Inicialmente, temos entendido que os professores apresentam um maior ou um menor grau de crítica, alinhados com a perspectiva ideológica e visão de sociedade que trazem consigo. Todos os nossos colaboradores fazem exames e análise de sua rotina e espaço de trabalho, apresentando conceitos e caminhos que pensam ser certos, errados, ideais para a realidade das comunidades com que trabalham. Entretanto, atribuir à palavra “crítico” a este sentido identificado se dá por uma razão principal: o professor declara estar próximo da perspectiva marxista, e que seu trabalho é pautado na perspectiva histórico-crítico23.
Poderíamos colocar esse sentido junto ao sentido Insurgente, que, em nosso ponto de vista não convém por três questões que nos parecem importantes pelo fato de conceito e uso de palavras necessitarem sempre de atenção, quando falamos de campos de disputa política, como é o espaço da educação: primeiro, o estágio de idealização de projeto de escola, subsidiado na própria fala do professor. Segundo, a apropriação do materialismo histórico dialético e da teoria marxista, na utilização de conceitos, ideias e orientações para o sentido político da escola, que vamos perceber a necessidade de ampliar elementos constitutivos, e os quais falaremos mais adiante.
E terceiro pela utilização do termo “cidadão” e “cidadania” que nascem e são usuais ao liberalismo e neoliberalismo, embora já existam conceituações que o aloquem numa perspectiva crítica. Sobre o uso do termo cidadania, entendemos que a aproximação e apropriação das teorias socialistas poderão ir suprimindo o uso do termo cidadania por sujeitos, trabalhador e filho da classe trabalhadora. O que vamos perceber é que no processo
do conhecimento intelectual. Rompe com as ambiguidades estabelecidas entre a arte e a ciência, o corpo e a mente, o trabalho manual e o intelectual, a objetividade e a subjetividade. A escola única assume funções educativas para a cultura geral, de caráter humanista, formativo e técnico, como razões essenciais para desenvolver o conhecimento intelectual para a “classe em si”. A educação escolar assume em sua essência pedagógica, a relação entre os fenômenos atuais, como base para desenvolver o conhecimento humano (GRAMSCI, 2006; PISTRAK, 2008).
23 Entendemos como “crítica” o movimento em fazer um estudo teórico de diversos conceitos estabelecidos em
autores, que realizam um trabalho filosófico e científico, entre o pensamento construído pelos homens, historicamente. A crítica se estabelece como uma atividade teórica, com a tarefa de traduzir as interpretações da história e da realidade da sociedade, em formas de ideias e de conceitos. Marx é nosso aporte para partir de um princípio de crítica, por estabelecer a relação entre subjetividade e objetividade. A partir de seus estudos, percebemos que o conceito de crítica faz uma relação concreta entre o sentido epistemológico e o sentido ontológico, da constituição da sociedade. Desta forma, estabelecer contraposições a outras teorias não se faz suficiente, mas necessário desvendar a lógica de como os fenômenos acontecem.
histórico, a cidadania sempre foi utilizada para conceituar homens de bem com direitos estabelecidos na convivência social, nas cidades gregas (BRANDÃO, 2007). Cidadão era todo homem livre, que marginalizava o acesso aos direitos de decisão democrática, na sociedade, escravos, estrangeiros e mulheres. Esse conceito se mantém ao longo da história, excluindo homens livres, que, no entanto, não pertenciam as classes hegemônicas, que detinham, de alguma forma, poderes comunitários ou sociais.
Ao passo que após Revolução Industrial, com interesse no homem consumidor, homens deixam de ser escravos, e se constitui uma classe trabalhadora. Aos poucos, mulheres e ex-escravos, homens que não tiveram oportunidades de acesso ao estudo, foram obtendo direitos do cidadão-livre. Nesses termos, no liberalismo24 trazemos que
a questão da cidadania aparece associada à noção dos direitos. Trata-se dos direitos naturais e imprescritíveis do homem [...], e dos direitos da nação. A Declaração dos Direitos do Homem de 1789 afirma a propriedade como direito supremo. E quem era o proprietário? Era o cidadão. E quem era o cidadão? Era o homem suficientemente esclarecido para escolher seus representantes. [...] Os direitos sociais não são conquistados. São outorgados pelo Estado. Neste processo, onde a educação tem destaque, a prática pedagógica enfatiza as estratégias de persuasão, esclarecimento e moralização de cada futuro (GOHN, 2009, p. 11 e 14).
