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4.1 Kvalitativ utforskningsmetode

4.1.3 Om transkripsjonen

Inicio, pois, minha análise, com questão sempre debatida por Frieiro. Ele tenta, diante do interlocutor epistolográfico, menosprezar sua pulsão escritural. Para que escrever? Por que escrever? Em carta a Josué Montello, em 28 de julho de 1959, com os habituais jogos justificantes, assume a sua vocação literária.

[...] Embora eu não tome a literatura muito, muito ao sério, a começar naturalmente da minha, e ainda hoje, tenha o maior pudor de publicar, é certo que gosto de me ver impresso, sobretudo em livro. Para isso, escrevo. Os outros motivos vêm depois. [...]

Em outro momento, deixa entredito que haveria, na sua inclinação literária, um chamamento maior, não inteiramente realizado, à vocação de romancista. Respondendo à carta de Gualter Gontijo Maciel, em 14 de janeiro de 1960, comenta a seguinte passagem:

[...] Há tempos, um repórter literário do “Diário da Tarde” perguntou-me qual a minha vocação mais pronunciada – a de romancista ou a de crítico? Tive vontade de dizer: a de romancista, mas pensei melhor e respondi:- Nem uma nem outra coisa. Eis o que sou, ou suponho ser: um moralista, antes de nada. Um moralista que abandonou há muito a ética religiosa, um criticón (ao modo de Gracián) que observa os costumes e desejaria, sem esperanças, menos ruindade nos homens [...]. (Grifo do autor)

Alguns anos depois, em entrevista262, retoma esse ponto de vista com o mesmo sentimento de desencanto e autojustificação:

[...] Meus primeiros livros eram romances e creio que a minha vocação é de romancista. Por que não continuei a escrevê-los? Esmorecimento. Sempre tive a convicção de que na província não há salvação literária. Deixei-me, pois, empolgar pelo jornal, e, assim, não realizei a obra que eu mesmo esperava de mim [...]

Aliás, como tenho observado, o divórcio entre o escritor e o meio merece prolongadas e repetidas considerações de Frieiro, na busca de uma razão lúcida para a sua frustração como ficcionista. Se nas cartas, ele próprio é a vítima dos constrangimentos impostos pelo seu meio social,263 a província, em A Ilusão Literária estende a qualquer escritor ou artista de talento –

o homo oestheticus - o sentimento de inconformismo e hostilidade com o meio de origem. Acrescenta Frieiro:

Um escritor ou um artista de talento acha que o seu meio é o pior de todos. E volta-se contra ele, com impertinência, com ironia, com desprezo e, às vezes, com rancor e violência. [...] Semelhante estado de espírito é o causador do divórcio entre o escritor e o meio, ou resulta precisamente desse divórcio, que aumentaria ainda mais a natural solidão do autor? Metade e metade, talvez. Mas a solidão é um fato. (1983, p.75)

Na realidade, ele está pensando a questão da comunicabilidade do autor com o público e, de fato, mais adiante, reconhece que “[...] mesmo colocado contra a corrente, o escritor pede um público, numeroso ou seleto”(1983, p.75).

Embora tenha ele se recusado a seguir o fluxo da diáspora mineira rumo à Capital da República onde, assim lhe parecia, estaria o público do escritor de talento, escreveu e publicou, na província, quatro romances: O Clube dos Grafômanos (1927), O Mameluco

262 MENESES, R. Como vivem e trabalham nossos escritores. Minas Gerais, Belo Horizonte, dez. 1967.

Suplemento Literário, n.2, n. 68, p.11.

263 FRIEIRO, E. A ilusão literária. 3 ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasilia: INL/Fundação Nacional Pró-

Boaventura (1929), Inquietude, Melancolia (1930), (título mudado para Basileu, a partir da segunda edição, em 1981), O Cabo das Tormentas (1936).

