3 Metode
3.2 Vitenskapsteoretisk grunnlag for kvalitativ metode
Em conseqüência do confronto das concepções freudiana e junguiana do delírio e da avalia- ção de suas contribuições mútuas, é possível tecer algumas considerações de cunho mais geral com apoio em solo menos instável. Quando observamos o plano e a consecução de nosso percurso, constatamos que, quando montamos nosso modelo metodológico, já previmos, de certa forma, os resultados.
Observamos o conceito psiquiátrico de delírio ser reescrito em sentido psicológico, tanto por Freud quanto por Jung, sem cessar de ser aperfeiçoado e reinado. Quando admitimos que as teorias devem servir de apoio e operar uma meta de mais trabalho, como preconizou William James, os dois sistemas que aqui confrontamos somente podem ser considerados bem-sucedidos. Cada um deles trabalhou sobre o conceito descritivo e forneceu-lhe entendimento de acordo com seus próprios interesses, premissas e méto- dos. Isso nos interessa destacar.
Tanto para a Psicanálise quanto para a Psicologia Analítica, o entendimento do delírio estava condicionado à demarcação de um modelo do psiquismo. De fato, cada um fundou um sistema que distinguia problemas, métodos de investigação e uma teoria que apresentava seus pontos de vista particulares e tão solidamente fundamentados quanto possível. Somente no contexto desses próprios sistemas, seria possível compreender o delírio, não como um fato ou entidade que se explicasse por si. Quando os dois pensadores deram início à sua correspondência, colidiram modelos já em formação. Daí, cada um reconheceu no outro a possibilidade de ampliar o entendimento das patologias e da vida anímica em geral. Surgiu, pois, profícua colaboração.
Existe um prejulgamento geral de que Jung tenha sido um discípulo dissidente da Psicanálise, um psicanalista que se transviou. De acordo com esse argumento, Jung inicialmente seguia as premissas psicanalíticas de modo integral, tomando impulso nela. Tal juízo é insustentável diante do mínimo esforço de pesquisa histórica e epistemológica. Concordamos inteiramente com a airmação de Jung:
Airma-se que eu parti dos ensinamentos de Freud. Não parti de Freud, parti de Eugen Bleuler e Pierre Janet, que foram meus mestres diretos. Quando tomei aber- tamente a defesa de Freud, minha posição cientíica já era reconhecida em geral, posição que consegui graças às minhas pesquisas sobre as associações e à teoria dos complexos que nelas se baseiam e que desenvolvi independentemente de Freud. Minha colaboração decorreu sob a reserva de uma objeção em princípio contra a teoria sexual. (2003, p.20).
O reconhecimento referido por Jung lhe foi atribuído, dentre outros, pelo próprio Freud, cujo regozijo de ter encontrado um colaborador que conirmava a Psicanálise “com a força de sua própria experiência” não poucas vezes foi reiterado. Jung conseguira explicar psicologicamente alguns
dos fenômenos patológicos mais abstrusos e sua teoria, além disso, incluía a admissão da hipótese inconsciente. Em contrapartida, Jung reconhecera em Freud uma autoridade intelectual cujas idéias, com certas reservas, mereciam ser defendidas, pois, a seu ver, contribuíam enormemente para a for- mação de uma Psicologia não isiológica e, também, não ilosóica. Existiam recíprocas conirmações de posições teóricas, especialmente da hipótese necessária do inconsciente.
Conirmamos, no último capítulo, a pertinácia de algumas das contribuições mútuas mais estreitamente vinculadas ao conceito de delírio que, ao mesmo tempo, também inluenciaram amplamente a consolidação de seus sistemas. Além disso, também foi demonstrada a particularização do conceito pelo sistema que o assimilou, tornando-o muito diverso do que era no sistema original, pois o contexto de assimilação era ele mesmo muito diverso. Veriicamos, por im, que as contribui- ções foram efetivas, mas muito diferentes de transposições passivas, mas de “trans-criações”, naturali- zações. Devemos, aqui, explicitar as principais vias pelas quais estas se realizaram.
