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Dimensão Definição Indicadores Empíricos

Solidariedade associativa Padrões de interacção entre membros da família

- Frequência de contactos - Tipo de actividades comuns Solidariedade afectiva Grau de sentimentos positivos relativamente a membros da família - Afectos percebidos, proximidade - Avaliação de reciprocidade percebida Solidariedade consensual valores, atitudes e crenças Grau de concordância de

- Concordância intrafamiliar, medidas de

valores, etc. Solidariedade functional Grau de apoio, intercâmbio de recursos

- Frequência de oferta/recebimento de apoio - Graus de reciprocidade Solidariedade normative Força do empenho em papéis familiares, mais

obrigações - Grau de importância familiar - Graus de força de obrigação filial Solidariedade estrutural Estrutura de oportunidades para relações intergeracionais - Proximidade geográfica - Número de pessoas de família

QUADRO 4 – Modelo de Solidariedade Intergeracional (Bengtson & Roberts, 1991).

O interesse do conceito de Bengton e Roberts (1991) reside no facto de definirem a ideia com clareza para além de fornecerem orientações claras e directas sobre o modo como a situação deve ser investigada.

88 Além disso trata-se de um conceito abrangente, que faz referência às diferentes vertentes da solidariedade intergeracional.

De seguida, apresentam-se as seis dimensões em que se baseia o modelo da solidariedade intergeracional e que descrevem as relações entre avós e netos. Após a apresentação das dimensões do modelo de solidariedade intergeracional apresenta-se o modelo de solidariedade intergeracional adoptado no presente trabalho para análise das relações entre netos e avós.

1 – A solidariedade associativa é a primeira vertente, referindo-se aos padrões de interacção entre as pessoas (associação). Refere-se à frequência dos contactos e da partilha de actividades entre netos e avós. “As pessoas que se encontram ou que se falam umas com as outras com alguma frequência geram desse modo potencialidades para o desenvolvimento de laços mais estreitos” (Hoff, 2009, p. 255).

Exemplo: frequência do contacto entre duas pessoas – avós/netos - que se encontram e falam com alguma frequência geram, desse modo, potencialidades para o desenvolvimento de laços mais estreitos.

2 – A solidariedade afectiva, como o termo (afecto) indica, abrange o grau de sentimentos positivos para com a outra pessoa. Esse grau é avaliado através de classificações relativas à proximidade emocional, por exemplo. Envolve o grau de proximidade emocional entre avós e netos que, por vezes, pode depender da perspectiva geracional, isto é, as relações que os pais das crianças estabelecem com a geração dos avós.

3 – A solidariedade consensual refere-se ao grau de concordância em torno dos valores, atitudes e crenças partilhados pelos membros da família. Esta forma de solidariedade tem sido vista pelos teóricos sociais como sendo uma importante fonte de estabilidade na sociedade. Sendo os avós agentes de socialização, transmitem aos seus netos os valores e as normas da ordem social. “Os avós, em particular são considerados como administradores da cultura” vigiando contra a “deculturação” e descontinuidade geracional” (Stella, 2010, p. 40).

4 – A solidariedade funcional centra-se no valor das ajudas mutuamente prestadas: a frequência da prestação ou recepção de ajuda. “Os avós servem como factor de estabilidade e actuam como um recurso para os filhos e para os netos. Muitas das

89 vezes “estar lá simplesmente” é uma importante função que os avós assumem para os netos” (idem, p. 41).

5 – A solidariedade normativa é aparentemente semelhante à solidariedade consensual. Mas, contrariamente à terceira vertente, refere-se à intensidade do compromisso face às funções e obrigações na família, mais do que à concordância com certas normas e valores. Diz respeito às obrigações percepcionadas e às expectativas das conexões intergeracionais. O sentido do dever familiar entre os avós é evidenciado pelo aumento de número de avós que criam os netos devido aos problemas que os pais das crianças enfrentam. Os avós sentem-se responsáveis por disciplinar e aconselhar os netos mais jovens enquanto sentem responsabilidade por partilhar a sua sabedoria com os netos mais velhos. Reciprocamente, os avós também consideram que os netos têm obrigações para com eles. “Essas funções e obrigações incluem a intensidade da obrigação fiscal ou a importância da família” (Hoff, 2009, p. 255).

6 – A solidariedade estrutural é visível através de estruturas sociais como as redes sociais e refere-se às estruturas de oportunidade de solidariedade intergeracionais. Os exemplos de medidas de solidariedade estrutural incluem dados em rede típicos como o número de pessoas na rede familiar ou a proximidade ou a distância geográfica desses membros da família.

A solidariedade estrutural refere-se, ainda a, “factores que ampliam ou reduzem a oportunidade de interacção social entre netos e avós” (Stella, 2010, p. 40). As alterações na composição familiar e na estrutura do agregado poderão limitar ou aumentar as interacções entre netos e avós e influenciam indirectamente as relações entre ambos que podem ser afectadas pelo grau de proximidade geográfica que existe entre os avós e os pais das crianças. Esta última pode aumentar ou diminuir a probabilidade de se receber ou prestar apoio.

Ambos os exemplos têm implicações para as outras vertentes de solidariedade intergeracional. A existência de muitos membros na rede familiar, bem como a grande proximidade geográfica, por exemplo, aumentam a probabilidade de se receber ou prestar apoio.

