EDUCATIVO, INSTRUMENTO E DIREITO
“A educação dos séniores: uma tarefa prioritária”, este é o título que António Simões deu a um trabalho realizado no âmbito do Centro de Psicopedagogia da Universidade de Coimbra (Simões, 1999, pp. 7-27). Este autor defende que os séniores devem ser considerados um grupo prioritário sob o ponto de vista educativo pois as necessidades de educação deste grupo são cada vez mais acentuadas. Resulta deste facto a rápida evolução técnico-científica e, paralelamente, o baixo o número de séniores que acedem à educação. Uma sociedade que valoriza essencialmente o processo de
98 modernização e de inovação de base tecnológica, o saber dos séniores torna-se desactualizado. O investimento na formação das gerações futuras supera a oferta de formação aos séniores. Pode compreender-se que tal ocorra. Resultaria em benefício comum que as políticas educativas reforçassem as aprendizagens intergeracionais.
Centrar a reflexão em torno da alfabetização dos séniores implica, necessariamente, equacionar a questão da utilidade e função da mesma. A aprendizagem ao longo da vida, atendendo à maior longevidade permite a participação activa dos séniores. Constitui uma vantagem sócio-económica pois permite aumento da produtividade, diminuição de custos, a concretização de projectos e o aumento do seu bem-estar psicológico.
Na dimensão pessoal, o acesso à educação, para um sénior, pode assumir diversos significados. A relevância da educação para séniores pode abranger, segundo McClusky, referido por Stanford e Dolar (1978), cinco categorias:
“- Para adquirir capacidades que são requeridas para viver em sociedade como por exemplo de leitura, escrita ou utilização dos computadores;
- Para participar em actividades agradáveis como resposta às necessidades expressivas;
- Para participar em actividades de apoio ao próximo;
- Para se envolver em actividades que resultam na manutenção do controlo sobre o ambiente onde vivem;
- Para se envolver em actividades que resultam no desenvolvimento contínuo da própria pessoa” (Stanford & Dolar, 1978, p. 132).
A relevância das actividades educativas é para qualquer idade. Implica reconhecer que, os valores da aprendizagem e da valorização pessoal, constituem uma necessidade de todos. A todos se deverá ajustar, consoante as suas necessidades. Essa relevância é apresentada por diversos autores que a apresentam sob diferentes perspectivas que, se complementam.
“A educação dos séniores pode facilitar-lhes a compreensão das mudanças sociais e ser um mecanismo de ajuste a essas mudanças” (Peterson, 1978, p. 2). Os séniores reaprendem com a própria mudança e adquirem competências para fazer face à mesma.
99 A educação “é um dos meios para vencer os desafios impostos aos séniores e pela sociedade, proporcionando-lhes a aquisição de novos conhecimentos e oportunidades para buscar o seu bem-estar físico e emocional” (Santos & Sá, 2000, p. 93). A educação vista como oportunidade para atingir um envelhecimento activo e bem -sucedido.
A educação pode evitar, consideravelmente, o declínio intelectual resultante da passagem dos anos. A análise dos estudos sobre a evolução intelectual, ao longo da vida, refere “uma relação inversa entre o declínio físico e psicológico e a educação formal” (Simões, 1982, p. 81). A educação é vista como forma de prevenção garantindo uma maior qualidade de vida.
Para o sénior, estudar significa “que se pode modificar, recuperar oportunidades de diálogo, de participação social e cognitiva ao mesmo tempo que enriquece a sua rede de relações sociais” (Lima, 2000, p. 46). A educação surge, neste caso, como promotora da participação e das relações sociais.
O sénior pode procurar as actividades educativas para aprender a ler, escrever e utilizar esses conhecimentos para lidar com situações do quotidiano, mas a aprendizagem de técnicas de leitura e escrita não está necessariamente associado a questões pragmáticas. Tem a ver com a reconstrução da identidade que acrescenta auto confiança a auto-estima à vida dos séniores, para prosseguir o seu projecto de vida. Neste sentido a oportunidade da alfabetização pode ser, fundamentalmente, uma busca de ampliação cultural, social e educativa que implica um crescimento como pessoa, potenciando a sua capacidade de pensar, de agir e de lutar por objectivos e metas para a concretização do seu projecto de vida. De acreditar nas suas capacidades como pessoa valorizando a sua auto-estima, auto-imagem e autoconfiança fazendo desabrochar a sua autodeterminação e auto-realização.
Em Madrid, em Abril de 2002, no 2º Encontro Mundial das Nações Unidas sobre envelhecimento, o Programa de Envelhecimento ao longo da Vida proposto pela OMS pretendeu fomentar a discussão e a formulação de planos de acção que promovam um envelhecimento saudável e activo. As propostas apresentadas assentam em três pilares do envelhecimento activo: Saúde, Participação e Segurança. A importância da educação não é considerada de modo directo mas enquadrada sob a forma de “participação”. Este plano prevê facultar educação e oportunidades de aprendizagem durante o curso da vida para ajudar as pessoas a desenvolverem as habilidades,
100 competências e confiança de que necessitam para se adaptarem à nova situação do envelhecimento. A educação como instrumento de adaptabilidade à condição de sénior tem implícita a ideia não de preparar para a empregabilidade mas para prevenir a velhice como um estado decadente. De fora fica contudo uma concepção mais abrangente que reconheça ao sénior o seu estatuto de cidadão, em que a educação seja concebida como dimensão da própria vida e não como preparação para uma fase da mesma.
Para o indivíduo sénior que aprende, a educação e as aprendizagens que realiza podem constituir-se como um instrumento de combate ao declínio intelectual, físico e psicológico e de adaptação à sua condição de sénior sem que essa instrumentalidade negue o carácter mais amplo da função educativa alicerçada numa perspectiva de crescimento pessoal e de realização pessoal tendo em conta os seus desejos, interesses e utilidade no seu projecto de vida. Assim, não faz sentido, falar-se apenas nas funções educativas de prevenir o declínio das faculdades físicas ou mentais, mas de garantir a participação dos séniores em actividades, como um direito que lhes assiste como cidadãos.
“Obviamente que não está em causa o contributo que a educação pode trazer ou as necessidades que podem existir em matéria de recuperação ou manutenção dessas capacidades, o problema é em limitar e em pensar a educação dos séniores só nestes termos e não como um direito” (Veloso, 2004, p. 184).