Quanto ao O Clube dos Grafômanos, livro de estréia, publicado às custas do autor, põe em cena um grupo de jovens intelectuais belo-horizontinos e seus debates sobre literatura e política. O mote que desencadeia a trama é a publicação de uma Revista de Letras e Artes que, como A Revista de Drummond e seus amigos modernistas, não passa do terceiro número. Bento Pires, personagem central e alter ego do autor, vai elaborando, ao longo dos capítulos, com segurança e independência, juízos e críticas afiadas ao cenário local e nacional. Outros tipos são o Vitoriano Ruas, poeta; o Porfírio Leiva, cético, que não acredita em revistas numa terra que tem horror à leitura; o pintor Santanna, esteta do grupo; o Pereirinha, poeta modernista, e o Leôncio, milionário e financiador do projeto. Mas, a rigor, o personagem principal é o próprio movimento modernista, fio que instiga o balanço de uma geração e situa a obra mais próxima do ensaio ficcional do que propriamente do gênero romance. Na opinião do autor O Clube dos Grafômanos é um “romance crítico, história de um cenáculo a que eu desejaria ter pertencido. Consegui muitos elogios, entre os quais o de João Ribeiro, mas o livro não se vendeu”.264

A correspondência ativa de Frieiro, vindo ao conhecimento público, ajuda a ressaltar a intenção autobiográfica nesse primeiro livro. Ele afirma em carta a Homero Senna em 25/05/1960:

[...] No Club dos Grafômanos há um [?] de razão, o Bento Pires, porta-voz de algumas das minhas opiniões. Opiniões daquele tempo, entenda-se.[...]

Encontro trechos auto-referenciais já lidos nas cartas e no diário, na fala de outra personagem do mesmo livro, o poeta Vitoriano Ruas, referindo-se a Bento Pires, o avatar de Frieiro:

[...] Esse Bento Pires é o tipo acabado do autodidata. Espírito curioso e inquieto, tem percorrido sozinho, ao sabor de sua fantasia, o mundo imenso do conhecimento. Dotado de formidável capacidade de leitura, Bento Pires vai libando em todos os livros e em todos os autores, antigos e modernos. Sua “douta ignorância” (como ele mesmo diz), habilita-o a respigar em todos os assuntos com perfeita impunidade. Nada lhe é estranho: a filologia, a história, a sociologia, a literatura de ficção, a crítica de arte ... Bento Pires tem sido, sucessivamente, socialista, anarquista, romântico, nietzschiano,

faquirista, pragmatista, behaviorista ... flibusteiro do conhecimento, caçador furtivo da cultura, conhece todas as tretas com que se apanham as idéias [...].

Fisicamente, há igual espelhamento e Bento Pires é descrito como um sujeito miudinho, sem idade, olhos vivos e esquadrinhadores, sob a testa larga. Não falta ao tipo nem mesmo o sentimento de superação, com algum laivo de amargura, também já lidos em alguns trechos epistolográficos, como por exemplo, quando Bento Pires se refere à sua condição de autodidata: “Não há dúvida que guardo certo ressaibo contra as lacunas de minha educação, certo despeito contra os sêres afortunados que, desde o berço, encontraram tôdas as facilidades na vida: fortuna, posição, mestres, livros, cultura. Em compensação ficou-me o orgulho viril de ter vencido tôdas as dificuldades pelo meu próprio esfôrço” (FRIEIRO, 1981, p.21).

Inserida na mesma narrativa está a admiração de Frieiro por Machado de Assis, numa declarada relação de filiação literária. Em um dos últimos capítulos do livro em questão, o grupo de jovens intelectuais ensaia um balanço da literatura brasileira e o nome do grande escritor inspira Bento Pires a fazer uma proposta que, como ficção, antecipa em três décadas o feito real levado a cabo em 1958 por outros intelectuais brasileiros, também admiradores do

bruxo do Cosme Velho265. Deixo que o próprio Eduardo Frieiro, em carta ao escritor e pesquisador Plínio Doyle, em 22/6/1960, reivindique a seu modo, isto é, discretamente, a primazia da idéia de uma Sociedade de Amigos de Machado de Assis.

Ilustre Amigo Dr. Plínio Doyle:

Por intermédio do Sr. Amador Martins, recebi sua carta de 13 de passado e o n. 2 da Revista da SAMA. Felicito-o pela excelente apresentação da Revista, de que não vi primeiro número,266 e muito lhe agradeço a gentileza de se ter lembrado de mim.

Quanto à colaboração solicitada, terei muita honra em enviá-la caso me ocorra escrever alguma página que possa figurar sem deslustre numa publicação destinada a cultuar a memória de nosso máximo prosador. Por este correio, sob registro, estou-lhe enviando para a biblioteca da SAMA um exemplar de meu primeiro livro, O Clube dos Grafômanos, de 1927, onde há um capítulo intitulado “Brasilidade de Dom Casmurro”, que termina assim: “Porque não se funda entre nós uma Sociedade de Amigos de Machado de Assis e se promove a tiragem de uma bela edição de suas obras completas?”

