ressaibo de insatisfação e descontentamento” (FRIEIRO, 1983, p.58)

Escrever, sim! Por obrigação, não!

Começo esta parte, voltando à segunda metade de 1934, não completada ainda a primeira década de Frieiro como escritor publicado. Sua postura é reativa e cautelosa diante das possibilidades de visibilidade que a República das Letras lhe oferece! Uma troca de cartas com o Diretor de Publicidade das Edições Cultura Brasileira, de São Paulo permite observar sua reação diante das relações de força que envolvem o posicionamento de um escritor novo no universo literário. Ele demonstra ter, desde o início, uma visão crítica desse grande jogo que é o mundo da arte, presidido por estranhas leis das quais se esquiva enquanto escritor, embora, curiosamente, demonstre prazer em circular nesse mesmo universo como mediador, longe dos refletores da fama, isto é, como pesquisador, bibliógrafo, bibliotecário, professor de literatura, editor. (Mais adiante serão comentados esses papéis desempenhados por Frieiro no espaço cultural de Minas, durante o transcurso de sua vida profissional).

O caso que tomo como sintomático dos embates ligados ao seu posicionamento no universo das letras, no início de sua carreira de escritor, começa em 25 de agosto de 1934, quando o Diretor de Publicidade da Edições Cultura Brasileira, de São Paulo, Odilon Negrão, lhe envia uma carta acusando e agradecendo o recebimento de recortes do jornal Minas Gerais, no qual Frieiro havia publicado elogiosos comentários sobre os livros daquela editora.

Uma segunda carta assinada pelo mesmo Odilon Negrão, é enviada ao escritor um mês