Em nossa realidade brasileira, como vimos, constata-se que a assistência integral ao ser humano precisa ser questionada quanto à assitência psicoespiritual às pessoas. Entre os problemas apontados, destaca-se a necessidade de programação das tarefas a desempenhar com os pacientes, relacionadas à assistência psicoespiritual.
Deveria haver uma integração interdisciplinar. Tratar desses valores fundamentais da Enfermagem, em todas as disciplinas, inclusive nas visitas domiciliárias. Temos que inovar, criar mecanismos para dar essa assistência psicoespiritual. Se o paciente não tiver um equilíbrio espiritual, nós vamos
ter dificuldades para ajudá-lo na cura (Taís, pesquisa, PEIXOTO, 2004).
Embora estejamos convictas de que seja vital uma tomada de providências em função de um melhor preparo pedagógico do enfermeiro, referente à assistência psicoespiritual, deve-se considerar que o processo de educar é amplo, gradativo,
dinâmico e permanente, levando em consideração o contexto social. Jamais se deve ditar medidas pré-fabricadas, pois toda problemática social deve ser resolvida com soluções apontadas pela própria comunidade.
Explicitar todos os problemas de que se fala a respeito da assistência psicoespiritual em forma de questões e buscar soluções de maneira partilhada com toda a equipe de Enfermagem. As questões sobre os aspectos psicoespirituais precisam ser trabalhadas como qualquer outra questão da profissão, como uma atividade a desenvolver. É preciso pensar sobre isso, falar sobre isso: ‘Como é possível eu me expressar numa assistência espiritual às pessoas [...] com religiosidades diferentes, sem impor minha religião às
pessoas às quais estou assistindo? (Carla, pesquisa, PEIXOTO, 2000).
A riqueza de nossas programações didáticas brota dessa participação da equipe, tornando nosso ensino coerente com o contexto social em que vivemos. As necessidades acadêmicas são vivenciadas por aquelas que delas participam e estão mais aptas a discerni-las:
as acadêmicas precisam ser preparadas com esses valores psicoespirituais. Primeiro a aluna: ‘De que forma ela lida com esses valores, com ela mesma’, a seguir, aluna-paciente; vivenciar esses valores na profissão. Muitas vezes, o paciente precisa mais de um bom dia do que de um comprimido de
novalgina (Talitha, pesquisa, PEIXOTO, 2000).
A Enfermagem, como toda a área da saúde, precisa se posicionar ante os avanços tecnológicos e científicos. Vejamos a insistência das palavras do educador Paulo FREIRE: “O conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer sua ação transformadora sobre a realidade. Demanda uma busca constante. Implica invenção e reinvenção.”
A grande dificuldade que a Enfermagem está passando, é que ela quis ser tão ‘profissional’, e achar que ser profissional é ser dura, autoritária. Eu acho que o ponto chave não é por aí, não! O ponto chave que a Enfermagem deve buscar dentro do ‘cuidado’, é a questão da humanização, da sensibilização que sempre existiu na história da Enfermagem, a vida inteira. Só, que eu acho que esses itens foram esquecidos, ao longo dos anos, em busca de um profissionalismo na Enfermagem. Para que a Enfermagem seja aceita como profissão, eu acho que as pessoas começaram a se confundir. Eu acho! Começaram a ficar muito duras, dizendo: ‘eu tenho que fazer pacotes de material em dez minutos’, ‘tenho que fazer certos desempenhos administrativos em determinado tempo’; então essa coisa da humanização foi ficando de lado. E é justamente a ‘humanização’, que qualifica o
profissional de Enfermagem. Mas a Enfermagem perdeu um pouco esse valor. Então o ponto chave, para mim, na Enfermagem, é a questão da ‘humanização’: entender o ser humano, no ‘cuidar’. Quem lida com máquinas, não precisa disso; mas para quem lida com gente, é fundamental. A enfermeira tem que ser profissionalizante e humana ao mesmo tempo
(Talitha, pesquisa, PEIXOTO, 2000).