Sempre às ordens, saúdo-lhe cordialmente [Sem assinatura]

265 O crítico Fábio Lucas em Mineiranças, 1991, p.128, comenta esta “proposta de certa forma profética”, de

Bento Pires/Eduardo Frieiro.

266 O primeiro número, de 1958, foi intitulado Boletim da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis. A partir

Ora, em 1958, o Presidente Juscelino K. de Oliveira institui a Comissão Machado de Assis, com o objetivo de organizar e publicar a edição crítica da obra de Machado de Assis.267 Plínio Doyle, integrante da comissão, funda a Sociedade dos Amigos de Machado de Assis, que passa a publicar uma revista semestral, a Revista da SAMA. Quanto ao artigo solicitado ao nosso escritor, nunca foi escrito, pelo que foi possível apurar.

Com referência ao segundo livro, O Mameluco Boaventura, conforma-se como romance histórico por desvio de intenção do autor. Na verdade, pretendia ele escrever um ensaio histórico focalizando o difícil estabelecimento da ordem legal na turbulenta capitania de São Paulo e Minas do Ouro no início do século XVIII pelo Conde de Assumar. Seu interesse particular pela história de Minas inclinava-se, desde o princípio, para uma linha crítica e revisionista. Nesse sentido, vinha se dedicando à leitura de documentos da época colonial buscando, sobretudo, novas informações sobre a figura carismática, assim lhe parecia, de D. Pedro de Almeida, Conde de Assumar, terceiro governador da capitania. Entretanto, acabou escrevendo um romance histórico, em cuja composição se empenhou a fundo, em busca da autenticidade nos tipos e no ambiente, bem como na linguagem. Publicado em 1929 às expensas do autor e sob o selo fantasia Edições Pindorama, como o primeiro livro, também com tiragem reduzida, esse romance recebeu crítica favorável por parte de críticos da época como João Ribeiro, Sud Menicucci, Medeiros de Albuquerque, Humberto de Campos. Este último escreveu no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1929, o seguinte:

[...] Manuseador, parece, de documentos antigos, pôde o romancista mineiro reconstituir os cenários de Vila Rica e do Carmo nos primeiros dias do século XVIII, e, o que é da mais difícil, pôs-nos em contacto com a linguagem do tempo. O seu vocabulário, de admirável precisão nas descrições e de louvável contemporaneidade nos diálogos, dá-nos a impressão de que defrontamos um escritor que se deixa absorver pelo assunto que versa, e, o que é mais importante, preocupado em realizar uma obra que, podendo agradar ao vulgo, possa, igualmente, ser manuseada com encanto e proveito pelos estudiosos. [...]

Outra não era a intenção do autor, pelo que pude deduzir de uma resposta sua ao escritor e pesquisador da história mineira, Luiz Camillo de Oliveira Netto, que lhe sugeria a reedição de seus livros:

267 Os originais das atas das sessões realizadas pela Comissão Machado de Assis estão arquivadas na Secretaria

[...] Tenho, por exemplo, O Mameluco Boaventura, aparecido em 1928 e esgotado em menos dum ano. E êsse, digo-o sinceramente, sem falsa modéstia, está pedindo uma reimpressão. É livro ameno, para qualquer leitor e pertencente a um gênero bobo, o histórico, ou pseudo-histórico, mas que conta milhares de apreciadores.268

A segunda edição saiu em 1941, pela Livraria Editora Paulo Bluhm, de Belo Horizonte. Uma terceira edição foi negociada com a Edições Saraiva, de São Paulo. Ao Secretário da editora, ele envia uma carta objetiva e breve:

Em resposta ao seu estimado favor de 27 de setembro próximo passado, que muito agradeço, devo comunicar-lhe que não me parece interessante a proposta feita para a publicação de O Mameluco Boaventura na Coleção Saraiva.

Sempre às ordens, saúda-o muito atentamente, [Sem assinatura]

Com a falta da carta enviada pela Editora Saraiva (não a encontrei no Acervo Frieiro), não fiquei sabendo quais aspectos da proposta de edição não agradaram ao escritor nesse primeiro momento. O certo, porém, é que chegaram a um acordo, já que a terceira edição veio a lume por essa editora em 1962.