Chamamos de reação positiva ao conceito a primeira das formas segundo as quais a inlu- ência foi possível, como aconteceu nas assimilações dos conceitos de libido por Jung e de complexo por Freud. Essa via decorre do reconhecimento de possibilidades de inovações trazidas para um sis- tema pelas idéias do outro. Essas podem ser novas questões, abordagens metodológicas e soluções de problemas. É necessário recordar que, mesmo a primeira aproximação, por mais supericial que seja, já é integrada ao contexto interno do sistema que assimila, analogamente ao processo de apercepção. Uma proposição só interessava à teoria de Freud se izesse sentido nos seus próprios termos, como ele bem referiu acerca da crítica de Jung ao seu conceito de libido: somente seria uma questão válida se pudesse ser reconhecida como problema psicanalítico. Da mesma forma, ocorria no caso de Jung, cujos preceitos teóricos também discriminavam aquilo que lhe parecia válido. A leitura das proposi- ções de um sistema pelo outro sempre é recriação.
Quando observamos, porém, que Freud encontrou em algumas das críticas de Jung a necessidade de rever sua teoria da libido, não se trata mais de uma apreciação positiva. Era necessário aperfeiçoar a deinição do conceito para afastar as idéias de Jung, tornando-as não apenas dispensá- veis, mas inofensivas. De modo análogo, Jung tratou pormenorizadamente, em suas palestras de 1913, da compreensão freudiana dos complexos e demarcou seu próprio entendimento energético-inalista por contraste. Constatamos, em decorrência, que é necessário adicionar à aproximação positiva com o conceito a reação negativa a ele, uma delimitação por contraste e exclusão. Ajuizamos a noção de que tal processo se desenvolve de modo semelhante ao do anterior.
A tradução do conceito externo para o contexto interno do sistema pode promover uma crise, ou seja, uma distinção problemática de desdobramentos possíveis das noções que desde antes vigoravam. Quando as questões que daí surgem distam demasiadamente dos princípios teóricos e metodológicos até então vigentes no sistema, pode ocorrer uma crise, mas agora em sentido próximo ao que lhe confere homas Kuhn, i.e., um ponto de ruptura. Decorrem daí algumas possíveis reações:
desprezar as modiicações indicadas, o que normalmente não resulta em qualquer contribuição; rei- nar os conceitos para excluir as possibilidades que observamos, o que corresponde à reação negativa ou, enim, modiicar o sistema para incluir as inovações aventadas, o que se refere à apreciação posi- tiva. A reação que aqui chamamos heuristicamente de negativa é semelhante à positiva porque exige autocrítica e impulsiona o sistema em seu ieri.
Chegamos agora à terceira forma de contribuição constatada, e as peculiaridades da ciência psicológica se revelam de maneira evidente. Trata-se do diálogo estabelecido entre os dois autores quanto à hipótese das reminiscências arcaicas. Ao acompanhar casos patológicos e sonhos de seus pacientes, Freud e Jung observaram semelhanças de muitos desses fenômenos com os mitos e as religiões. Concordaram com a hipótese de que o inconsciente devia trazer como herança as mesmas propriedades que atuavam também no homem primitivo. Até esse ponto, houve acordo. Veriicamos, todavia, que os caminhos divergiram em seguida.
A concordância durou apenas até certo ponto e isso já garantiu a gênese de hipóteses, importantes motores de pesquisa. Foi como resultado do aprofundamento das deinições que as dife- renças entre seus métodos e teorias se evidenciaram. Apenas no nível mais supericial, os discursos caminhavam pari passu. As proposições que surgiram do estudo em conjunto151 eram semelhantes,
enquanto os pressupostos peculiares não fossem trazidos à tona. Da mesma maneira, ambos acorda- vam quanto à necessidade de se postular uma libido, os complexos e o próprio inconsciente. Também compartilhavam das idéias de que a história psicológica do indivíduo era um fator determinante das neuroses e psicoses, de que na psicose havia uma perda da realidade e de que o delírio trazia um mate- rial que era importante para a cura, mas que a conjuntura da própria paranóia era um complicador para que esta fosse levada a termo. Observamos o quanto a maior parte de tais conceitos comuns, idéias concordantes, encontram sentido um tanto diverso em cada um dos dois sistemas, o quanto, em nível mais profundo, dizer que Jung e Freud adotavam o conceito de libido é apontar uma semelhança pequena diante de uma divergência ímpar.