Nas concepções liberais, percebemos que o bem material é concebido como forma de poder. Sob as influências das mudanças sociais após revolução industrial e em concomitância aos avanços tecnológicos, as práticas de governança social percebem que o que leva a humanidade a adquirir propriedades e influencias, é o conhecimento. O homem educado, civilizado, é o que passa a ser requisito para obtenção de poder. As concepções de declaração cidadã sofrem alterações na sociedade, mas deixa por herança a influencia sobre a maneira de participação cidadã conscientizada. Chegamos ao neoliberalismo comunitarista25, em que apreendemos a cidadania
pensada como retorno à ideia de comunidade em contraposição à sociedade urbano- industrial burocratizada. [...] O cidadão é o homem civilizado, participante de uma comunidade de interesses, solidário com seus pares. [...] cidadão civilizado seria justamente o que teria superado os estágios iniciais de convivência grupal, da
24 Tendo John Locke (1632-1704) como um de seus precursores, o liberalismo se fundamenta na relação entre
teoria do conhecimento com a teoria do comportamento. É considerado como um movimento moderno (tendo esta, seu início datado a partir de 1500), por caracterizar a derrubada do pragmatismo grego (sistema de organização social aristocrática) e fundada nos interesses políticos da modernidade. O liberalismo ainda pode ser visto de várias óticas. O liberalismo clássico assume a liberdade e o individualismo para justificar as relações de trabalho e de mercado, da propriedade privada e acúmulo de bens, demarcando, assim, os direitos sociais. SANTOS, (1999).
25 Termo utilizado pela Gohn (2009) e adotada neste trabalho, por entender que o neoliberalismo passa a imagem
barbárie, para estágios avançados, modernos, de convivência harmoniosa na sociedade urbanizada (GOHN, 2009, p. 15).
Embora o neoliberalismo não deixe explícito que o cidadão é o proprietário de bens, implícita que apenas os que adquirem uma cultura que não se resume apenas ao domínio da leitura e da escrita, mas de teorias, é cidadão formado, desrespeitando as diferenças culturais e saberes próprios de cada classe social e etnias. Esse cidadão, logo, é quem provavelmente alcançará melhor status na sociedade, se tornando proprietário de bens materiais e imóveis. O conhecimento, adquirido pela educação é um bem público, mas para poucos. Por quê? Porque, nos conceitos herdados do liberalismo clássico. Historicamente, o uso da cidadania não favorece os sujeitos pertencentes a classe trabalhadora.
Nosso colaborador é professor de educação física, em seu segundo ano de atuação, e atualmente, está trabalhando em Escola Classe, que atende crianças do ensino fundamental I. Na fala desse professor, há uma defesa de uma perspectiva de escola, mas com um embasamento, formas de organização da estrutura e do currículo, funções, entre outros elementos, mostrando que MEDF-24 ainda está na fase de construção de um projeto de escola, e, o que mais nos chama atenção: buscando conceber um projeto de escola. Esse ponto é essencial para perceber uma diferença demonstrada na entonação da conversa, comparando as professoras FPED-23 e FEDF-22 (professoras localizadas no sentido Construtivista) e da professora FBIO-23 (localizada no sentido Reflexivo), que também não tem um projeto de escola definido, mas em processo de construção, em diferentes perspectivas.