Sobre o terceiro romance intitulado Inquietude, melancolia, escreveu o crítico Aires da Mata Machado.269

A sua surpreendente versatilidade permitiu-lhe [a Frieiro] ao lado da obra de ensaísta e crítico, a publicação de outro romance, completamente diverso dos anteriores. Quero aludir a Inquietude, melancolia, que é de 1930. Romance psicológico, onde há páginas de rara beleza, estuda as tribulações e angústias de um tímido, quase abúlico, a viver entre ousados, afortunados e outros que pareciam felizes. Nem há como esconder-lhe os elementos autobiográficos. Dos romances de Eduardo Frieiro esse é que mais agrada à minha sensibilidade.

Não obstante a afirmação de Aires da Mata Machado, Inquietude, melancolia tem em comum com o O Clube dos Grafômanos o modelo narrativo chamado crônica de geração ou geracional, modelo presente na tradição literária mineira do século XX, notadamente com Ciro dos Anjos em O Amanuense Belmiro e Fernando Sabino em O Encontro Marcado270. A estrutura narrativa utilizada por Frieiro nos dois romances desenvolve-se em torno de um grupo de personagens de uma mesma geração. Em ambos os livros, eles se aproximam e

268 Carta a Luiz Camillo de Oliveira Netto, datada de 28/06/ 1936.

269 MACHADO FILHO, A. da Mata. Eduardo Frieiro, romancista. Diário de Notícias, Belo Horizonte, 15 out.

reunem-se em torno de um evento circunstancial: estréia de um livro e de uma revista literária. Em o Clube dos Grafômanos o encontro se dá na república de estudantes e, no botequim do italiano, em Inquietude, melancolia. Também nas duas obras, esses eventos ensejavam-lhes discussões e reflexões sobre questões de seu tempo. É nesses debates que a personagem principal vai tomando corpo e passa a desenrolar o fio linear da história enquanto as outras vão sendo chamadas pelo narrador apenas para dar suporte ao tema de fundo - as dúvidas existenciais do protagonista e sua dificuldade em fazer o trajeto da reflexão à ação.

Outro aspecto característico da crônica geracional presente em Inquietude, melancolia é seu bordejo com a narrativa autobiográfica. Como ressalta L. C. Alves, prefaciador da segunda edição, por esse motivo, muitas vezes, ela pode “ser vista como um roman `a clef, no qual personagens e acontecimentos narrados são a máscara de pessoas e fatos situados no domínio da experiência direta da realidade,” além da preocupação do romancista “com a localização e a datação verdadeiras, quase sempre explícitas, da estória contada”.271

Embora Frieiro não submetesse nunca seus manuscritos à opinião de outras pessoas, com alguns correspondentes fala longamente sobre sua obra, da gênese à recepção. Sobre o romance em questão, confidencia a Homero de Senna, em carta já mencionada de 25/05/1960:

[...] Em outro romance meu, “Inquietude, melancolia” (de que lhe remeto agora um exemplar), a figura central, o Basileu Prisco, alter ego do Bento Pires, apresenta traços de temperamento e de caráter semelhantes aos meus, na juventude. Assim o entendo, quando nada. Êsse romance foi bem recebido pela crítica, mas, como acontece tão a miúdo, os críticos admitiram a obra sem a compreenderem. “On n’est jamais compris, dizia Cocteau, on est admis”. E a intenção me parecia clara. Basileu Prisco é um moço tímido, egocentrista, um intelectual pequeno-burguês de princípios do século, deprimido pela dúvida de si mesmo, atormentado pelo sentimento da própria inutilidade. Autista, propenso à hipocondria, considera-se um ôvo gorado. Afinal, êsse ansioso voltado para dentro de si mesmo encontra na mulher e no casamento o generoso élan para aceitar o destino do homem comum, a sua própria historicidade. Nesse romance de “educação sentimental” um crítico atento veria hoje – é uma suposição – um romance de tom existencialista kirkegaardiano. (Grifos do autor)

À amiga Ruth Nielsen, cinco anos depois, em 26/01/1965, escreve argumentos parecidos. Vejamos:

270 Cf. LUCAS, F. Mineiranças. Belo Horizonte: Oficna de Livros, 1991, p.127-3; ALVES, L.C. Inquietude,

melancolia, agora Basileu. In: FRIEIRO, E. Basileu. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p.1-11.