Remetemo-nos, com essas considerações, a um problema análogo àquele que William James se referiu em seu texto “On a certain blindness in the human being152”, no qual defende a posição
de que toda apreensão do ponto de vista do outro é sempre condicionada em certo grau por metas, funções e sentimentos subjetivos. Por essa razão, é sempre um olhar supericial, uma vez que, em pro- fundidade, vemos tudo do ponto de vista mais pessoal. James tratava, no seu texto, de ideais de vida, mas sua contribuição nos é valiosa.
Na metodologia, assumimos a posição de que cada sistema tem dignidade própria, e que devemos compreender cada conceito de cada sistema como expressão única de entendimento, aban- donando a idéia primitiva de fatos estanque e objetivos. O estudo comparado das teorias de Jung e
151 Lembremos que Freud mencionou a existência de um grupo para discussão e pesquisa acerca da psicose, do qual tanto ele quanto Jung faziam parte.
Freud quanto ao delírio nos mostrou que não há um conceito sequer, um fenômeno que, em certo nível, não apresenta uma divergência crítica. Já fazíamos referência ao fragmento de texto de Jung em que ele garante que as diferenças mais fundamentais entre seu pensamento e o de Freud repousavam nos pressupostos. Com efeito, foi possível observar, quanto aos conceitos estudados no capítulo ante- rior e quanto ao delírio em geral, que essa diferença se fazia notar não apenas pelo contexto fornecido pelas teorias, mas também pelos métodos e interesses pessoais, o que remete a problemas bem sutis.
Para que seja possível aquilatar não apenas as peculiaridades de um sistema, como tam- bém distinguir as suas implicações, é necessário que os pressupostos sejam explicitados em minúcia, discriminados com zelo, e que os conceitos estejam abertos a transformações e que possam ser modi- icados continuamente. Tal procedimento, tão caro à Psicanálise freudiana e à Psicologia Analítica de Jung, esbarra na diiculdade característica à Psicologia em geral. As diversas correntes desta não dis- põem de um ponto de apoio objetivo, de medidas escalares ou, sequer, da possibilidade de reconstruir seu objeto em um meio diferente. Seu objeto é um fenômeno volátil, dotado de irrestrita variabilida- des e que inclui o processo cognitivo e, em último grau, a própria teoria.
Por não existir esse ponto de apoio, esse critério último de decisão entre os sistemas, como é a Matemática para a Física, a realidade da Psicologia é uma profusão de sistemas e teorias muitas vezes efêmeras. Freud e Jung se esforçavam para que as suas fossem ferramentas valiosas, pois a necessidade urgia; eram clínicos. Para alcançar suas metas, esforçavam-se na precisão conceitual, na revisão contínua e expansão de seus modelos. Nem mesmo assim, porém, é possível escapar da subjetividade inerente aos sistemas e, por isso, diferenças de temperamento e pressupostos de base, muitos dos quais foram trazidos desde a infância, atuam na escolha do método, no caminho a ser tomado, na elaboração de juízos.
Considerada tal inevitabilidade, A.G. Penna (1997) reconhece a multiplicidade de teorias como algo de bastante saudável. Não apenas concordamos com esse ponto de vista como também espera- mos haver sido capaz de demonstrar este estudo. E é por isso que a terceira via de contribuição entre Freud e Jung é tão importante. Muito embora uma certa cegueira seja imanente aos pontos de vista, é possível haver contribuições recíprocas mediante um diálogo possível. Cabe a nós compreendê-lo.
