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7. Results and Discussion

7.4 Viscosity measurements

do reconhecimento de tendências, padrões ou distinções em uma amostra comparada que busca, acima de tudo, a caracterização do fenômeno.

3.1 CONCEITOS

A pesquisa tem por objetivo estudar as relações espaciais intrínsecas do sistema espacial da favela, partindo de uma perspectiva configuracional e de uma abordagem comparativa. Buscam- se padrões espaciais que se mostrem recorrentes na conformação destes sistemas que sejam apontados como potenciais produtores de urbanidade.

Conforme explorado no capítulo anterior, a favela é aqui reconhecida como um sistema urbano complexo cuja dinâmica espacial assenta-se em comportamentos de auto-organização e espontaneidade que permitem que, de simples ações localizadas, surjam regras que organizam a fração urbana como um todo. Os processos podem ser lidos na maneira como os elementos construídos se arranjam no espaço.

O arranjo entre partes é passível de ser lido por meio da perspectiva configuracional, ao permitir a compreensão de como as relações atuam para definir determinadas dinâmicas na cidade ou suas frações. O olhar vincula-se à visão sistêmica, como modo de observar os fenômenos partindo da totalidade para entender as partes constituintes, pois estas individualmente analisadas não representam as propriedades que se reconhecem no todo, por se desprezarem os elementos de ligação. Estuda-se então a favela a partir das relações forma-espaço que a constituem, por se acreditar que é também na maneira como estas se organizam que seu desempenho como um todo se concretiza.

3.1.1 COMPLEXIDADE URBANA: AUTO-ORGANIZAÇÃO COMO PROPRIEDADE

ESPACIAL

O tecido urbano orgânico é uma extensão da biologia humana, enquanto a construção planejada é uma visão artificial do mundo imposta pela mente humana sobre a natureza. O primeiro é cheio de vida, mas pode ser pobre e insalubre, enquanto o último é limpo e eficiente, mas estéril (SALINGAROS, 2006 p.12).

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A visão de Nikos Salingaros descrita na citação acima parece ir ao encontro do pensamento científico a respeito dos fenômenos complexos, onde conceitos como sistema dinâmico passam a emergir de maneira a representar a cidade em si. Um sistema dinâmico é aquele em que os seus agentes interagem cooperativamente além de se destinarem a cumprir as suas tarefas individuais (BRAGA, 2006) – negociam entre si ao mesmo tempo que se propõem a cumprir as suas tarefas individuais.

Numa escala global, isso significa a emergência de leis gerais de organização que fortemente se identificam como padrões (BRAGA, 2006; GUERREIRO, 2010): espaciais no caso das cidades, naturais no caso dos organismos. Salingaros entende, então, que a dinâmica existente na cidade orgânica inexiste naquela planejada, pela falta de uma interação mais profunda dos agentes envolvidos, ou devido a sua total ausência. No entanto, os estudos urbanos permitem caracterizar de modo geral a cidade como uma entidade complexa desenvolvida ao longo do tempo por diversos agentes atuantes.

Aparentemente a cidade aponta uma tendência comum de desenvolvimento e crescimento, como se fosse possível assumir a existência de um metabolismo específico da questão urbana que rege o comportamento das cidades (BETTENCOURT et al., 2007; BETTENCOURT, 2013; BRELSFORD et al., 2015). O trabalho de pesquisadores do Instituto de Santa Fé, Luís Bettencourt, Jeoffrey West, Christa Brelsford, entre outros, vem mostrando que devido a sua estrutura complexa global, a cidade revela propriedades comuns em seu desenvolvimento tais como uma economia de infraestrutura proporcional ao seu crescimento demográfico, ou uma maior proporção de empregos, criatividade, grandes empresas, bem como criminalidade mediante crescimento urbano (BETTENCOURT, 2013). Cidades tendem a intensificar oportunidades (em vários sentidos) e a otimizar sua infraestrutura de acordo com seu crescimento.

Do ponto de vista espacial, cidades também são observadas como estruturas geométricas complexas e, frequentemente relacionadas ao estudo da geometria fractal, entidades complexas que expressam qualidades comuns e semelhantes às redes estruturantes dos espaços urbanos e que se demonstram mais efetivas que as redes simplistas desenhadas em projetos urbanísticos a partir dos princípios geométricos euclidianos (BATTY; LONGLEY, 1994). Segundo Batty e Longley, autores do livro “Fractal Cities” (1994), a cidade é um elemento fractal e apresenta, em seu crescimento, provas de que a variedade de ações que a conformam tendem a revelar esse comportamento em uma ou outra escala.