Êsse livro foi por mim refundido com vistas a uma possível (se bem que pouco provável) nova edição. É um livro do passado. Basileu, o principal personagem do romance, e seus companheiros de mocidade pertencem à geração pequeno- burguesa de princípios do século, a que tem pouco mais de vinte anos quando termina a guerra de 14-18.[...]É um romance de “educação sentimental”. O inquieto e inadaptado Kierkegaard, atormentado na sua solidão, fêz a apologia do ideal pequeno-burguês: a vida pacata, junto à lareira doméstica, ideal que êle não pudera alcançar, pela impossibilidade de ser marido. Basileu Prisco, embora sem vencer as dúvidas que o inibiam, aceitou afinal o destino comum de homem moral: constituiu seu próprio lar e tornou-se gato de borralho. Mas como custou a êsse cerebral imaginativo alcançar o que o homem vulgar realiza sem dificuldades.

A nova edição que o autor desejava de esguelha, à maneira dos tímidos, saiu, afinal, pela Itatiaia, em 1981, um ano antes de sua morte. Coube-lhe, assim, a chance de escrever uma

Nota para a segunda edição, na qual alude, como já o fizera em cartas e no diário, à defasagem entre o seu projeto e a interpretação dos críticos. Na sua opinião, embora muitos críticos tenham se ocupado da obra, em geral, de forma positiva, não a entenderam bem

[...] Não se poderia dizer, entretanto, que a tivessem apreciado com justeza. Admitiram-na, sem a compreenderem bem. Não é esse, em verdade, o destino de tantas obras? Não obstante a extrema singeleza do livro, a crítica não atinou para a intenção do Autor, que era a de gizar o caráter imaturo de um moço tímido e inquieto, um intelectual deprimido pela dúvida de si

mesmo.272

No seu diário273 já havia anotado, em 10 de fevereiro de 1948, queixa semelhante:

[...] A psicologia individual de Adler e dos de sua escola estava divulgadíssima ao tempo da publicação de Inquietude, melancolia. Termos como sentimentos (ou complexos) de inferioridade já haviam saído das clínicas psiquiátricas e passado à linguagem corrente. Entretanto, ninguém, entre os muitos críticos que falaram de Basileu Prisco, se lembrou de tocar nesse ponto nuclear, donde saiu a personagem como o cristal sai da água- mãe. E nunca foi novidade na literatura a apresentação de personagens ou tipos em que se observa uma perturbação da função estimativa. Esse mal psíquico já se encontra analisado em Montaigne, e antes de Montaigne.

Lendo algumas das críticas contemporâneas ao lançamento do romance e posteriores a ele, parece-me exagerada a insatisfação de Frieiro para com a incompreensão da crítica. Sem a pretensão de fazer uma análise literária, terreno dos críticos, penso que pelo menos Carlos Drummond de Andrade274 e Aires da Mata Machado275 leram esse livro com sensibilidade,

272 FRIEIRO, E. Basileu.Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p. 14 273 FRIEIRO, E. Novo Diário. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986. p. 336

274 ANDRADE, C. D. de. Eduardo Frieiro: Inquietude, melancolia. Minas Gerais, Belo Horizonte, 30 maio 1930.

Publicações. p.8.

certamente percebendo a angústia existencial do intelectual Basileu como eixo central em torno do qual gira toda a construção narrativa.

Parece-me curioso, entretanto, como o Frieiro escritor almeja ser lido e compreendido nos limites da sua intenção. Nega, paradoxalmente, a idéia de leitor suficiente, evocada por Montaigne, seu mestre sempre citado, leitor que pode encontrar mais sentidos no texto lido do que aqueles que o seu próprio autor pudesse dar. Além do mais, se realmente se esperasse uma resposta para a pergunta retórica do autor de Inquietude, melancolia – “Não é esse, em verdade, o destino de tantas obras?” - o contra-argumento mais incisivo, não obstante a complexidade da questão da intencionalidade do autor, talvez pudesse oferecê-lo Compagnon (1999, p.85) quando diz que a significação de uma obra transcende a intenção primeira de seu autor e de seus contemporâneos (a primeira recepção), e pode dizer algo de novo a cada época. E, ainda, para que gerações futuras tenham interesse por uma obra e valorizem-na, seu sentido não poderá se submeter à intenção do autor nem do contexto de origem (histórico, social, cultural).

Por fim, da primeira para a segunda edição de Inquietude, melancolia, além da mudança do título, que trazia, àquela altura (1981) um certo ar datado, há mudanças estilísticas e formais, com cortes e acréscimos. De qualquer maneira, o pesquisador que se dispuser a fazer um estudo comparativo das duas edições encontrará bom material de apoio no Acervo Frieiro: o