Apesar de não fazer parte de nosso tema, mas para entender melhor o
exposto pela nossa entrevistada, é bom comentar aqui um pouco dos esteriótipos da
profissão de Enfermagem.
A imagem que a sociedade construiu da Enfermagem, através dos séculos, é permeada de estereótipos que incluem figuras como: santas, prostitutas, feiticeiras, heroínas e que se relacionam à função de auxiliar do médico e à falta de vida social. Além disso, a imagem que a Enfermagem tem de seu trabalho é negativa47, ocasionando frustração pela falta de autonomia encontrada na realidade profissional48.
Conclui-se que os estereótipos da imagem influenciam negativamente sua prática e que, na história da Enfermagem, se encontram muitas das razões para as distorções existentes.
A profissão da Enfermagem evoluiu, assim como seu ensino; porém, a falta de identificação dos níveis profissionais de Enfermagem ocasiona frustração pela não valorização do cargo. A Enfermagem é identificada com uma formação matrilinear e a formação médica patrilinear. E, para distanciarem-se de suas origens religiosas, as enfermeiras procuraram especializar-se na tecnicidade, reforçando, dessa maneira, sua associação ao médico ou tentando desvencilhar-se de um estereótipo, acabando por aproximarem-se de outro, o que contribuiu para a confusão de seu papel e de sua imagem (NAUDERER, 2005:76).
47Imagem negativa, contribuindo para uma baixa auto-estima (NAUDERER, 2005:76).
48 Considera-se pequena a produção científica sobre o tema no país.” Uma vez que é de grande
Essas reflexões sugerem algumas questões: somos pessoas que repetem, em vez de pensar? Que recebem passivamente em vez de avaliar?
Acostuma-se com uma educação “bancária” em que, segundo Freire (1981:136), “o saber é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber.” Em outras palavras, é necessário evitar o aprendizado “xérox”, que é aquele que reproduz apenas o que ouviu.
Deixar de ser mais técnica. Temos dado muita ênfase à técnica, esquecendo a parte espiritual. Não só acolher os líderes religiosos que queiram dar assistência espiritual, mas procurar também, dar nós mesmas, essa
assistência. Enfermagem é profissão mas é amor também (Elke, pesquisa,
PEIXOTO:2000).
Precisam ser preparados os novos profissionais para darem, eles mesmos, esta assistência psicoespiritual aos clientes, sem precisar delegá-la a outros. Parece que, através dos tempos, para excluir uma formação que priorizava mais aspectos morais, enfermeiras pesquisadoras acabaram excluindo, também, certos valores religiosos de humanização que dão suporte à assistência psicoespiritual na Enfermagem.
Segundo Galiléu (1597,apud COELHO, 1995:149), a filosofia da natureza está sempre aberta diante de nossos olhos e, para compreendê-la, é necessário aprender a linguagem e os caracteres em que ela foi escrita. Com a visão dos cientistas para as propriedades quantificáveis da matéria, perderam-se os sentimentos e os valores espirituais humanos. Tornaram-se ciência e tecnologia antiecológicas. Recorrer a esses aspectos não quer dizer que a medicina e a Enfermagem tenham de ser menos científicas; ao contrário, podem tornar-se mais coerentes com as recentes conquistas da ciência moderna.
Professores para quê? Para auxiliar alguém devo estar mais bem informado que ele e, em primeiro lugar, ter a inteligência daquilo que ele compreende, sem que minha qualidade de mestre não lhe é de proveito. Todo auxiliar começa com humilhação; para prestar um serviço, devemos em primeiro lugar humilharmos diante daquele que queremos auxiliar. Isto é: ajudar é mostrar paciência, é aceitar
provisoriamente que não tem razão, é ser ignorante com inversão da hierarquia do ensino-chave de toda a pedagogia. Ser mestre é ser discípulo. É necessário, como afirma Freire (1983:136), “reinventar” e trazer à tona os valores adormecidos.