Seguindo o sentido do argumento inicial apresentado neste capítulo, aquele de Salingaros que se refere à forma não planejada como uma forma de sucesso (SALINGAROS, 1998), é de notar

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que abordagens tão distintas caminhem para um entendimento comum: a ordem que rege de modo natural ou espontâneo as estruturas urbanas não é uma ordem pura, euclidiana ou explícita, mas uma ordem complexa expressa a partir de outro tipo de regras ou regularidades (BATTY e LONGLEY, 1994; BETTENCOURT et al., 2013; JIANG, 2009; HILLIER e HANSON, 1984; HILLIER, 2016; SALINGAROS, 1998; entre vários outros) tais como autossemelhança, as leis de escala, entre outras. Este argumento importa para a pesquisa no sentido em que não se pretende discutir uma dualidade em termos de modos de planejamento, mas uma tendência geral para o desenvolvimento urbano espontâneo. Não é intenção falar de cidade planejada versus cidade espontânea, mas de espectros ou escalas de ação diferenciadas. Discutir favelas enquanto entidades auto-organizadas implica abordar espaços cuja gênese pressupõe ações descentralizadas desde o primeiro momento.

Para as cidades em geral, acredita-se que abordamos auto-organização em momentos distintos. Batty e Longley ilustram com exemplos como a cidade de Nova Iorque, cuja ilha de Manhathan é configurada como uma grelha, embora o crescimento e a mancha urbana total pouco apresentam dessa geometria imposta. Como é possível observar na figura 3.2, diferentes tipos de cidades revelam diferentes tipos de padrões espaciais. Entretanto, o que parece ser comum é o fato de que, em algum momento, o desenvolvimento urbano tende para a geometria complexa ou fractal, apesar do grau de planejamento que possa estar implícito.

Em todo o caso, não se pretende discutir a capacidade de auto-organização na cidade em si, apenas reforçar que a literatura demonstra que o crescimento atual urbano se prende claramente a esse tipo de comportamento. Aborda-se não a favela apenas como modelo, de certo modo, oposto ao planejado, mas enquanto um fenômeno espacial caracterizado pelo mesmo tipo de comportamento que se encontra na cidade como um todo, desde sempre (ALEXANDER, 1967; SALINGAROS, 1998; BATTY e LONGLEY, 1994). Esta se caracteriza como um sistema espacial complexo desde sua escala local e isso, acredita-se, pode ser uma feição relevante no entendimento de sua espacialidade.

Segundo Scott Page (2011), a complexidade dos sistemas se basea em quatro principais características: diversidade; conectividade; interdependência e adaptação. Tais sistemas são imprevisíveis, ao contrário de sistemas que apesar de complicados, não são complexos. O autor traz o exemplo de um relógio: por muito que seja um objeto complicado, com muitos detalhes e componentes, ele é previsível, conhecendo seus componentes é possível saber seu comportamento. Já um sistema complexo é imprevisível, não se conhece seu resultado previamente, nem se consegue prever de forma eficiente seu comportamento.