Esse diálogo é sempre supericial e só duram ao passo que as diferenças de pressupostos, muitas vezes inconscientes, não são problematizadas. Enquanto há aparente concordância, as noções se igualam e o diálogo é possível. Não à toa Freud e Jung acordavam em suas observações acerca das reminiscências arcaicas, visto que ainda era constatação rudimentar, visto que “o conhecimento comum é inconsciência de si” e “essa compreensão pode atingir também pensamentos cientíicos”. (BACHELARD, 1996, p.51). Na medida em que os conceitos se aprofundam, aloram suas implica- ções práticas, suas minúcias e sua riqueza. Uma simples constatação inicial conduziu Jung ao conceito, central em sua obra, de arquétipo. Pelo outro lado, possibilitou que Freud chegar à hipótese herança das experiências adquiridas sem a qual “não poderia passar”. No grau mais desenvolvido, maturado, em que os conceitos se encontram acomodados aos sistemas, as peculiaridades se evidenciam. Neste ponto, manifestam-se posicionamentos ao invés de “descobertas”, decretos alternativamente às críticas.
Enquanto dura o acordo, no legítimo patamar da supericialidade, a troca é possível e o diálogo é real. Veriicamos a importância disso para as duas teorias aqui estudadas, pois a contribuição sempre parte desse nível de articulação. Quando chega o momento em que é impossível admitir o ponto de vista do outro, há separação ou uma transformação profunda dos prismas – uma metanóia cientíica – em resultado da qual os princípios se modiicam. Para aquele que leva suas pesquisas a sério, isso acontece em certo momento. Concordamos com homas Kuhn (2003) nesse pormenor: não existe adição passiva de novas idéias, o sistema deve se transformar. Conseqüentemente, obstácu- los, nocivos ao avanço do conhecimento, são destruídos e velhas concepções são substituídas por um novo entendimento. O campo do saber é reordenado, aperfeiçoado.
Os sistemas psicológicos resultam de um esforço por demonstrar, o melhor possível, todas as premissas teórico-metodológicas, ponto de vistas e pressupostos. Neste sentido, porém, a advertência de Barreto e Mesquita (1997) é notável: “Como toda produção literária, também esta possui suas particularidades. De algumas, temos consciência; de outras, não. As primeiras serão aqui apontadas, icando para o leitor o trabalho de localizar as de que não tratamos”. (1997, p.24).
O pesquisador esbarra no limite de sua consciência. É impossível observar com precisão todos os pressupostos, livrar-se deles ou modiicá-los ao bel-prazer. Os pressupostos são inevitáveis. Como Bachelard (1996) atesta: “o que existe de mais imediato na experiência primeira somos nós mesmos, nossas surdas paixões, nossos desejos inconscientes”. (P.57). Conhecer ou relativizar pressu- postos, portanto, requer autocrítica, auto-análise, e isso sempre será parcial, uma vez que não se pode desfazer completamente o inconsciente.
Enaltecemos aqui a importância do diálogo entre os sistemas: ao esforçar-se por com- preender a idéia do outro, que necessariamente se posiciona em um ponto de vista diverso, é possível ao trabalhador de um sistema vislumbrar novas possibilidades para as próprias idéias, reconhecer, ainda que em um lampejo, o frescor de novas hipóteses. Isso somente é possível porque o pesquisa- dor esbarra em seus próprios limites, nas suas impossibilidades e nas secretas suposições até então implícitas e desconhecidas de suas próprias airmações. E este é apenas o início do trabalho, pois, daí por diante, pesquisas e observações cuidadosas se fazem necessárias exigindo, muitas das vezes, um confronto com as próprias pressuposições. Nossa concordância com Penna nos leva a acentuar que o diálogo abre possibilidades de crescimento e aprofundamento para as psicologias, pois o auxilia a fazer uma leitura renovada de seu objeto e de seu modo de conhecer.
Os sistemas que aqui estudamos apresentam peculiaridade signiicativa: Psicanálise e “idéias de Freud” se confundem, da mesma forma que Jung e a “Psicologia Analítica”, pois eles fun- daram seus sistemas. Julgar os pressupostos seria avaliar as idiossincrasias subjetivas, superá-los, um trabalho de análise pessoal intensa. Em nossos dias, quando somos herdeiros de alguns sistemas que sobreviveram ao curso das décadas (e do século!) há ainda um problema adicional. O próprio estudioso traz consigo os interesses pessoais, os próprios pressupostos, que confrontam aqueles do
sistema. Caso não haja uma análise dos valores pessoais, sempre restará apenas uma compreensão rasa, somente a concordância do indivíduo com o sistema, ou, ainda, uma legítima deturpação, em que os conceitos perdem a vivacidade de sua conjuntura inicial e se tornam meros termos vazios. Tais complicações são material para outro estudo, que pode muito bem se fundamentar nos excelentes textos de Bachelard, Piaget e Jung, quanto à necessidade de crise e revolução subjetivas para a apro- ximação de um modelo de pensamento.