O modo de solidariedade intergeracional de Bengton & Roberts (1991) tornou-se um conceito bem conhecido que é frequentemente usado no estudo das relações

90 interrelacionais. Como consequência, iremos adoptar este modelo, aplicando-o ao nosso estudo das relações entre avós e netos.

A solidariedade na família parece permanecer forte na nossa sociedade, não sendo necessário levar demasiado a sério a história em torno do fim da família e do alegado conflito intergeracional futuro, tal como apresentada nalguns meios de comunicação social. É certo que as relações intergeracionais nas famílias e nas sociedades irão mudar, não há motivos para pânico. Desta forma, a família continuará a prestar apoio mútuo e irá permanecer como a principal arena para as relações intergeracionais. O que poderá mudar é o modo de interacção das gerações.

“Mas uma intimidade harmoniosa entre avós e netos pode ser muitas vezes um tesouro incomparável, um benefício tanto para uns como para outros” (Tournier, 1981, p. 66).

Num projecto de investigação recentemente encomendado pela Help the Aged (Ajuda aos Idosos), uma das principais organizações de caridade nacionais para Idosos no Reino Unido, o Instituto para o envelhecimento de Oxford, estudou estratégias destinadas a evitar a exclusão social dos idosos na UE. Os dois objectivos essenciais do estudo eram avaliar as políticas de inclusão social nos Estados Membros da EU e identificar exemplos de boas práticas para o conseguir.

“Após o estudo acabei por concluir que a falta de laços familiares é o principal factor de risco, ou seja, se não se tiver família a viver por perto, o risco de exclusão social será maior” (Hoff, 2009, p. 258).

Deste modo, a perspectiva de sociedade de rápido envelhecimento leva-nos a reconsiderar os fundamentos da nossa sociedade, incluindo o modo como a responsabilidade social será partilhada entre a família, o estado e a economia.

Daí a importância de descobrir um espírito de solidariedade intergeracional entre avós e netos, não apenas na família, mas em todos os domínios da vida em sociedade onde as US poderão ter um papel de relevo. Exemplo disso será ajudando, a construir um papagaio ou um pequeno avião, ou ainda ensinando a organizar uma colecção de postais.

“Os avós podem muitas vezes compreender, melhor que os pais, os seus netos e dar-lhes o acolhimento de que precisam para se desenvolverem” (Tournier, 1981, p. 67).

91 Proporcionar às crianças e jovens ligações com os avós é útil para o seu desenvolvimento, estes contactos não pode ser substituído pelo contacto que tem com os pais, professores e outros adultos jovens. “Mas para os aposentados é muito mais importante ainda. É uma ocupação menos artificial que outras, é o exercício de uma função natural da qual estão privados, é uma verdadeira reintegração social, uma janela aberta nesta segregação progressiva que a organização actual da sociedade lhes impõe! Sim, todas as idades têm uma profunda necessidade umas das outras. O desenvolvimento de uma fica bloqueado se não se mantém vivo o contacto com todas. Os anciãos precisam tanto dos adolescentes como das crianças e precisam de se sentir amadas por uns e outros” (Tournier, 1981, p. 68).

O reconhecimento do valor dos séniores, da sua sabedoria, da sua experiência, do seu inestimável contributo para todas as gerações e das suas especificidades, terá efeitos benéficos diminuindo a exclusão social de que são vítimas.

As diferenças entre gerações resultam de diferentes valores, crenças e experiências que poderão tornar-se benéficos. Isto é, não deverão cavar o fosso entre gerações, mas somente acentuar a necessidade de aprendermos uns com os outros. Também os desafios escolares futuros serão cada vez mais de natureza intergeracional. Estas diferenças poderiam levar-nos a uma maior interacção entre gerações e a uma maior promoção da educação.

Uma comunidade de gerações pretende a compreensão da totalidade de vida. É baseada na assunção, que ainda separadas pelo tempo e pela experiência. Cada geração todavia tem uma aposta comum com outras gerações relativamente á totalidade da vida da qual faz parte. “A família continuará a prestar apoio mútuo e irá permanecer como a principal arena para as relações interrelacionais. O que poderá mudar é o modelo de interacção entre gerações”(Hoff, 2009, p. 257).

“Neste nosso mundo globalizado, é cada vez mais envelhecido e urbanizado, é necessário um esforço concertado para que possamos cultivar nas nossas sociedades uma cultura que promova a solidariedade entre os ricos e os pobres, entre o Norte e o Sul e entre o sector privado e o público. Mas acima de tudo, solidariedade entre os jovens e os idosos. Afinal como dizia Jorge Luís Borges, solidariedade é a doçura das sociedades” (Kalache, 2009, p. 227).

92 Deste modo, o projecto “Cidades Amigas dos Idosos” (2009) é uma forma de encontrarmos para traduzir na prática, o marco político do envelhecimento activo e cultivar a solidariedade entre todos os grupos etários. “Quem é amigo do Idoso é também amigo da criança, do adolescente, dos adultos mais jovens, das pessoas incapacitadas. É solidário com e entre todos. Mas as US têm um papel essencial a desempenhar numa sociedade integradora das diferentes gerações.

Existe, também, oportunidades reais para uma sociedade madura: populações activas flexíveis, com integração etária, integração intergeracional, igualdade entre faixas etárias e sociedades politicamente estáveis e com integração etária que são potenciais benefícios desta demografia global (Harper, 2009, p. 100).

CAPÍTULO 4

4. ALFABETIZAÇÃO DE SÉNIORES