No entanto, MEDF-24 apresenta, ainda, uma visão voltada para a prática curricular, voltada para a disciplina com que ele trabalha. Tanto que ao apresentar elementos para um projeto de escola, ele se refere a uma “educação física voltada para a classe oprimida pros interesses dessa comunidade”. São elementos que cabem a um projeto de escola, quando percebemos a totalidade a que se submerge: ter uma escola que trabalhe em função da classe trabalhadora, no sentido de empoderar essa classe. Entretanto, entendemos que esses elementos ainda não se constituem como função e objetivos para toda a escola, ao se referir ao seu trabalho pontual.
o projeto de escola que a gente pensa numa Educação Física uma educação que atenda essas necessidades problematize essas questões num objetivo de superá-los […] o projeto de escola que a gente pensa numa Educação Física uma educação que atenda essas necessidades problematize essas questões num objetivo de superá- los […] didática uma metodologia que atenda essas necessidades e que promova essas discussões (Prof. MEDF-24, Entrevista, 2015).
Nessa linha de raciocínio, entendemos que a limitação dessa visão, além de possíveis lacunas apresentadas pela formação inicial, pode também ser resultado de um não trabalho coletivo entre professores, e das próprias condições de trabalho. Fenômenos, os quais, falaremos mais adiante. Aqui nos interessa entender o sentido político da escola para este docente.
A partir desse sentido apresentado por MEDF-24, a perspectiva histórica crítica vai orientando a defesa para uma escola democrática e transformadora, na qual esse professor- colaborador acredita, mostrando-se a necessidade de problematizar e superar as necessidades apresentadas. Algumas dessas necessidades são apresentadas por MEDF-24: ele problematiza a restrição e o processo de mercantilização do esporte, da cultura e do lazer para a comunidade em que a escola atua, trazendo uma realidade de violência a ser superada, e na qual, o seu trabalho como professor da educação física é refletir sobre esses fenômenos, provocar a crítica nos alunos, e a partir daí apresentar um universo o qual essas crianças têm direito.
projeto alinhado a perspectiva da história crítica […] transformar essa realidade a partir da própria cultura levando em consideração o que essas populações têm e o que ela precisa e os conhecimentos historicamente acumulados […] transcender essas barreiras sociais e transformar essa realidade em torno dessa luta contra a elite (Prof. MEDF-24, Entrevista, 2015).
O sentido de uma crítica para uma democratização do ensino aparece de forma preocupada e comprometida, e o que entendemos ser uma perspectiva por parte desse professor, em construir caminhos para superar essa realidade. Caminhos que ainda não estão apresentados e nem projetados, mas em processo de construção. Assim, percebemos que para MEDF-24, a escola assume a função de instrumentalizar o sujeito para uma transformação social, na perspectiva de construção de outra sociedade.
Posto esse papel, ao ser indagado sobre as formas de luta por um projeto de escola em que acredite, MEDF-24 vai trazendo elementos ainda enraizados nos processo pedagógico e metodológico da sala de aula, reforçado a importância em refletir sobre a prática profissional, de modo que o conteúdo faça sentido e instrumentalize o aluno, numa perspectiva de provocar o debate e levar os sujeitos a permutarem do senso comum à consciência filosófica (SAVIANI, 2000). Ao mesmo passo que vai se esforçando para fazer uma relação com a formação continuada, remetendo a importância desse espaço. Uma pedagogia transformadora não atua apenas no nível da ideologia e da teoria. Visa a formação de grupos políticos preocupados em defender a qualidade das relações sociais e humanas que
se estabelecem na escola que também definem a qualidade do que é ensinado (GADOTTI, 1988).
A partir do que a gente tem… uma educação continuada […] consideração o que essas populações têm e o que ela precisa e os conhecimentos historicamente acumulados […] conteúdo seja realmente que a gente tenta construir e desenvolver com os alunos… faça sentido… que instrumentalize… para que ele possa usar isso de alguma forma (Prof. MEDF-24, Entrevista, 2015).