Ainda outra consideração é necessária. Veriicamos hodiernamente a ascensão de uma per- niciosa “psicologia geral”, segundo a qual todos os discursos são válidos a priori e os conceitos não são problemáticos, pois “todos sabem o que signiicam”. Nesse caso, não há sentido em questionar a noção de delírio ou a deinição de libido, pois, quando se usam esses termos, parece já haver um entendimento instantâneo. O problema é que as palavras, nesse caso, atingem meta oposta àquela que movia Freud e Jung em sua relação, pois correm o risco de se tornarem “meros chavões” que, na verdade, nada signiicam. Bachelard já alertava contra esse risco freqüente: “É preciso, pois, evitar o desgaste das verdades racionais que têm tendência a perder a apodicidade e a tornar-se hábitos intelectuais”. (1996, p.303). Este, por certo, é um dos riscos do diálogo entre os modelos: contentar-se com ele. Não foi isso que veriicamos na relação de Freud e Jung, mas sim uma troca estabelecida entre dois espíritos investigativos para os quais a deini- ção de um conceito nunca era suiciente ou acabada, jamais era clara ou evidente.
A concordância subjacente ao discurso generalista é sinal de pouca profundidade. Jung explica que, “numa multidão, as qualidades que todos possuem multiplicam-se, acumulam-se e tornam-se as características dominantes da multidão inteira”. (McGUIRE; HULL, 1982, p.132). O conhecimento geral representa, segundo Bachelard, “uma suspensão da experiência, um fracasso do empirismo inventivo” (1996, p.69) e isso ameaça a Psicologia desde dentro. Justamente quando se exige da Psicologia o confronto com os avanços da neuropsiquiatria e da psicofarmacologia, parti- cipar de equipes inter, trans e multidisciplinares e do debate acadêmico, nossa disciplina se vê ame- açada da dissolução em uma communis opinio travestida de belos termos vazios. Faz-se necessário, mais do que nunca, o rigor. Somente com o aperfeiçoamento e o aprofundamento das noções, que exige autocrítica, relexão, diferenciação moral e esforço, a Psicologia pode oferecer ao vasto campo do conhecimento mais do que um jogo de conceitos rasos. Ainal, se não se apropriam e delimitam seus conceitos, o que lhe resta? Se todos os conceitos são claros e evidentes para todos, qual o sentido de uma formação em Psicologia?
O outro aspecto, correlato da generalização dos conceitos, é o perigo do subjetivismo radical, segundo o qual somente o ponto de vista pessoal é válido, todo o resto é tolice. Ele apregoa a noção de que, se não se pode dispor de uma idéia válida para todos, qualquer argumento serve. Esse procedimento não promove contribuição alguma, pois não considera nada externo a si como positivo ou ao menos digno de respeito, no que se aproxima muito com o fenômeno da “perda da realidade” sem o ser necessariamente. Tal isolamento não apenas anula as possibilidades de auto-superação como também denota severa inconsciência elevada de si e do mundo.
O tema do delírio mostrou-se um argumento de superfície que favoreceu o diálogo e a vanta- josa cooperação entre Freud e Jung. Acreditamos que muito embora as atitudes e os pressupostos fossem expressivamente diversos foi possível, pelas vias apresentadas, o reinamento de ambas as noções do delí- rio e da paranóia. Mais uma vez a riqueza referida por Penna pôde ser evidenciada. Cada um dos autores fornecia ao outro um ponto de referência, um espelho no qual via reletido ora suas idéias mais caras, ora as mais reprováveis. Com isso determina-se o alcance de seu próprio conceito, aquilo que se quer ou não