Pretende-se reavivar estes valores fundamentais na educação em Enfermagem, na assistência psicoespiritual ao ser humano, que parecem estar sendo menosprezados.
Temos o direito de mudar a consciência dos alunos?
O professor libertador nem manipula, nem lava as mãos da responsabilidade que tem com os alunos. Ensina sem imposições, mas com reflexões. A aula libertadora ilumina a realidade, desvenda a razão de ser, de qualquer objeto. “Não deixe que o medo do difícil paralise você”. Não permita que o medo facilmente o paralise e o persuada-o a desistir de enfrentar a situação desafiante, sem luta e sem esforço.
Na perspectiva libertadora, o professor tem o direito e o dever de contestar o
status quo em questões de dominação de sexo, raça ou classe. Dialogar! Este pertence
à natureza do ser humano, ser de comunicação (FREIRE, 1987:14). Entretanto necessita-se de equilíbrio pois às vezes, também se peca por excesso.
As propostas para solucionar os problemas atuais da Enfermagem estão nos próprios grupos comunitários. Como sugeriu a pesquisa de campo estas devem surgir do contexto social onde são vivenciados esses problemas. Mencionam-se aqui, algumas propostas dos docentes e discentes em nossa pesquisa de campo:
Tratar esse tema com urgência em todas as disciplinas, inclusive na prática; reciclar a Enfermagem com mesas redondas, seminários, palestras; aula magna; visar uma educação permanente; anotar no prontuário dos clientes a assistência dada; não só chamar os líderes religiosos, mas dar essa
assistência, também (Elke,pesquisa, PEIXOTO:2004.)
Entretanto, é oportuno lembrar-se da importância de se aproveitar experiências de grupos que trabalham esses aspectos, interagindo, portanto, com certas organizações religiosas que possuem experiências de assistência espiritual aos
enfermos. Destacamos, entre outras, a Pastoral da Saúde49, que é uma organização de grupos de pessoas voluntárias que, nas igrejas cristãs, se dedicam à assistência psicoespiritual às pessoas, visando à saúde integral das comunidades de fiéis, interagindo, assim, com a profissão de Enfermagem, contribuindo com suas experiências para essa assistência. Um dos grandes desafios da Pastoral da Saúde é abdicar de um Deus puro, que mora no coração, e descobrir o Deus desfigurado em cada cliente e/ou doente. Essa promoção da vida e da saúde é missão da Igreja e é o que caracteriza a profissão de Enfermagem. As instituições de saúde são procuradas pelas pessoas em busca de saúde física e também, necessitadas de presenças humanas que se solidarizem com elas em suas angústias. A doença é uma situação anormal na vida. Normalmente, o que o doente mais quer é ficar bom. O normal, portanto, é ter saúde. A doença deve ser combatida e a saúde procurada.
Para as pessoas de fé que já conseguiram caminhar numa abertura para o transcendental, a vida, em todos os tempos e lugares, só tem sentido em Deus, o Criador e Redentor do ser humano. Para os cristãos, Deus não só criou o ser humano, mas o vivifica, anima em todas as suas atividades. A fé na providência divina dá às pessoas a certeza de que o mundo é compreensível.
A visão da pessoa de fé no cotidiano da vida mostra seus valores, visualizados pela luz da Palavra revelada por Cristo; chama a atenção, tanto das pessoas quanto da sociedade, sobre o dever de preservar e promover esses valores50. O ser humano é animado por um espírito que possui e vivifica, intrinsecamente, seu próprio ser, exprimindo-se através dele. Não são duas realidades distintas, mas corpo e espírito numa única realidade: a pessoa.