No entanto, essa perspectiva da formação continuada nos aparece também com o reforço centralizado na prática curricular e o ensino de conteúdos. É importante reforçarmos a ideia de que a prática pedagógica é, talvez o mais importante campo da atuação de um projeto de escola. Mas não basta pensar na relação dentro da sala de aula, com o saber científico e as formas de aprendizado. A metodologia de ensino é consequência da teoria, da práxis, e do sentido político construtores de um projeto de escola, que envolva o pensar sobre elementos como o saber científico, mas também como espaços de decisões e organização, e da própria relação entre escola e comunidade, escola e sociedade, escola e estado, escola e profissionais da educação.
Conforme temos defendido nesse trabalho, o sentido político atribuído a um projeto de escola que se defende tem relações diretas com o campo da formação e da ideologia com a qual se identifica. O que os resultados tem nos mostrado é que quanto mais diversificada a formação dos sujeitos, numa realidade que permita os docentes em formação fazerem relações entre os diferentes espaços de formação, para o campo das competências éticas, políticas, pedagógicas e estéticas, compondo a profissionalidade do professor, e quanto maior a apropriação de uma teoria e ideal ideológico, maior é a clareza com que os sujeitos apresentam um projeto de educação, com significados e sentidos constituídos concretamente.
Tomamos o cuidado de não afirmar que o professor deva sair de sua formação inicial com um projeto de escola a ser defendido. Mas sim, de que a formação inicial possui elementos importantes que permitirão esses professores, no campo das condições de trabalho e do embate ideológico, se orientar nessa fase de início de carreira. O que percebemos até aqui, e discorremos a partir do que MEDF-24 nos apresenta, é que, ter a orientação desse sentido político de um projeto de escola, permite facilitar as metodologias e a organização do ensino, com um objetivo do que se faz com esse ensino. Mas que apenas isso não é suficiente: para a aprendizagem dos sujeitos atendidos pela escola, e dos próprios profissionais da educação, tudo é pedagógico, e tudo constitui a formação, e é político, situado em relações hegemônicas.
A partir das reflexões levantadas até aqui, nos debruçamos sobre a formação inicial de MEDF-24, que problematiza a perspectiva de sua graduação, que não oferecia elementos para a perspectiva de um olhar crítico. No entanto, o contato com essa linha político- pedagógico acontece com outros sujeitos externos à instituição em que estudou, em um projeto de extensão, e pelo estudo que teve que realizar para a prova do concurso público da SEDF, pelo qual ele ingressa.
graduação foi numa instituição privada ela não tinha esse olhar crítico … viés muito higienista da Educação Física […] assim durante os estágios que eu fiz … contato com outras pessoas que me influenciaram … mostraram obras eu comecei por “Pedagogia do Oprimido” […] Na minha graduação fui voluntário durante dois anos num projeto de natação de alunos especiais … um projeto de extensão junto a Secretaria de Educação … contato com esse olhar critico com o professor da SEDF que atuava no projeto […] estudando pro concurso … contato com “Escola e Democracia” do Saviani … “Coletivo de Autores da Educação Física” que é uma obra marxista (Prof. MEDF-24, Entrevista, 2015).
O professor MEDF-24 nos relata que a partir da identificação com a teoria marxista, tem buscado aproximações com uma teoria crítica, e, depois de formado, e em atuação profissional, tem buscado apoio e estudo em grupos ligados ao marxismo e a educação, junto à universidade pública. Esse fator nos revela a importância dada a continuidade do estudo que tem sido dada aos professores iniciantes participantes dessa pesquisa. Cabe a nós refletir a perspectiva com a qual se busca essa formação e estudo continuado, e que defendemos a ideia de que não basta ser para atender prontamente a técnica do fazer pedagógico, mas também do saber político e pedagógico (SAVIANI, 2012; RIOS, 2010).
O professor assume a influencia do marxismo, mas não assume ainda estar imerso na teoria, dizendo que ainda não se assume como tal. Uma questão que no aparece neste ponto da conversa, é que MEDF-24 encara o marxismo como uma ideologia, nos permitindo perceber lacunas na formação política sobre o que é a ideologia, e o que são campos teóricos que embasam uma ideologia.