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Em um sistema complexo a imprevisibilidade torna-se uma característica essencial o que, para o planejamento urbano, parece algo indesejado, mas que se relaciona intimamente com a capacidade de auto-organização do mesmo. Scott Page define a importância da auto- organização (2011) a partir da distinção entre a micro e a macroescala do sistema: agentes na microescala não detêm as propriedades que na macroescala o sistema irá adquirir, e isso se percebe em exemplos tão variados como cérebros – o neurônio não tem memória, mas o cérebro em si produz essa característica – ou cidades orgânicas – cada agente constrói sua casa, pensando apenas no seu espaço e na negociação do espaço público com os vizinhos, mas na macroescala surge a hierarquia viária e a rede de espaços livres na cidade, produto que se torna bem mais do que a simples soma das ações, desenvolvido a partir da auto-organização. Acontece que a favela é tendencialmente vista como desorganizada ou sem ordem, mas aparenta ter, à luz da complexidade e devido ao seu traçado orgânico, uma ordem implícita ou uma geometria subentendida – hidden geometry – (HILLIER, 1999 apud JIANG, 2009), assim como também o sistema complexo maior que a abarca, a cidade. Existem alguns estudos que enquadram a favela nesse contexto da cidade enquanto sistema complexo, como os de Sobreira (2003), Karimi e Parham (2012) e Parham (2012) que observam a sua complexidade a partir da decodificação das regras espaciais internas ou configuracionais, dentro do contexto urbano. Salingaros (2005; 2006; 2010) discute a complexidade urbanística da favela e seu sucesso configuracional em oposição aos planos idealísticos que podem ou não ter efeitos positivos no espaço. Holanda analisa também o elevado potencial de urbanidade nos espaços informais da cidade, em Brasília (2002). Ainda assim, a leitura sistêmica do espaço, do ponto de vista configuracional e de sua complexidade, parece ser uma abordagem timidamente explorada no âmbito da informalidade urbana, tendo em conta seu amplo espectro em outros contextos urbanos (HILLIER e HANSON, 1984; BATTY, 1994; JIANG, 2009; SALINGAROS, 2010; GUERREIRO, 2010; PORTUGALI, 2012; LIU e JIANG, 2012).

A favela precisa ser analisada mediante as características inerentes à complexidade, uma vez que a literatura explorada corrobora com a premissa de que espaço urbano é uma entidade complexa, e, naturalmente, a favela também. Não se busca, então, uma comprovação de sua complexidade, mas uma forma de leitura, através dela, que demonstre as características configuracionais responsáveis por isso. Aparentemente, sua gênese é adaptativa – seus agentes se utilizam das condições existentes e dos recursos disponíveis para se desenvolverem, adaptando-se a condições externas, como as restrições causadas pela cidade oficial, e internas, ao negociar espaço e ações com seus pares.

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Esta parece explorar as propriedades da conexão e interdependência, uma vez que cada espaço construído é produzido em consonância com os demais (relação casa/rua em oposição à relação casa/muro/rua em loteamentos ilegais), suas partes são estruturadas e interligadas em consequência das características físicas, o que garante que cada alteração numa parte irá impactar no acesso a várias outras, assim como na qualidade global dos percursos.

O mesmo parece acontecer no âmbito das relações de trocas de serviços ou bens. A diversidade é característica inerente à favela, pois suas condições iniciais apontam para uma necessidade a ser respondida, a produção do habitat, e suas ações e atividades levam a uma diversidade de usos, de produções de renda e mesmo de espaços construídos tão rica que se entende aquela como uma cidade em si, e não como uma parte aparentemente desvinculada e desestruturada da cidade que a engloba. A adaptação a uma condição inicial desprovida de acesso aos direitos básicos leva à emergência dessa diversidade que faz dela um espaço vivo e dinâmico. A ordem identifica-se aparentemente na repetição de um modo de formalizar o espaço que é comum a inúmeras favelas ao redor do mundo, e seu comportamento tende a ser continuamente semelhante.

O planejamento orgânico não começa com uma finalidade preconcebida: move-se de necessidade a necessidade, de oportunidade a oportunidade, numa série de adaptações que se tornam, elas próprias, cada vez mais coerentes e cheias de propósitos, de tal forma que geram um plano complexo final, dificilmente menos unificado que um modelo geométrico pré-formado. (MUMFORD,1998, p. 329).

Preposições como a citação acima devem ser confrontadas com a realidade espacial e esses fenômenos devem ser explorados de modo a sistematizar um conhecimento que se faz urgente ao campo disciplinar da arquitetura – entender a complexidade urbana de modo a informar os processos projetuais de desenho urbano. Vasto é o leque de trabalhos já desenvolvidos nesse sentido, mediante diferentes abordagens, com o proposito comum de entender a complexidade e a universalidade que parece estruturar o espaço físico urbano (ALEXANDER et al, 1977; 2002; SALINGAROS, 1998; JACOBS, 1992; JIANG, 2009; PORTUGALI, 2000; HILLIER e HANSON, 1984; entre vários outros).

O entendimento claro de que o espaço compreende uma realidade complexa, tanto do ponto de vista de sua realidade física como social é, por exemplo, um aspecto estruturante da chamada Teoria da Lógica Social do Espaço ou Sintaxe Espacial (HILLIER; HANSON, 1984), a ser adotada para observar, comparar e analisar o espaço espontâneo da favela.

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