49 Pastoral vem de pastoreio: “cuidar”, “zelar”. No cristianismo o “Bom Pastor, o Cristo dá a vida por suas
ovelhas [...] e as chama, a cada uma, pelo nome”. Como já se viu, o que caracteriza a profissão da Enfermagem é o “cuidar”. O enfermeiro faz parte daqueles e daquelas que lutam pela saúde integral das pessoas, por isso deve anunciar os valores da vida humana, visualizados pela luz das palavras de Cristo:
“Eu vim para que todos tenham vida” e chamar a atenção, tanto dos clientes, quanto da sociedade, sobre o
dever de preservar e promover esses valores.(PESSINI, 1987:71)
Deus criou o ser humano destinado à felicidade para ser bonito, saudável, alegre, feliz predestinado à vida eterna, sem passar pelo sofrimento e pela morte. Por desviar-se dos planos divinos, o ser humano entrou em caos, com toda a natureza que o cerca. Experimenta a dor, o sofrimento e a morte; e tem que lutar contra as forças do mal que desequilibram o cosmo. Necessário se faz ter sempre como meta de trabalho, a frase do Divino Mestre: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). O amor de Deus em nós é um fluir natural, um transbordar contínuo na vida da pessoa que tem fé. É o primeiro aspecto do fruto do Espírito (Gl 5,22).
Precisa-se entender melhor esse aspecto psicoespiritual, fala-se muito, mas não se aprofunda. Ver o que é básico na espiritualidade. Acho esses valores muito confusos para as alunas, o ‘como lidar com a espiritualidade do outro’. Na realidade não trabalhamos isso. É muito mais fácil prescrever e
identificar cuidados físicos (Miriam,pesquisa, PEIXOTO:2000).
O enfermeiro, em suas atividades técnicas, se faz profeta e sacerdote Profeta porque mostra, anuncia e leva ao cliente e/ou doente a Boa Nova da Salvação. Sacerdote porque ajuda o enfermo a elevar-se e a dar sentido aos problemas cotidianos, estabelecendo, assim, uma profunda relação enfermeiro/doente. Isto propicia uma descontração das pessoas e um ambiente familiar com restabelecimento do equilíbrio psicológico e espiritual.
Com arte e habilidade, o enfermeiro consegue abordar os aspectos espirituais, levando o cliente e/ou doente a abrir-se não só para Deus, mas, também, para o próximo, não separando religião da vida. Os valores humanos de solidariedade com o povo levam a assumir todas as implicações sociais e políticas da fé. Faz-se necessário segundo os cristãos que: tenha o Espírito de Deus, que renova e dá sentido a todas as coisas. Ter fé significa acreditar que, com a força de Deus-Pai, de Jesus Cristo e do Espírito Santo, pode-se mudar e transformar a humanidade para melhor. Promover a vida e a saúde é dever de todo cristão e de toda cristã, de todo enfermeiro que, além da assistência terapêutica aos doentes, deveria preocupar-se com as suas famílias. Lembrar sempre que o doente está ligado por laços afetivos aos familiares e às suas preocupações. Cabe ao enfermeiro humanizar o serviço, sabendo tirar proveito disto para a reabilitação e recuperação da saúde. O enfermeiro humano é aquele que ouve
e presta assistência segundo as necessidades imediatas que a pessoa requer. Precisa-se ser amigo e conselheiro, fazendo o tratamento ser mais de doentes do que de doenças.
O enfermeiro deve cuidar dos clientes e/ou doentes, combater a doença, restabelecer a saúde, lutar pela erradicação das causas naturais e sociais das enfermidades, ser um agente de transformação social. E ter, ao mesmo tempo, uma visão mais ampla, com dimensões no transcendental, revelando-o em suas atividades profissionais. Reconhecer e mostrar-lhe a beleza das coisas que nos cercam, sob todos os aspectos, em toda a sua profundidade reveladora da vida que começa aqui e está destinada à eternidade. Lembramos que a enfermeira é uma grande pedagoga que ensina através de sua voz e de todos os seus gestos no fazer e no cuidar. Ela presta assistência ao ser humano que é, ao mesmo tempo, seu cliente.